Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

A academia abomina a condição intelectual?


Marco Aurélio Weissheimer (Agência Carta Maior)

30/8/2005

A academia abomina a condição intelectual?


Ao analisar o declínio do pensamento crítico na América Latina, o sociólogo Atílio Borón defendeu uma tese provocadora: a retomada de um pensamento radical não pode se dar nos limites estritos da academia, pois esta se tornou um ambiente hostil à condição intelectual.


A retomada de uma linha mais agressiva de pensamento crítico nas ciências sociais e nas demais áreas das ciências humanas pode se dar nos limites estritos da academia? A questão foi levantada pelo sociólogo argentino Atílio Borón, do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), durante o XXV Congresso da Associação Latino-americana de Sociologia (Alas), realizado no final de agosto, em Porto Alegre. Após diagnosticar um declínio do pensamento crítico, especialmente na América Latina (ver “"Pensamento crítico precisa ser reconstruído na América Latina"”, Borón defendeu uma tese polêmica, oferecendo uma resposta negativa à pergunta proposta. Segundo ele, essa retomada não pode se dar nos limites citados, pela razão de que o mundo da academia hoje abomina a condição do intelectual. Para o sociólogo, as universidades latino-americanas não precisam de uma reforma, como muitos defendem, mas sim de uma revolução.

O déficit crítico, apontado por Borón, teria sido causado pela influência perniciosa de duas correntes de pensamento, o neoliberalismo e o pós-modernismo (conforme foi descrito no texto citado acima). Uma das expressões dessa influência, segundo ele, é o processo de contra-reformas universitárias em curso em vários países do continente. Uma das características marcantes desse processo, defendeu Borón, é a crescente discrepância entre a tendência de massificação do ensino e o volume de recursos disponíveis para a educação. Outra é a adoção de modelos de avaliação do corpo docente como forma de estabelecer critérios de remuneração. Pela lógica desse modelo, reduziu-se a remuneração básica dos professores, agregando-se “algo a mais” segundo o resultado de uma suposta “avaliação objetiva de desempenho”. A lógica que rege a publicação de artigos em revistas especializadas foi apontada por ele como um exemplo das distorções desse modelo.

O que é prioridade, afinal....

Hoje, observou, um artigo publicado em uma revista acadêmica norte-americana, por exemplo, vale para o pesquisador mais do que um livro publicado no próprio país, independentemente do conteúdo do artigo e do livro. O argumento é que nos Estados Unidos se faz uma ciência social de melhor qualidade e que, na América Latina, qualquer um publica um livro, afirmação repetida em outras áreas também. Assim, além da dependência dos pesquisadores latino-americanos em relação às agências de financiamento, o que define uma agenda de investigação ligada aos interesses estratégicos dessas agências, eles também passam a ter seus trabalhos orientados pela linha editorial das revistas especializadas norte-americanas e européias. E isso não ocorre só na área da sociologia, enfatizou Borón. Artigos sobre o Mal de Chagas, exemplificou, não tem grande ibope nas revistas dos EUA, com exceção de algumas na área de medicina social.

Para reforçar essa leitura, citou um estudo realizado por Russel Jacoby (autor, entre outros livros, de “O Fim da Utopia – Política e Cultura na Era da Apatia”, Ed. Record), sobre as publicações de duas das principais revistas de sociologia dos EUA, nos anos 80. Jacoby constatou que quase metade dos artigos tratava de temas relacionados aquele que seria o principal problema da sociedade norte-americana naquele período: como os norte-americanos e norte-americanas escolhem seus pares. Isso numa época em que os conflitos raciais explodiam em Los Angeles e em que a pobreza nos grandes centros urbanos adquiria maior visibilidade. Jacoby também pesquisou as publicações de revistas de ciência política, na década de 60, período da luta pelos direitos civis, contra o racismo, da guerra do Vietnã e do assassinato de John Kennedy. De 924 artigos publicados, só um tratava sobre o problema da pobreza, três abordavam o tema da crise urbana e um falava sobre a guerra do Vietnã.

Precisamos de um pensamento crítico e radical?

A partir desses levantamentos, Jacoby defendeu que a academia dos EUA havia se convertido em um gueto, onde o destino de toda uma geração de “jovens intelectuais” evidenciava uma inserção na vida universitária caracterizada pelo enfado e pela ruptura com a vida e a cultura públicas. “E nós seguimos esse exemplo”, disse Borón, indagando: “como é possível um pensamento crítico e radical sobreviver neste contexto?”. Não é possível, respondeu. Mas, afinal de contas, a que vem essa necessidade de um pensamento crítico e radical? Para o sociólogo argentino, a resposta é simples. A América Latina precisa de um pensamento desse tipo porque a situação social é cada vez mais grave, com o crescimento da desigualdade social e da pobreza, diagnóstico aliás reforçado pelo último relatório da ONU sobre a situação social no mundo (ver artigo de Marcio Pochmann, “"Objetivos do Milênio descumpridos"”).

Um pensamento crítico, acrescentou, que tenha como ponto de partida um princípio hipocrático: lutar pela saúde e pelo bem-estar do povo e da sociedade, que estão doentes. E um pensamento que procure sempre dizer a verdade e denunciar a mentira. Esta última, uma tarefa urgente, tendo em vista o processo de deslocamento da linguagem, operado nos últimos anos. Borón deu alguns exemplos desses deslocamentos. Todo mundo fala da redemocratização da América Latina, de que hoje temos governos democráticos, sem fazer nenhum tipo de questionamento a essa afirmação. Temos democracias, de fato, na América Latina? Para o sociólogo, se Aristóteles fosse vivo e conhecesse os governos do continente, os definiria como oligarquias com base no sufrágio universal e não como democracias. Quem se beneficiou, efetivamente, com o processo de redemocratização na América Latina? – indagou. Os 10% mais ricos, foi a resposta.

A metamorfose das palavras

Borón citou o caso do que ocorreu em seu país, a Argentina. No início do período pós-ditadura, a relação entre mais ricos e mais pobres era de 14 para um. Depois de vinte anos de consolidação democrática, essa distância hoje é de 35 para um. “No entanto, segue-se falando de governos democráticos. Que democracia é essa, que só acentua a desigualdade social? Isso revela a gravidade da crise teórica que vivemos, onde conceitos fundamentais não são mais discutidos”. Outro exemplo de deslocamento semântico. Há alguns anos, o Banco Mundial vem defendendo que a educação e a saúde não devem ser considerados como direitos fundamentais da população, mas sim como bens e serviços. De mãos dadas com essa posição, anda uma política de privatização de direitos básicos, onde a palavra “cidadão” vai sendo progressivamente substituída pela palavra “consumidor”. Mas as metamorfoses da linguagem não param por aí.

A expressão “transformação do Estado” foi substituída por “reforma do Estado”. A palavra “classe” desapareceu, “Nação” agora é “mercado”, “ideologia” virou “opinião pública” e “imperialismo”, “economia global”. O que fazer diante desse cenário? Borón lembra que a América Latina já deu grandes contribuições ao pensamento universal. Ele lembrou um comentário de Perry Anderson que definiu a América Latina como a região de maior criatividade e inventividade intelectual e cultural do mundo. “Na área das ciências sociais, essa produção já foi exemplar, como foi o caso da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe). Tivemos a Teologia da Libertação. Na área da educação, tivemos a pedagogia do oprimido, de Paulo Freire. Diante da crise atual, temos o compromisso de retomar essa tradição, não de um modo automático e mecânico, mas procurando construir novos modelos teóricos”.

Uma vantagem a ser aproveitada

Para Borón, temos uma vantagem única para executar essa tarefa. “Por sermos parte do quintal dos Estados Unidos, temos um horizonte de visibilidade muito maior para pensar nossos problemas do que aquele que existe na Ásia, África e Europa. Sofremos uma influência muito mais direta e quotidiana do imperialismo. É na América Latina que as contradições do sistema imperialista podem ser observadas com maior nitidez”, defendeu. Uma questão que deve ser respondida, no enfrentamento dessa tarefa, é se podemos realizar esse trabalho de reconstrução do pensamento crítico nos limites da academia, perguntou o sociólogo. A resposta veio rápida: “não podemos, porque hoje o mundo da academia abomina a condição do intelectual”. “O mundo da academia, hoje, é um mundo de carreiras, de projetos particulares, de avaliações entre os pares, é um mundo separado do resto da vida social, que não aceita o estilo de pensamento próprio do intelectual”.

Esse pensamento, prosseguiu, tem uma pretensão de universalidade que não aceita ficar trancada em disciplinas estanques. “Intelectuais têm seu público na sociedade e não somente entre seus pares. Sua missão mais importante é ser a consciência crítica de seu tempo. Hoje, a ambição da maioria dos acadêmicos é preparar sua aula, publicar seu artigo, ganhar recursos para seu projeto”, criticou Borón. Uma avaliação que certamente desagrada a muitos professores universitários que recusam esse enquadramento. Mas, para o sociólogo argentino, é esse o cenário dominante hoje na academia. E é por essa razão que ele defendeu, citando posição defendida também por Boaventura de Sousa Santos, a necessidade de revolucionar a academia. “As universidades não precisam de uma reforma, precisam de uma revolução, pois elas apresentam hoje um caráter profundamente conservador, mais conservador do que o da Igreja e das Forças Armadas, como diz Boaventura”.

O círculo mais ardente dos infernos

E se foi possível surgir algo como a Teologia da Libertação no ambiente conservador da Igreja Católica”, acrescentou, “talvez possa surgir algo novo também na universidade”. Para tanto, entre outras coisas, ele defendeu a necessidade de vincular a agenda teórica das ciências sociais e de outras áreas das ciências humanas com a dos setores sociais que lutam para transformar a sociedade, para democratizar o Estado e o conhecimento. Quem conhece o que é a universidade hoje, para o bem e o para o mal, sabe das resistências que essa proposta enfrenta. Mas Borón defendeu-a com ênfase, algo que vem fazendo há algum tempo, para a irritação de muitos de seus pares. Talvez pensando neles, ele encerrou sua fala com uma citação livre de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri: “o circulo mais ardente dos infernos, reservou Deus àqueles que, em época de maior crise moral, optam pela neutralidade”.

O mundo da prática - A cultura


Convite à Filosofia
De Marilena Chaui
Ed. Ática, São Paulo, 2000.

Unidade 8
O mundo da prática

Capítulo 1
A cultura

Natureza humana?

É muito comum ouvirmos e dizermos frases do tipo: “chorar é próprio da natureza humana” e “homem não chora”. Ou então: “é da natureza humana ter medo do desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também é comum a frase: “as mulheres são naturalmente frágeis e sensíveis, porque nasceram para a maternidade”, bem como esta outra: “fulana é uma desnaturada, pois não tem o menor amor aos filhos”.

Com freqüência ouvimos dizer: “os homens são fortes e racionais, feitos para o comando e a vida pública”, donde, como conseqüência, esta outra frase: “fulana nem parece mulher. Veja como se veste! Veja o emprego que arranjou!”. Não é raro escutarmos que os negros são indolentes por natureza, os pobres são naturalmente violentos, os judeus são naturalmente avarentos, os árabes são naturalmente comerciantes espertos, os franceses são naturalmente interessados em sexo e os ingleses são, por natureza, fleumáticos.

Frases como essas, e muitas outras, pressupõem, por um lado, que existe uma natureza humana, a mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, que existe uma diferença de natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou ingleses. Haveria, assim, uma natureza humana universal e uma natureza humana diferenciada por espécies, à maneira da diferença entre várias espécies de plantas ou de animais.

Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e as espécies humanas particulares, de modo que certos sentimentos, comportamentos, idéias e valores são os mesmos para todo o gênero humano (são naturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os mesmos apenas para cada espécie (ou raça, ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie determinada.

Dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer que essa coisa existe necessária e universalmente como efeito de uma causa necessária e universal. Essa causa é a Natureza. Significa dizer, portanto, que tal coisa não depende da ação e intenção dos seres humanos. Assim como é da natureza dos corpos serem governados pela lei natural da gravitação universal, como é da natureza da água ser composta por H2O, ou como é da natureza da abelha produzir mel e da roseira produzir rosas, também seria por natureza que os homens sentem, pensam e agem. A Natureza teria feito a natureza humana como gênero universal e a teria diversificado por espécies naturais (brancos, negros, índios, pobres, ricos, judeus, árabes, homens, mulheres, alemães, japoneses, chineses, etc.).

Que aconteceria com as frases que mencionamos acima se mostrássemos que algumas delas são contraditórias e que outras não correspondem aos fatos da realidade?

Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradição com a idéia de que “homem não chora”, pois, se isso fosse verdade, o homem teria que ser considerado algo que escapa das leis da Natureza, já que chorar é considerado natural. O mesmo acontece com a frase sobre o medo e a coragem: nelas é dito que o medo é natural, mas que uma certa pessoa é admirável porque não tem medo. Aqui, a contradição é ainda maior do que a anterior, uma vez que parecemos ter admiração por quem, misteriosamente, escapa da lei da Natureza, isto é, do medo.

Em certas sociedades, o sistema de alianças, que fundamenta as relações de parentesco sobre as quais a comunidade está organizada, exige que a criança seja levada, ao nascer, à irmã do pai, que deverá responsabilizar-se pela vida e educação da criança. Em outras, o sistema de parentesco exige que a criança seja entregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é estabelecida com a tia por aliança e não com a mãe biológica. Se assim é, como fica a afirmação de que as mulheres amam naturalmente os seus filhos e que é desnaturada a mulher que não demonstrar esse amor?

Em certas sociedades, considera-se que a mulher é impura para lidar com a terra e com os alimentos. Por esse motivo, o cultivo da terra, a alimentação e a casa ficam sob os cuidados dos homens, cabendo às mulheres a guerra e o comando da comunidade. Se assim é, como fica a frase que afirma que o homem foi feito pela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando e a guerra, enquanto a mulher foi feita pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalho doméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?

Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elite dominante do século XIX considerou mais lucrativo realizar a abolição da escravatura e substituir os escravos africanos pelos imigrantes europeus. Essa decisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos trabalhadores brancos imigrantes e que a maioria dos escravos libertados ficasse no desemprego, sem habitação, sem alimentação e sem qualquer direito social, econômico e político.

Em outras palavras, foram impedidos de trabalhar e foram mantidos sem direitos, tais como viviam quando estavam no cativeiro. Além disso, sabe-se que quando os colonizadores instituíram a escravidão e trouxeram os africanos para as terras da América, fizeram tal escolha por considerarem que os negros possuíam grande força física, grande capacidade de trabalho e muita inteligência para realizar tarefas com objetos técnicos como o engenho de açúcar. Se assim é, se a escravidão foi instituída por causa da grande capacidade e inteligência dos africanos para o trabalho da agricultura, se a abolição foi realizada por ser mais lucrativo o uso da mão-de-obra imigrante para um certo tipo de agricultura (o café) e para a indústria, como fica a afirmação de que a Natureza fez os africanos indolentes, preguiçosos e malandros?

Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nosso cotidiano e que naturalizam os seres humanos, naturalizam comportamentos, idéias, valores, formas de viver e de agir. Veríamos como, em cada caso, os fatos desmentem tal naturalização. Veríamos como os seres humanos variam em conseqüência das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem. Veríamos que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir e pensar e que a idéia de um gênero humano natural e de espécies humanas naturais não possui fundamento na realidade. Veríamos – graças às ciências humanas e à Filosofia – que a idéia de natureza humana como algo universal, intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta cientificamente, filosoficamente e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos são culturais ou históricos.

Culto, inculto: cultura

“Pedro é muito culto, conhece várias línguas, entende de arte e de literatura.”

“Imagine! É claro que o Luís não pode ocupar o cargo que pleiteia. Não tem cultura nenhuma. É semi-analfabeto!”

“Não creio que a cultura francesa ou alemã sejam superiores à brasileira. Você acha que há alguma coisa superior a nossa música popular?”

“Ouvi uma conferência que criticava a cultura de massa, mas me pareceu que a conferencista defendia a cultura de elite. Por isso, não concordei inteiramente com ela.”

“O livro de Silva sobre a cultura dos guaranis é bem interessante. Aprendi que o modo como entendem a religião e a guerra é muito diferente do nosso.”

Essas frases e muitas outras que fazem parte do nosso dia-a-dia indicam que empregamos a palavra cultura (ou seus derivados, como culto, inculto) em sentidos muito diferentes e, por vezes, contraditórios.

Na primeira e na segunda frase que mencionamos acima, cultura é identificada com a posse de certos conhecimentos (línguas, arte, literatura, ser alfabetizado). Nelas, fala-se em ter e não ter cultura, ser ou não ser culto. A posse de cultura é vista como algo positivo, enquanto “ser inculto” é considerado algo negativo. A segunda frase deixa entrever que “ter cultura” habilita alguém a ocupar algum posto ou cargo, pois “não ter cultura” significa não estar preparado para uma certa posição ou função. Nessas duas primeiras frases, a palavra cultura sugere também prestígio e respeito, como se “ter cultura” ou “ser culto” fosse o mesmo que “ser importante”, “ser superior”.

Ora, quando passamos à terceira frase, a cultura já não parece ser uma propriedade de um indivíduo, mas uma qualidade de uma coletividade – franceses, alemães, brasileiros. Também é interessante observar que a coletividade aparece como um adjetivo qualificativo para distinguir tipos de Cultura: a francesa, a alemã, a brasileira. Nessa frase, a Cultura surge como algo que existe em si e por si mesma e que pode ser comparada (Cultura superior, Cultura inferior).

Além disso, a Cultura aparece representada por uma atividade artística, a música popular. Isso permite estabelecer duas relações diferentes com as primeiras frases: 1. De fato, a terceira frase, como a primeira, identifica Cultura e artes (entender de arte e literatura, na primeira frase; a música popular brasileira, na terceira); 2. No entanto, algo curioso acontece quando passamos das duas primeiras frases à terceira. Com efeito, nas duas primeiras, “culto” e “inculto” surgiam como diferenças sociais. Num país como o nosso, dizer que alguém é inculto porque é semi-analfabeto deixa transparecer que Cultura é algo que pertence a certas camadas ou classes sociais socialmente privilegiadas, enquanto a incultura está do lado dos não-privilegiados socialmente, portanto, do lado do povo e do popular. Entretanto, a terceira frase afirma que a cultura brasileira não é inferior à francesa ou à alemã por causa de nossa música popular. Não estaríamos diante de uma contradição? Como poderia haver cultura popular (a música), se o popular é inculto?

Já a quarta frase (a que se refere à conferência sobre cultura de massa) introduz um novo significado para a palavra cultura. Nela não se trata mais de pessoas cultas ou incultas, nem de uma coletividade que possui uma atividade cultural que possa ser comparada à de outras. Agora, estamos diante da idéia de que numa mesma coletividade ou numa mesma sociedade pode haver dois tipos de Cultura: a de massa e a de elite. A frase não nos diz o que é a Cultura. (Seria posse de conhecimentos? Ou seria atividade artística?) Entretanto, a frase nos informa sobre uma oposição entre formas de cultura, dependendo de sua origem e de sua destinação, pois “cultura de massa” tanto pode significar “originada na massa” quanto “destinada à massa”, e o mesmo pode ser dito da “cultura de elite” (originada na elite ou destinada à elite).

Finalmente, a última frase que mencionamos como exemplo apresenta um sentido totalmente diverso dos anteriores no que toca à palavra cultura. Fala-se, agora, na cultura dos guaranis e esta aparece em duas manifestações: a guerra e a religião (que, portanto, nada tem a ver com a posse de conhecimentos, atividade artística, massa ou elite). Nessa última frase, a cultura aparece como algo dos guaranis – e como alguma coisa que não se limita ao campo dos conhecimentos e das artes, pois se refere à relação dos guaranis com o sagrado (a religião) e com o conflito e a morte (a guerra).

Vemos, assim, que passar da naturalização dos seres humanos à Cultura não resolve nossas dificuldades de compreensão dos humanos, uma vez que, agora, precisamos perguntar: Como é possível a palavra cultura possuir tantos sentidos, alguns deles contraditórios com outros?

Natureza e Cultura

No pensamento ocidental, Natureza possui vários sentidos:

● princípio de vida ou princípio ativo que anima e movimenta os seres. Nesse sentido, fala-se em “deixar agir a Natureza” ou “seguir a Natureza” para significar que se trata de uma força espontânea, capaz de gerar e de cuidar de todos os seres por ela criados e movidos. A Natureza é a substância (matéria e forma) dos seres;

● essência própria de um ser ou aquilo que um ser é necessária e universalmente. Neste sentido, a natureza de alguma coisa é o conjunto de qualidades, propriedades e atributos que a definem, é seu caráter ou sua índole inata, espontânea. Aqui, Natureza se opõe às idéias de acidental (o que pode ser ou deixar de ser) e de adquirido por costume ou pela relação com as circunstâncias;

● organização universal e necessária dos seres segundo uma ordem regida por leis naturais. Neste sentido, a Natureza se caracteriza pelo ordenamento dos seres, pela regularidade dos fenômenos ou dos fatos, pela freqüência, constância e repetição de encadeamentos fixos entre as coisas, isto é, de relações de causalidade entre elas. Em outros termos, a Natureza é a ordem e a conexão universal e necessária entre as coisas, expressas em leis naturais;

● tudo o que existe no Universo sem a intervenção da vontade e da ação humanas. Neste sentido, Natureza opõe-se a artificial, artefato, artifício, técnico e tecnológico. Natural é tudo quanto se produz e se desenvolve sem qualquer interferência humana;

● conjunto de tudo quanto existe e é percebido pelos humanos como o meio e o ambiente no qual vivem. A Natureza, aqui, tanto significa o conjunto das condições físicas onde vivemos, quanto aquelas coisas que contemplamos com emoção (a paisagem, o mar, o céu, as estrelas, terremotos, eclipses, tufões, erupções vulcânicas, etc.). A Natureza é o mundo visível como meio ambiente e como aquilo que existe fora de nós, mesmo que provoque idéias e sentimentos em nós;

● para as ciências contemporâneas, a Natureza não é apenas a realidade externa, dada e observada, percebida diretamente por nós, mas é um objeto de conhecimento construído pelas operações científicas, um campo objetivo produzido pela atividade do conhecimento, com o auxílio de instrumentos tecnológicos. Neste sentido, a Natureza, paradoxalmente, torna-se algo que passa a depender da interferência ou da intervenção humana, pois o objeto natural é construído cientificamente.

