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domingo, 29 de novembro de 2009

O QUADRO: COLUNA VERTEBRAL DA REVOLUÇÃO



, por Comandante Ernesto CHE Guevara De La Serna

Seria desnecessário insistir nas características de nossa Revolução, na forma original, com alguns lances de espontaneidade, com que se produziu a passagem de uma revolução nacional de libertação para uma revolução socialista e na acumulação das etapas vividas a toda pressa no decorrer deste desenvolvimento, que foi dirigido pelos mesmos personagens da epopéia inicial de Moncada, passando pelo Granma e terminando na declaração do caráter socialista da Revolução cubana. Novos simpatizantes, quadros, organizações foram se somando à débil estrutura orgânica do movimento inicial, até se constituir no aluvião do povo que caracteriza nossa Revolução.

Quando se tornou patente que em Cuba uma nova classe social tomava definitivamente o poder, surgiram também as grandes limitações que se teria no exercício do poder estatal, devido às condições em que se encontrava o Estado, sem quadros para desenvolver o estado, sem quadros para desenvolver as tarefas que deviam se desempenhadas no aparelho estatal, na organização política e em toda a frente econômica.

No momento seguinte à tomada do poder, os cargos burocráticos foram designados “a dedo”; não houve maiores problemas, não os houve porque ainda não estava rompida a velha estrutura. O aparelho funcionava no seu ritmo lento e cansado de coisa velha e quase sem vida, mas tinha uma organização e nela a condição suficiente para se manter por inércia, não se importando com as mudanças políticas que ocorriam como prelúdios de mudança na estrutura econômica.

A 16 de abril de 1961, durante os funerais das vítimas do bombardeio do dia anterior dos aeroportos de Santiago de Cuba, San Antonio de los Banos e Ciudad Libertad, efetuado como preparação da invasão mercenária da Baía dos Porcos, Fidel Castro pronunciou a primeira confirmação oficial do caráter socialista que fora adquirindo nos fatos a Revolução Cubana: “ … o que não podem perdoar- nos é que estejamos aqui, sob seu nariz, e que tenhamos feito uma Revolução Socialista sob o nariz dos Estados Unidos!”

Em meados de 1960 se produzia entre Washington e Havana uma verdadeira escalada que radicalizava cada vez mais profunda e irreversivelmente a Revolução. As principais consequências desta situação foram as seguintes: rejeição da parte das empresas Esso, Texaco, e Shell de refinar o petróleo bruto soviético que Cuba tinha começado a importar (6 de junho); desapropriação destas companhias da parte do governo revolucionário (29 de junho de 1º de julho); redução da parte de Washington da quota de açúcar cubano no mercado norte-americano (6 de julho); suspensão total da quota; nacionalização das grandes companhias norte-americanas que operavam em Cuba (6 de agosto); mobilização da OEA contra Cuba (29 de agosto); desapropriação dos bancos norte-americanos (17 de setembro); nacionalização do resto dos interesses norte-americanos em Cuba (13 de outubro); aplicação da parte dos Estados Unidos um embargo sobre numerosos produtos de exportação para Cuba (19 de outubro).

O movimento 26 de julho, profundamente abalado pelas, lutas internas entre suas alas esquerda e direita, não podia se dedicar a tarefas construtivas; e o Partido socialista Popular*, pelo fato de suportar duros golpes e a ilegalidade durante anos, não pode desenvolver quadros intermediários para enfrentar as novas necessidades que se avizinhavam.

Quando ocorreram as primeiras intervenções estatais na economia, a tarefa de formar quadros não era muito complicada e podia-se escolher entre muita gente que tinha alguma base mínima para desempenhar o cargo de direção. Mas, com o aceleramento do processo, ocorrido a partir da nacionalização das empresas norte-americanas e, posteriormente, das grandes empresas cubanas, aconteceu uma verdadeira fome de técnicos administrativos. Sente-se, por outro lado, uma necessidade de técnicos na produção, devido ao exôdo de muitos deles, atraídos por melhores posições, oferecidas pelas companhias imperialistas em outros lugares da América ou mesmo nos Estados Unidos, de modo que o aparelho político deve se submeter a um intenso esforço, em meio às tarefas de estruturação, para dar atenção ideológica, a uma massa que entra em contato com a Revolução, cheia de vontade de aprender.

Todos cumprimos o papel da melhor maneira que podemos, mas não foi sem penas nem apuros. Muitos erros foram cometidos na parte administrativa do executivo, enormes falhas foram cometidas por parte dos novos administradores de empresas, que tinham responsabilidades demasiadamente grandes em suas mãos, e grandes e caros erros cometemos, também, no aparelho político que, pouco a pouco, foi caindo uma tranquila e prazerosa burocracia, identificado quase como um trampolim para promoções e para cargos burocráticos de maior ou menor, desligado totalmente das massas.

O ponto central de nossos erros está em nossa falta de sentimento de realidade em um dado momento, mas a ferramenta que nos faltou, o que foi embotando nossa capacidade de percepção e convertendo o Partido em uma entidade burocrática, pondo em perigo a administração e a produção, foi a falta de quadros desenvolvidos a nível médio. A política de quadros se tornava evidente como sinônimo de política de massas; estabelecer novamente o contato com as massas, contato estreitamente mantido pela Revolução na primeira fase de sua vida e que era sua palavra de ordem. Mas estabelecê-lo através de algum tipo de aparelho que permitisse tirar-lhe o maior proveito, tanto na percepção de todas as palpitações das massas como na transmissão das orientações políticas que, em muitos casos, somente foram dados por intervenções pessoais do Primeiro Ministro Fidel Castro ou de alguns outros líderes da Revolução.

O QUADRO:

A esta altura podemos nos perguntar: o que é um quadro? Devemos dizer que um quadro é um indivíduo que alcança o suficiente desenvolvimento político para poder interpretar as grandes diretrizes emanadas do poder central troná-las suas e transmiti-las como orientação à massa, percebendo, além disso, as manifestações dessa massa com aos seus desejos e motivações. É um indivíduo de disciplina ideológica e administrativa que conhece e pratica o centralismo democrático e sabe avaliar as contradições existentes no método para aproveitar ao máximo suas múltiplas facetas; quem sabe praticar, na produção, o princípio da discussão coletiva e responsabilidade única; cuja finalidade está provada e cujo valor físico e moral desenvolveu-se no compasso de seu desenvolvimento ideológico, de tal maneira que está sempre disposto a enfrentar qualquer debate e responder até com sua vida pela boa marcha da Revolução. É além disso, um indivíduo com capacidade de análise própria, o que lhe permite tomar decisões necessárias e praticar a iniciativa criadora de modo que não se choque com a disciplina.

O quadro, pois, é o criador, é um dirigente de alta estatura, um técnico de bom nível político que pode, raciocinando dialeticamente, levar adiante seu setor de produção ou desenvolver a massa desde o seu posto político de direção.

Este exemplar humano, aparentemente rodeado de virtudes difíceis de alcançar, está, no entanto, presente no povo de Cuba e nós o encontramos todo dia. O essencial é aproveitar todas as oportunidades que há para desenvolvê-lo ao máximo, para educá-lo, para tirar de cada personalidade o maior proveito e convertê-la no valor mais útil possível à nação.

Consegue-se o desenvolvimento de um quadro na labuta diária. Mas deve-se empreender a tarefa, além disso, de um modo sistemático, em escolas especiais, ao mesmo tempo exemplos para os alunos; favoreçam a mais rápida ascensão ideológica.

Num regime que inicia a construção do socialismo, não se pode supor um quadro que não tenha um alto desenvolvimento político, mas por desenvolvimento político não se deve entender só o aprendizado da teoria marxista; deve-se também exigir a responsabilidade do indivíduo pelos seus atos, a disciplina que restringe qualquer debilidade transitória e que não esteja em conflito com uma alta dose de iniciativa, a preocupação constante por todos os problemas da Revolução. Para desenvolvê-lo é necessário começar por estabelecer o princípio seletivo na massa, é ali onde é necessário buscar as personalidades nascentes provadas no sacrifício ou que começam agora a mostrar suas inquietudes, e levá-las a escola especiais, ou, na falta delas, para cargos de maior responsabilidade que ponha à prova no trabalho prático.