Esse último sentido da idéia de Natureza indica uma diferença entre a concepção comum e a científica, pois a primeira considera a Natureza nos cinco primeiros significados que apontamos, enquanto a segunda considera a Natureza como uma noção ou um conceito produzido pelos próprios homens e, nesse caso, como artifício, artefato, construção humana. Em outras palavras, a própria idéia de Natureza tornou-se um objeto cultural.

Mas, afinal, o que é a Cultura?

Dois são os significados iniciais da noção de Cultura:

1. vinda do verbo latino colere, que significa cultivar, criar, tomar conta e cuidar, Cultura significava o cuidado do homem com a Natureza. Donde: agricultura. Significava, também, cuidado dos homens com os deuses. Donde: culto. Significava ainda, o cuidado com a alma e o corpo das crianças, com sua educação e formação. Donde: puericultura (em latim, puer significa menino; puera, menina). A Cultura era o cultivo ou a educação do espírito das crianças para tornarem-se membros excelentes ou virtuosos da sociedade pelo aperfeiçoamento e refinamento das qualidades naturais (caráter, índole, temperamento);

2. a partir do século XVIII, Cultura passa a significar os resultados daquela formação ou educação dos seres humanos, resultados expressos em obras, feitos, ações e instituições: as artes, as ciências, a Filosofia, os ofícios, a religião e o Estado. Torna-se sinônimo de civilização, pois os pensadores julgavam que os resultados da formação-educação aparecem com maior clareza e nitidez na vida social e política ou na vida civil (a palavra civil vem do latim: cives, cidadão; civitas, a cidade-Estado).

No primeiro sentido, a Cultura é o aprimoramento da natureza humana pela educação em sentido amplo, isto é, como formação das crianças não só pela alfabetização, mas também pela iniciação à vida da coletividade por meio do aprendizado da música, dança, ginástica, gramática, poesia, retórica, história, Filosofia, etc. A pessoa culta era a pessoa moralmente virtuosa, politicamente consciente e participante, intelectualmente desenvolvida pelo conhecimento das ciências, das artes e da Filosofia. É este sentido que leva muitos, ainda hoje, a falar em “cultos” e “incultos”.

Podemos observar que neste primeiro sentido Cultura e Natureza não se opõem. Os humanos são considerados seres naturais, embora diferentes dos animais e das plantas. Sua natureza, porém, não pode ser deixada por conta própria, porque tenderá a ser agressiva, destrutiva, ignorante, precisando por isso ser educada, formada, cultivada de acordo com os ideais de sua sociedade. A Cultura é uma segunda natureza, que a educação e os costumes acrescentam à primeira natureza, isto é, uma natureza adquirida, que melhora, aperfeiçoa e desenvolve a natureza inata de cada um.

No segundo sentido, isto é, naquele formulado a partir do século XVIII, tem início a separação e, posteriormente, a oposição entre Natureza e Cultura. Os pensadores consideram, sobretudo a partir de Kant, que há entre o homem e a Natureza uma diferença essencial: esta opera mecanicamente de acordo com leis necessárias de causa e efeito, mas aquele é dotado de liberdade e razão, agindo por escolha, de acordo com valores e fins. A Natureza é o reino da necessidade causal, do determinismo cego. A humanidade ou Cultura é o reino da finalidade livre, das escolhas racionais, dos valores, da distinção entre bem e mal, verdadeiro e falso, justo e injusto, sagrado e profano, belo e feio.

À medida que este segundo sentido foi prevalecendo, Cultura passou a significar, em primeiro lugar, as obras humanas que se exprimem numa civilização, mas, em segundo lugar, passou a significar a relação que os humanos, socialmente organizados, estabelecem com o tempo e com o espaço, com os outros humanos e com a Natureza, relações que se transformam e variam. Agora, Cultura torna-se sinônimo de História. A Natureza é o reino da repetição; a Cultura, o da transformação racional; portanto, é a relação dos humanos com o tempo e no tempo.

Cultura e História

Foi Hegel e, depois dele, Marx que enfatizaram a Cultura como História. Para o primeiro, o tempo é o modo como o Espírito Absoluto ou a razão se manifesta e se desenvolve através das obras e instituições – religião, artes, ciências, Filosofia, instituições sociais, instituições políticas. A cada período de sua temporalidade, o Espírito ou razão engendra uma Cultura determinada, que exprime o estágio de desenvolvimento espiritual ou racional da humanidade – China, Índia, Egito, Israel, Grécia, Roma, Inglaterra, França, Alemanha seriam fases da vida do Espírito ou da razão, cada qual exprimindo-se com uma Cultura própria e ultrapassada pelas seguintes, num progresso contínuo.

Para Marx, há em Hegel um engano básico, qual seja, confundir a História-Cultura com a manifestação do Espírito. A História-Cultura é o modo como, em condições determinadas e não escolhidas, os homens produzem materialmente (pelo trabalho, pela organização econômica) sua existência e dão sentido a essa produção material. A História-Cultura não narra o movimento temporal do Espírito, mas as lutas reais dos seres humanos reais que produzem e reproduzem suas condições materiais de existência, isto é, produzem e reproduzem as relações sociais, pelas quais distinguem-se da Natureza e diferenciam-se uns dos outros em classes sociais antagônicas.

O movimento da História-Cultura é realizado pela luta das classes sociais para vencer formas de exploração econômica, opressão social, dominação política. Despotismo asiático, modo de produção antigo (Grécia, Roma), modo de produção feudal (Idade Média), capitalismo comercial ou mercantil, capitalismo industrial são as maneiras pelas quais surgem e se organizam as formações sociais, internamente divididas por lutas, cujo fim dependerá da capacidade de organização política e de consciência da última classe social explorada (o proletariado, produzido pelo capitalismo industrial) para eliminar a desigualdade e injustiça históricas.

Cultura e antropologia

Diferentemente de Hegel e Marx, que tomam a Cultura pela perspectiva histórica ou pela relação dos humanos com o tempo, a antropologia considera a Cultura por um outro prisma.

O antropólogo procura, antes de tudo, determinar em que momento e de que maneira os humanos se afirmam como diferentes da Natureza fazendo o mundo cultural surgir. Tradicionalmente, dizia-se que os humanos diferem da Natureza graças à linguagem e à ação por liberdade. O antropólogo, sem negar essa afirmação, procura algo mais profundo do que isso como início das culturas. Assim, para muitos antropólogos, a diferença homem-Natureza surge quando os humanos decretam uma lei que não poderá ser transgredida sem levar o culpado à morte, exigida pela comunidade: a lei da proibição do incesto, desconhecida pelos animais. Para muitos antropólogos, a diferença homem-Natureza também é estabelecida quando os humanos definem uma lei que, se transgredida, causa a ruína da comunidade e do indivíduo: a lei que separa o cru e o cozido, desconhecida dos animais.

Não vamos aqui entrar nos detalhes das discussões antropológicas. O importante, para nós, é perceber que os antropólogos buscam algo que demarque o momento da separação homem-Natureza como instante de surgimento da Cultura. Esse algo é uma regra ou norma humana que opera como lei universal, isto é, válida para todos os homens e para toda a comunidade.

A lei humana é um imperativo social que organiza toda a vida dos indivíduos e da comunidade, determinando o modo como são criados os costumes, como são transmitidos de geração em geração, como fundam as instituições sociais (religião, família, formas do trabalho, guerra e paz, distribuição das tarefas, formas do poder, etc.). A lei não é uma simples proibição para certas coisas e obrigação para outras, mas é a afirmação de que os humanos são capazes de criar uma ordem de existência que não é simplesmente natural (física, biológica). Esta ordem é a ordem simbólica.

Vimos que um símbolo é alguma coisa que se apresenta no lugar de outra e presentifica algo que está ausente. Quando dizemos que a Cultura é a invenção de uma ordem simbólica, estamos dizendo que nela e por ela os humanos atribuem à realidade significações novas por meio das quais são capazes de se relacionar com o ausente: pela palavra, pelo trabalho, pela memória, pela diferenciação do tempo (passado, presente, futuro), pela diferenciação do espaço (próximo, distante, grande, pequeno, alto, baixo), pela diferenciação entre o visível e o invisível (os deuses, o passado, o distante no espaço) e pela atribuição de valores às coisas e aos homens (bom, mau, justo, injusto, verdadeiro, falso, belo, feio, possível, impossível, necessário, contingente).

Comunicação (por palavras, gestos, sinais, escrita, monumentos), trabalho (transformação da Natureza), relação com o tempo e o espaço enquanto valores, diferenciação entre sagrado e profano, determinação de regras e normas para a realização do desejo, percepção da morte e doação de sentido a ela, percepção da diferença sexual e doação de sentido a ela, interdições e punição das transgressões, determinação da origem e da forma do poder legítimo e ilegítimo, criação de formas expressivas para a relação com o outro, com o sagrado e com o tempo (dança, música, rituais, guerra, paz, pintura, escultura, construção da habitação, culinária, tecelagem, vestuário, etc.) são as principais manifestações do surgimento da Cultura.

Em termos antropológicos, podemos, então, definir a Cultura como tendo três sentidos principais:

1. criação da ordem simbólica da lei, isto é, de sistemas de interdições e obrigações, estabelecidos a partir da atribuição de valores a coisas (boas, más, perigosas, sagradas, diabólicas), a humanos e suas relações (diferença sexual e proibição do incesto, virgindade, fertilidade, puro-impuro, virilidade; diferença etária e forma de tratamento dos mais velhos e mais jovens; diferença de autoridade e formas de relação com o poder, etc.) e aos acontecimentos (significado da guerra, da peste, da fome, do nascimento e da morte, obrigação de enterrar os mortos, proibição de ver o parto, etc.);

2. criação de uma ordem simbólica da linguagem, do trabalho, do espaço, do tempo, do sagrado e do profano, do visível e do invisível. Os símbolos surgem tanto para representar quanto para interpretar a realidade, dando-lhe sentido pela presença do humano no mundo;

3. conjunto de práticas, comportamentos, ações e instituições pelas quais os humanos se relacionam entre si e com a Natureza e dela se distinguem, agindo sobre ela ou através dela, modificando-a. Este conjunto funda a organização social, sua transformação e sua transmissão de geração a geração.

Em sentido antropológico, não falamos em Cultura, no singular, mas em culturas, no plural, pois a lei, os valores, as crenças, as práticas e instituições variam de formação social para formação social. Além disso, uma mesma sociedade, por ser temporal e histórica, passa por transformações culturais amplas e, sob esse aspecto, antropologia e História se completam, ainda que os ritmos temporais das várias sociedades não sejam os mesmos, algumas mudando mais lentamente e outras mais rapidamente.

A esse sentido histórico-antropológico amplo, podemos acrescentar um outro, restrito, ligado ao antigo sentido de cultivo do espírito: a Cultura como criação de obras da sensibilidade e da imaginação – as obras de arte – e como criação de obras da inteligência e da reflexão – as obras de pensamento. É esse segundo sentido que leva o senso comum a identificar Cultura e escola (educação formal), de um lado, e, de outro lado, a identificar Cultura e belas-artes (música, pintura, escultura, dança, literatura, teatro, cinema, etc.).

Se, porém, reunirmos o sentido amplo e o sentido restrito, compreenderemos que a Cultura é a maneira pela qual os humanos se humanizam por meio de práticas que criam a existência social, econômica, política, religiosa, intelectual e artística.

A religião, a culinária, o vestuário, o mobiliário, as formas de habitação, os hábitos à mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-se com os mais velhos e os mais jovens, com os animais e com a terra, os utensílios, as técnicas, as instituições sociais (como a família) e políticas (como o Estado), os costumes diante da morte, a guerra, o trabalho, as ciências, a Filosofia, as artes, os jogos, as festas, os tribunais, as relações amorosas, as diferenças sexuais e étnicas, tudo isso constitui a Cultura como invenção da relação com o Outro.

Quem é o Outro? Antes de tudo, é a Natureza. A naturalidade é o Outro da humanidade. A seguir, os deuses, maiores do que os humanos, superiores e poderosos. Depois, os outros humanos, os diferentes de nós mesmos: os estrangeiros, os antepassados e os descendentes, os inimigos e os amigos, os homens para as mulheres, as mulheres para os homens, os mais velhos para os jovens, os mais jovens para os velhos, etc. Em sociedades como a nossa, divididas em classes sociais, o Outro é também a outra classe social, diferente da nossa, de modo que a divisão social coloca o Outro no interior da mesma sociedade e define relações de conflito, exploração, opressão, luta. Entre os inúmeros resultados da existência da alteridade (o ser um Outro) no interior da mesma sociedade, encontramos a divisão entre cultura de elite e cultura popular, cultura erudita e cultura de massa.

Estamos, agora, em condições de perceber por que as frases de nosso cotidiano sobre “cultos” e “incultos” indicam preconceitos e não conceitos. Que preconceitos?

● Aquele que ignora que, em sentido antropológico e histórico, todos os humanos são cultos, pois são todos seres culturais;

● Aquele que reduz a Cultura à escola e às belas-artes, sem se dar conta de que aquela e estas são efeito da vida cultural e um dos aspectos da Cultura, mas não toda a Cultura;

● Aquele que, partindo da Cultura como cultivo do espírito (obras de pensamento e obras de arte), ignora que a separação entre “cultos” e “incultos”, em sociedades divididas em classes sociais, é resultado de uma organização social que confere a alguns o direito de produção e acesso às obras, negando-o a outros, de tal maneira que, em lugar de um direito, tem-se, de um lado, privilégio e, de outro, exclusão. Em outras palavras, usa-se a Cultura como instrumento de discriminação social, econômica e política.

Novamente a História

Os estudiosos, partindo da filosofia da história e da antropologia, distinguem dois grandes tipos de cultura: a das comunidades e a das sociedades.

Uma comunidade é um grupo ou uma coletividade onde as pessoas se conhecem, tratam-se pelo primeiro nome, possuem contatos cotidianos cara a cara, compartilham os mesmos sentimentos e idéias e possuem um destino comum.

Uma sociedade é uma coletividade internamente dividida em grupos e classes sociais e na qual há indivíduos isolados uns dos outros. Seus membros não se conhecem pessoalmente nem intimamente. Cada classe social é antagônica à outra ou às outras, com valores e sentimentos diferentes e mesmo opostos. As relações não são pessoais, mas sociais, isto é, os indivíduos, grupos e classes se relacionam pela mediação de instituições como a família, a escola, a fábrica, o comércio, os partidos políticos e o Estado.

Os agrupamentos indígenas, por exemplo, são comunidades, portanto, internamente unos e indivisos. Em contrapartida, nós vivemos em sociedade e não em comunidade.

O tempo, nas comunidades, possui um ritmo lento, as transformações são raras e, em geral, causadas por um acontecimento externo que as afeta (por exemplo, a conquista e colonização branca imposta aos índios). Por isso, se diz que a comunidade está na História ou no tempo, mas não é histórica.

Ao contrário, a sociedade é histórica, ou seja, para ela as transformações são constantes e velozes, causadas pelas lutas e pelas divisões internas. Diz-se, então, que uma sociedade é histórica quando, para ela, ter uma história e estar no tempo são um problema, uma indagação que ela não cessa de responder. Por quê?

Uma comunidade baseia-se em mitos fundadores ou narrativas sobre sua origem e sobre o que nela aconteceu, acontece e acontecerá. Os mitos capturam o tempo e oferecem explicações satisfatórias para todos sobre o presente, o passado e o futuro.

Numa sociedade, porém, cada classe social procura explicar a origem da sociedade e de suas mudanças e, conseqüentemente, há diferentes explicações para o surgimento, a forma e a transformação sociais. Os grupos dominantes narram a história da sociedade de modo diferente e oposto à narrativa dos grupos dominados.

A classe que domina e a que é dominada possuem, portanto, concepções diferentes e contrárias sobre as causas dos acontecimentos, não havendo uma explicação única e idêntica para todos sobre a origem da sociedade e suas transformações. Eis, por que, para uma sociedade, ser histórica é um problema e não uma solução. Em outras palavras, enquanto o mito unifica o tempo comunitário, as histórias sociais multiplicam as interpretações sobre as causas e os efeitos temporais.

Finalmente, uma comunidade cria a mesma Cultura para todos os seus membros, mas numa sociedade isso não é possível, e as diferentes classes sociais produzem culturas diferentes e mesmo antagônicas. Por esse motivo é que as sociedades conhecem um fenômeno inexistente nas comunidades: a ideologia. Esta é resultado da imposição da cultura dos dominantes à sociedade inteira, como se todas as classes e todos os grupos sociais pudessem e devessem ter a mesma Cultura, embora vivendo em condições sociais diferentes.

A ideologia é uma das maneiras pelas quais as sociedades históricas buscam oferecer a imagem de uma única Cultura e de uma única história, ocultando a divisão social interna.

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Agenda PCB - Alegrete RS


Convite

O PCB - Partido Comunista Brasileiro - está convidando seus filiados e simpatizantes e até mesmo os que querem conhecer a proposta sem compromisso de filiação para uma reunião sábado dia 25/08/07, às 15:30 min. Na sede do Sinasefe- na rua Venâncio Aires - na frente do Hangar bar.

Assuntos: Data do encontro municipal com a presença da direção estadual. Nomes para compor a executiva municipal.

Compareçam camaradas.

Ass. Comissão Provisória PCB - Alegrete RS

Ousar lutar, ousar vencer.


Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

REFLEXÕES DO COMANDANTE-EM-CHEFE



Derrota moral sem precedentes do império


O primeiro ao fazer referência a este tema é recordar as palavras de Roberto González, advogado, filho de família cubana refugiada nos Estados Unidos durante a tirania que voltou quando triunfou a Revolução. Tanto ele como René nasceram nesse país durante a estada da sua família nesse país. Todo o tempo

tem batalhado em favor da liberdade de seu irmão René, que sofre cruel e injusta prisão junto com mais quatro heróis defensores de seu povo na luta contra o terrorismo.


O pior que pode acontecer é que devido ao sentimento de derrota e de vitória nos desmobilizemos. O caso dos Cinco o ganharemos quando eles estiverem em Havana... Este é um julgamento que você o ganha muitas vezes nos fatos e o perde em Direito, o perde na decisão dos juízes.”


Sabias e prudentes palavras de um verdadeiro perito batalhando contra o cinismo; ele próprio expressou seu assombro pelo acontecido.


Na Mesa Redonda foi explicada a importância que teve a participação na cidade de Atlanta de 73 personalidades com grande prestígio no mundo sobre questões ligadas ao Direito Internacional. Ali se fez evidente e incontestável a não existência dos delitos que lhes foram imputados aos acusados, com punições que foram aprovadas unanimemente por um júri supostamente imparcial, na pior comunidade do planeta para conseguir uma decisão justa. Há que ler textualmente e analisar o que expressaram na Mesa ou por telefone cada um dos que falaram e as afirmações dos que ainda faltam por falar.


Em casos reais de espionagem julgados recentemente nos Estados Unidos, a punição não ultrapassa os 10 anos. Aos nossos cinco compatriotas nem sequer puderam provar-lhes o cargo de conspiração para realizar espionagem. O destino cruel e insólito deles e de seus familiares obedece à política pérfida e confessa de Washington de aplicar o terrorismo contra o povo cubano, violando durante quase meio século as mais elementares normas das Nações Unidas e a soberania dos povos.


Há muitas coisas importantes que podem ser acrescentadas e estão provadas, mas hoje desejo ser breve para que estas palavras possam ser transcritas e publicadas pela imprensa nacional, o mais importante é que nosso povo desenvolva uma sólida e indestrutível consciência sobre estas realidades.


Fidel Castro Ruz,

22 de agosto de 2007

16h35


A alegoria da caverna (de Platão)


Convite à Filosofia

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. As suas pernas e os seus pescoços estão acorrentados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo a que se possa, na semi-obscuridade, ver o que se passa no interior.

A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguido um muro, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo desse muro/palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.

Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros vêem na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

Como nunca viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que vêem porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.

Que aconteceria, pergunta Platão, se alguém libertasse um dos prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, o muro, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, por ele seguiria.

Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira no mundo verdadeiro é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, veria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está a contemplar a própria realidade.

Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros tentariam ridicularizá-lo, não acreditariam nas suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com os seus gracejos, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade.

O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do sol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das idéias verdadeiras ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A filosofia. Por que é que os prisioneiros ridicularizam, espancam e matam o filósofo (Platão está a referir-se à condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense?)? Porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.