Assim fomos encontrando uma multidão de novos quadros, que se desenvolveram nestes anos ; mas seu desenvolvimento não foi uniforme, posto que os jovens comnpanheiros viram-se frente à realidade da criação revolucionária sem uma adequada orientação de partido. Alguns triunfaram plenamente, mas há muitos que não puderam fazê-lo completamente e ficaram na metade do caminho, ou simplesmente perderam-se no labirinto burocrático ou nas tentações que dá o poder.

Para assegurar o triunfo e a consolidação total da Revolução necessitamos desenvolver quadros de diferentes tipos; o quadro político, que seja a base de nossas organizações de massa, e que as oriente através do Partido Unido da Revolução Socialista* (já se está começando a estabelecer as bases com as escolas nacionais e provinciais de Instrução Revolucionária e com os estudos e circulos de estudo de todos os níveis); também necessita-se de quadros militares para os quais se pode utilizar a seleção que a guerra fez a nossos jovens combatentes, já que ficou com vida uma boa quantidade , sem grandes conhecimentos teóricos mas provados no fogo, provados nas condições mais duras da luta e de uma fidelidade a toda a prova como regime revolucionário, a cujo nascimento e desenvolvimento estão intimamente ligados desde as primeiras guerrilhas da Sierra. Devemos promover também quadros econômicos que se dediquem especificamente às tarefas difíceis da planificação e às tarefas da organização do Estado Socialista nestes momentos de criação. É necessário trabalhar com profissionais, estimulando os jovens a seguir algumas das carreiras técnicas mais importantes para tentar da à ciência o tom de entusiasmo ideológico que garanta um desenvolvimento acelerado. E é imperativo criar a equipe administrativa que saiba aproveitar e harmonizar os conhecimentos técnicos específicos com os demais e orientar as empresas e outras organizações do Estado para integrá-las ao forte ritmo da Revolução. Para todos eles, o denominador comum é a clareza política. Esta não consiste no apoio incondicional aos postulados da Revolução, mas sim num apoio racional, numa grande capacidade de sacrifícios e numa grande capacidade dialética de análise, que permite fazer contínuas contribuições, em todos os níveis, à rica teoria e a prática da Revolução. Estes companheiros devem ser selecionados na massa, aplicando-se o princípio único de que o melhor sobressaia e que ao melhor sejam dados as maiores oportunidades de desenvolvimento.

Em todos estes lugares, a função do quadro, apesar de ocupar frentes distintas, é a mesma. O quadro é a peça mestra do motor ideológico que é o Partido Unido da Revolução. É o que poderíamos chamar de parafuso dinâmico deste motor: parafuso enquanto peça funcional que assegura seu correto funcionamento, dinâmico enquanto não é um simples transmissor para cima ou para baixo de lemas e demandas, mas um criador que ajudará o desenvolvimento das massas e a informação dos dirigentes, servindo de ponto de contato com aqueles. Tem uma importante missão de vigilância para que não se liquide o grande espírito da Revolução, para que esta não durma, não diminua seu ritmo. É um lugar sensível; transmite o que vem da massa e lhe infunde o que orienta o partido.

Desenvolver os quadros é, pois, uma tarefa inadiável no momento. O desenvolvimento dos quadros tem sido tomado com grande empenho pelo Governo revolucionário; com sues programas de bolsa de acordo com princípios seletivos, com os programas de estudo para os operários, dando diferentes oportunidades de desenvolvimento tecnológico, com o desenvolvimento das escolas secundárias e as universidades abrindo novas carreiras, com o desenvolvimento, enfim, do estudo, do trabalho e da vigilância revolucionária como lemas de toda a nossa pátria, baseados fundamentalmente na União de Jovens Comunistas, de onde devem sair os quadros de todo o tipo e ainda os quadros dirigentes da Revolução no futuro.

Intimamente ligado ao conceito de quadro está o da capacidade de sacrifício, de demonstrar com o próprio exemplo as verdades e às palavras de ordem da revolução. O quadro como dirigente político, deve ganhar o respeito dos trabalhadores com sua ação. É imprescindível que conte com a consideração e o carinho dos companheiros a que devem guiar nos caminhos da vanguarda. Por tudo isso, não há melhor quadro do que aquele cuja massa realiza eleição nas assembléias que designam os operários exemplares, os que serão integrados ao PURS (Partido Unido da Revolução Socialista) junto com os antigos membros do ORI (Organizações Revolucionárias Integradas), que passem por todas as provas de seleção exigidas. A principio constituirão um partido pequeno, mas sua influência entre os trabalhadores será imensa; e logo este crescerá, quando o avanço da consciência socialista for se convertendo em uma necessidade o trabalho e a entrega total à causa do povo. Com dirigentes médios dessa categoria, as difíceis tarefas que temos pela frente serão cumpridas com menos contratempos. Depois de um período de desordem e de maus métodos, chegou-se a uma política justa, que não será jamais abandonada. Com o estímulo sempre renovado da classe operária, nutrindo com suas fontes inesgotáveis as filas do futuro Partido Unido da Revolução Socialista, e com a direção de nosso partido, entramos com tudo na tarefa de formação de quadros que garantam o desenvolvimento impetuoso de nossa Revolução. Haveremos de triunfar nesta empreitada.

Cuba Socialista, Setembro, 1962.

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(*) O Partido Socialista Popular era um partido socialista anterior à Revolução e análogo a outros partidos de outros países.

(*) O primeiro esforço da organizações revolucionárias cubanas pela constituição de um partido marxista-leninista unificado na fase posterior à Revolução, foi a criação das ORI (Organizações revolucionárias Integradas), agrupando num único organismo político o Movimento 26 de Julho, o Partido Socialista Popular e o Diretório Estudantil Revolucionário. Em função de sérios desvios de caráter sectário, as ORI foram extintas e se passou à formação do Partido Unido da revolução Socialista, que posteriormente deu origem ao Partido Comunista de Cuba.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Lições da NEP soviética para "Economia socialista de mercado" da China Popular


por Thomas Kenny [*]

Escritores marxistas ocidentais de vários pontos de vista asseveram que a Nova Política Económica (NEP) prenunciou a economia socialista de mercado (ESM). Um escritor observou: "A ordem social que actualmente se considera válida na China apresenta-se como uma espécie de NEP gigantesca e expandida" (Losurdo 2000, 498). De forma semelhante, um panfleto recente dos comunistas britânicos comparou a China dos dias actuais, com sua economia socialista de mercado, ao NEP da Rússia Soviética na década de 1920. "Em defesa do NEP, Lenine elaborou muitos dos mesmos pontos que Deng Xiaoping e representantes do Partido Comunista Chinês elaboram hoje... Naturalmente, a China no último quarto do século XX não era a Rússia no primeiro quarto. Mas as suas crises apresentam sintomas semelhantes. E os seus remédios assemelham-se fortemente um com o outro" ( China's Line of March 2006, 32). [1]

Este meu documento partilha a visão de que a NEP é na verdade uma precursora da ESM. Chego à conclusão, no entanto, não de que a NEP fosse o êxito, o precursor abortado da ESM, mas ao contrário de que a NEP conta-nos antecipadamente as contradições e limites da ESM. [2]

NEP e ESM: essencialmente o mesmo

Ironicamente, podem-se encontrar eminentes economistas chineses a negarem a conexão entre a NEP e a ESM, ou pelo menos relutantes em afirmá-la. Um economista chinês representativo [da tendência] pró-mercado, o falecido Xue Muqiao, enfatizou a dissemelhança entre a NEP e a ESM. [3] Tal dissociação é pouco convincente. A NEP é semelhante a ESM em todos os aspectos chave. Na finalidade e no conteúdo de classe a NEP e a ESM são o mesmo: aumentar a riqueza de uma classe trabalhadora, como estado socialista, por um política que tornava necessário o crescimento de novas classes objectivamente hostis à construção socialista. Suas principais políticas são as mesmas. Ambas promovem mecanismos de mercado, propriedade privada, competição, integração na economia capitalista externa. Seus resultados seguiram a mesma sequência. Ambos, após o êxito inicial, entraram numa crise porque eram auto-contraditórias. Em teoria, eram as mesmas. Elas avançaram e cumpriram a restauração das forças produtivas deslocando-se para trás, para relações capitalistas de produção historicamente ultrapassadas, discordantes dos objectivos socialistas de um estado dos trabalhadores. Finalmente, as suas crises foram as mesmas, como veremos abaixo. [4]

Fundamentos da NEP

Recordemos o que foi a NEP. Em Março de 1921, após a rebelião do Kronstadt contra políticas bolcheviques, o 10º Congresso do Partido Comunista Russo reuniu-se e ouviu Lenine argumentar em favor de um novo rumo na política soviética. Lenine argumentou a favor do que denominou "capitalismo de estado" a ser realizado nas seguintes formas: (1) joint ventures com o estrangeiro e mesmo propriedade estrangeira de empresas ("concessões"); (2) cooperativas baseadas nos princípios de mercado; (3) a utilização de comerciantes capitalistas, bem como administradores económicos e especialistas técnicos treinados em métodos capitalistas de gestão e organização; e (4) o arrendamento (leasing) de empresas de propriedade estatal e de recursos naturais tanto a capitalistas estrangeiros como internos. As empresas estatais, as quais controlavam os "níveis de comando", eram auto-suficientes e operavam no princípio dos lucros e perdas, abastecendo-se elas próprias dos seus próprios activos circulantes (Sargis, 2004).