Marilena Chaui

Relendo Florestan

, por Gregório Durlo Grisa

Há uma produção epistemológica que nasce na população subordinada ou subalterna. Além de desconhecida é, principalmente, ignorada pelo pensamento hegemônico, o que reforça ainda mais a necessidade de criação dessa ciência genuinamente popular. Falar sobre esses povos explorados é uma condição que existe, entretanto constituir espaços onde as próprias populações criem essa nova forma teórica é outra situação. Os intelectuais brasileiros e a academia em si estão em meio a um paradoxo, pois com base teórica européia, suas produções não correspondem mais aos anseios de transformação da realidade. Isso ocorre pelo fato que salientamos acima, as referências e os teóricos não correspondem à condição de população subalterna.

Para que esse quadro se altere, é providencial a entrada dessa população no ensino superior, nos grupos de pesquisa, nas instituições políticas e em todos os espaços de produção científica. Nesse contexto as ações afirmativas ganham grande importância, pois do tensionamento político que existe nesse processo, nascerá uma contrapartida teórica por parte dessa população que está entrando, que começa a ter condições de contar sua história, de mostrar sua realidade, de problematizar as produções que falam dela à distância e que são tidas como verdades científicas.

Culturalmente, as cotas raciais representam não só uma espécie de “acerto de contas histórico”, mas o começo de um novo movimento da realidade, no sentido de dar aos povos subordinados, a oportunidade de mostrar e, principalmente, de criar sua epistemologia. Essa “representação popular” tem muito mais condições de responder aos problemas da sociedade, pois quem enfrenta, existencialmente, esses problemas são os pobres, os negros e os indígenas. A ciência brasileira necessita desses movimentos para se tornar autônoma e soberana em aspectos teóricos e práticos e, também, para ter compromisso com quem, definitivamente, precisa da imediata transformação das suas condições materiais de vida. As cotas podem tirar a academia brasileira desse cenário tradicional e monopolizado em que ela se encontra. “Não são os negros que precisam da universidade, mas a universidade que precisa deles”, afirma José Carlos dos Anjos, em uma palestra proferida na semana acadêmica de história, 2007/2.

O intelectual pode assumir uma posição político-epistemológica de tentar dar visibilidade às problemáticas e às vivências dos povos explorados historicamente, já que esses ainda não acessam os espaços onde poderiam difundir seu pensamento. O intelectual comprometido tem consciência de que, quando fala sobre as populações subordinadas, ele vai estar imerso no conhecimento cientifico tradicional e dominante. Essa mesma consciência lhe permite compreender que só um conhecimento feito pela classe popular pode ser realmente diferenciado e inovador.

Ainda há, sim, na academia brasileira, uma censura a esses intelectuais orgânicos que estão ao lado das camadas populares e transportam isso para a ciência, portanto o povo explorado, além de não ter o espaço para produzir cientificamente, é duplamente discriminado no que se refere à opressão que existe a esses intelectuais críticos.

No seu livro ‘Circuito Fechado’, no capitulo dois, Florestan Fernandes relata-nos uma pesquisa feita juntamente com o professor Roger Bastide, na cidade de São Paulo, onde foram realizadas observações, seminários e entrevistas com a comunidade negra, a fim de problematizar a questão racial no Brasil. Ele aponta os resultados que essa pesquisa alcançou, quando conseguiu, de certa forma, dar visibilidade científica para a dignidade histórica dos movimentos negros, para a herança intelectual e política do negro e, ainda, denunciou a miséria racial de uma sociedade que diz viver em uma ‘democracia racial’.



...as estruturas raciais da sociedade brasileira só poderão ser ameaçadas e destruídas quando ‘a massa de homens de cor’, ou seja, todo elemento negro, puder usar o conflito institucionalmente em condições de igualdade com o branco e sem nenhuma discriminação de qualquer espécie, o que implicaria em participação racial igualitária nas estruturas de poder da comunidade política nacional” (p.72, 1979).



Esse trecho parece extremamente atual, pois estamos passando por um conflito, dentro das universidades do país, no que se refere à implantação das cotas sociais e raciais. Com condições institucionais iguais, a discriminação pode não terminar completamente, mas ganhará uma dimensão diferente, pois com o poder de fazer política e ciência, o negro promoverá a emergência de uma nova visão cultural, e essa, gradativamente, irá constituir costumes, comportamentos e idéias que já não serão ‘secundárias ou inexistentes’ como considera a classe dominante. A partir daí, começa a brotar a força da grande intenção que se tem, que vai além da busca por uma verdadeira democracia racial, ou seja, a real transformação da sociedade. A luta pela igualdade racial é uma via para o grande objetivo, assim como a luta camponesa e a operária.

Segundo nosso entendimento ao ler Florestan, o objetivo da sua pesquisa era o de desenvolver uma consciência crítica e de classe no meio negro, pois se a luta for entendida só pelo aspecto racial, a ideologia e as formas dominantes irão se manter sempre em vantagem. E isso é mais radical para o cidadão branco comprometido, este deve compreender que a luta de classes entendida de forma isolada ou alienada é inócua, já que nessa luta pode haver elementos de discriminação e de impedimento da luta racial.

Existe, segundo Florestan, uma ligação dialética entre as lutas raciais e a luta de classes, mas as lutas ainda não estão unidas no que tange à prática social. Ele propõe a superação dessa situação, pois a interligação entre essas lutas é vigente em nossos dias. O povo pobre e explorado, trabalhador, sem oportunidade e violentado no seu íntimo pela negação das suas necessidades básicas, esse quer não só a mudança do quadro racial hipócrita brasileiro, mas também deve perceber que isso só ocorrerá com as mudanças na sociedade, com a revolução que desestabilize os meios de produção privados, que quebre com a cápsula branca e burguesa das instituições brasileiras em todas as instâncias.

O autor afirma que, com a pesquisa, o negro encontrou não só um ponto de apoio, mas também o ‘prestígio da ciência’. Esse prestígio vai seguir sendo o ‘possível’ enquanto não ocorrer o movimento de tomada, por partes das populações exploradas, dos espaços institucionais de construção de ciência. Já não se aceita só o prestígio, quer-se a chance de produzir e não de ser somente representado. Essa situação histórica que vivemos, de luta real por acesso, é fruto de todo compromisso e trabalho de intelectuais como Florestan, que foram contra as teorias e ideologias dominantes e marcaram suas produções pela defesa de uma transformação radical dessa sociedade desigual e de todas ramificações que advêm dessa desigualdade.

O controle social e político das instituições e dos meios de comunicação é tão fechado pela burguesia que essa não só decide sobre os caminhos da sociedade, como também escolhe quais os processos de tensão social podem surgir, salvam-se alguns focos minoritários de resistência em algumas realidades. A repressão está montada, primeiramente, como estrutura e depois, materialmente, pelos aparelhos repressivos do estado, de modo que uma luta racial que reivindique a transformação da ordem social seja literalmente enfrentada e atacada por todos os lados. Isso está posto de forma muito clara, vejamos o exemplo das cotas, que é uma luta por acesso ao ensino superior e que provocou resistência em todas camadas do controle social.

O grande mito sob o qual vivemos não é só o da democracia racial, mas sim, o da democracia como um todo. Esta 'organização democrática' em que vivemos, é democrática para poucos, principalmente, quando se trata de direitos e do atendimento das necessidades básicas das pessoas.

No decorrer do livro citado, há uma passagem onde o autor nos explica que a formação social brasileira ocasionou um violento processo de dominação política e econômica.



Essa modalidade de revolução capitalista forçou as elites das classes burguesas, privadamente e através do estado, a adotar formas de dominação econômica, sócio-cultural e política, especificamente, autocráticas e ultraconservadoras. Em conseqüência, o movimento que, em certos países da Europa e nos Estados Unidos gerou uma ordem burguesa aberta e democrática, no Brasil produziu uma ordem burguesa fechada e autocrática (p. 79, 1979).



Sendo assim, os espaços que os inconformismos e os movimentos sociais tiveram foi quase nulo. O negro brasileiro, sem a possibilidade de organização, passa a ser cooptado não só pelo mercado, mas também pela lógica do capitalismo, começando a entender que a grande questão agora é tentar, isoladamente, a elevação do seu patamar social. Ascensão econômica é entendida como mudança da situação social e racial, e o sucesso pessoal torna-se o grande objetivo, esse é o quadro que a população negra e despossuída encontra no Brasil, no pós décadas de 30 e 40, do século XX, período que Florestan analisa em seu livro.

O Estado se encontra de tal forma fechado que o negro internaliza valores e comportamentos capitalistas que não condizem com a sua história e seu verdadeiro compromisso de classe. A organização da sociedade é tão circunscrita e totalizante que os movimentos coletivos perdem o sentido na consciência de quem deveria construí-los. Na ditadura da minoria e do capital, não há brechas para um inconformismo crítico por parte das classes populares, com esse movimento da sociedade, a consciência racial e de classe se dilui em meio a um conjunto de valores e de consensos burgueses que naturalizam a discriminação e a desigualdade.

A estrutura social dominante impede que apareça toda e qualquer organização social que a desestabilize, restando como única possibilidade de inconformismo, os momentos de ascensão econômica, social e cultural do negro. Isso é parte do desenvolvimento histórico que nosso país vive, que deve existir, ainda que não vá eliminar as desigualdades sociais e raciais.

As dimensões racial e social de luta sofrem, segundo o autor, de um estado de separação ocasionado pelo desvio que o sistema capitalista estabelece nas organizações sociais e, por conseguinte, nas consciências populares. E ele afirma que:



Mantido semelhante paralelismo, qualquer padrão de relação racial igualitária e todo ordenamento de 'raça' e 'classe' em bases democráticas serão simplesmente inviáveis. Uma maior massa de negros se integrará nas várias classes existentes. Mas isso não romperá com as contradições raciais herdadas do passado e incorporadas ao regime de classe (p. 83, 1979).



Como já havíamos dito, existe uma ligação dialética entre as lutas de classe e racial, e a separação dessas esferas é estrategicamente feita, quando a ordem social pode ser alterada. Um olhar historicamente otimista pode surgir quando esses elementos, que são intimamente ligados na teoria, ganharem uma dimensão prática de possibilidade e não de contingência. Deve-se constituir meios pelos quais a sociedade se abra, no sentido de oportunizar a eclosão de movimentos populares que denunciem a exploração e a discriminação que sofrem.

Para a concretização de uma luta racial e de classe, conscientemente crítica, devemos trabalhar para que se desenvolva uma base material, psicológica e moral adequada. Com isso quero dizer que a nossa sociedade nos esconde essa base, não que ela não exista. Esconde através dos monopólios dos meios de comunicação, do sucateamento dos serviços públicos que deveriam atender às necessidades básicas do povo, dos processos repressivos do estado e das corporações econômicas detentoras dos meios de produção do campo e da cidade.

Portanto, só a conscientização puramente idealista não vai nos levar a nada. Sem que se mexa, de modo prático, em todos os elementos impeditivos das mudanças necessárias da realidade, não há esperanças de transformação. Com o engessamento da sociedade, nos moldes em que ela se encontra, as lutas e as inquietudes sociais ganham outras características, que vão ao encontro dos movimentos que possam ser aceitos pela sociedade de classes, enquanto esta se mantém intacta.

A entrada de grupos negros minoritários nas classes média e alta é um fenômeno que deveria se dar e está ocorrendo no processo histórico brasileiro, isso é importante, porém ocorre de forma extremamente dispersa e limitada. Esse fato é muito utilizado como exemplo pelos intelectuais do capital, na tentativa de justificar a desigualdade e promover a teoria da democracia racial e social. Essa ascensão social a que nos referimos deve acontecer e é considerável, entretanto, não se pode contentar-se com isso, haja vista que a imensa maioria do povo negro continuará em grande desvantagem, pois além de negro é também pobre e explorado.

No final do capítulo 2, do livro que venho citando, Florestan nos aponta que, com a industrialização maciça e com as relações que o povo negro vai constituindo, principalmente, nas grandes metrópoles, sua situação social mudou de padrão. Conforme o autor:



Os pontos de concentração das oportunidades econômicas, educacionais, intelectuais e políticas ainda são fracos ou débeis demais para quebrar as linhas tradicionais de desigualdade racial ou para 'fazer o branco engolir o seu orgulho'. Todavia, o negro deixou de ser o espectador à margem da vida e da história. (p.86 e 87,1979).



Entendi que essa mudança não significa uma transposição de classe ou superação da situação racial do país, mas uma nova caracterização, principalmente, do trabalho que passou de escravo e isolado para assalariado e coletivizado.



Se o passado não está extinto, as cicatrizes não dominam nem governam mais a vida do negro; e tão pouco o forçam a procurar o isolamento autoprotetivo, pelo qual se destruía, e a converter a desorganização pessoal, familiar e social em um multiplicador incontrolável de sua 'desgraça coletiva'.(p. 88, 1979).



Esse trecho retrata a opinião do autor de que a condição material do povo negro se alterou com o estabelecimento de novas relações espaciais e humanas. Ele se mostra consciente da necessidade de se fazer outras pesquisas sobre o tema, pela volatilidade dessas questões e por sua pesquisa ter sido feita somente na cidade de São Paulo, o que dificulta qualquer tentativa de generalização. Por fim, além de um relato, o texto em discussão é uma análise sociológica que nos provoca, no sentido de expor contradições de um período histórico que está muito vivo na contemporaneidade, de modo que vemos, na leitura, reflexões sobre problemas que estamos enfrentando no nosso cotidiano militante.

Ao estabelecer relações entre uma palestra organizada pela semana acadêmica da história, que teve como tema ‘A questão do debate racial’, e a leitura do texto de Florestan, desenvolvi essa resenha crítica. Fui escrevendo ao mesmo tempo em que lia e, ao passo em que eu articulava uma contribuição, na seqüência da leitura, notava que, de uma forma ou de outra, meu texto era contemplado no do autor, o que indica certa coerência na interpretação. Estou contando esse fato porque foi interessante a nitidez como isso aconteceu.




Referência Bibliográfica:

FLORESTAN, Fernandes. Circuito fechado: quatro ensaios sobre o ‘poder institucional’. São Paulo, HUCITEC, 1979. 2.ed.


Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

O MITO DA CAVERNA – 1ª PARTE

Esta narração mitológica não tem origem na tradição religiosa grega. Ela é um mito criado pelo filósofo Platão para explicar a diferença entre o conhecimento oriundo do senso comum, onde existem muitos enganos e falsas verdades, e o conhecimento filosófico, no qual se percebe o modo como uma falsa realidade nos é imposta.

Imaginem uma profunda e vasta caverna. No seu interior estão imobilizados e acorrentados vários prisioneiros. Seus rostos, sem possibilidade de se moverem, estão direcionados para uma das paredes da caverna. Bem atrás deles há um fogo, e entre o fogo e os prisioneiros há um muro. Ao longo deste muro passam homens, que arrastam diversos objetos das mais diversas formas conhecidas por nós sobre ele. Deste modo o fogo faz com que as sombras destes objetos se projetem na parede em frente aos prisioneiros. Assim estas sombras passam a ser a realidade para os prisioneiros, pois se acostumaram a vê-las desde a sua infância. Aqueles que carregam os objetos ao longo do muro emitem sons que os prisioneiros julgam ser das sombras (assim como acontece no cinema, o som não vem da tela, mas temos a impressão que ele vem dos lábios daqueales que na tela falam).

Imaginem agora que um destes prisioneiros se solta e comece a caminhar um pouco atordoado pela caverna. Ele fica meio desorientado e enxerga ao longe um pouco de luz. Ele vai se aproximando desta luz, mas quando chega muito perto dela, seus olhos não conseguem olhá-la por muito tempo, pois estavam muito acostumados com o escuro. Aos poucos sua visão passa a suportar cada vez mais a claridade. Até que ele consegue sair da caverna e olhar para a natureza, os animais e tudo mais. E enfim ele consegue olhar para o sol, a fonte de toda vida, a quem Platão associa a verdade.

Se você leitor, já assistiu ao filme Matrix, já pode observar algo semelhante. O mundo Matrix corresponde à falsa realidade a nós imposta, ou seja, as sombras na caverna. Não é fácil se libertar destas sombras assim como não é fácil se libertar do mundo Matrix. Mas o ser humano tem uma arma em suas mãos, ela se chama: BUSCA. A vida é uma eterna BUSCA, e o combustível desta BUSCA são as nossas paixões, não por pessoas, mas pelo conhecimento, pela arte, pelo mundo, pela natureza, etc. Enquanto estivermos apaixonados estaremos vivos.

Jorge Pessotti

O MITO DA CAVERNA – 2ª PARTE

Observamos anteriormente o modo pelo qual o prisioneiro se libertou das verdades ilusórias da caverna. Agora seria interessante nos perguntar: O que levou o prisioneiro a se desacorrentar de sua prisão? A resposta para esta pergunta está na teoria da alma do filósofo Platão. O prisioneiro se liberta impelido por forças existentes em sua própria alma.

São dois princípios que guiam o comportamento humano. Um representa a força do hábito ou da acomodação que faz com a pessoa se sinta contente com o mundo ao qual esta acostumada e não procura mudanças. O outro princípio é a força de eros, que faz com que a pessoa se sinta infeliz, insatisfeita e entediada no mundo ou na realidade em que vive, e a partir disso, ela é impelida procurar coisas novas, é estimulada a ir além e descobrir novos mundos e novas realidades.

É esta força de eros que leva o ser humano a pensar de um modo diferente do qual no passado pensava. É esta força que leva algumas pessoas a sonhar e imaginarem mundos novos. É esta pessoa que faz com que os poetas criem a poesia. É esta força que faz com que eu estude aquilo que eu amo. É esta força que fez com que Cristóvão Colombo encarasse o mar temido e desconhecido e chegasse até a América, este continente no qual vivemos.

Também podemos observar no mito da caverna uma idéia de Platão que é tão forte, que até hoje, aproximadamente vinte e três séculos atrás, ainda atua sobre nós. É a metáfora ou imagem do sol ou da luz como a verdade, como a idéia do bem ou como o esclarecimento. Ao mesmo tempo que ele enaltece a luz, ele despreza as trevas. E quem entre nós não prefere a luz às trevas?

Jorge Pessott

Alegoria da Caverna - Platão (clique na imagem para ler)
























Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

A invenção da crise


Marilena Chauí

Era o fim da tarde. Estava num hotel-fazenda com meus netos e resolvemos ver jogos do PAN-2007. Liguei a televisão e “caí” num canal que exibia um incêndio de imensas proporções enquanto a voz de um locutor dizia: “o governo matou 200 pessoas!”. Fiquei estarrecida e minha primeira reação foi típica de sul-americana dos anos 1960: “Meu Deus! É como o La Moneda e Allende! Lula deve estar cercado no Palácio do Planalto, há um golpe de Estado e já houve 200 mortes! Que vamos fazer?”. Mas enquanto meu pensamento tomava essa direção, a imagem na tela mudou. Apareceu um locutor que bradava: “Mais um crime do apagão aéreo! O avião da TAM não tinha condições para pousar em Congonhas porque a pista não está pronta e porque não há espaço para manobra! Mais um crime do governo!”. Só então compreendi que se tratava de um acidente aéreo e que o locutor responsabilizava o governo pelo acontecimento.
Fiquei ainda mais perplexa: como o locutor sabia qual a causa do acidente, se esta só é conhecida depois da abertura da caixa preta do avião? Enquanto me fazia esta pergunta e angustiada desejava saber o que havia ocorrido, pensando no desespero dos passageiros e de suas famílias, o locutor, por algum motivo, mudou a locução: surgiram expressões como “parece que”, “pode ser que”, “quando se souber o que aconteceu”. E eu me disse: mas se é assim, como ele pôde dizer, há alguns segundos, que o governo cometeu o crime de assassinar 200 pessoas?
Mudei de canal. E a situação se repetia em todos os canais: primeiro, a afirmação peremptória de que se tratava de mais um episódio da crise do apagão aéreo; a seguir, que se tratava de mais uma calamidade produzida pelo governo Lula; em seguida, que não se sabia se a causa do acidente havia sido a pista molhada ou uma falha do avião. Pessoas eram entrevistadas para dizer (of course) o que sentiam. Autoridades de todo tipo eram trazidas à tela para explicar porque Lula era responsável pelo acidente. ETC.
Mas de todo o aparato espetacular de exploração da tragédia e de absoluto silêncio sobre a empresa aérea, que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes entre 1996 e 2007 (incluindo o que matou o próprio dono da empresa!), o que me deixou paralisada foi o instante inicial do “noticiário”, quando vi a primeira imagem e ouvi a primeira fala, isto é, a presença da guerra civil e do golpe de Estado. A desaparição da imagem do incêndio e a mudança das falas nos dias seguintes não alteraram minha primeira impressão: a grande mídia foi montando, primeiro, um cenário de guerra e, depois, de golpe de Estado. E, em certos casos, a atitude chega ao ridículo, estabelecendo relações entre o acidente da TAM, o governo Lula, Marx, Lênin e Stálin, mais o Muro de Berlim!!!
1)Que papel desempenhou a mídia brasileira – especialmente a televisão – na “crise aérea” ?
Meu relato já lhe dá uma idéia do que penso. O que mais impressiona é a velocidade com que a mídia determinou as causas do acidente, apontou responsáveis e definiu soluções urgentes e drásticas!
Mas acho que vale a pena lembrar o essencial: desde o governo FHC, há o projeto de privatizar a INFRAERO e o acidente da GOL, mais a atitude compreensível de auto-proteção assumida pelos controladores aéreos foi o estopim para iniciar uma campanha focalizando a incompetência governamental, de maneira a transformar numa verdade de fato e de direito a necessidade da privatização. É disso que se trata no plano dos interesses econômicos.
No plano político, a invenção da crise aérea simplesmente é mais um episódio do fato da mídia e certos setores oposicionistas não admitirem a legitimidade da reeleição de Lula, vista como ofensa pessoal à competência técnica e política da auto-denominada elite brasileira. É bom a gente não esquecer de uma afirmação paradigmática da mídia e desses setores oposicionistas no dia seguinte às eleições: “o povo votou contra a opinião pública”. Eu acho essa afirmação o mais perfeito auto-retrato da mídia brasileira!