Por que acabou o NEP?

A maior parte dos partidários do socialismo, incluindo este autor, encara a NEP sob uma luz positiva, como um expediente de curto prazo que teve êxito ao ajudar a Rússia revolucionária a sair de uma crise económica. Lenine demonstrou-se correcto: depois de o livre comércio nos cereais ter sido restaurado, a NEP logo teve êxito. Mas no fim da década de 1920, contudo, a NEP terminou porque estava a aprofundar a crise, não por causa dos poderes arbitrários e excessivos de Staline, como é muitas vezes apregoado. [5] Múltiplas crise levaram a liderança soviética a terminar a NEP. [6]

A NEP trouxe mais cereais para as cidades (isto é, aumentou as forças produtivas) ao aumentar os incentivos para os camponeses, especialmente os camponeses ricos (kulaks), com base nos antigos incentivos embutidos nas velhas relações de produção. Mas as mesmas relações de produção pré-revolucionárias restauradas pelos bolcheviques concederam aos kulaks o poder de retirar cereais do mercado na esperança de [obterem] preços mais elevados. A NEP então restaurou rapidamente o vínculo camponês-trabalhador, mas ao custo do fortalecimento dos inimigos de classe internos — os kulaks e "NEPmen" [7] — e objectivamente deu-lhes, especialmente aos últimos, cada vez maior poder sobre o ritmo da construção socialista. Portanto, a curto prazo, a NEP apaziguou o campo mas a prazo mais longo fortaleceu inevitavelmente as classes opostas à construção socialista. Além disso, alienou a classe social para a qual o sistema é suposto funcionar, a classe trabalhadora.

O estado soviético lutou arduamente para enfrentar as contradições, mas elas não podiam ser eliminadas. Elas tenderam a agudizar-se ao longo do tempo. Aumentaram as desigualdade sobre a terra e os desequilíbrios na indústria. A possibilidade do crescimento rápido da indústria pesada socialistas recuava. Formas de consciência social que levavam à confusão e retrocesso ideológico atingiram o interior do Partido e ameaçavam a sua unidade. [8] A corrupção floresceu. [9] Em 1921-28, o imperialismo utilizou a NEP, embora de forma limitada, para intervir nos assuntos soviéticos. [10] O fortalecimento económico da pequena burguesia levou o crescimento do nacionalismo pequeno-burguês a assumir duas formas: chauvinismo Grão Russo e separatismo nacionalista nas antigas nações subjugadas (Lenin e Stalin, 1979; Stalin 1953, 243–44). Quanto mais o fim da NEP fosse adiado, maior seria o custo de voltar ao planeamento e à propriedade pública. Por volta de 1928 a maior parte dos líderes soviéticos concluiu que ou os kulaks estrangulariam a revolução ou o estado soviético teria de descobrir um meio de cortar o Nó Górdio. A solução foi que: a) O socialismo podia ser construído num país, através da industrialização rápida. b) A industrialização rápida podia ser financiada por rendimentos acrescidos da agricultura através de cooperativas agrícolas e da mecanização. c) Um confronto com os kulaks seria inevitável. d) O crescimento da indústria e da agricultura podia ser coordernado pelo planeamento central (Keeran e Kenny, 2004, 18).

O poder preditivo da NEP

Tal como a NEP, a ESM avançou e efectuou a restauração das forças produtivas através do retrocesso para relações capitalistas de produção historicamente ultrapassadas, discordantes de outros objectivos socialistas a médio e longo do povo da China. Se na verdade a NEP é um padrão para a ESM, que fenómenos seriam de esperar na China? Nós esperaríamos ver — e estamos a ver — o crescimento de forças de classe hostis dentro do país; corrupção do Partido; regressão ideológica; inquietação social; desemprego; desigualdade crescente entre ricos e pobres; desigualdade entre regiões; privações e inquietações rurais; [11] graves condições para os imigrantes das zonas rurais que procuram trabalho nas cidades; abusos nos locais de trabalho, especialmente em firmas controlados pelas corporações transnacionais (CTNs); alienação dos trabalhadores industriais e camponeses pobres em relação ao Partido; declínio dos serviços de saúde e educação (Hart-Landsberg and Burkett 2004, 58–75).

Certas características especiais da ESM tornam a China Popular ainda mais vulnerável ao perigo que chegou a ser na Rússia. A inovação doutrinária da etapa primária de socialismo permitiu, até muito recentemente, uma atitude displicente quanto aos sinais de advertência. A China está muito mais integrada plenamente na economia capitalista mundial, um facto imposto por instituições tais como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Da integração resulta a facilidade de transmissão de choques económicos externos. A China permanece dependente de uma ordem política e militar dirigida pelo imperialismo. A pressão imperialista para desregulamentar o sistema financeiro da China e, mais genericamente, para enfraquecer o controle do estado sobre o conjunto da economia, para "abrir-se", persiste. Se a China procurar corrigir abusos no trabalho em firmas de propriedade das CTNs, estas ameaçam reduzir ou acabar com o investimento no país.

Questões resultantes para a ESM da China

Se esta análise da NEP for correcta, certas questões seguem-se logicamente.

  • Deverá a crise da ESM piorar? A China conseguiu ganhos dramáticos na produção com a extensão das relações capitalistas de produção, a mesma contradição que atormentou a NEP. Durante quanto tempo mais a ESM será sustentável? Na União Soviética em 1928-29, para encerrar a NEP foi necessária uma luta demasiado sangrenta no campo, "uma terceira revolução" na frase de Bukharine. Não será razoável pensar que reverter o rumo na China também exigirá um preço demasiado alto se ela for adiada por "uma centena de anos"? [12] A nova doutrina da "etapa primária do socialismo" a estender-se quase infindavelmente no futuro parece subestimar gravemente a velocidade do aumento de classes objectivamente hostis ao socialismo na China Popular.

  • Quais são as prováveis consequências da ESM na esfera da ideologia? Nos meados da década de 1920 os líderes soviéticos notaram a ascensão do nacionalismo pequeno-burguês. Poderá alguém avaliar o impacto ideológico regressivo da descolectivização e do retorno à propriedade privada sobre milhões de camponeses chineses?

  • Haverá um caminho de desenvolvimento para a China Popular que ofereça uma taxa de desenvolvimento das forças produtivas igual ou ainda mais rápida? Na URSS, no Primeiro Plano Quinquenal, quando a URSS transcendeu a NEP, foram atingidas taxas anuais de crescimento industrial da ordem dos 13 por cento. [13] Uma vez que a construção socialista significa tanto criar relações socialistas de produção como aumentar as forças produtivas, pode mesmo fazer mais sentido aceitar um crescimento mais lento da produção se isto for necessário para dedicar mais atenção a reparar a rede de segurança social e a restaurar o bem estar de trabalhadores e camponeses.

  • Será totalmente inédito que fenómenos de crises inesperada surjam na ESM, fora do controle das autoridades de Pequim? A NEP foi cheia de surpresas. As relações capitalistas de produções na China são extensas. A integração do país no sistema capitalista está avançada. Muitos — incluindo a Wall Street (Kahn 2005; Barboza 2006b) — temem a emergência de um dos maiores males do capitalismo, uma crise cíclica de super-produção, ou na linguagem do negócios, um crash, após um longo boom. Os planeadores centrais em Pequim cederam muito poder à espontaneidade do mercado. [14] Será que ficará em causa a capacidade estabilizadora do estado diante da economia frenética e do impacto brutal de choques externos?

  • Haverá qualquer realismo em supor que o imperialismo concordará numa "ascensão pacífica da China"? [15] A NEP restringiu as "concessões estrangeiras" e confinou o seu comércio exterior em grande medida a trocas de cereais-por-maquinaria pesada. Mas o registo histórico é amargo. Será que a Grã-Bretanha imperialista anuiu à "ascensão pacífica" da Alemanha em 1870-1914? Será que a América imperialista anuiu à "ascensão pacífica" da URSS em 1945-91? A história sugere que a China Popular terá de lutar pelo seu sistema socialista, sua independência nacional e pela paz. O imperialismo é o inimigo de todos os três.

  • Se a ESM significa nova busca da China de integração num mundo de política económica dominado pelos EUA, como pode a China socialista cumprir suas responsabilidades internacionalistas? Deve a China procurar desenvolver-se através da atracção de investimento e competindo no comércio exterior apenas na base dos salários baixos? [16] Os interesses da classe trabalhadora da China não são os únicos em causa. Todos os amigos do socialismo chinês ficaram satisfeitos com os passos recentes para melhorar direitos trabalhistas (Barboza 2006a). Quando a URSS alcançou milagres de produção nos primeiros dois Planos Quinquenais, revolucionários de todo o mundo ganharam ânimo. O dano ideológico para o prestígio do socialismo provocado pela imagem da China — merecida ou não — como "fábrica do mundo com péssimas condições de trabalho" é grande.

Conclusão

É de saudar que a liderança principiada em 2002, perturbada por estes indicadores negativos, esteja a combater mais duramente as consequências danosas da ESM. Este documento, assim espero, acrescenta argumentos, baseados na teoria e na história, aos argumentos daqueles líderes chineses que pretendem ir mais adiante nesta rectificação. O movimento revolucionário mundial sofreu imensas perdas com a destruição do socialismo na Europa e na URSS quase no fim do século XX. O movimento ainda está a lutar para recuperar daquele revés. Tremo ao pensar no desespero que dominará toda a humanidade progressista no século XXI se a subestimação dos perigos inerentes à "economia socialista de mercado" causar danos irreparáveis às realizações revolucionárias da China Popular.

NOTAS
1- Da mesma forma, um académico estado-unidense, AIbert L. Sargis, escreve na revista teórica e de discussão do CPUSA, que a NEP foi "uma economia socialista de mercado em forma embrionica" (Sargis 2004)

2- A comparação de experiências revolucionárias tão remotas no espaço e no tempo como a NEP da Rússia e a ESM da China é certamente apropriada. Exemplo: a Comuna de Paris de 1871 e a Revolução de Outubro de 1917 tiveram lugar em circunstâncias totalmente diferentes. Mas a partir da Comuna Marx fez importantes generalizações teóricas acerca da natureza do poder do estado e das exigências da transformação revolucionária, aplicáveis em outros lugares. Em 1917 Lenine testou-as na prática. Uma abordagem científica da história exige uma pesquisa de tais padrões. "Uma característica fundamental da historiografia anti-marxista é a absolutização do particular, do que é nacionalmente específico... Pois os anti-marxistas temem generalizações... eles evitam cuidadosamente conceitos que sugeririam regularidades no desenvolvimento da sociedade". E. Zhukov, Methodology of History (Moscow: USSR Academy of Sciences, 1983), 56. É o caso do "excepcionalismo americano", um erro ideológico recorrente no movimento da esquerda dos EUA. O "excepcionalismo chinês" é um desvio nacionalista na esfera da teoria.

3- Xue parece pensar que o apoio anterior a 1949 dos camponeses chineses à revolução — tornando desnecessária qualquer NEP pós-revolucinária para restaurar as peias do campesinato — torna a China diferente da Rússia (Xue Muqiao 1981, 3). Xue asseverou:
"Ele [Lenine] avançou a NEP, uma tentativa para controlar a pequena economia camponesa através do mercado pelo desenvolvimento do estado e do comércio cooperativo... A situação na China era diferente". Xue prossegue para declarar que a Revolução Chinesa já havia desenvolvido "cooperativas de abastecimento e comercialização" em zonas libertadas antes de 1949, separando politicamente os camponeses do latifundismo e ganhando-os para a revolução. A não necessidade na China do objectivo político da NEP — recapturar o apoio político do campesinato — é um fraco argumento para a não semelhança entre a NEP e a ESM. Mas Xue está indirectamente e talvez não intencionalmente admitindo que a NEP foi adoptada em condições de necessidade genuína, e que a ESM não era necessária no mesmo sentido estrito. A visão de Xue é uma posição desconcertante para um académico chinês assumir. É bem sabido que Deng Xiaoping estava profundamente interessado em aprender tudo o que podia acerca da NEP junto ao industrial dos EUA Armand Hammer que a conheceu em primeira mão ( http://www.reference.com/browse/wiki/Deng_ Xiaoping ). Possivelmente muitas décadas de anti-sovietismo no discurso político chinês desencoraja comparações soviético-chinesas. A doutrina da "etapa primária de socialismo", ligada a uma teoria de 1989-91, apresenta poucos incentivos para tais comparações, pois os estados socialistas do Leste Europeu e a União Soviética entenderam tudo errado e a história pronunciou o seu veredicto sobre eles. Um eminente pensador chinês escreveu que os estados que caíram já não eram socialistas de todo (ver Zhongqiao Duan 1998, 224). Quando isto aconteceu, houve tantas guinadas na política económica da China Popular que um período anterior assemelha-se ainda mais estreitamente ao NEP do que a ESM, isto é, o período 1949-56 (Slakovsky 1972, 153).

4- Obviamente, existem diferenças entre a NEP e a ESM. Primeiro, elas decorrem em diferentes circunstâncias históricas. A Rússia pré-1914 era um país capitalista de desenvolvimento médio, arruinado pela Primeira Guerra Mundial, invasão do pós-guerra e guerra civil. No princípio da NEP, o governo de Lenine estava em perigo de perder apoio camponês. Em 1949 a China era um país semi-feudal e semi-colonial; em 1978 a China havia perdido anos preciosos de desenvolvimento devido a políticas mal consideradas, ultra-esquerdistas, aventureiras. Segundo a ESM perdurou muito mais tempo. Certamente, a sensibilidade da China Popular ao perigo da perda de soberania nacional é um factor na paciência com que tanto as autoridades como o povo têm-se aguentado sob as agudas contradições da ESM (ver Weil 1996, 83). Além disso, a paciência chinesa é compreensível; levantar da pobreza quatro centenas de milhões de chineses é um feito estupendo. Terceiro, as expectativa tem sido qualitativamente diferentes. Na Rússia, a NEP foi encarada como um recuo temporário para o "capitalismo de estado". A China Popular abraçou todas as novas doutrinas do desenvolvimento alongando a transição para o socialismo. Quarto, a Rússia Soviética cercada tinha o mundo externo hostil a pouco distância, interagindo com ele meramente através de acordos de paz e acordos comerciais. O estado soviético permaneceu em grande medida economicamente autónomo. Em contraste, a China buscou a integração impetuosa na economia capitalista mundial. Quinto, na Rússia da NEP o Partido mantinha vigilância estrita sobre a economia. As autoridades em Pequim, talvez porque o fenómeno de uma grande crise amadureceu depois, até recentemente transferia muita supervisão da economia a organismos regionais e locais. Sexto, durante grande parte da era da ESM, de 1978 até 1991, a URSS, não a China Popular, era o alvo principal da hostilidade, pressão e subversão imperialista.