Do ponto de vista da operação midiática propriamente dita, é interessante observar que a mídia:
a)não dá às greves dos funcionários do INSS a mesma relevância que recebem as ações dos controladores aéreos, embora os efeitos sobre as vidas humanas sejam muito mais graves no primeiro caso do que no segundo. Mas pobre trabalhador nasceu para sofrer e morrer, não é? Já a classe média e a elite... bem, é diferente, não? A dedicação quase religiosa da mídia com os atrasos de aviões chega a ser comovente..

b)noticiou o acidente da TAM dando explicações como se fossem favas contadas sobre as causas do acontecimento antes que qualquer informação segura pudesse ser transmitida à população. Primeiro, atribuiu o acidente à pista de Congonhas e à Infraero; depois aos excessos da malha aérea, responsabilizando a ANAC; em seguida, depois de haver deixado bem marcada a responsabilidade do governo, levantou suspeitas sobre o piloto (novato, desconhecia o AIRBUS, errou na velocidade de pouso, etc.); passou como gato sobre brasas acerca da responsabilidade da TAM; fez afirmações sobre a extensão da pista principal de Congonhas como insuficiente, deixando de lado, por exemplo, que a de Santos Dumont e Pampulha são menos extensas;
c)estabeleceu ligações entre o acidente da GOL e o da TAM e de ambos com a posição dos controladores aéreos, da ANAC e da INFRAERO, levando a população a identificar fatos diferentes e sem ligação entre si, criando o sentimento de pânico, insegurança, cólera e indignação contra o governo Lula. Esses sentimentos foram aumentados com a foto de Marco Aurélio Garcia e a repetição descontextualizada de frases de Guido Mântega, Marta Suplicy e Lula;
d)definiu uma cronologia para a crise aérea dando-lhe um começo no acidente da GOL, quando se sabe que há mais de 15 anos o setor aéreo vem tendo problemas variados; em suma, produziu uma cronologia que faz coincidir os problemas do setor e o governo Lula;
e)vem deixando em silêncio a péssima atuação da TAM, que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes, desde 1996, três deles ocorridos em Congonhas e um deles em Paris – e não dá para dizer que as condições áreas da França são inadequadas! A supervisão dos aparelhos é feita em menos de 15 minutos; defeitos são considerados sem gravidade e a decolagem autorizada, resultando em retornos quase imediatos ao ponto de partida; os pilotos voam mais tempo do que o recomendado; a rotatividade da mão de obra é intensa; a carga excede o peso permitido (consta que o AIRBUS acidentado estava com excesso de combustível por haver enchido os tanques acima do recomendado porque o combustível é mais barato em Porto Alegre!); etc.
f)não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que Congonhas, entre 1986 e 1994, só fazia ponte-aérea e, sem mais essa nem aquela, desde 1995 passou a fazer até operações internacionais. Por que será? Que aconteceu a partir de 1995?

g)não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que, desde os anos 1980, a exploração imobiliária (ou o eterno poder das construtoras) verticalizou gigantesca e criminosamente Moema, Indianópolis, Campo Belo e Jabaquara. Quando Erundina foi prefeita, lembro-me da grande quantidade de edifícios projetados para esses bairros e cuja construção foi proibida ou embargada, mas que subiram aos céus sem problema a partir de 1993. Por que? Qual a responsabilidade da Prefeitura e da Câmara Municipal?

2)Como a sra. avalia a reação do Governo Lula à atuação da mídia nesse episódio?

Fraca e decepcionante, como no caso do mensalão. Demorou para se manifestar. Quando o fez, se colocou na defensiva.
O que teria sido politicamente eficaz e adequado?

Já na primeira hora, entrar em rede nacional de rádio e televisão e expor à população o ocorrido, as providências tomadas e a necessidade de aguardar informações seguras.
Todos os dias, no chamado “horário nobre”, entrar em rede nacional de rádio e televisão, expondo as ações do dia não só no tocante ao acidente, mas também com relação às questões aéreas nacionais, além de apresentar novos fatos e novas informações, desmentindo informações incorretas e alertando a população sobre isso.
Mobilizar os parlamentares e o PT para uma ação nacional de informação, esclarecimento e refutação imediata de notícias incorretas.
3)Em “Leituras da Crise”, a sra. discute a tentativa do impeachment do Presidente na chamada “crise do mensalão”. A sra. vê sinais de uma nova tentativa de impeachment ?
Sim. Como eu disse acima, a mídia e setores da oposição política ainda estão inconformados com a reeleição de Lula e farão durante o segundo mandato o que fizeram durante o primeiro, isto é, a tentativa contínua de um golpe de Estado. Tentaram desestabilizar o governo usando como arma as ações da Polícia Federal e do Ministério Público e, depois, com o caso Renan (aliás, o governador Requião foi o único que teve a presença de espírito e a coragem política para indagar porque não houve uma CPI contra o presidente FHC, cuja história privada, durante a presidência, se assemelhou muito à de Renan Calheiros). Como nenhuma das duas tentativas funcionou, esperou-se que a “crise aérea” fizesse o serviço. Como isso não vai acontecer, vamos ver qual vai ser a próxima tentativa, pois isso vai ser assim durante quatro anos.
4)No fim de “Simulacro e Poder” a sra. diz: “... essa ideologia opera com a figura do especialista. Os meios de comunicação não só se alimentam dessa figura, mas não cessam de instituí-la como sujeito da comunicação ...Ideologicamente ... o poder da comunicação de massa não é igual ou semelhante ao da antiga ideologia burguesa, que realizava uma inculcação de valores e idéias. Dizendo-nos o que devemos pensar, sentir, falar e fazer, (a comunicação de massa) afirma que nada sabemos e seu poder se realiza como intimidação social e cultural... O que torna possível essa intimidação e a eficácia da operação dos especialistas ... é ... a presença cotidiana ... em todas as esferas da nossa existência ... essa capacidade é a competência suprema, a forma máxima de poder: o de criar realidade. Esse poder é ainda maior (igualando-se ao divino) quando, graças a instrumentos técnico-científicos, essa realidade é virtual ou a virtualidade é real...” Qual a relação entre esse trecho de “Simulacro e Poder” e o que se passa hoje ?
Antes de me referir à questão do virtual, gostaria de enfatizar a figura do especialista competente, isto é, daquele é supostamente portador de um saber que os demais não possuem e que lhe dá o direito e o poder de mandar, comandar, impor suas idéias e valores e dirigir as consciências e ações dos demais. Como vivemos na chamada “sociedade do conhecimento”, isto é, uma sociedade na qual a ciência e a técnica se tornaram forças produtivas do capital e na qual a posse de conhecimentos ou de informações determina a quantidade e extensão de poder, o especialista tem um poder de intimidação social porque aparece como aquele que possui o conhecimento verdadeiro, enquanto os demais são ignorantes e incompetentes. Do ponto de vista da democracia, essa situação exige o trabalho incessante dos movimentos sociais e populares para afirmar sua competência social e política, reivindicar e defender direitos que assegurem sua validade como cidadãos e como seres humanos, que não podem ser invalidados pela ideologia da competência tecno-científica. E é essa suposta competência que aparece com toda força na produção do virtual.
Em “Simulacro e poder” em me refiro ao virtual produzido pelos novos meios tecnológicos de informação e comunicação, que substituem o espaço e o tempo reais – isto é, da percepção, da vivência individual e coletiva, da geografia e da história – por um espaço e um tempo reduzidos a um única dimensão; o espaço virtual só possui a dimensão do “aqui” (não há o distante e o próximo, o invisível, a diferença) e o tempo virtual só possui a dimensão do “agora” (não há o antes e o depois, o passado e o futuro, o escoamento e o fluxo temporais). Ora, as experiências de espaço e tempo são determinantes de noções como identidade e alteridade, subjetividade e objetividade, causalidade, necessidade, liberdade, finalidade, acaso, contingência, desejo, virtude, vício, etc. Isso significa que as categorias de que dispomos para pensar o mundo deixam de ser operantes quando passamos para o plano do virtual e este substitui a realidade por algo outro, ou uma “realidade” outra, produzida exclusivamente por meios tecnológicos. Como se trata da produção de uma “realidade”, trata-se de um ato de criação, que outrora as religiões atribuíam ao divino e a filosofia atribuía à natureza. Os meios de informação e comunicação julgam ter tomado o lugar dos deuses e da natureza e por isso são onipotentes – ou melhor, acreditam-se onipotentes. Penso que a mídia absorve esse aspecto metafísico das novas tecnologias, o transforma em ideologia e se coloca a si mesma como poder criador de realidade: o mundo é o que está na tela da televisão, do computador ou do celular. A “crise aérea” a partir da encenação espetacularizada da tragédia do acidente do avião da TAM é um caso exemplar de criação de “realidade”.
Mas essa onipotência da mídia tem sido contestada socialmente, politicamente e artisticamente: o que se passa hoje no Iraque, a revolta dos jovens franceses de origem africana e oriental, o fracasso do golpe contra Chavez, na Venezuela, a “crise do mensalão” e a “crise aérea”, no Brasil, um livro como “O apanhador de pipas” ou um filme como “Filhos da Esperança” são bons exemplos da contestação dessa onipotência midiática fundada na tecnologia do virtual.
Pedi à professora Marilena Chauí para responder a essas três perguntas para usar no curso sobre “Telejornalismo” que dou, no momento, na Casa do Saber, em São Paulo. (http://www.casadosaber.com.br/)
Esse texto entra no ar, aqui no iG, no Conversa Afiada, ao mesmo tempo em que os alunos do curso recebem uma cópia.
Os livros citados são: “Leituras da Crise”- “Diálogos sobre o PT, a Democracia Brasileira e o Socialismo”, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2006, com entrevistas também de Leonardo Boff, João Pedro Stedile e Wanderley Guilherme dos Santos; e “Simulacro e Poder” – Uma Análise da Mídia” – Marilena Chauí, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2006. (PHA)

Felicitación de su Pueblo




Cubanos celebran cumpleaños 81 del presidente Fidel Castro
TeleSUR _13/08/07 - 08:53 CCS | enviar | imprimir

El pueblo cubano celebra, desde la medianoche del domingo, el cumpleaños 81 del presidente Fidel Castro. Fuegos artificiales, actividades lúdicas organizadas por la Unión de Jóvenes Comunistas (UJC) y el Comité Organizador del Carnaval de La Habana y numerosos mensajes de felicitación publicados en la prensa local, dieron inicio a los festejos.

Tras 600 atentados contra su vida y resistir, desde 1962, un bloqueo que ha causado pérdidas a Cuba de alrededor de 700 millones de dólares anuales, el presidente Fidel Castro arribó a los 81 años.

Nacido en Birán (oriente) el 13 de agosto de 1926, el presidente Fidel Castro recibió, desde el primer minuto del día, expresiones de felicitación de su pueblo.
A la medianoche del domingo, se desplegaron espectáculos de fuegos pirotécnicos en distintos puntos de la isla.

La agencia local Ain destacó que la Unión de Jóvenes Comunistas (UJC) y el Comité Organizador del Carnaval de La Habana organizaron actividades lúdicas en varios espacios públicos de Cuba.

El diario Juventud Rebelde destacó la labor del mandatario cubano como articulista y tituló "Fidel periodista" un trabajo en sus páginas centrales, en reconocimiento de los 36 artículos que ha escrito desde el 29 de marzo.

"No se puede diferenciar entre el estadista excepcional, la personalidad ilustrísima de la historia de la humanidad, el guerrillero, el revolucionario y el periodista", aseguró el periódico cubano.

Por su parte, el miembro del Buró Nacional de la Unión de Jóvenes Comunistas (UJC), Ernesto Fernández, expresó en el diario palabras de reconocimiento para el mandatario cubano: "El reto más importante que tiene nuestra generación hoy por delante es no defraudar esa confianza de Fidel y el Partido (Comunista de Cuba)".

El Semanario Tribuna de La Habana se unió a las felicitaciones y expresó al líder cubano que "en las nuevas circunstancias que enfrentamos mantenga la certeza de que la consigna Comandante en Jefe, ordene, será por siempre nuestro grito de guerra".

Mientras tanto, ex combatientes y dirigentes cubanos le dedicaron al presidente Fidel Castro el libro "Memorias de la Revolución", texto que recoge vivencias de la lucha contra la dictadura de Fulgencio Batista (1952-1958).

Campanha de Solidariedade às Bibliotecas do MST


30/07/2007

Estimado amigo e amiga do MST,

Em mais de duas décadas de lutas, aprendemos que é preciso romper não apenas as cercas do latifúndio, mas também derrubar as cercas que impedem o acesso ao conhecimento. Com essa lição, erguemos nossas escolas itinerantes, construímos mais de 2 mil escolas de ensino fundamental, além de cursos de educação de jovens e adultos, ensino médio e técnico. Hoje podemos nos orgulhar dos 5 mil jovens que cursam graduação e pós-graduação em diversos convênios com universidades e dos mais de 17.500 adultos em processo de alfabetização, tanto quanto nos orgulhamos dos assentamentos que conquistamos.

Historicamente, aprendemos também o valor da solidariedade – no sentido mais nobre – o de darmos aquilo que nos faltará e não aquilo que nos sobra. E sabemos que muitos dos méritos da luta pela Reforma Agrária provêm dessa solidariedade que recebemos de milhares de amigos e amigas como você. Assim foi, por exemplo, com a construção da Escola Nacional Florestan Fernandes, Guararema-SP, símbolo do encontro destes dois esforços, a solidariedade e o nosso desejo de aprender. E, novamente, queremos realizar o encontro destes dois princípios e valores, o estudo e a solidariedade.

De agosto a dezembro de 2007, estaremos mobilizados em torno da CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE ÀS BIBLIOTECAS DO MST: APOIE A REFORMA AGRÁRIA – DOE LIVROS! Temos a honra de ter como patrono o professor Antonio Candido, um dos maiores e melhores intelectuais que o Brasil produziu nos últimos anos, cujas palavras resumem bem o espírito da nossa Campanha: “Não ter acesso ao livro é ser privado de um alimento fundamental”.

Nossa finalidade é construir Bibliotecas Populares nas áreas de assentamentos e acampamentos, e, ampliar o acervo das mais de 40 bibliotecas já existentes em nossas escolas e centros de formação. Uma Campanha sem limites, seja de quantidade ou de áreas de conhecimento.

As doações podem ser de livros, mapas, e audiovisuais, incluindo filmes, discos e Cds, material que será destinado às bibliotecas já existentes nos estados, e, também, para a criação de novas bibliotecas comunitárias nos assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária.

Através do contato com os responsáveis em cada estado, vamos receber as doações ou retirá-las onde for necessário. Abaixo, está a lista dos responsáveis pela campanha e como encontrá-los. Se você é de um estado onde a Campanha ainda não está acontecendo, você pode fazer sua doação entrando em contato através do correio eletrônico: campanhabiblioteca@enff.org.br, ou com a Secretaria do MST no seu estado.

Queremos pão. Queremos rosas. Queremos acesso às diferentes culturas produzidas pela humanidade, tão imensa e tão contraditória. “Queremos uma vida verdadeira” como já dizia o poeta. Queremos muitas bibliotecas, sejam itinerantes ou fixas, em todas as nossas comunidades. Estamos certos de que este grande esforço coletivo levantará não só milhares de livros para nossos jovens, crianças, mulheres e homens do campo, mas possibilitará uma vida mais humana, mais plena e livre. E uma pátria mais justa e soberana! Contamos mais uma vez com seu apoio e solidariedade para mais uma missão nobre, que será o ato de buscar alimento à alma e à consciência, obtendo bons livros.

Veja quem já declarou apoio a nossa Campanha

Contatos da Campanha de Doação de Livros

Direção Nacional do MST
Escola Nacional Florestan Fernandes
Instituto Nacional de Educação Josué de Castro

Contatos da Campanha de Doação de Livros

31/07/2007

Contatos no Estados:

1. São Paulo – Rosana Santos - rosanamst@yahoo.com.br ou rosana_mst@hotmail.com;
Secretaria Estadual SP: mstsp@mst.org.br.
Tel.: (11) 3663-1064 e Secretaria Nacional do MST: secgeral@mst.org.br.
Tel. (11) 3361 - 3866, com Andrea Francine.
2. Rio de Janeiro – Mariana Duque - marianaduque@mst.org.br;
Secretaria Estadual RJ: secretariamst.rj@gmail.com.
Tel.: (21) 2240-8496.
3. Minas Gerais – Sueli Maria - sucachoeira@yahoo.com.br;
Secretaria Estadual MG: mstmg@mst.org.br.
Tel.: (31)3222 - 3879.
4. Rio Grande do Sul – Cedenir Engelmann - cedernire@yahoo.com.br;
Secretaria Estadual RS: mstrs@mst.org.br.
Tel.: (51) 3221 - 9022.
5. Paraná – Rodrigo Cordeiro ou Edilson- microbiosdomst@yahoo.com.br;
Secretaria Estadual PR: mstpr@mst.org.br.
Tel.: (41) 3324-7000.
6. Pernambuco – Alexsandra Rodrigues - lecamst@yahoo.com.br;
Secretaria Estadual PE: mstpebr@gmail.com
ou acape.pe@gmail.com. Tel.: (81) 3722- 3136.
7. Ceará – Erivando Barbosa ou Vera Lucia- erivandobarbosa@yahoo.com.br;
Secretaria Estadual CE: mstce@terra.com.br.
Tel.: (85) 3257-5630 ou 3472-6089.
8. Brasília – Janderson Barros- jandersonmst@yahoo.com.br;
Secretaria Estadual DF: mstdfe@mst.org.br.
Tel.: (61) 3322- 5035.

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Veja quem já declarou apoio a nossa Campanha

31/07/2007




“O MST está promovendo uma campanha admirável para a elevação do nível cultural do trabalhador rural brasileiro. Essa elevação é fundamental para que ele possa reivindicar os seus direitos da melhor maneira possível, e para isso é indispensável que ele conte
com instrumento de instrução, o principal dos quais é o livro. Por isso a biblioteca das instituições do MST, ela é sempre um instrumento fundamental, e quem doar livros para essa biblioteca, ou para essas bibliotecas, estará contribuindo para esse objetivo de elevação do trabalhador rural brasileiro.” Antonio Candido, professor da USP, critico literário




Além do professor Antonio Candido, nosso patrono, veja abaixo outras personalidades que também apóiam a Campanha.

“A luta pelo socialismo acontece aqui e agora, e os livros são alicerces para a formação e construção da igualdade, liberdade e solidariedade. Ficamos felizes ao conhecer a Campanha “Apóie a Reforma Agrária, doe livros!”. O coletivo do nosso mandato parlamentar soma-se à iniciativa do MST, através da Casa do Mandato, espaço de atividades em Guarulhos (SP), e do gabinete em Brasília. Parabéns!” Janete Rocha Pietá, deputada federal PT/SP.

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“Eu faço questão de participar desse projeto porque acho muito importante colaborar com essa iniciativa de doação de livros para formar bibliotecas para o Movimento porque é aí que está se plantando as bases para a construção de uma nova sociedade baseada na cultura, na educação. E o MST é um dos principais movimentos sociais do Brasil, e é importantíssimo que se tenha o máximo de parcerias desse tipo. E eu faço questão de dar minha participação apelando inclusive para a consciência das pessoas da importância da formação dessas bibliotecas.” Fred 04, compositor, vocalista do Mundo Livre S/A

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“Como temos vivido aqui muitos anos a problematização da terra, a gente sente a missão do MST como indispensável. E quero dar todo o respaldo possível a essa bela, necessária campanha de doação de livros, cds, livros novos ou velhos, discos, publicações. O MST quer a terra e quer também a saúde, a educação. Quem dá um bom livro, abre uma janela para o futuro. O MST em meio a vários movimentos tem mostrado uma consciência e uma vontade de integrar todas as reivindicações para que o povo do campo seja consciente, culto, livre, solidário. E essa campanha será uma boa ocasião. Queremos Reforma Agrária, queremos reforma educacional, queremos terra, queremos livros.” Dom Pedro Casaldáliga, Bispo Emérito MT

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“Eu fui alfabetizado com seis anos, mas aos dezesseis eu aprendi a ler de verdade. Aprendi a saber que os livros eram a maior fonte de informação e que poderiam mudar as minhas atitudes, as minhas ações. Doe livros para o MST. Valeu.” Marcelo Yuka, músico e compositor

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“Devemos fazer as doações ao MST porque os livros querem ser lidos pelos trabalhadores Sem Terra e porque os trabalhadores Sem Terra lutam para ser trabalhadores com terra e com livros também.” Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio

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“O MST é o mais importante movimento de massa do mundo e tem registros de importantes conquistas. Se conseguir levar adiante os programas educacionais em que está atualmente engajado, uma das maiores barreiras para o desenvolvimento perderá força, quem sabe até pode ser ultrapassada. O MST pode ajudar o Brasil a alcançar o brilhante futuro que o povo do “colosso do Sul” merece. Doar livros para as bibliotecas do Movimento será uma grande contribuição para ajudar o Movimento a realizar as suas importantes tarefas.” Noam Chomsky, linguista do EUA.

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“Eu penso que o MST tem um sonho. Ele sonha que podemos viver numa sociedade justa. É por isso que ele luta pelo respeito dos direitos do cidadão, começando pelo direito à terra e pelo direito à educação.Com a inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes, o MST deu um passo decisivo para a realização de seu sonho. Já são mais de 30 turmas de trabalhadores rurais que estão se apropriando do saber erudito do qual permaneciam excluídos. Mas ainda há muito o que fazer. Hoje, mais do que nunca, precisamos de livros, muitos livros, todos os livros que a biblioteca da escola já se organizou para receber. Contribua para a realização de um sonho de uma sociedade justa. Doe livros para a Escola Nacional. Heloísa Fernandes, socióloga da USP e professora

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“Eu queria fazer um apelo a vocês: leitores e editores. Doem livros para as bibliotecas dos assentamentos, do acampamentos, das escolas rurais, porque eles serão muito bem aproveitados. São jovens e adultos interessados em todo tipo de literatura. Portanto, não deixe o teu livro dormitar nas estantes sem aproveitamento. Doe, compre, e você que é editor, sobretudo, pode fazer uma boa contribuição aos militantes e participantes do MST.” Frei Beto, escritor e assessor dos movimentos populares.

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“Eu quero dizer aos meus companheiros do MST que eles trabalhem muito nessa doação de livro para que eles signifiquem elevação do número de leitores. Quem lê não apenas sabe mais, valhe mais como pessoa humana. Quem lê vai aprender as razões pelas quais é oprimido, pelas quais está deserdado e afastado dos benefícios que a vida tem para enaltercer a mais velha condiçaõ que é a condição huimana. É lendo que se avança pelo caminho da vida, pelo conhecimento. Vamos plantar o caminho da esperança através da leitura.” Thiago de Mello, poeta

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“Estou participando com muito orgulho e com muito empenho para essa campanha do MST para arrecadação de livros. Livros são fontes inesgotáveis de conhecimento, de sabedoria, e portanto, de poder. Portanto, se você possui na sua casa livros que você pode dispor, livros duplicados, livros que você não vai ler mais, que estão parados, entre nessa campanha do MST, doe seus livros, facilite a vida de quem que ler! Ajude ao MST a formar essas lindas bibliotecas Brasil a fora. Vamos ajudar o MST a disseminar pelo Brasil a fora o hábito da leitura. Doe livros para o MST.” Paulo Betty, ator

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“O livro tem algo de imortal e cada livro fala a todas as gerações é importante que o pessoal do MST se façam amigos dos livros. Os livros são condutores dos povos. É importante que as pessoas que tem livros em casa que já leram, que doem livros, que ajudem ao MST a formar bibliotecas. Por favor, se puder faça um esforço de doar livros para ajudar a formar bibliotecas do MST.” Leonardo Boff, escritor, teólogo e filosofo

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O medo à serviço do neoliberalismo


15/05/2006



Para socióloga, sentimento é usado pelas elites para deixar a sociedade brasileira paralisada e despolitizada

Ao longo da história da humanidade o medo sempre foi usado para dominar e controlar a sociedade. No Brasil, em específico, a utilização deste sentimento, difundido pelos grandes meios de comunicação, criminaliza as ações populares e os movimentos sociais. Esta é a idéia defendida pela socióloga Vera Malaguti Batista, que realizou uma pesquisa histórica, que mostra como o medo, desde a época da colonização é usado para manter as hierarquias, deixando a sociedade mais conservadora. “Sempre os movimentos do povo brasileiro são tratados como crime, baderna, bagunça, caos. Acredito que esta é uma recorrência histórica para manter uma ordem que é muito parecida com a escravocrata imperial”, afirma.

De acordo com Vera, nesta estratégia promovida desde sempre pela elite brasileira, os meios de comunicação de massa são uma ferramenta eficaz. “No Brasil, uma das coisas mais assustadoras é o domínio da alma e das mentes do povo brasileiro pelo monopólio da televisão. A existência de um discurso único faz com que o MST apareça sempre como uma ameaça e não como uma grande luta do povo brasileiro por sua soberania”.

Em entrevista ao Jornal Sem Terra, a socióloga defende que, para barrar esta situação, os movimentos sociais brasileiros devem se unir na luta contra o monopólio dos meios de comunicação. “Hoje em dia, defendo que esta é uma luta que deveria ser considerada prioridade”.

Jornal Sem Terra – Como o neoliberalismo usa o medo para manter sua dominação e exploração?

Vera Malaguti – Realizei um estudo da história do Brasil e principalmente do Rio de Janeiro, sobre os medos que apareciam no século 19. Minha primeira observação foi que a elite, quando quer descartar a massa trabalhadora brasileira, desenvolve, principalmente através da imprensa, uma estratégia para demonizar as ações populares.

Historicamente, há uma maneira de olhar o povo brasileiro como uma ameaça, principalmente a juventude popular. Na minha pesquisa de mestrado, trabalhei drogas e juventude na capital carioca e descobri que, se um menino negro e morador da favela for pego com a mesma quantidade de droga que um menino branco, morador da zona sul, os discursos construídos pelo sistema serão completamente diferentes.

Um será dependente, o outro traficante. Porque este outro representa o povo a quem sempre é lançado um olhar de desconfiança.

No século 19, a cidade do Rio de Janeiro contava com a maior concentração de africanos das Américas. A cidade branca e proprietária usava o tempo todo o discurso do medo. No entanto, quem vivia sobre condições horríveis de vida era a população africana, que era açoitada, mal tratada e submetida às piores condições de trabalho. Por isso, ali existia uma situação social explosiva.

Ao invés de se trabalhar os conflitos pela via social, o discurso do medo faz com que o Estado deixe de atender a população para construir um sistema penal. Desde que o neoliberalismo se instalou no Brasil, com maior intensidade a partir de 1994, nós tivemos a população penitenciária quintuplicada. O Ministério da Justiça trabalha com a perspectiva de que, em 2007, o Brasil tenha 500 mil presos. Em 94 este número ficava em torno de 100 mil. O que assistimos hoje é um movimento de criação de precariedade social, desemprego, destruição dos laços coletivos, despolitização e a criminalização da pobreza.

O MST é um exemplo disso. O Movimento tem uma luta legítima que vem desde sempre na história do Brasil. É o que o professor e filósofo Marildo Menegatti chama de revoluções adiadas.

JST – Quais as conseqüências que isso tem para a sociedade brasileira?

VM - Na década de 60, durante o governo de João Goulart, quando se discutia as reformas de base, o medo da revolução, da violência foi se destilando pela imprensa, quando na verdade aquele era o momento em que a mobilização do povo brasileiro tentava avançar. Hoje existe, não só a criminalização do MST, mas do trabalho precário (flanelinhas e camelôs), dos meninos e meninas que vivem na rua. Um país decente olharia para estas crianças que estão jogadas nas calçadas com um olhar solidário, que reconheceria neles, seus filhos. No entanto, o medo faz com que a sociedade erga mais prisões, mais grades, mais muros, intensificando o distanciamento entre a pobreza e uma pequena elite que acumula cada vez mais riquezas. O mais curioso e absurdo disso tudo é que é esta burguesia a mais protegida, a que mais tem seu medo mais divulgado. Enquanto quem vive a barbárie, é a população pobre do campo e da cidade.

Por tudo isso o medo é um instrumento fundamental para se manter a hierarquia da sociedade. No século 19, não existia nada mais legítimo do que a rebelião escrava, dada a condição que estas pessoas viviam. No entanto, a imprensa naquela época se referia aos quilombos da mesma forma com que hoje os meios de comunicação mostram a favela, o baile funk, o comércio de drogas, os camelôs. Os grandes nós que existem na sociedade brasileira, como o acesso à terra e à educação, tem sua origem na maneira com que o Brasil se construiu: excluindo seu povo das riquezas.

O medo é uma ferramenta fundamental para manter este mecanismo porque ele é paralisante e torna a sociedade conservadora. Uma população que teme a favela vai querer que se extermine seus moradores. Por isso, a morte diária dos jovens de lá é vista como algo natural. Da mesma forma com que no século 19, os capoeiras eram exterminados porque representavam uma ameaça à sociedade escravocrata. Quando olhamos para a realidade atual, percebemos que as questões do século 19 permanecem. Sempre os movimentos do povo brasileiro são tratados como crime, baderna, bagunça, caos. Acredito que isso é uma recorrência histórica para manter esta ordem que é muito parecida com a escravocrata imperial.

O medo deixa a sociedade engessada e conservadora. Ele não é um sentimento libertador, pelo contrário, faz com que as pessoas se fechem, desconfiem uma das outras. Ao longo da história da humanidade, este sentimento foi de grande uso. O nazismo, a Inquisição da Igreja, os Estados Unidos com a perseguição ao Islã, são exemplos claros. A eleição de um inimigo cria a propagação do medo, que produz resultados concretos, como a criminalização das lutas sociais, a criação de bodes expiatórios, a obsessão pela segurança pública. Se nós discutíssemos estas questões sem a propagação do medo promovida pelos meios de comunicação, estaríamos falando sobre Reforma Agrária, educação pública, programas sociais, saúde, trabalho. Entretanto, quanto mais inseguros ficamos no neoliberalismo com relação à garantias trabalhistas, acesso à saúde; quanto mais desamparados nos sentimos nesta ordem econômica, mais conservadores nos tornamos.

JST – E qual o papel dos meios de comunicação nesta estratégia?

VM – Os meios de comunicação são os protagonistas desta história. Sem eles, não seria possível difundir o medo. Os movimentos sociais e populares são vistos como uma ameaça à ordem, o que faz com que a sociedade conceda uma resposta penal e não política, econômica e social à estes casos. Este mecanismo é muito eficaz para manter as coisas como estão por muitos anos na nossa sociedade. No Brasil, uma das coisas mais assustadoras é o domínio da alma e das mentes do povo brasileiro pelo monopólio da televisão. A existência de um discurso único televisivo faz com que o MST apareça sempre como assustador e violento e não como uma grande e bonita luta do povo brasileiro por sua soberania. A gente tem o monopólio dos meios de comunicação e um discurso único que trabalha o medo o tempo todo. É um mecanismo sutil e subjetivo, mas que tem um poder extraordinário.

Um exemplo é o que está acontecendo na Bolívia com a nacionalização do gás. Os bolivianos estão exercendo seu direito soberano de se apropriar das suas riquezas naturais. No entanto, os meios de comunicação provocam uma falsa crise, constróem uma outra realidade para nos afastar das conquistas do povo boliviano e também do venezuelano, o que provoca a desagregação deste momento histórico que vivemos na América Latina. O medo do Chávez, do Fidel representa os grandes fantasmas da América Latina porque simboliza o povo.

JST – Este receio aparece, de certa forma, na inscrição ordem e progresso que está no símbolo máximo do país, que é a bandeira nacional.

VM – Sim, e neste tipo de ordem a hierarquia social não pode ser questionada. Cada um tem que ficar no seu lugar. No século 19, nós tivemos aqui várias rebeliões populares em todo o país, do Oiapoque ao Chuí. Desde a Farroupilha, no sul, a Cabanagem no Pará, a dos Malês na Bahia, a Praieria em Pernambuco. Este foi um período de grande medo de que o povo chegasse ao poder, o que comprova que esta é uma situação que vem desde sempre. Os colonizadores entraram no território latino-americano, como se os índios representassem uma ameaça, quando na verdade foram espanhóis e portugueses que promoveram um genocídio em todo o continente. Hoje percebemos isso quando os Estados Unidos tratam a resistência no Iraque como terrorismo, quando quem está sendo barbarizado são os iraquianos.

No Brasil, a sociedade é levada a enxergar o MST, um Movimento com que ela naturalmente se simpatizaria, de uma forma negativa. Todo este esforço é para manter distância entre organizações populares e sociedade, porque o medo distancia.

JST – Como é possível enfrentar esta conjuntura?

VM – Temos que manter as lutas setoriais que temos: por terra, educação, saúde, na cidade e no campo. Mas temos todos, de uma forma muito intensa, que lutar contra o monopólio dos meios de comunicação. Quando um governo que se diz progressista, se submete à estes veículos, acabamos andando para trás, ou seja, ficamos na mão deste poder midiático imenso de criação de uma realidade política determinada. Hoje em dia eu defendo que esta é uma luta que deveria ser considerada prioridade. É onde todos os movimentos sociais brasileiros deveriam se unir, porque hoje nós não temos voz. Mesmo um Movimento como o MST que tem uma grande e profunda organização, acaba não tendo espaço ou sendo manipulado, aparecendo como um perigo para o Brasil.

Quem é:

Vera Malaguti Batista é socióloga, Mestre em História, Doutora em Saúde Coletiva e Secretária Geral do Instituto Carioca de Criminologia. Publicou os livros: "Difíceis ganhos fáceis: drogas e juventude pobre no Rio de Janeiro" e "O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história".

O Neoliberalismo como Proposta Hegemônica


Celia Regina Otranto

Trabalho publicado na Série Textos CPDA, No. 10, Setembro/1999, p. 11-18.


Esse trabalho se propõe a fazer uma breve análise do neoliberalismo. Tenta demonstrar a importância teórica e política de se compreender o neoliberalismo como um complexo processo de construção hegemônica que ganha força quando se configura na alternativa à grave crise que se inicia no final dos anos 60 e se manifesta claramente já nos anos 70, na maioria das sociedades capitalistas.

Considerando que sociedade capitalista é aquela que tem por objetivo central produzir para acumular, concentrar e centralizar capital, pode-se concluir que as necessidades do homem e da coletividade não representam as suas prioridades. O capitalismo, então, está centrado nas leis de produção e no lucro e, conseqüentemente, na exclusão dos concorrentes. Justamente por isso é um sistema que tende a crises profundas. Na realidade, a forma capitalista de relação social
tem inscrito em sua lógica a eterna possibilidade da crise, principalmente porque não basta ao capitalismo explorar a força de trabalho, incorporando-a nas mercadorias produzidas, é preciso que o ciclo se complete com a venda das mercadorias. Historicamente, a crise do capital não é a crise da produção de mercadorias e sim a crise da superprodução e sua venda no mercado.

As crises de 1914 e a de 1929 evidenciaram que se o modo de produção capitalista for deixado livre em sua lógica anárquica, destrutiva e excludente a tendência é por em risco o próprio sistema. É dentro dessa compreensão e no contexto do ideário socialista e comunista a partir da Revolução de 1914 que a teoria de um Estado forte e interventor capaz de regular a demanda, oferecer subsídios e instaurar uma base planejada de desenvolvimento ganha força. São as teses keynesianas que assumem ampla adesão após os anos 30.

A crise que abriu as portas para o neoliberalismo foi aquela ocasionada pelo fracasso da forma de regulação social keynesiana, denominada Estado de Bem-Estar Social ou regulação social fordista, que se caracteriza por uma intensa e progressiva intervenção planejada da economia para evitar a desordem produzida pelo mercado. No keynesianismo o Estado é controlador e financiador. Controlador de áreas estratégicas como petróleo, energia, minérios e telecomunicações, tornando-se, ele próprio, um produtor, além de desempenhar um papel importante como estimulador de determinados setores através de subsídios à produção.
Financiador das necessidades básicas da população, tais como educação, saúde, transporte, moradia, etc.

Após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo, naquela que muitos autores consideram a sua forma mais avançada, produziu o Estado de Bem-Estar Social incorporando algumas teses do socialismo. Embora permaneça como Estado da classe dominante, a emergência do Estado de Bem-Estar Social explicita, ao mesmo tempo, as contradições do capital e das relações capitalistas e as lutas e conquistas efetivas da classe trabalhadora, que consegue, para além dos direitos políticos, os direitos sociais fundamentais mantidos pelo poder público. Um dos
aspectos centrais das políticas desse modelo de Estado que serve, ao mesmo tempo, como base das condições gerais da produção capitalista e como reivindicação dos trabalhadores é a reprodução da força de trabalho na esfera pública.

Para combater as teses keynesianas, o ideário do Estado de Bem-Estar e, sobretudo, os direitos sociais e os ganhos de produtividade da classe trabalhadora, surge, na década de 40, o arcabouço teórico e ideológico do neoliberalismo. Seu postulado fundamental é de que o mercado é a lei social soberana.

A proposta neoliberal passa a ser vista como o "remédio" para a nova crise do capitalismo que se configura, então, como: a) a crise do financiamento das necessidades básicas da sociedade pelo Estado; b) a crise da produção e da reprodução das condições gerais do capital e financiamento dos ganhos das classes trabalhadoras; c) a crise do capital e de suas taxas de lucro; d) a crise fiscal e a perda do controle monetário das economias dos países, principalmente os do chamado, na época, "Terceiro Mundo". É a crise do fundo público que traz, com ela, a tendência de perda dos direitos sociais e o conseqüente aumento da exclusão.

A adoção das teses neoliberais e a implementação econômica e político-social têm início, todavia, apenas no contexto da crise do capitalismo avançado, na década de 70 e da crise e do colapso daquilo que Castells chamou de "socialismo real".

Para Castells a crise apresenta diversas faces: é política, ideológica e econômica, e, somente uma teoria que integre esses diferentes níveis da realidade social dentro de uma perspectiva histórica que leve em consideração suas contradições, poderá explicá-la. Mas, em linhas gerais, para favorecer a nossa análise do processo hegemônico do neoliberalismo, é importante considerar que, após a crise, a busca da recomposição do lucro pelo capital, que já era internacionalizado, vai se dar, fundamentalmente, mediante a globalização do mercado. Isto significa que o capital rompe as fronteiras nacionais e passa a constituir-se num poder global.

Para traçar as regras desse mercado globalizado os 7 países mais ricos do mundo — Grupo dos 7 ou G7 — a partir do final da década de 80, passam a deliberar como as demais nações devem ajustar-se à nova ordem mundial. Essa deliberação que dita as regras de ajustamento ficou sendo conhecida, em 1990, como o Consenso de Washington e nela ficaram estruturadas as bases da nova política econômica e social, que passou a impor uma ideologia difundida mundialmente.

Marx já nos apontava, há 100 anos atrás, que "a dimensão ideológica está intrinsecamente incrustada na realidade, que a secreta como uma característica necessária de sua própria estrutura". No campo específico da economia e do mercado, ideologia e realidade caminham muito juntas, e isso provavelmente favoreceu o surgimento de uma ideologia hegemônica, fazendo com que o neoliberalismo, atualmente, signifique ampliar as regras impostas pelo Banco Mundial e FMI e seguir à risca as propostas do Consenso de Washington.

A idéia mais trabalhada no plano da ideologia neoliberal é de que não há nenhuma outra alternativa para o mundo a não ser a de ajustar-se à reestruturação produtiva promovida pela globalização. A receita para este ajuste passa pela desregulamentação, pela descentralização e pela privatização.

A desregulamentação significa a mínima existência possível de leis que garantam direitos, o que acarreta o fim dos direitos sociais garantidos no contexto do Estado de Bem-Estar. É o fim das garantias trabalhistas, da estabilidade no emprego e dos ganhos de produtividade. Trata-se de deixar o mercado livre para ser o grande regulador das relações sociais. A descentralização complementa a desregulamentação com a Reforma do Estado, que visa delegar responsabilidades, antes da União, aos estados e municípios. A privatização completa o ciclo porque o Estado abre mão de setores estratégicos, como da energia elétrica, telecomunicações, minérios, petróleo, etc., perdendo efetivamente a possibilidade de desenvolver políticas econômicas e sociais.

Com a receita distribuída a todos os países, o neoliberalismo passa a se configurar como uma estratégia de poder que se implementa em dois sentidos articulados. O primeiro através de um conjunto razoavelmente regular de reformas concretas no plano econômico, político, jurídico, educacional, etc. O segundo através de uma série de estratégias culturais orientadas a impor novos diagnósticos acerca da crise e construir novos significados sociais, visando com isso legitimar as reformas neoliberais como sendo as únicas que podem (e devem) ser aplicadas no atual contexto histórico de nossas sociedades. Esta dimensão cultural, característica de toda lógica hegemônica, foi sempre reconhecida como um importante espaço de construção política pelos intelectuais que, em meados deste século, começaram a traçar as bases teóricas e conceituais do neoliberalismo enquanto alternativas de poder.

Com efeito, o neoliberalismo expressa duas características marcantes de todo processo de construção de hegemonia. A primeira é que trata-se de uma alternativa de poder extremamente vigorosa, constituída por uma série de estratégias políticas, econômicas e jurídicas, orientadas para encontrar uma saída para a crise capitalista. A segunda é que representa e sintetiza um ambicioso projeto de reforma ideológica da sociedade. Propõe a construção e a difusão de um novo senso comum que fornece coerência, sentido e uma pretensa legitimidade às propostas de reforma.

Se o neoliberalismo se transformou num verdadeiro projeto hegemônico, isso se deve ao fato de ter conseguido impor uma dinâmica de reconstrução do discursivo-ideológico da sociedade, derivada da enorme força persuasiva que tiveram e estão tendo os discursos, os diagnósticos e as estratégias argumentativas elaboradas e difundidas por seus principais expoentes intelectuais.