5- No ocidente capitalista, a NEP é um "terreno contestado" numa recorrente batalha ideológica entre Comunismo e reformismo. Até 1985, a NEP foi a era da história soviética na qual foi dada mais liberdade ao capitalismo. Assim, naturalmente, os reformistas sociais, reformistas liberais e comunistas revisionistas idealizam a NEP, mitologizando-a saudaosamente como O caminho não adoptado. Na batalha para mudar a direcção em 1921, certas frases utilizadas por Lenine — por exemplo, de que a NEP seria prosseguida "seriamente" e "por um longo tempo", deram aos oportunistas subsequentes uma base textual para argumentar que ele encarava a NEP como a nova rota permanente para o socialismo soviético. Já na década de 1930, o social-democrata austríaco Otto Bauer exprimiu a esperança de que a experiência da NEP suavizaria finalmente o bolchevismo e levá-lo-ia de volta à corrente principal do social reformismo europeu. Em 1956, comunistas revisionistas húngaros sob Imre Nagy promoveram esta mesma imagem da NEP, tal como o fez mais tarde Ota Sik, conselheiro principal do revisionista checoslovaco Alexander Dubcek em 1967-68. O historiador Roy Medvedev, um apoiante de Gorbacheve, louvou a NEP como "a mais vital contribuição de Lenine para a teoria e a prática do movimento socialistas". Analogamente, a antiga e influente conselheira de Gorbachev, Tatiana Zaslavskaya, promoveu a NEP como o modelo para o rumo da reforma pós 1986. O analista de assuntos soviéticos de The Nation, Stephen F. Cohen, declarou: "Dito simplesmente, o Partido Comunista Chinês reabilitou a alternativa económica perdida para o stalinismo... a NEP, que estabeleceu uma economia mista, foi o primeiro experimento em socialismo de mercado". Nas suas memórias, Anatoly Chernyaev, um ajudante de topo de Gorbachev, conta que depois de ler a biografia de Bukharine de Stephen F. Cohen, Gorbachev — um bukharinista simplesmente inconsciente até então — reabilitou Bukharine e tornou-o o seu padrinho ideológico, por assim dizer, para a perestroika. Alguns neo-bukharinistas dos dias de hoje, indo mais além do que o próprio Bukharine chegou a ir, reflectem economistas neoliberais tais como Ludwing von Mises e Friedrich Hayek, os quais argumentavam que apenas "mercados livres" permitem a formação racional do preço e a eficiência distributiva. Mercados "livres", apregoam tais neo-bukharinistas, são superiores ao planeamento central pelo menos no presente estado da ciência.

6- Um comunista italiano colocou a situação simplesmente: "A maior parte dos historiadores está bem consciente das contradições que acabaram por levar à crise da NEP no fim da década de 1920" (Boffa 1982, 178). Primeiro, o mercado criou instabilidade, como por exemplo na crise das "tesouras" de 1922-23, na qual preços dos cereais a flutuarem de forma selvagem provocaram escassez alimentar e desemprego entre trabalhadores, prejudicando camponeses pobres e muitos camponeses médios, mas beneficiando camponeses ricos, isto é, kulaks. Segundo, os sovietes perceberam que as políticas da NEP condenavam a União Soviética a um período prolongado de atraso industrial, uma perspectiva inaceitável em face de boicotes e provável invasão por países ocidentais — sem mencionar o objectivo supremo de uma sociedade socialista próspera só possível com base na moderna indústria pesada. Terceiro, em 1927-28 a ideia de que só os mecanismos de mercado seria suficientes para alimentar as cidades rompeu-se totalmente quando diante dos preços em queda os desafiantes kulaks acumularam cereais e permitiram que as cidades confrontassem a fome. A NEP também engendrou crescentes contradições políticas internas, como o crescimento do nacionalismo daninho. Quando a situação internacional piorou, as crises da NEP demonstraram-se inadministráveis.

7- Os NEPmen eram comerciantes privados, uma nova burguesia que cresceu na era do NEP. Ver Ball 1987, 15–37).

8- "Sob a burocracia da NEP, os administradores, os técnicos e a intelligentsia — o corpo de oficiais da nova sociedade — era predominantemente, quase exclusivamente, constituído por elementos estranhos ao regime" (Carr 1958, 116). A obra em vários volumes de Carr, A History of Soviet Russia, talvez seja o relato mais pormenorizado da NEP disponível em inglês.

9- Sobre a corrupção da NEP, ver Ball 1987, 63, 106, 114, 116, 171.

10- O Acordo Anglo-Soviético de Comércio, no princípio da era NEP, estipulava que os soviéticos tinham de restringir "propaganda hostil" contra a Grã-Bretanha (Carr 1953, 289).

11- "Corrupção, poluição, tomada de terra e taxas e impostos arbitrários estão entre as principais causas de uma vaga de inquietação social. Os tumultos tornaram-se uma característica da vida rural na China — mais de 200 "incidentes maciços de inquietação" verificaram-se a cada dia de 2004, mostram estatísticas da polícia — minando a insistência do partido na estabilidade social" (Kahn 2006).

12- "A China está na etapa primária do socialismo e permanecerá assim por um longo período de tempo. Esta é uma etapa histórica que não pode ser omitida na modernização socialista na China que está atrasada economicamente e culturalmente. Ela perdurará por mais de uma centena de anos" ( Constitution of the Communist Party of China, adopted 14 November 2002). http://english.people/com.cn/200211/18/eng20021118_107013.shtml .

13- Um historiador económico contemporâneo dos EUA, Robert C. Allen, declara que a velocidade da industrialização do Primeiro e Segundo Planos Quinquenais atingiu o crescimento de 12,7 por cento ano (2003, 219). Esta visão é muito semelhante àquela do economista marxista Maurice Dobb, o qual citou economistas burgueses anti-soviéticos nos Estados Unidos que estimaram taxas de crescimento da produção industrial soviética de pelo menos 14 por cento de 1929 a 1937 (1968, 261–62).

14- Monopólios transnacionais de propriedade ocidental e japonesa controlam cada vez mais a economia. A sua fatia das vendas totais de manufacturas na China passou de 2,3 por cento em 1990 para 31,3 por cento em 2000 (Hart-Landsberg and Burkett 2004).

15- Foreign Affairs é uma publicação chave do debate da classe dominante dos EUA acerca de política externa. Num artigo na Foreign Affairs, Zheng Bijian, escreveu com a maior ingenuidade que uma "ascensão pacífica" dependia das esperança das potência em ascensão, não dos armamentos da potência hegemónica, os EUA, armada até os dentes com milhares de armas nucleares, e um medonho registo de utilização contra um povo asiático. Zheng escreve: "A China não seguirá o caminho da Alemanha que levou à Primeira Guerra Mundial" e "a China ultrapassará diferenças ideológicas para esforçar-se pela paz, desenvolvimento e cooperação". O artigo identifica o autor como um dos que "redigiu relatórios chave em cinco congressos nacionais do partido chinês e detém postos elevados em organizações académicas e do partido na China" (2005).

16- "Se bem que os custos de remuneração horária total de trabalhadores manufactureiros tenham aumentado mais rapidamente na China do que nos Estados Unidos entre 2002 e 2004, a remuneração horária por empregado na China continuava a ser 3 por cento do nível dos Estados Unidos" (Lett and Banister 2006).

LISTA DE REFERÊNCIAS
Allen, Robert C. 2003. From Farm to Factory: A Reinterpretation of the Soviet Industrial Revolution. Princeton: Princeton Univ. Press.
Ball, Alan M. 1987. Building Communism with Bourgeois Hands. Chap. 1 of Russia's Last Capitalists: The Nepmen, 1921–1929. Berkeley: Univ. of California Press.
Barboza, David. 2006a. China Drafts Law to Empower Unions and End Labor Abuses: Opposition Voiced by US and other Corporations. New York Times, 13 October.
———. 2006b. Rare Look at China's Burdened Banks: Loan Risk Adviser Warns of Cover-Up. New York Times, 15 November 2006.
Boffa, Giuseppe. 1982. The Stalin Phenomenon. Ithaca: Cornell Univ. Press.
Carr, Edward Hallett 1953. NEP in Foreign Policy. Chap, 27 in The Bolshevik Revolution, 1917–1923, vol. 3, Soviet Russia and the World. London: Macmillan.
———. 1958. Socialism in One Country . Vol. 1 of A History of Soviet Russia.
London: Macmillan, 1958).
China's Line of March. 2006. Conclusions and Prospects from a report of the Communist Party of Britain delegation to China. London: Communist Party of Britain.
Dobb, Maurice. 1968. Soviet Economic Development since 1917 . New York: International Publishers.
Hart-Landsberg, Martin, and Paul Burkett. 2004. China and Socialism: Market Reforms and Class Struggle . Special issue of Monthly Review (July-August).
Kahn, Joseph. 2005. Investment Bubble Builds New China. New York Times, 23 March.
———. 2006. A Sharp Debate Opens in China over Ideologies. New York Times, 12 March.
Keeran, Roger, and Thomas Kenny. 2004. Socialism Betrayed: Behind the Collapse of the Soviet Union. New York: International Publishers.
Lenin, V. I., and J. V. Stalin. 1979. Selections from V. I. Lenin and J V. Stalin on the National and Colonial Question. Calcutta: Calcutta Book House.
Lett, Erin, and Judith Banister. 2006. Labor Costs of Manufacturing Employees in China: An Update to 2003–2004. Monthly Labor Review (November): 40–45. U.S. Bureau of Labor Statistics.
Losurdo, Domenico. 2000. Flight from History? The Communist Movement between Self-Criticism and Self-Contempt. Nature, Society, and Thought 13, no. 4:457–511.
Sargis, Al L. 2004. The Socialist Market Economy: Unfinished Business. Political Affairs (January).
Slakovsky, M. I., ed. 1972. Leninism and Modern China's Problems. Moscow: Progress Publishers.
Stalin, J. V. 1953. Report on National Factors in Party and State Affairs. 12 th Congress of Russian Communist Party, 23 April. In Works , 241–68. Moscow: Foreign Languages Publishing House.
Weil, Robert. 1996. Red Cat, White Cat: China and the Contradictions of “Market Socialism.” New York: Monthly Review Press.
Xue Muqiao. 1981. China's Socialist Economy. Beijing: Foreign Languages Press.
Zheng Bijian. 2005. China's “Peaceful Rise” to Great Power Status. Foreign Affairs 84, no. 5 (September–October): 18–24.
Zhongqiao Duan. 1998. Critique of Market Superiority and Market Neutrality.
Nature, Society, and Thought 11, no. 2:221–39.

[*] Autor de Socialism Betrayed: Behind the Collapse of the Soviet Union

O original encontra-se em Nature, Society, and Thought, vol. 20, no. 1 (2007):
http://webusers.physics.umn.edu/~marquit/nst201a.pdf


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 4 de março de 2008

A última entrevista do Comandante Raúl Reyes

por Aníbal Garzón & Ingrid Storgen [*]




O Comandante Raúl Reyes tombou no dia 1 de Março de 2008, juntamente com 17 guerilheiros das FARC-EP. Caíram vítimas do bombardeamento da Força Aérea Colombiana que destruiu o seu acampamento, ao Sul do Rio Putumayo. Esta ação confirma a criminalidade do governo fascista de Uribe, que tudo faz para sabotar saídas pacíficas para a situação colombiana. Ao recusar todas as gestões para a troca de prisioneiros de guerra e apostar tudo na solução militar o governo uribista põe em risco a vida dos prisioneiros e agrava a situação. O humanismo das FARC demonstrou-se no facto de – para libertarem prisioneiros e cumprirem a promessa feita ao Presidente Chávez – se terem arriscado a que os seus acampamentos fossem localizados através da espionagem electrónica das suas comunicações e dos satélites-sensores do imperialismo. Este risco foi excessivo, como agora se viu.
A entrevista que se segue foi a última concedida pelo Cmte. Raúl Reyes, na ante-véspera da sua queda em combate. Resistir.info presta homenagem a esta grande figura histórica de dimensão internacional.

Raul Reyes durante uma visita à Europa. Aníbal Garzón e Ingrid Storgen: Quando se pôs em andamento a famosa "Operação Emmanuel" acabou por ser preciso atrasá-la devido a operações militares estatais realizada próximo do lugar onde iam ser feitas as libertações. Que objectivo acreditam as FARC que poderia existir por trás da táctica militarista de Uribe ao realizar tais actividades em pleno lugar da operação (no Departamento de Meta) ponde em perigo a vida dos reféns?


Raúl Reyes: Por trás da táctica militarista de Uribe de impedir a libertação destes prisioneiros, sãos e salvos, está a absoluta recusa deste governo à troca e às saídas concertadas. Em nada lhe importa por em grave risco a vida dos prisioneiros. Finalmente, são mais de cinco anos sem que este governo se tenha interessado em facilitar a libertação desta gente. A assinatura do acordo humanitário requer a evacuação (despeje) dos municípios de Pradera e Florida, garantia negada pelo presidente Uribe e sem a qual as FARC não aceitam entrevistas com funcionários do governo actual em nenhum lugar.

A.G e I.S: Que mudança produziria nas FARC, e no contexto colombiano em geral, se se cumprisse a proposta de Chávez de conceder o status de actor beligente num conflito armado nacional e de repercussão internacional.

R.R: O reconhecimento de beligerância proposto pelo Presidente Hugo Chávez exprime o conhecimento cabal do conflito interno colombiano. Cuja solução definitória requer saídas políticas e reconhecer a existência de dois exército enfrentados por interesses políticos, sociais e económicos muito diferentes. O exército oficial, apoiado no paramilitarismo de Estado, e do outro lado o exército formado pelas guerrilhas revolucionárias das FARC e do ELN. A troca, ou intercâmbio de prisioneiros, será feita entre o governo e as FARC. Um dos entraves interpostos pelo governo colombiano para firmar acordos com a insurgência revolucionária é negar a sua existência histórica na vida política da Colômbia. Obstina-se em fechar os olhos perante uma realidade que o presidente Chávez, sim, observa com critério bolivariano e com o seu empenho generoso de trazer a paz aos colombianos. Em lugar algum do mundo é possível conseguir a reconciliação e a paz entre os contendores sem reconhecer a existência do adversário político.

A.G e I.S: Que opinião tem quanto ao movimento havido, a nível nacional e com internacionais, no passado 4 de Fevereiro de recusa às FARC. Que comparação se pode fazer a resposta a esse movimento anunciada para 6 de Março (Movimento Vítimas de Crimes de Estado)?

R.R.: A marcha de 4 de Fevereiro último foi organizada, promovida e financiada pelo governo de Álvaro Uribe. Ela contou com a contribuição dos meios de comunicação, os paramilitares conclamaram a dela participar. Os funcionários e empregados oficiais estatais foram forçados a vincular-se à mesma. As embaixadas e os consulados receberam instruções do Ministério dos Negócios Estrangeiros para participar na marcha e solicitar aos seus amigos apoios em cada país. É a marcha do governo da para-política contra a troca ou intercâmbio de prisioneiros e contra a busca da paz. Com o propósito de gerar ambiente nacional e internacional para promover a segunda reeleição de Álvaro Uribe.

A.G e I.S.: Foi divulgado que as FARC vão elaborar uma nova libertação de três ou quatro presos políticos[1]. Que objectivo se procura com isso, tanto a nível nacional como internacional? Acredita-se que haverá alguma resposta de Uribe?

R.R.: A libertação dos ex-congressistas Luis Eladio Pérez, Gloria Polanco, Orlando Beltrán e Jorge Eduardo Gechen Turbay e anteriormente de Consuelo González e de Clara Rojas é o resultado da persistência humanitária e da sincera preocupação pela paz na Colômbia do Presidente Hugo Chávez e da Senadora Piedade Córdoba. Também é a mais contundente manifestação da vontade troca das FARC, a qual exige a evacuação militar de Pradera e Florida por 45 dias, com presença guerrilheira e comunidade internacional como garantes, para pactuar com o governo nesse espaço a libertação dos guerrilheiros e dos prisioneiros de guerra em poder das FARC.

Internacionalismo

A.G e I.S: Quanto a uma visão mais internacionalista, a queda da URSS afectou negativamente o comunismo internacional. Acreditam as FARC que a retirada de Fidel como presidente do governo cubano afectará o socialismo cubano e em consequência o auge dos movimentos sociais latino-americanos e os governos de esquerda?

R.R.: A inesperada queda da URSS afectou negativamente boa parte dos Partidos Comunistas e sobretudo a construção socialista nos países da Europa teve um sério e longo retrocesso. O derrube do socialismo russo mostrou, sem lugar a equívocos, grandes falências ideológicas, políticas e estruturais desse modelo. Ao mesmo tempo que debilitou os partidos, também produziu no seu interior a depuração dos elementos farsantes e traidores que regressaram ao sistema capitalista sem vergonha alguma. Os Partidos e os seus militares de convicções sólidas mantiveram-se fieis ao acervo dos clássicos do Marxismo-Leninismo. Sem se deixarem confundir pela tormenta do capitalismo, que proclamava o fim socialismo, manteve-se Cuba, conduzida pelo seu Partido e o Comandante em Chefe dessa revolução triunfante. As FARC, representadas pelo Comandante Jacobo Arenas (falecido em Outubro de 1990) exprimiram com contundência a traição cozinhada na Rússia por Gorbachov após a enteléquia da perestroika e da glasnot. Dissemos naquela época, com a queda do muro de Berlim e do Socialismo, nem a fome, nem a pobreza, nem a miséria desapareceram entre os pobres, por isso a luta pela libertação dos povos e a construção socialista conserva plena vigência...