Os intelectuais neoliberais reconheceram que a construção desse novo senso comum era um dos desafios prioritários para garantir o êxito na construção de uma ordem social regulada pelos princípios do livre mercado e sem a interferência, considerada por eles perniciosa, da intervenção estatal. O principal desafio consistia-se em fazer com que as fórmulas propostas fossem aceitas e reconhecidas pelas sociedades como a solução natural para os problemas dos diferentes países. Os dois mais citados e respeitados autores representantes do neoliberalismo são Friedrich A. Hayek e Milton Friedman.

Hayek desenvolveu toda uma epistemologia e teoria ética da história do neoliberalismo fornecendo a criação de uma doutrina completa e coerente. Friedman é mais prático, mais técnico, e através de forte esquema de propaganda divulgou suas idéias em todo mundo. O neoliberalismo da América Latina pode ter mais a ver com a popularização de Friedman do que com a profundidade e complexidade filosófica de Hayek.

No início dos anos 80 Margaret Thatcher já era Primeira Ministra da Inglaterra; Ronald Reagam, Presidente dos Estados Unidos e Helmut Khol ganhou as eleições na Alemanha. Todos eles defendiam ardentemente as propostas neoliberais e estavam a frente de três dos mais importantes países do mundo. Desta forma, o neoliberalismo se transformava em uma verdadeira alternativa de poder no interior das principais potências do mundo capitalista.

Também na América Latina alguns países se constituíram em verdadeiro laboratório de experimentação neoliberal com resultados aparentemente milagrosos, como foi o caso do Chile, durante a ditadura do general Pinochet. Durante os anos 80, no contexto das democracias pós-ditatoriais, vários outros países da América Latina elegeram presidentes com propostas neoliberais.

No quarto quartil dos últimos 20 anos, o neoliberalismo deixa de ser apenas uma perspectiva teórica e passa a orientar as decisões governamentais em grande parte do mundo capitalista, o que inclui desde as nações mais desenvolvidas até aquelas que apresentam problemas de sub-desenvolvimento.

Para Emir Sader "o neoliberalismo reinterpreta o processo histórico de cada país" (Anderson, 1995:147). As conquistas sociais e os sindicatos de uma forma geral, assim como tudo o que tenha a ver com igualdade e justiça social passam a ser os vilões da economia. A direita, os conservadores, os defensores da privatização e do "Estado Mínimo" passam a ser os grandes salvadores da pátria. Tudo isso porque o neoliberalismo como modelo hegemônico é uma nova forma de dominação de classe, adequada às relações econômicas, sociais e ideológicas contemporâneas. Construiu um arcabouço doutrinário que leva a um novo modelo de relações de classes, a uma nova forma de ideologia democrática e a um determinado modelo de Estado, facilitando a sua penetração para além dos limites econômicos, transformando-o no senso comum do nosso tempo.

Os últimos dez ou quinze anos de desenvolvimento capitalista é caracterizado por uma extensão enorme dos mercados (especialmente monetários e, ainda mais, os financeiros), que expandem seu domínio sobre os Estados e sobre as empresas. É o auge do poder anônimo do mercado fortalecido pela ideologia presente na retórica que busca enaltecer as ações neoliberais e esvaziar o discurso da esquerda. Jameson, marxista histórico americano, defende a tese que "a retórica do mercado tem sido o componente central e fundamental dessa luta ideológica, a luta pela legitimação ou deslegitimação do discurso de esquerda". Isso nos leva a considerar que o campo significativo da luta política é a disputa no discurso.

Conscientes desta importância, e também do papel da mídia na divulgação do discurso para todas as camadas da população, os que adotam o neoliberalismo não deixam de usar os recursos do rádio, televisão, jornais e revistas para divulgar e validar os seus atos. Como a política neoliberal tem obtido resultados no controle da inflação, ela se torna ainda mais popular quando se utiliza deste argumento.

Mas, numa análise mais criteriosa e podemos perceber algumas das enormes desvantagens que esta política que idolatra o mercado e transforma o Estado no grande vilão dos problemas econômicos está acarretando para a sociedade. As desigualdades sociais têm se intensificado, fazendo com que a pobreza cresça enormemente nos países em desenvolvimento e também naqueles mais pobres, ocasionando a pauperização da pobreza.

A pretensa estabilidade monetária, tão frágil e hoje subordinada aos humores das bolsas de valores do mundo, não foi suficiente para promover um crescimento econômico prolongado. A famosa Curva de Lafer "acabou se revelando num subterfúgio engenhoso", pois reduziu os impostos dos ricos para que eles pudessem acumular e concentrar lucros considerando que os mesmos seriam reinvestidos na economia, o que não aconteceu. Ela acabou se revertendo em enorme fracasso e contribuindo para aprofundar as desigualdades sociais.

A questão da grande onda de privatizações pode ser justificada, muito além da ideologia subjacente ao neoliberalismo, pelas novas relações estruturais entre Estado e Mercado. É muito mais compensador, hoje, aplicar nos mercados de capital do que nos próprios Estados. Mas, apesar de compensador é, também, extremamente arriscado porque basta que haja fugas massivas de capitais para que essas políticas fracassem do dia para a noite, acarretando ainda mais desigualdades.

Tudo isso demonstra que o neoliberalismo forte e seguro como tem sido apregoado pelos organismos mundiais não existe e urge a busca de novas soluções antes do agravamento do processo. O principal problema reside no fato de que o discurso neoliberal, atualmente hegemônico, tem um grande impacto na população mundial. Ele defende a idéia que esta é a única saída para a crise. Que sem o neoliberalismo tudo ficará ainda pior. E, por ser uma força intelectual e política universal, possui uma enorme vantagem estratégica.

Mas, a força do neoliberalismo pode residir, também, na nossa própria debilidade, na nossa atitude defensiva que não nos permite ver criticamente os fracassos do modelo, para usá-los como argumento de luta. Pode estar, então, na perda de referências e precisão dos discursos da esquerda. É preciso sair da atitude defensiva e partir para a apresentação de alternativas que visem o bem da sociedade e não, única e exclusivamente, o bem do mercado.

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Bibliografia

ANDERSON, Perry & outros. A trama do neoliberalismo: mercado, crise e exclusão. In: Sader, E e Gentili, P. (orgs) Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

CASTELLS, Manuel. A teoria marxista das crises econômicas e as transformações do capitalismo. São Paulo: Paz e Terra, 1979.

FRIGOTTO, Gaudêncio. A formação e a profissionalização do educador: novos desafios. In: Escola S.A.: quem ganha e quem perde no mercado do neoliberalismo. Brasília: CNTE, 1996.

GENTILI, Pablo. Neoliberalismo e educação. In: SILVA, T. T. e GENTILI, P. Escola S. A.: quem ganha e quem perde no mercado do neoliberalismo. Brasília: CNTE, 1996.

HEILBRONER, Robert L. A natureza e a lógica do capitalismo. São Paulo: Ed. Ática, 1988.

HOBSBAWM, E. adeus a tudo aquilo. In: BLACKBURN, R. (org). Depois da queda. O fracasso do comunismo e o futuro do socialismo. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996.

MANDEL, Ernest. El capitalismo tardio. Mexico: Ediciones Era, S.A., 1979.

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

NÃO À ALIENAÇÃO







Humberto Mariotti







É quase um truísmo, mas ainda assim vale repetir mais uma vez: um dos problemas mais sérios da alienação é que a maioria das pessoas alienadas não têm consciência de sê-lo. Desse modo, todos os esforços no sentido de fazê-las perceber sua condição merecem apoio e a mais ampla divulgação possível.

Um bom exemplo é o livro Olhar Sobre o Olhar que Olha1, de Izabel Petraglia. Outro é Globalisation: Gandhi and Swadeshi2, de Vandana Shiva. No caso de Petraglia, trata-se da primeira obra brasileira a mostrar com clareza as diferenças entre os modos de pensar cartesiano (fragmentador), "holístico" (totalizador) e complexo (plural). Longe de se perder em intermináveis filigranas teóricas, esse trabalho tem importantes repercussões práticas. Revela-nos, por exemplo, como os modelos de pensamento cartesiano e "holístico", cada qual à sua maneira, dificultam-nos a compreensão da complexidade, isto é, da realidade. Mostra-nos que quando adotados de modo isolado (ou um ou o outro) eles nos mantêm distanciados — alienados, portanto — daquilo que Husserl chamou de "o mundo da vida".

O texto de Shiva — do qual falarei com detalhes em outro ensaio — trata de liberdade e economia, e pergunta o que é liberdade econômica e quem a tem. Examina, entre outras coisas, um fato bem conhecido: hoje, no plano mundial, cada vez mais as grandes empresas ditam as políticas econômicas, alienando dessa função os Estados nacionais. Ou seja, a economia global tende a alienar as economias locais.

Petraglia mostra que
o desligamento da experiência cotidiana pode trazer repercussões negativas em termos de responsabilidade social. Esse fato produziu e continua a produzir problemas éticos e práticos, os quais são tanto mais profundos quanto menos percebidos e compreendidos. Por um lado, o modelo cartesiano, que tudo fragmenta e privilegia as partes em separado, desembocou no que hoje conhecemos como "globalização", basicamente representada pela "nova economia" do neoliberalismo. Suas faces não alardeadas, porém qualitativa e quantativamente óbvias, são, como todos sabem, a exacerbação do individualismo, a falta de solidariedade e a exclusão social.
De outra parte, a proposta "holística" (em princípio justificável) de privilegiar a totalidade, não deixa de ser também um reducionismo, que em sua versão mais difundida acabou se transformando numa espécie de escapismo espiritualóide.

A intenção "holística" é boa, mas seus resultados práticos nem tanto. Em sua variante remanescente da chamada New Age, esse modelo mental é problemático, pois ao acreditar nele as pessoas tendem a abrir mão de suas capacidades de ação pessoal e interpessoal. Ao assumir essa postura, passam a crer numa totalidade que cuida de tudo e a confiar em forças "transcendentais", supostamente representadas por pessoas ditas "iluminadas", guias ou gurus. Tais "mestres" pretensamente devem orientá-las e decidir por elas, agora transformadas em ondas dóceis e padronizadas de um oceano de conformismo, credulidade e inconsciência.
Existem até mesmo "receitas" — listas detalhadas das qualidades que devem ter os "iluminados".


De todo modo, a tendência de ficar sob o império de diretivas unilateralizantes — sejam elas cartesianas ou "holísticas" — pode ter desdobramentos indesejáveis, como logo veremos. As pessoas são levadas a um estreitameno de percepção e compreensão que tende a incapacitá-las para práxis eficazes e ações políticas significativas, inclusive em relação a atividades comunitárias e educacionais. Para que esse estado de coisas persista e se aprofunde, tudo é feito para que os indivíduos continuem condicionados a pensar de um modo único: é necessário torná-los prisioneiros de um padrão fixo de pensamento.

Essa cristalização mental gera divisões e cria condições para o aparecimento de conflitos de toda sorte. É o que se chama de "efeito paradigma"3, o qual pode ser assim enunciado: se os referenciais de pensamento de dois indivíduos ou grupos em relação a um dado assunto forem diferentes, o que é perceptível para um é imperceptível para o outro. Isto é: cada um tende a acreditar que sua visão de mundo é a única correta, o que diminui — quando não elimina — as possibilidades de diálogo e portanto de criação de novas perspectivas.

Como todos sabem, essa é base das ortodoxias, dos conservadorismos, da intolerância, dos corporativismos — em suma, dos fundamentalismos. Talvez em nenhum outro momento da história humana a necessidade de compreender e aprender a lidar com esse fenômeno seja tão vital como nos dias atuais. Por outro lado, talvez em nenhum outro instante dessa mesma história tal compreensão se mostre tão difícil, dado que a mente de nossa cultura está cada vez mais fragmentada e prisioneira do unilateralismo, do exclusivismo e, portanto, do isolacionismo. Sem a superação desse bloqueio, será cada vez mais difícil imaginar e pôr em prática ações que traduzam o que Nelson Mandela chamou de "afirmação de nossa humanidade comum" e "realização dos valores humanos".4


Tal circunstância nos leva a falar, ainda que de modo breve, sobre a questão dos direitos humanos e sua validade sob regimes políticos e ordens econômicas de natureza conservadora, baseados em exclusivismos e unilateralismos. A esse respeito, em recente artigo e em outro contexto5, o jornalista Janio de Freitas observa que é hora de reavaliar esses direitos e, ao longo dessa apreciação, procurar livrá-los de demagogias e diversionismos. Acrescento que também é preciso procurar meios de evitar que eles sejam reduzidos à condição de simples ferramentas do utilitarismo e do propagandismo de nossa cultura. "Há direitos cassando direitos, quando não a vida", diz Freitas. Ao que replico lembrando os casos em que "direitos" autoproclamados vêm sendo praticados, amplamente divulgados e traduzidos em expressões como "bombas inteligentes", "guerra cirúrgica" ou "bombardeios humanitários".

Como se tudo isso ainda não bastasse, surge agora nada mais nada menos que a idéia de "imperialismo democrático", ou seja, a democracia imposta. Essa expressão, aliás, define com clareza a espécie de processo democrático que os colonizadores querem para os colonizados. A lógica é curta e grossa e poderia ser definida como algo assim: se há "bombardeios humanitários", por que não impor também "imperialismos democráticos"? Essa é uma das alternativas propostas pelo sr. Stanley Kurtz em artigo na Policy Review Online (publicação da Hoover Foundation, conhecido think tank do conservadorismo americano), em relação à ocupação americana no Iraque. Nesse texto, ele afirma que a argumentação em favor de uma "aventura de imperialismo democrático é também forte".6

Segundo o sr. Kurtz, a longo prazo esse tipo de imperialismo "pode ser nossa [dos EUA] melhor garantia contra a combinação crescente e mortal do terrorismo com armas de destruição em massa".7 Em sua opinião, a implantação de um regime assim deve se concentrar, entre outras coisas, "na formação de uma classe modernizadora e liberal por meio da educação".8 O modelo clássico, portanto: doutrinar para controlar, seja diretamente ou mediante testas de ferro, que, como mostram os registros históricos, em geral são membros da própria elite colonizada.

Por trás de todos esses fenômenos está o condicionamento mental (imprinting) de sempre: o modelo de pensamento fragmentador do "ou nós ou eles", que distorce algumas das noções mais fundamentais da condição humana, como alteridade, natureza, diversidade, convivência integrada e, claro, a democracia. E, o que é pior, a experiência mostra que quanto mais esse condicionamento se prolonga menos somos capazes de sequer perceber que ele existe e como atua. É um modo de pensar que exclui a tudo mais, um padrão autojustificado e justificado por todos e por tudo — em especial por interesses econômicos desde sempre bem conhecidos.

Tudo isso visto, não é difícil concluir que o principal obstáculo para a mudança do sistema de pensamento fragmentador prevalente em nossa cultura é o modelo econômico hoje dominante. Chega-se a essa conclusão por meio de um raciocínio simples: a) a educação é financiada pela economia; b) em épocas menos autoritárias que a atual, havia um consenso de que política e economia se determinavam mutuamente, mas em geral esta era mais freqüentemente determinada
por aquela; c) nos tempos atuais, porém, é obvio que é a economia que determina a política — ela determina quase tudo, aliás.

É claro que a mudança do modo de pensar hegemônico por meio da educação (que de resto é um empreendimento de longo, longuíssimo prazo) teria de ser apoiada pelo modelo econômico atual. E este, como vimos, privilegia a divisão, o exclusivismo, a unilateralilade de políticas e ações. Enfim, pouco ou nada tem a ver com inclusão, participação, pluralização de conhecimentos e respeito à diversidade.

Respeitadas as exceções de praxe, a observação mostra que a educação atual é um empreendimento eminentemente financeiro: nos últimos tempos, vem sendo cada vez mais tratada como um business. O exemplo mais patente é o esvaziamento da educação pública, que não necessariamente tem sido seguido de um aumento de qualidade (mas que com certeza tem produzido notáveis progressos quantitativos em termos financeiros) da educação privada. Além do mais, o predomínio acachapante do conhecimento tecnocientífico em prejuízo das humanidades tende a mecanizar e a embrutecer a mente das pessoas, tolhendo-lhes a experiência e a expressão dos sentimentos, emoções e subjetividade, e com eles os valores e as posturas éticas correspondentes. Os resultados aí estão, à vista de todos.

Como conseqüência desse embotamento de percepção, corrompem-se, decaem e em certos casos até mesmo desaparecem as palavras que possibilitam que pensemos e falemos sobre outros modos de ver a nós próprios, os outros e o mundo; que permitem que projetemos alternativas menos limitadas de existência; enfim, que imaginemos modos de vida que nos livrem da dualidade "luta ou fuga", sob cujo tacão tosco e primitivo parece que estamos cada vez mais condenados a viver.

Este ensaio começou e terminará falando de livros, mas convém ressaltar que é em relação à leitura e à compreensão de textos que surgem alguns dos maiores problemas ligados à alienação. O vocabulário das pessoas se reduziu de tal forma que muitas delas se tornaram virtualmente impermeáveis a tudo aquilo que possa fazê-las mudar de idéias e valores. É cada vez mais comum encontrar indivíduos (entre eles, não poucos com formação universitária) que não conseguem compreender conversações e escritos que tratem de temas fora de sua formação técnica/profissional. Ainda mais preocupante é o fato de que, no caso dos textos — por mais simples que sejam —, essa incapacidade é especialmente pronunciada. O argumento autodefensivo mais freqüente é o de que "a linguagem é difícil".

Em suma, a limitação do vocabulário limita a compreensão e com isso limita também a percepção da existência dessa limitação. Um mundo percebido e construído por meio de uma linguagem limitada é um mundo inevitavelmente limitado, um ambiente do qual nos alienamos. Trata-se de uma situação espantosa — que no entanto para muitos não só é muito natural como também desejável, pois para eles a única coisa que interessa são "os resultados concretos", ou seja, financeiros.

O que o livro de Petraglia mostra, algumas vezes de modo crítico e irônico — mas nem por isso menos claro —, é que o pensamento complexo é uma visão plural, multidimensional, que busca a interação constante entre as partes e o todo e visa a tornar permeáveis as fronteiras entre as disciplinas do conhecimento. Revela que aprender a pensar desse modo pode nos levar a compreender e aceitar a diversidade (biológica, cultural, étnica e de idéias). Mostra-nos ainda como uma compreensão ampliada da complexidade (isto é, do mundo real) permite que resistamos aos apelos da alienação; e como dessa maneira podemos nos tornar mais capazes de ampliar a consciência sem renunciar à individualidade (mas atenuando o individualismo) e, em conseqüência, buscar a solidariedade.

Para quem pretende aprender a lidar com o diálogo que pode e deve existir entre as dimensões local e global do cotidiano, e por meio delas desenvolver e consolidar posições de solidariedade, responsabilidade social e auto-sustentabilidade, a leitura de textos como Olhar Sobre o Olhar que Olha e Globalisation: Gandhi and Swadeshi são passos à frente.

Notas
1. PETRAGLIA, Izabel. Olhar Sobre o Olhar que Olha: Complexidade, Holística e Educação. Petrópolis: Vozes, 2001.

2. SHIVA, Vandana. Globalisation: Gandhi and Swadeshi. New Dehli: Research Foundation for Science, Technology and Ecology, s.d.

3. VASCONCELLOS, Maria J. E. de. Pensamento Sistêmico: O Novo Paradigma da Ciência. Campinas (São paulo): Papirus, 2002.

4. Em SAID, Edward. Cultura e Política. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 107.

5. FREITAS, Janio de. "Direitos Desumanos". Folha de S. Paulo, 06.04.2003.
6. KURTZ, Stanley. "Democratic Imperialism: A Blueprint". Policy Review Online, abril & maio, 2003. (www.policyreview.org).

7. Id., ibid.

8. Id., ibid.


( © Humberto Mariotti, abril, 2003 )


HUMBERTO MARIOTTI Médico psicoterapeuta. Professor e coordenador do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo (SP). Coordenador do Grupo de Estudos de Pensamento Complexo Aplicado à Administração e aos Negócios da Business School São Paulo.
E-mailhomariot@uol.com.br

OS CINCO SABERES DO PENSAMENTO COMPLEXO



(Pontos de encontro entre as obras de Edgar Morin, Fernando Pessoa e outros escritores)

Humberto Mariotti



A vida é breve, a alma é vasta.

(Fernando Pessoa)





O esforço para a reforma do modelo de pensamento que hoje predomina em nossa cultura tem várias vertentes. Muitos são os seus proponentes e diversificadas as suas propostas.


A obra de Edgar Morin está entre os pontos altos desse empreendimento. Em especial, destaca-se a sua mais importante concepção epistemológica, o pensamento complexo. Nele não predomina o raciocínio fragmentador (o modelo mental binário do “ou/ou”: ou amigo ou inimigo; ou bem ou mal; ou certo ou errado; ou ocidente ou oriente; etc.). Tampouco prevalece o utopismo da primazia do todo — o sistemismo reducionista.


Uma visão de mundo abrangente deve nascer da complementaridade, do entrelaçamento — do abraço, enfim — entre esses dois modelos mentais. Assim Morin denomina o pensamento complexo: o pensamento do abraço. Eis por que proponho, neste texto, falar sobre o que chamo de cinco saberes do pensamento complexo: saber ver, saber esperar, saber conversar, saber amar e saber abraçar. Todos estão inter-relacionados, abraçados, e por isso dependem uns dos outros para ser vividos em sua plenitude. Vejamos como.