Hoje, tal como nesses temos, confirmamos mais uma vez que a opção da humanidade é o socialismo.

O Comandante Fidel Castro continua a iluminar, com luz própria e experimentada, a edificação do socialismo. O partido, seu povo e o novo chefe de Estado e de Governo de Cuba, avançam sem cessar pelo caminho traçado por Fidel e seus heróicos camaradas de luta.

História e conflito com o ELN

A.G e I.S: Há vários anos iniciaram-se diversos enfrentamentos entre o ELN e as FARC, em departamentos como Arauca, Nariño, Valle del Cauca e Cauca. Como sucedeu isso? Que repercussão teve quanto ao conflito contra o Estado uribista? E que solução vê as FARC?

R.R.: Na realidade, nada justifica os enfrentamentos armados entre o ELN e as FARC, por se tratarem de duas organizações revolucionárias comprometidas com a criação das premissas da luta pela conquista do poder político a fim de dar início à construção da sociedade livre de exploradores e sem explorados. Explicar os factores históricos de confrontação entre as duas forças é sumamente complicado neste espaço e de modo algum considero prudente atribuir toda a responsabilidade a uma das partes. No meu entender existe alguma culpa de parte a parte. O mais importante por agora é parar a confrontação entre revolucionários, assumindo em ambos os lados o compromisso de localizar os elementos infiltrados que alimentam o cizânia, a desqualificação, a falta de respeito a combatentes e massas, além de propalar rumores para aumentar hostilidades ou criá-las onde não existem. Estamos em vias de efectuar uma entrevista entre as duas chefias, para por fim a esta situação e fortalecer a unidade de acção, tendo em vista consolidar a luta contra o imperialismo e a oligarquia, pela nova Colômbia, a Pátria Grande e o Socialismo.

A.G e I.S: Em Setembro de 1987 criou-se a Coordenadora Guerrilheira Simón Bolívar, uma coligação entre diferentes grupos insurgentes (ELN, FARC, M-19, EPL, Frente Quintín Lame, MIR, PRT). Na actualidade, as FARC acreditam que seria positivo e possível realizar a re-criação da Coordenadora para unir o projecto revolucionário contra o governo de Uribe?

R.R.: A unidade da esquerda revolucionária, onde estão as guerrihas do EPL, ELN e das FARC, é uma necessidade de ordem estratégica. O nome de Coodenadora Guerrilheira Simón Bolívar insere-se exactamente dentro da nossa covicção bolivariana. Entretanto, o mais importante é superar a forma fatal de solucionar as diferenças.

A.G e I.S: As FARC fundaram-se como auto-defesas camponesas, mais tarde o seu objectivo foi a conquista do poder estatal para fazer a revolução socialista. Actualmente a táctica-estratégia parlamentar foi a mais utilizada na esquerda latino-americana desde a vitória de Hugo Chávez em 1999. Diante disto, as FARC continuam a defender a possibilidade de chegar ao poder mediante a luta armada-ataque ou só utilizam esta táctica como defesa da repressão, com possibilidade de futuras reformas de esquerda com um governo mais social-democrata?

R.R.: As FARC são uma organização político-militar que aplica a combinação de todas as formas de luta revolucionária para a conquista do poder. Coerente com esta definição de princípio, não subestimam a via eleitoral mediante uma grande coligação de forças anti-imperialistas bolivarianas, progressistas, revolucionárias, que mediante um programa de governo garanta a superação da crise, comprometa-se com a troca de prisioneiros e as saídas políticas para o conflito interno dos colombianos. Esta ideia está explícita na nossa Plataforma Bolivariana e no Manifesto firmado pelo nosso Secretariado, para um novo governo que garanta a paz com democracia e justiça social.

A.G e I.S: Nos anos 80, após as negociações de paz com Belisario Betancourt, fundou-se a União Patriótica como referente político da esquerda e a possibilidade de uma futura negociação de paz. Com a alta repressão e os milhares de assassinatos sofridos nas fileiras da UP, será que as FARC repensam a possibilidade de voltar a realizar a mesma estratégia como processo de paz?

R.R.: O genocídio a cargo do terrorismo de Estado contra a União Patriótica e parte considerável do Partido Comunista Colombiano demonstrou perante o mundo a intolerância e a criminalidade da classe governante do meu país, que além disso empurra os revolucionários a engrossarem as fileiras guerrilheiras para salvarem as suas vidas e manterem a luta política com as armas na mão. A UP foi liquidada a tiros pelos inimigos das saídas políticas. Facto que obriga a privilegiar o trabalho clandestino, como o Partido Comunista Clandestino e o Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia, cuja militância para subsistir e crescer mantém-se na clandestinidade.

Regionalismo revolucionário latino-americano

A.G e I.S: Como vêm a situação da América Latina, a partir da onda de governos progressistas na região, juntamente com outros directamente revolucionários?

R.R.: Observa-se na América Latina uma viragem positivo para a esquerda revolucionária com a liderança de governos anti-imperialistas, progressistas, independentes, bolivarianos, a caminho do socialismo, com o compromisso de cumprir o mandato do Libertador de proporcionar a maior soma de felicidade possível aos seus povos. A Colômbia não será a excepção. Como bolivarianos, em meio à confrontação com governo da ultra-direita fascista e paramilitar, vamos pelo mesmo caminho sem que ninguém nem nada o impeça.

A.G e I.S: Qual é o papel que deve cumprir a solidariedade internacionalista como muro de contenção frente à terrível problemática que vivem os povos da América Latina, os colapsos financeiros e as guerras, em momentos nos quais o império agrava os planos de desestabilização e a conhecida estratégia da CIDA e do Estado de Israel como factores de extrema periculosidade?

R.R.: O caminho está no fortalecimento da unidade anti-imperialista, progressista e da esquerda revolucionária com a finalidade de unir esforços, aprender com as experiências de cada lugar, para cerrar fileiras contra os sinistros planos dos impérios e das oligarquias crioulas, empenhadas em perpetuar-se no poder à custa da destruição das organizações e projectos políticos contrários às suas políticas de exploração, espoliação, enriquecimento ilícito, narcotráfico, corrupção, opressão, pobreza e miséria, vertidas sobre os povos do continente. Impõe-se incrementar o internacionalismo, como expressão de solidariedade de classe.

Muito obrigado,
Raúl Reyes

Montanhas da Colômbia, 28 de Fevereiro de 2008

[*] Colaboradores do sítio web Kaos en la Red .

O original encontra-se em kaosenlared.net e em http://www.resumenlatinoamericano.org , nº 993


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

01/Mar/08

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O nascimento do PSUV na Venezuela

Escrito por José Reinaldo Carvalho e Altamiro Borges
17-Jan-2008

O dia 12 de janeiro entrará para a história da Venezuela. Nesta data, no simbólico Quartel San Carlos – onde já estiveram encarcerados vários heróis deste sofrido povo, como o líder negro José Leonardo, que liderou a revolta dos escravos contra os colonizadores espanhóis, e o próprio comandante Hugo Chávez, quando encabeçou a rebelião militar de 1992, e que hoje sedia um majestoso centro de cultura -, ocorreu o congresso fundacional do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSVU). O evento, que contou com a participação de 1.676 delegados eleitos em todo país, foi assistido por mais de 20 delegações estrangeiras. Do Brasil, PCdoB, PT, PCB e MST se fizeram representar e participaram de intensas e ricas atividades.

Conforme explicou Jorge Rodrigues, ex-vice presidente do país, coordenador do processo congressual e presidente provisório do novo partido, o PSUV surgiu como necessidade de dar maior organicidade aos milhões de venezuelanos que se identificam com a revolução bolivariana. Antes disso, os “chavistas” não contavam com um instrumento partidário próprio, mas apenas com uma legenda eleitoral, o Movimento Quinta República (MVR), nascido às vésperas de surpreendente vitória de Hugo Chávez nas eleições do final de 1998. “Realizamos uma revolução sem partido, mas agora iniciamos o trabalho de parto de um partido socialista e revolucionário”, explicou Rodrigues à atenta delegação estrangeira. Bem humorado e didático, ele fez uma “breve resenha” sobre o acelerado e sui generis processo de construção do PSUV.