Saber Ver

Jean-Paul Sartre, entre outros, percebeu que nossa existência é confirmada pelo olhar do outro. Mas não é necessário ser um filósofo para chegar a essa conclusão. Peter Senge1 relata que entre certas tribos do Natal, na África do Sul, o priincipal cumprimento é a expressão Sawu bona, que quer dizer "eu vejo você". As pessoas assim saudasdas respondem dizendo Sikhona, que significa "eu estou aqui". Ou seja: começamos a existir quando o outro nos vê.


E mais: existe, entre tribos africanas que vivem abaixo do Saara, a ética ubuntu, que vem da tradição Umuntu ngumuntu nagabantu, que em zulu significa “Uma pessoa se torna uma pessoa por causa das outras”. Para esses povos, quando um indivíduo passa por outro e não o cumprimenta, é como se houvesse se recusado a vê-lo, o que significa negar-lhe a existência.


Saber ver é antes de mais nada saber ver os nossos semelhantes. De fato, a localização anatômica dos nossos olhos mostra que eles estão orientados para ver o mundo — isto é, para ver o outro. Todos sabemos que há certas partes de nossa anatomia que só podemos enxergar em ângulos muito precários, e outras que não podemos ver de modo algum.


Convém notar que a unidimensionalização da visão — que nada mais é do que o resultado da apropriação do olhar pela cultura dominante — é um dos fenômenos mais alienantes do nosso cotidiano. A iconização da sociedade, isto é, o fornecimento de um mínimo de palavras escritas e um máximo de imagens padronizadas, conduz a uma diminuição do contato com a razão — o logos. Disso resulta a restrição ao acesso das pessoas ao imaginário, o que as leva a ver o mundo de modo concreto e literal.


Essa é uma das principais causas da redução da capacidade de lidar com a palavra e, por conseguinte, de conversar. É uma forma de dificultar a formação de consensos derivados da experiência e perpetuar a unidimensionalização. Trata-se de reprimir o imaginário e a diversidade em todas as suas dimensões: na linguagem escrita e falada, na expressão corporal, na produção de imagens e símbolos, enfim, em todos os meios pelos quais o indivíduo pode se opor à massificação.


As imagens e os símbolos veiculados pela linguagem tendem a quebrar a linearidade do nosso pensamento. Nesse sentido, os mitos são indispensáveis à facilitação das conversações e, em conseqüência, à formação de consensos. A experiência mostra que ao compartilhar histórias, lendas e narrativas, as pessoas vêem abrandado o seu ânimo competitivo e litigante.


No entanto, como alerta o historiador e mitólogo Joseph Campbell, os símbolos têm, ao longo da história, levado povos inteiros a comportamentos violentos e destrutivos. Para Campbell, muitos desses comportamentos resultam da interpretação literal do conteúdo de mitos heróicos. As metáforas são tomadas como reproduções exatas do real, e desse modo reaplicadas à prática.


É claro que essa espécie de compreensão pressupõe mentes como as nossas, condicionadas por uma cultura cujos mitos básicos configuram uma interminável crônica de guerras, pilhagens, vinganças e punições. É dessa maneira que os fundamentalismos reforçam os condicionamentos, que por sua vez reforçam os fundamentalismos e assim por diante.


A primitivização de nossas mentes pela supressão da palavra (em especial a palavra escrita) traduz-se na prática pelo estreitamento de nossa percepção de mundo. Dessa maneira, ela passa a depender de quase que um único sentido — a visão. A audição vem em segundo lugar, mas com menos destaque. Essa circunstância nos torna cada vez menos capazes de perceber a importância do conjunto.


Perdemos a abrangência de avaliação proporcionada pela totalidade dos sentidos, e dessa forma nos afastamos da perspectiva sistêmica de estar no mundo. Em conseqüência, as percepções veiculadas pelos sentidos que têm sido reprimidos e anestesiados são desvalorizadas, o que favorece a unidimensionalização e a manipulação.


É indispensável que evitemos assumir uma visão conspiratória desse fenômeno, para não cairmos mais uma vez no eterno equívoco (ou conveniência) de atribuir as causas de nossas dificuldades só a fatores externos, dos quais nos julgamos vítimas indefesas. Convém que estejamos alertas para essas circunstâncias, pois, ao que parece, muitos de nós estão convencidos de que a alienação das massas, com todas as suas conseqüências, resulta da atuação de um establishment onipotente, ao qual é inútil resistir. É com essa espécie de desculpa que costumamos fugir à responsabilidade de ter de lidar com o real.


Convém não esquecer que tudo isso vem acontecendo com a nossa anuência, consciente ou não. Essa postura de vítimas, aliás, expressa-se em nossa tendência a dar pouco valor às iniciativas individuais para a transformação social: se sou uma vítima, e ainda mais estando isolado, como poderei mudar alguma coisa? Muitos parecem não entender que para superar essa circunstância é fundamental o desenvolvimento do fabulário, que aglutina as pessoas. Parecem não compreender também que para isso a palavra, as imagens, os sons e as sensações tácteis e olfativas precisam caminhar juntos, como meios de percepção e integração de nossa experiência no mundo.


O que aconteceria se de repente perdêssemos a visão, ficando dependentes dos demais sentidos? Essa foi a idéia que levou o escritor português José Saramago a produzir o romance Ensaio Sobre a Cegueira. A história se passa em uma grande cidade, onde as pessoas começam a ficar súbita e inexplicavelmente cegas. Pior ainda, o problema é contagioso. O alastramento do surto marca o início de uma série de terríveis acontecimentos, centrados num só fato: as desventuras de uma sociedade que, acostumada à unidimensionalidade, a um modo quase único de perceber o mundo, é de súbito levada a depender por inteiro dos demais sentidos, que sempre havia mantido em plano secundário.


Continuemos com o romance de Saramago. Os casos de cegueira vão se multiplicando. A primeira providência tomada é previsível: os cegos são confinados, com guardas armados a vigiá-los — a clássica atitude concentracionária, à qual nossa cultura recorre sempre que tem de lidar com pessoas que de um modo ou de outro se revelam diferentes. A história prossegue, e logo se estabelecem entre os cegos confinados ações que oscilam entre a competição e a cooperação.

Seguem-se cenas em que essas circunstâncias se generalizam, e a disputa pela comida leva a conseqüências degradantes, que se alastram para fora do ambiente do confinamento.


O livro é uma metáfora das desventuras de uma sociedade cujo principal modo de perceber o mundo foi suspenso. A isso se adiciona o fato de que esse modo de percepção, por sua própria natureza, impele as pessoas a buscar referenciais externos, com o resultante apagamento progressivo da vida interior. No romance, ao se verem privadas desses referenciais (impedidas, por exemplo, de consultar o Grande Guru que é a televisão), elas se dão conta de seu vazio interno e partem para a busca de uma solidariedade perdida, o que é feito de modo canhestro e ineficaz. Não se pode, aliás, esperar outra coisa de indivíduos mais preparados para a competição do que para a parceria.


O romance de Saramago pode ser lida como um questionamento ao pensamento único, apropriado pelo poder de uma cultura em que o homem perdeu o sentido da globalidade e o de si mesmo. Nesse contexto, a proposta do pensamento complexo corresponde a uma retomada da pluri-sensorialidade. Esta pode ser considerada um equivalente orgânico da transdisciplinaridade — uma forma de ver e entender o mundo, traduzida em um saber que questiona a cegueira do modelo mental dominante.


Esse detalhe pode não ser claro para muitos de nós, mas não escapou à sensibilidade de um grande poeta. Falo de Fernando Pessoa, em cujos versos se lê:

E penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e com os pés

E com o nariz e com a boca.2

O que nos conduz de volta ao marco inicial: saber ver é saber ver o outro, único ponto de partida humano para começar a enxergar o mundo. Ou, como diz Pessoa,

O essencial é saber ver,

Saber ver sem estar a pensar,

Saber ver quando se vê,

E nem pensar quando se vê

Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós, que trazemos a alma vestida!),

Isso exige um estudo profundo,

Uma aprendizagem de desaprender.3

A expressão “trazemos a alma vestida”, pode ser vista como uma alusão ao fato de nossa cultura estar atrelada ao modo de pensar binário, ou pensamento linear, o qual estreita e obscurece nossos horizontes mentais, e assim nos impede de perceber muitas das nuanças da realidade. Trata-se de um padrão que, entre muitas outras coisas, privilegia o conhecimento tecnocientífico e deixa em segundo plano a vertente humanística do conhecer.


Já versos como “isso exige um estudo profundo/uma aprendizagem de desaprender” nos conduzem ao que Morin viria reconhecer como a necessidade da reforma do sistema de pensamento acima mencionado, o que gerou sua atitude epistemológica fundamental: o pensamento complexo. É indispensável — sustenta o pensador francês — aprender a aprender.


Tudo isso visto, convém lembrar que os poemas aqui citados foram escritos no começo do século 20 (Pessoa morreu em 1935). Ou seja, bem antes de se começar a falar de modo constante em complexidade, reforma do pensamento, aprender a aprender e temas semelhantes.


O próprio Morin vê em Pascal a inspiração inicial de seu pensamento complexo. Percebe-se, então, como a vasta cultura literária e filosófica de Morin — à qual ele nunca deixou de recorrer — inspirou muitas de suas descobertas mais importantes. Assim, sua conhecida admiração pelos poetas e ficcionistas só faz enaltecer o seu trabalho.


Falemos mais um pouco sobre Fernando Pessoa. Os famosos heterônimos, por exemplo (Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e outros menores), correspondem às partes que compõem o todo de sua obra; e esse todo retroage sobre as partes realimentando-as. Eis aqui um dos princípios do pensamento complexo: as partes integram o todo mas não perdem suas características individuais.


Os heterônimos são partes, mas a obra pessoana não perde a unidade por causa da diversidade deles. Trata-se de uma evidência marcante da realidade do complexo que, como observa Morin, vem do latim complexus — aquilo que é tecido junto. Como na metáfora moriniana: os fios compõem o tapete; este só é tapete por causa dos fios; mas o que o constitui é a relação entre os fios de sua contextura e o conjunto da tapeçaria.


Em poucas obras literárias o fenômeno da unitas multiplex (unidade na multiplicidade) surge com tanto vigor como nos trabalhos de Pessoa.

Em meu livro As Paixões do Ego4 — do qual deriva este trabalho —, menciono ainda outra das múltiplas faces da contribuição pessoana. Além do que se viu acima, Pessoa figura entre os primeiros criadores literários a ter a intuição da fenomenologia, sem dúvida uma das vertentes do pensamento complexo.


Sabe-se que a poesia de Alberto Caeiro inclui a investigação de se a linguagem humana é ou não capaz de representar o real. Caeiro concluiu que ela não tem essa capacidade, ou a tem de forma limitada. Assim, diante da realidade o poeta opta por descrevê-la como ela se apresenta; busca mais mostrar do que explicar a experiência do ser humano em sua interação com o mundo.


A célebre frase “voltar às coisas mesmas”, de Edmund Husserl — introdutor da fenomenologia e da filosofia moderna na Alemanha —, significa que o esforço fenomenológico implica suspender os preconceitos, as idéias prévias, as teorias e, mediante essa disposição, observar os fenômenos tal como eles se apresentam à nossa experiência imediata.


O ânimo transcendentalista de Husserl acabou por distanciar a fenomenologia da vivência do cotidiano. Pessoa expressa em termos poéticos o que Husserl — ao menos nas etapas iniciais do método fenomenológico — diz em linguagem filosófica. Seu trabalho revela como a poesia, na qualidade de meio de compreensão do mundo, tem tanto a contribuir quanto a filosofia — não fosse ele, além de poeta, também um filósofo.


Por meio dos versos de Caeiro, a lírica pessoana entrelaça as consciências lógica e poética. Ela é, pois, uma forma de exercer a atitude fenomenológica; e com isso ajuda-nos, e muito, a lidar com a complexidade. Alguns exemplos:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!5

(...)

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e o sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores,

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e lua e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E lua e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.6

(...)

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:

As coisas não têm significação, têm existência.

As coisas são o único sentido oculto das coisas.7

(...)

A espantosa realidade das coisas

É a minha descoberta de todos os dias.

Cada coisa é o que é,

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,

E quanto isso me basta.8

(...)

O Universo não é uma idéia minha.

A minha idéia de Universo é que é uma idéia minha.

A noite não anoitece pelos meus olhos,

A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.

Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos

A noite anoitece concretamente

E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.9

Saber Esperar

Para nós, não há nada mais difícil do que esperar. A exemplo do que fez com tudo mais, nossa cultura privilegiou a dimensão quantitativa do tempo. Deu primazia ao tempo medido em relação ao vivido. Como a temporalidade medida é, em nossa concepção, igual a dinheiro, e como o dinheiro com muita freqüência se relaciona a imediatismo, ansiedade e temor, saber esperar reduziu-se a um sinônimo de perder tempo, isto é, perder dinheiro e sentir medo.


Transformamos o tempo em uma coisa, uma mercadoria, como mostrou Marx em seus estudos sobre o tema. Na mesma linha, a apropriação do tempo (e a mecanização da gestualidade) das pessoas foi também consagrado como o ponto central do taylorismo — a “gerência científica” das linhas de produção industrial, que Charles Chaplin satirizou em Tempos Modernos.


Qualquer tentativa de fazer uma ontologia do tempo suscita desde logo a questão de se ele é linear ou circular. É importante registrar que nas três grandes tradições patriarcais de nossa época — o cristianismo, o judaísmo e o islamismo — o tempo é linear. Na Bíblia, com exceção do Eclesiastes, é assim que ele é considerado. Segundo essas tradições, marchamos sobre essa reta com princípio meio e fim determinados, sempre em direção a um alvo final — a morte — que pode representar a salvação ou a danação eternas. Não existe possibilidade de segunda chance.


É essa linearidade que torna possível as pressões, cobranças e advertências que instilam em nós o pavor em relação a esse marco do qual não se volta. Tal circunstância contribui, é evidente, para que encaremos a morte como um ponto final que nos apavora e não como um dado da vida. Tende também a fazer com que desvalorizemos a passagem, a trajetória, e tudo aquilo que com ela se relaciona.


Trata-se de uma unidirecionalidade que torna possível as ameaças partidas de deuses masculinos, severos, punitivos e fiscalizadores. Possibilitou, ainda, a emergência de filosofias como o determinismo histórico de Hegel, apropriado por Marx e transformado em uma espécie de via dolorosa, a ser percorrida na direção da beatitude final do comunismo salvador.


Além de levar à desvalorização do cotidiano, a retilineidade princípio-meio-fim dificulta muito a prática da tolerância, da serenidade e da compaixão. Por outro lado, sempre estimulou a “competitividade”. Porém, mesmo com o aceno a penas terríveis e com a impossibilidade de retorno, não se conseguiu evitar as infindáveis tentativas de burlar as punições mediante toda sorte de estratagemas, muitos deles antiéticos.


Tudo isso levou ao desaprendizado da espera. A concepção linear do tempo tornou possível, como já foi dito, a sua apropriação e transformação em mercadoria — ponto central da filosofia das linhas de montagem industrial e da idéia de produto acabado. A reificação, a quantificação e a comercialização do tempo fizeram com que ele se tornasse artificialmente escasso, e como tal objeto de usura. É o caso dos prazos bancários — e também da apropriação e desvalorização da temporalidade e da subjetividade.


Nesse modelo não há lugar para o ser humano individualizado, mas sim para o homem recortado, o homem-função. O padrão linear-quantitativo fez com que a técnica determinasse a vida humana e não o contrário. Temos uma enorme dificuldade de compreender que, ao ver o tempo só como um bem de consumo ou moeda de troca, perdemos a sabedoria da espera. Isto é: perdemos uma das dimensões mais importantes da nossa existência. Não sabemos distinguir o tempo cultural do tempo natural e pagamos muito caro por isso. Ao institucionalizar a temporalidade linear, deixamos de respeitar a diversidade das temporalidades individuais.


Essa é a tônica da nossa cultura, na qual os dominadores impõem aos dominados (mas também a si próprios) o seu modelo mecânico de temporalidade, e o tempo da cultura patente reprime o da cultura latente. É claro que precisamos dessa linearidade para as práticas da vida mecânica — mas não precisamos dela como indutora de paranóias.


Do ponto de vista qualitativo, o tempo não se ganha nem se perde: vive-se. Nas grandes tradições anteriores à judaico-cristã, a temporalidade é circular, reflete a dinâmica dos sistemas da natureza, o que nos mostra que vivemos num mundo de ciclos. Com elas, aprendemos que saber esperar é saber viver.


É preciso reaprender a aguardar o nascer do dia, o cair da noite, a chegada de uma estação do ano, as fases da lua, o desenvolvimento de uma idéia. Os ciclos da vida incluem o tempo de espera dos sistemas. Vivemos neles e eles em nós. Não há como desenvolver uma alteridade bem diversa da que vivemos hoje sem entender a complementaridade dos tempos linear (o tempo mecânico-produtivista) e não-linear (o tempo sistêmico). Ela nos levará a uma visão complexa da nossa temporalidade.

E preciso, por exemplo, não pretender apressar a chegada da felicidade. Essa proposta não quer dizer que devamos esperá-la passivamente, mas por outro lado mostra que de nada adianta persegui-la como se ela fosse uma caça. Com efeito, a experiência mostra (e insistimos em não aprender com ela) que é a perseguição ansiosa da felicidade que muitas vezes nos faz infelizes.

Aqui, a noção de coisa mais uma vez faz com que ignoremos a de processo: a felicidade que se busca com tanta sofreguidão é apenas a da acumulação material. Essa é a idéia de felicidade que herdamos do Iluminismo, e que continua em vigor até hoje. Ela pressupõe que as sociedades caminharão sempre rumo à perfeição, que o evoluir da história está predeterminado por leis fixas e que o indivíduo, na qualidade de instrumento desse determinismo, é conduzido por ele.


Trata-se, pois, da idéia de felicidade projetada sobre uma linha de tempo, sujeita à quantificação e que suscita, no outro pólo, a noção de escassez. Esta, por sua vez, produziu a convicção de que prolongar o processo vital é igual a prolongar a felicidade. Trata-se de um ponto de vista em princípio razoável, mas que em certos casos, além de desvalorizar o momento presente, inspira ações de postergação artificial da vida em situações em que ela já não é compatível com a dignidade humana.

Fala-se pouquíssimo na felicidade que surge no aqui-e-agora do convívio das pessoas — a felicidade solidária. É compreensível: nosso cotidiano competitivo pode ser tudo menos feliz, embora seja nele, e não num reino transcendental, que temos de viver. Nossa mente tem pouca capacidade de entender e valorizar a felicidade que emerge da convivência. Um dos motivos para isso é que esta não é facilmente apropriável e transformável em moeda de troca, como se faz com o tempo.


Os obstáculos a essa compreensão são muitos e estão muito enraizados nos cânones de nossa cultura, segundo os quais é preciso competir, batalhar, ganhar muito dinheiro para poder comprar a felicidade. Na prática, as pessoas não raro acabam concluindo que é tão difícil ser feliz por esses meios que imaginam que o seja por todos os demais. E assim, no fim das contas, acabamos nos considerando incapazes de ser felizes seja de que maneira for.


A felicidade não está no término de uma linha de tempo, na qual o começo e o meio também estão predeterminados. A própria idéia de conquista subentende-a difícil e fugidia. Nessa ótica, ela é considerada uma forma de vantagem e continuamos a persegui-la por toda parte — menos onde se encontra: no espaço de convivência com o outro humanamente legitimado, e no respeito ao tempo de que ela precisa para emergir.


Saber esperar não é uma condição que deriva de um conjunto de regras, de um sistema filosófico ou de uma disciplina pragmática. Tampouco é uma condição transcendente, à qual devemos nos curvar movidos pela fé. Trata-se de uma dimensão importante da condição humana, e negá-la é negar a própria essência do viver.

Não é por acaso que saber esperar é uma dimensão tão feminina. Na mulher, essa característica não é uma virtude, uma proposta metafísica ou um valor moral. Pode até evoluir para tudo isso, sem dúvida, mas no princípio, na base, saber esperar é uma questão biológica. A mulher é um ser lunar, que sabe que precisa aguardar pelos grandes ciclos de seu universo orgânico: o menstrual, o gravídico, o puerperal, o do aleitamento. Ela sabe que não há como tentar acelerá-los, nem competir com eles sem que os resultados sejam desastrosos. E é essa sabedoria do viver que a capacita para a sabedoria do conviver.


Aprender com a mulher os mistérios da temperança e da serenidade é algo que nós, os homens, precisaríamos voltar a fazer.10 Digo voltar, porque já sabemos que era assim nas ancestrais culturas matrísticas. Se existe uma biologia do amor, existe também uma biologia da espera, e saber exercê-la é o caminho natural para aprendermos a lidar com a ansiedade e o imediatismo. Não estou dizendo que a mulher é superior ao homem ou vice-versa, mas convém lembrar que, em nossa cultura, um dos grandes obstáculos à compreensão e aceitação da biologia da espera é a tradicional desvalorização do feminino.11


Há muito que lançamos sobre as mulheres a culpa pelas dificuldades e frustrações que nosso imediatismo nos faz passar. Projetamos nelas os preconceitos oriundos de nossa insistência em negar a não-linearidade e a complexidade inerentes ao mundo e ao tempo. Por isso, dizemos que elas são imprevisíveis, inconstantes, obscuras, difíceis de lidar. Ou seja, dizemos que a mulher encarna todos os aspectos da vida que nossa mente racionalizadora não consegue pôr sob controle, esquecidos de que, ao nos expressarmos assim, reafirmamos que o feminino é a própria vida, da qual tanto nos queixamos, e à qual, ao mesmo tempo, tanto nos apegamos.