Experiência complexa e original

“A revolução bolivariana tem pressa, essa é uma de suas marcas. Logo após expressiva vitória de Chávez nas eleições de dezembro de 2006, com 63% dos votos, o comandante fez um discurso sobre a urgência da construção de um partido forte, que represente todos os venezuelanos que apóiam o socialismo. Em apenas seis semanas, 5.722 milhões se filiaram ao novo partido, cerca de 36% dos eleitores do país. A meta era filiar 3 milhões, mas ela foi superada de forma impressionante. A partir daí iniciou-se o trabalho de estruturação do partido, com a construção dos núcleos, os batalhões socialistas, com no máximo 300 filiados. Foram criados 14.363 batalhões no país, reunindo pessoas que se conhecem, que são vizinhos, que apóiam a revolução bolivariana, mas que nunca tinham se organizado para discutir política”.

Segundo informou, “os batalhões socialistas realizam assembléias semanais, todos os sábados, quase que religiosamente. Em 29 de setembro, eles reuniram mais de 1,5 milhão de aspirantes a militantes do PSUV e elegeram um porta-voz, um suplente e cinco coordenadores de comissões (ideológica, propaganda, logística, defesa territorial e trabalho social). Eles são porta-vozes, devem expressar os anseios dos filiados, e não representantes afastados da base. Hoje temos mais de 100 mil integrantes nestas comissões, que atuam de forma organizada e são a vanguarda da construção de um partido altamente democrático. Em 20 de outubro, as assembléias elegeram os 1.676 delegados ao nosso congresso fundacional”.

O próprio Rodrigues admite que a “tarefa de construir um partido de quadros e de massas é complexa e apresenta inúmeras dificuldades”, mas ele está otimista com “o início do trabalho de parto”. A partir do congresso fundacional, os aspirantes a militante do partido discutirão durante dois meses os documentos partidários. “Definirão as bases programáticas, os estatutos e as tarefas políticas do PSUV. O objetivo é erguer um partido forte, o maior do país, com muita ternura e tolerância, mas também com muita firmeza. Os inimigos da revolução são poderosos e não descansam. O referendo da reforma constitucional mostrou que não podemos vacilar. A nossa revolução é pacífica, democrática, mas ela também é armada e não vai sucumbir diante de qualquer agressão. Sem um partido socialista forte, a revolução não avançará”.

“Revolução não depende de um homem”

O otimismo de Rodrigues ficou expresso no ato de abertura do congresso fundacional, que foi carregado de emoção, ao ritmo de canções revolucionárias. Coube ao presidente Hugo Chávez o principal discurso da noite. Em tom de brincadeira, ele disse que “será uma fala curta”, todos riram, e o discurso durou mais de três horas, acompanhado silenciosa e atentamente pelos presentes. Foi uma aula de política e ousadia. Após elogiar a realização do evento no Quartel San Carlos, “o presídio dos revolucionários”, e fazer uma menção carinhosa aos militantes do Partido Comunista da Venezuela (PCV) “torturados e assassinados neste cárcere”, Chávez apresentou algumas propostas para a construção do PSVU.

Com base em citações de Fidel Castro, Che Guevara e Antonio Gramsci, ele defendeu que o partido tenha uma ética revolucionária e seja formado por “trabalhadores dedicados, exemplos de pessoas honestas com uma vida limpa”. Ele insistiu também na necessidade do funcionamento coletivo e democrático, que evite personalismos e carreirismos. “Do partido depende o futuro da revolução. Ela não pode depender de um homem, de uma cúpula ou de uma vanguarda esclarecida. Precisa contar com milhões. Do contrário, ela ficará vulnerável”. Em tom autocrítico, ele admitiu que a ausência deste instrumento político é a principal debilidade da revolução bolivariana. Após citar várias conquistas políticas, econômicas e sociais, Chávez afirmou: “Conquistamos importantes avanços, mas não podemos negar nossos erros, limitações e falhas”.

Lições da derrota no referendo

Entre outras idéias, Chávez defendeu que o partido invista na formação do militante. “Sem conhecimento, sem estudo, a revolução não avançará. Só o conhecimento gera consciência”. Propôs ainda que o PSUV priorize as bases e valorize a militância, atuando de forma “radicalmente democrática”. “Não queremos novas oligarquias. O partido deve fortalecer os valores revolucionários, não pode aceitar corrupto... Deve ser uma escola forjadora de consciências e vontades para subverter a ordem capitalista... A consciência é o único motor que pode mover a vontade mais férrea”. Defendeu que o partido atue no curso das lutas políticas – “ vocês agora são atores políticos” – e tenha como perspectiva o socialismo. “Falaram que o socialismo morreu e que o marxismo era o diabo. Muitos até abandonaram o socialismo, traíram, com exceção de Cuba de Fidel Castro. Mas o socialismo do século 21 é o nosso maior desafio”. Propôs ainda uma ativa política internacionalista, que resulte “na união das forças de esquerda da América Latina”.

Num dos momentos mais ricos da sua exposição, Chávez analisou a dura derrota no referendo da reforma constitucional, realizado em dezembro. Numa autocrítica profunda e madura, afirmou com todas as letras que foi o principal responsável pela primeira derrota após nove anos de vitórias consecutivas. “Eu assumo minhas responsabilidades. Errei no momento estratégico do referendo. Não era a melhor hora, o povo não estava convencido das mudanças propostas”. Referindo-se novamente de forma elogiosa ao PCV e ao Partido Pátria para Todos (PPT), reconheceu que foi sectário no trato com estas organizações, “inclusive fazendo bromas” (ironias), e disse que era imperioso valorizar as alianças. “Sem alianças, a revolução não avança, ensinou Lênin”. Bastante aplaudido, afirmou que “é necessário declarar guerra ao sectarismo” e propôs o retorno do diálogo “com o PCV, PPT, as camadas médias e setores da burguesia nacional”.

“Uh, ah, Chávez no se va”

Para ele, o PSUV deve encarar o que chamou da “batalha dos três erres. Revisão, retificação e reimpulso revolucionário”. Quanto à reeleição presidencial, Chávez provocou os presentes: “Eu perdi o referendo e a partir de 2 de fevereiro de 2013 já não estarei mais no Palácio Miraflores”. A reação foi imediata: “Uh, ah, Chávez no se va”. Vários delegados gritaram que iniciarão uma campanha de coleta de assinaturas em defesa da reeleição, mas Chávez solicitou cuidado com a idéia para não se errar novamente no momento oportuno. “A nossa próxima batalha é a eleição de outubro de 2008. Não podemos deixar a direita ocupar postos importantes. Isto colocaria em risco nosso projeto bolivariano, socialista... Não é tempo de acelerar artificialmente. É tempo de consolidar”. Pela terceira vez, Chávez citou o PCV e o PPT e pregou a formação de um Pólo Patriótico, sem sectarismos, no que foi bastante aplaudido.

Além destes dois eventos, as delegações estrangeiras ainda participaram de um jantar com o ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Nicolas Maduro, e a presidente da Assembléia Nacional, deputada Cilia Flores, e de uma reunião de troca de experiências com o primeiro vice-presidente da República, o deputado Roberto Hernandes Rodrigues. Nos relatos dos dirigentes de esquerda da Bolívia, Equador, Uruguai, Chile, México, entre outros, ficou patente que há uma mudança de ventos na América Latina mais favorável às lutas dos povos. Mas, como ressaltaram os latino-americanos e, principalmente, os representantes da França, Itália, Alemanha e de outros países da Europa, o momento ainda é de acúmulo de forças. A direita tenta retomar a ofensiva e atua com muita agressividade. Chamou atenção que todos, sem exceção, enfatizaram o papel nocivo da mídia hegemônica, o principal partido da direita no mundo.

José Reinaldo Carvalho é secretário de relações internacionais do PCdoB; Altamiro Borges é secretário de comunicação. Ambos representaram a direção nacional do PCdoB em Caracas a convite do PSUV.

Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



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