Saber Conversar

O que para nós é claro, pode ser incompreensível para o outro. Como observam Joseph O’Connor e Ian McDermott, em princípio tendemos a julgar a nós mesmos pelas nossas intenções e não pelo resultado de nossos atos.

Esse pressuposto em muitos casos nos leva a ser auto-tolerantes: se algo dá errado, ou se o resultado de nossas atitudes prejudica alguém, sempre poderemos dizer que não era essa a nossa intenção. Por outro lado, costumamos julgar o outro não pelas suas intenções (que nem sempre podemos adivinhar), mas por seu comportamento. Se algo não dá certo, ou se alguém é prejudicado, torna-se bem mais difícil sermos tolerantes com ele.


Mas ocorre que o tipo de alteridade ao qual estamos culturalmente determinados — gerador de mil cautelas, medos e desconfianças — não nos põe à vontade para conversar de modo aberto sobre as nossas intenções. Ao contrário, muitas vezes tendemos a escondê-las ao máximo. Se avalio o outro apenas pelo seu comportamento (e não pelo seu comportamento mais as suas intenções), é claro que ele me julgará do mesmo modo.


Esse é mais um dos resultados da limitação de nossas percepções e entendimentos pelo raciocínio de causalidade simples, que reforça a desconfiança e a constante busca de “provas”, aumenta o nível de cobranças e dificulta a tolerância. Somos inclinados a reagir a comportamentos e não a interagir com intenções e condutas.


Modificar o nosso modelo de conversação constitui, talvez, a melhor forma de lidar com essa dificuldade. Sabemos que nosso conversar é determinado por um alto nível de institucionalização. Em nossa cultura, não são muito freqüentes as oportunidades de falar com liberdade e sinceridade. Essa situação poderá mudar de modo significativo, se e quando conseguirmos transformar nossas conversas em trocas de intenções, em vez de continuar a fazer delas meios de ocultá-las. É preciso construir uma ética do dialogar, cujo ponto de partida pode ser a aprendizagem de como receber feedback (em especial o negativo) e mudar em função disso.


É claro que essa atitude não significa que devemos fazer tudo o que o outro quer. Nosso principal empenho será fazê-lo dar-se conta de que estamos procurando entender que seu comportamento provavelmente reflete as suas intenções, e que esperamos que ele faça o mesmo a nosso respeito.

Precisamos estar bem conscientes, porém, de que a alteridade que baliza a nossa cultura potencializa as posições reativas e dificulta as criativas, o que não quer dizer que devamos renunciar a estas. A chave para compreender esse sistema é tentar chegar às intenções do outro.


Tudo bem examinado, deduz-se que saber conversar é algo que só se aprende quando se é livre. Entre as muitas maneiras de definir o que significa ser livre chama atenção a de Viktor Frankl, que definiu liberdade como o intervalo entre o estímulo e a resposta, isto é, o espaço entre as questões que o mundo nos propõe e as respostas que lhe damos. Frankl sabia o que dizia. As bases de seu pensamento — que deram origem a uma corrente de psicoterapia existencial, a logoterapia — começaram na década de 20, mas foram consolidadas em sua experiência como prisioneiro de campos de concentração nazistas.


O psicoterapeuta Rollo May define liberdade do mesmo modo: como a possibilidade que uma pessoa tem de estabelecer uma pausa entre o estímulo e a resposta e depois orientar-se para uma determinada atitude, escolhida entre várias outras. É esse intervalo, esse pequeno interstício, que convida as pessoas a serem livres. E é dele que temos tanto medo: sempre que chamados a visitá-lo, refugiamo-nos no já visto, no conhecido. Essa é a principal forma de manter conversações que costumam louvar as virtudes do novo e queixar-se da repetitividade da vida, mas que são, elas próprias, repetitivas em sua insistência em opor-se a novas maneiras de ver o mundo.

Quando digo que precisamos reaprender a conversar, estou me referindo a essa circunstância. Reaprender a conversar significa aprender de novo a utilizar nossos espaços de criação. Mas, como sabemos, o medo de ser livres faz com que fujamos deles. Essa fuga se faz com mais freqüência por meio de nosso hábito de fazer perguntas padronizadas, as quais por sua vez suscitam respostas estereotipadas. Ou seja, dizemos o que os outros querem ouvir para que eles nos respondam o que queremos ouvir — e assim nada se aprende e nada se ensina.

Se cada um de nós percebe o mundo segundo a sua própria estrutura, saber conversar significa antes de mais nada saber perguntar. Expliquemos. Em nossa cultura, muitas vezes o diálogo se torna uma competição, na qual se decidirá quem fala melhor, quem argumenta com mais brilhantismo e assim por diante. Em geral, julgamos que uma questão bem formulada é aquela que põe o outro em dificuldades. Sentimo-nos vitoriosos quando conseguimos embaraçar o nosso interlocutor. Propor-lhe perguntas difíceis, acuá-lo, significa para nós um triunfo. Com muita freqüência, usamos as perguntas não para conversar, para aprender algo, mas para “vencer” um debate.


O modo como o interlocutor entende o nosso questionamento depende de sua estrutura, não do que perguntamos. Saber perguntar é fazer perguntas que produzam alterações no questionado, isto é, que o levem a aprender algo, a modificar-se e depois partilhar conosco o que aprendeu. Nesse sentido, saber questionar, antes de ser uma pretensão a receber algo de quem se pergunta, equivale a dar-lhe uma oportunidade de transformar a sua estrutura, isto é, de aprender. Trata-se, no fim das contas, de um processo maiêutico.


Ensinar é propor questões mobilizadoras. Estas produzem em quem as formula uma expectativa respeitosa diante da resposta, e é por isso que saber questionar conduz a saber ouvir. Não pode haver indagações adequadas sem a conseqüente preparação para receber o retorno.


Saber questionar equivale a desencadear um processo de co-educação. Krishnamurti costumava dizer que o verdadeiro problema da educação são os educadores. Marx preocupava-se em saber quem os educaria. Se partirmos do princípio de que o verdadeiro papel dos educadores é formular perguntas adequadas, segue-se que quem os educa são os educandos, ao dar-lhes as respostas.


Nós somos o mundo. Quando perguntamos algo a alguém, é o próprio mundo que se abre para essa pessoa, não para desafiá-la ou constrangê-la, mas para proporcionar-lhe uma oportunidade de modificar-se e, a partir daí, modificá-lo. Do mesmo modo, ao recebermos a resposta é do mundo que ela vem. Nesse sentido, conversar com o outro significa que o mundo está conversando consigo próprio por nosso intermédio — é por isso que conversar significa estar-com, encontrar-se, religar-se, descondicionar-se, libertar-se. Eis a essência da autoprodução.


George Johnson assinala que quando lemos algo, ou quando conversamos com alguém, essa experiência produz modificações físicas em nosso cérebro (isto é, mudanças de estrutura), que se manifestam pela formação de novos circuitos neuronais e mobilizações de memória, que por sua vez levam a dinâmicas diferenciadas. Logo, a multiplicação dessas conexões e sua organização em forma de rede constituem o ponto central de qualquer processo importante de transformação. Muitas vezes, absorvidos com a possibilidade do emprego de métodos e técnicas mais elaborados, esquecemo-nos de que a fluidez e a naturalidade das conversações compõem o que há de mais simples e importante para essa finalidade.


Se o que define uma cultura é o conteúdo das redes de conversação que a percorrem e compõem, saber conversar é saber construir um universo cultural. Conversar é aprender, mesmo quando por um motivo ou por outro nosso interlocutor não é capaz de nos dar a resposta que consideramos “certa”. Dizer ao outro o que ele quer ouvir — e fazê-lo retrucar na mesma medida — não é conversar, é monologar.

A conversação constitui uma oportunidade para que as emoções de cada interlocutor se reorganizem. Como diz Maturana, ela promove o entrelaçamento do emocional com o racional. Daí a importância dos pequenos grupos. Eles representam a ampliação dos espaços de liberdade individual e, em conseqüência, das possibilidades de aprender a conversar.


A diversidade de opiniões que caracteriza os grupos assim formados faz com que esses espaços de criação jamais se fechem nem sejam preenchidos. Eles precisam ficar sempre abertos, porque constituem uma região de troca e enriquecimento. Educar-se é adquirir a capacidade de identificar e ampliar ainda mais os espaços de conversação e, sobretudo, mantê-los sempre permeáveis.


A linguagem não acontece nos interlocutores e sim no “entre”, no espaço comum criado entre eles e por eles. Ocorre no intervalo de liberdade há pouco mencionado. Além disso, as modificações estruturais produzidas pela linguagem não se limitam ao campo verbal nem ao momento em que ocorrem as conversas.


Já sabemos, com Humberto Maturana, que a linguagem promove modificações estruturais porque coordena (organiza, sintetiza) os nossos comportamentos e, ao relatá-los, contribui para que eles se modifiquem. As interações (os encontros) deflagram mudanças nos sistemas vivos: são as coordenações. A linguagem coordena e relata essas coordenações. Ela é, portanto, a coordenação das coordenações.


Muitas das dimensões de nossas interações são inconscientes, mas nem por isso deixam de participar dessas relações. Se é certo que boa parte da nossa conduta é determinada pelo inconsciente, isso não quer dizer que nos devamos entregar por completo às prescrições dessa parte oculta de nossa psique.


Podemos lidar com elas de vários modos. O principal consiste em fazer com que os conteúdos inconscientes venham à tona, para que possamos tentar examiná-los e, dentro do possível, fazer escolhas. Para a promoção dessa emergência a conversação é indispensável. Por isso é que afirmo que saber conversar é saber ser livre.


Saber Amar

Se o inferno são os outros, a felicidade também o é. Se não existe inferno sem os outros, também não há felicidade sem eles. Amar é algo que já se nasce sabendo. Em geral, os pais tentam educar as crianças para aperfeiçoá-las nesse saber.

Procuram criar um ambiente onde elas tenham oportunidades de desenvolver aquilo para o qual nasceram, isto é, respeitar os outros e o mundo natural.

Mas sabemos que ao crescer elas se vêem obrigadas a enfrentar uma cultura que é o oposto de tudo isso. Têm de desaprender a amar, e disso se encarregam a racionalização, as ideologias e o conformismo, cuja estratégia é transformar o amor em um produto raro, difícil de obter e por isso mesmo muito valorizado no “mercado”. Esse fenômeno não afeta com a mesma intensidade os dois sexos, como veremos logo mais.


Jean-Jacques Rousseau
12 fala do amour de soi (amor de si) e do amour propre (amor-próprio). No primeiro caso, o amor precede as posturas morais e se relaciona ao mundo dos instintos. É o amor pelo que somos, mas que se amplia em termos de amor ao próximo. Por outro lado, o amor próprio é o sentimento que nos leva a comparar-nos aos outros e julgar-nos superiores a eles.

Esses conceitos nos proporcionam mais uma forma de definir a cultura do patriarcado, na qual prevalece o amor próprio, e também a cultura matrística, em que predomina o amor de si, que leva ao sentimento de participação, à aceitação do corpo e da sexualidade e à legitimação do outro. No caso do amor próprio predomina a repressão, a vergonha do corpo e da sexualidade e a ânsia pelo domínio do mundo natural. Não é difícil, pois, compreender por que a mercantilização do amor e da sexualidade constitui uma das faces mais destacadas da cultura patriarcal.


Rousseau fala de outro sentimento, a que deu o nome de idéia de consideração, que é uma espécie de intermediário entre os anteriores. O filósofo mostra como é vital para os homens viver em sociedade. Essa condição se manifesta pela necessidade que os seres humanos têm de serem vistos uns pelos outros. Vem daí a idéia de que o outro é um complemento indispensável do eu, o que coloca a sociabilidade no próprio cerne da situação humana.


Humberto Maturana e
Gerda Verden-Zöller sustentam que somos seres dependentes do amor. Vivemos, porém, em uma cultura que se caracteriza pela agressão e pelas guerras — uma cultura de desamor. A questão que esses autores propõem é a seguinte: os seres humanos são animais geneticamente agressivos e às vezes amorosos, ou são animais amorosos que às vezes se tornam agressivos?


Há outra maneira de formular a pergunta: os seres humanos são animais geneticamente patriarcais, que às vezes agem de modo matrístico, ou são animais geneticamente matrísticos e culturalmente tornados patriarcais? Se recorrermos à teoria do cérebro triúnico, de Paul Mac Lean, a questão poderá ser enunciada ainda de outra forma: somos animais guiados pelas
determinações do cérebro reptiliano (agressivo), que às vezes agem segundo as determinantes do cérebro mamífero (afetivo), ou o contrário?


Pouco importa a forma de indagar. Sabemos que Maturana afirma que nossa agressividade é (ou ainda é) de origem cultural. Sustenta, além disso, que somos seres que vivem na linguagem. Se esta desaparecesse, também desapareceríamos como humanos. Essas noções permitem entender de outra forma o que foi dito há pouco. Se as crianças já nascem sabendo amar (isto é, se são biologicamente amorosas e às vezes agressivas), as conversações da cultura em que vivem é que fazem com que elas desaprendam o amor. Em conseqüência, passam a comportar-se de forma agressiva, mesmo sendo geneticamente amorosas.


Como se vê, o raciocínio de Maturana é biológico, e vê o amor não como uma dimensão excepcional ou virtude transcendente, mas como um fenômeno da natureza. Nesse sentido, a vida amorosa é uma forma de exercermos essa condição. É o que ele denomina de biologia do amor.


Mas esse reducionismo inicial abre caminho para muitas reampliações. Amar o outro significa reconhecê-lo e legitimá-lo, sem que ele precise de nenhum modo justificar a sua humanidade. Todavia, vivemos em uma cultura em que prevalecem o não-reconhecimento e a exclusão. Nesse caso, o outro não é aceito como humano a priori: reservamos esse privilégio para nós próprios e, a partir daí, pretendemos impor-lhe os nossos valores. Isso significa que passamos a exigir do outro mais e mais provas de sua humanidade e, por mais que ele as forneça, estaremos sempre prontos a desqualificá-las.


Cabem aqui mais algumas reflexões. Se estamos há tanto tempo orientados para o desamor e para a agressividade, será que ainda há possibilidade de mudança? Ou, de forma ainda mais pessimista, será que esse ponto já não foi ultrapassado e agora malhamos em ferro frio?


É muito difícil responder, pois qualquer resposta só poderia ser dada nos termos dos nossos condicionamentos. Até que consigamos reduzir ao menos um pouco essa limitação, quaisquer tentativas nesse sentido levarão a conclusões equivocadas. De modo que nesse caso somos levados a pensar em termos excludentes: ou nos resignamos ao que se vem repetindo há séculos — que o homem é biologicamente mau e nada se pode fazer quanto a isso —, ou prosseguimos com nossos esforços de reforma do pensamento.


Há pouco, observei que amar é algo que já se nasce sabendo, mas que a cultura dominante nos levou a desaprender. Assinalei também que essa desaprendizagem não afetou na mesma proporção os dois sexos. Com efeito, o antropólogo Ashley Montagu observa que a mulher cria e conserva a vida, enquanto o homem a mecaniza e destrói. Para Montagu, o amor da mãe pelos seus filhos é o grande modelo para todas as demais formas de relacionamento. Já no fim dos anos 60 ele observava, embora não utilizasse essa expressão, que as mulheres são mais preparadas do que os homens para pensar em termos sistêmicos.13


As palavras desse autor mostram como, em geral, as mulheres não se deixaram condicionar tanto quanto os homens pelo pensamento linear. Pode-se dizer que elas são as grandes produtoras e mantenedoras do modelo mental sistêmico, representado pela intuição, que com tanto empenho aprendemos a desprezar. Assim, deduz-se que saber amar é algo que os homens precisam reaprender com as mulheres. Como diz Montagu, o que precisamos é de um pouco mais do espírito feminino e um pouco menos da agressividade masculina.


O homem pode aprender com a mulher a pensar em termos sistêmicos, e, a partir daí, ambos podem chegar a uma visão complexa de mundo. Mas para tanto ele precisa deixar de impor-lhe a sua linearidade. Isso feito, a complementaridade ocorrerá de modo espontâneo, porque os processos naturais são cooperativos e competitivos e não — como se pensou durante muito tempo — só competitivos. A “competitividade” é uma circunstância cultural, criada pelo medo que aprendemos a ter uns dos outros. Nós, do sexo masculino, precisamos de ajuda para sair dessa situação, e esse auxílio está bem mais próximo do que imaginamos.


É evidente que aqui não me refiro ao feminino como sexo. Meu propósito é bem mais abrangente: falo de um amplo conjunto de qualidades e habilidades próprias da totalidade do ser humano que, no momento atual e pelas razões já apontadas, as mulheres encarnam de forma mais ampla e mais clara. De todo modo — e com Montagu —, reflitamos sobre o que diz Biron, personagem de Shakespeare:

From women’s eyes this doctrine I derive:

They sparkle still the right Promethean fire;

They are the books, the arts, the academes,

That show, contain and nourish all the world:

Else none at all in aught proves excellent.14

[Dos olhos das mulheres tiro esta doutrina:

Elas ainda brilham como o verdadeiro fogo prometéico;

Elas são os livros, as artes, as academias,

Que mostram, contêm e nutrem o mundo inteiro:

Sem isso, de qualquer forma, nada mais dá provas de excelência.]

Maturana observa que só o amor expande a inteligência, e parece não haver dúvidas a esse respeito. Nesse sentido, sustento que viver a biologia do amor é viver de modo inteligente, isto é, de forma competente, o que significa entre outras coisas deixar de querer reduzir mistérios a problemas e vice-versa.. A inteligência é ao mesmo tempo o resultado do amor e a vertente que o faz brotar. Quem ama estende a mão. Quem estende a mão prepara-se para o abraço — e não se pode abraçar a quem não se ama.


Saber Abraçar

Para saber abraçar, é preciso antes saber amar. Surge então a pergunta: o que será que eu preciso ver no outro para que possa sentir vontade de abraçá-lo, isto é, tornar-me solidário com ele? Em primeiro lugar, preciso ver a mim mesmo, e é por isso que devo evitar projetar nele o que não desejo em mim. A maneira como vejo o outro depende mais de mim do que dele, isto é, como trabalho o meu ego e dos resultados a que chego.

Nosso ego funciona como o guardião dos condicionamentos de nossa mente. É o meio pelo qual pomos em prática a razão instrumental. Trata-se, como se sabe, de uma dimensão instituída, isto é, elaborada pelas circunstâncias da cultura. As pessoas que se empenham em um trabalho sobre si próprias, seja pela psicoterapia, seja por outros processos de desenvolvimento pessoal, podem chegar a uma outra dimensão egóica — o ego trabalhado — que se aproxima de um modo de viver não apenas mecânico.


Trata-se de uma dimensão participante. Não estou propondo que tenhamos dois egos, é claro. Ao nos darmos conta desse redimensionamento, porém, percebemos nossas possibilidades e limitações. Defrontamo-nos a um só tempo com a liberdade e com o nada.


Martin Heidegger diz que há duas formas fundamentais de existência humana. A primeira se caracteriza pelo esquecimento do Ser. A outra tem essa consciência, e faz com que vejamos a morte como um fato da vida e não apenas como o seu término. No primeiro caso, temos a existência pautada pelo ego-pensamento, que produz o homem individualista. No segundo, surge o modo de viver do homem que se fez indivíduo sem se afastar de seus semelhantes.


A marca central da inautenticidade é a perda do sentido de totalidade. Talvez seja essa a noção que temos maior dificuldade de compreender. Quando um indivíduo se mantém inteiro, adquire a compreensão de que essa integridade pode e precisa ser partilhada com o outro, isto é, com o mundo. A essência do ser humano se define por meio de sua relação com o mundo, e guarda também uma afinidade indispensável com a totalidade do Ser.
Espinosa expressa essa circunstância ao dizer que essa ligação configura uma unidade que é a própria natureza. Esse é um dos motivos pelos quais a idéia de razão desse filósofo é, na essência, ética.


Aceitar a morte como um fato da vida equivale a admitir nossa vulnerabilidade e finitude. O homem individualista, que se pretende imortal, acha que não precisa de ninguém. O homem-indivíduo pensa o oposto. Nos termos do mito do curador ferido, sua posição corresponde a admitir a possibilidade de estar lesado e, em conseqüência, respeitar as feridas dos outros e dispor-se a ajudar a cuidar delas.


Sem essa consciência não poderemos instaurar uma nova ética da alteridade. Acompanhando Montaigne, Goethe assim expressa a nossa situação: “Os homens trazem dentro de si não só a sua individualidade, mas a humanidade inteira, com todas as suas possibilidades”. Se persistirmos na recusa de assumir na prática essa condição, continuará a ser para nós muito fácil agredir e eliminar o outro — e, convenhamos, não pode haver vontade de abraçar aquele a quem vemos como um condenado.


A idéia da morte valoriza a nossa existência e faz com que valorizemos a vida do outro. Nas palavras do psicoterapeuta Irvin Yalom, se a morte destrói o homem, a idéia dela o salva. Aceitamos a morte como um fato da vida — e não apenas como o fim de tudo — quando nos damos conta de que somos vulneráveis e frágeis e de que o mundo (que inclui a figura do outro) também o é.


Eis o que chamo de interfragilidade. Para chegar a ela, é preciso percorrer três planos: a) primeiro, a fase de prevalência do ego, com sua mão fechada, pronta para o soco, ou então crispada sobre e empunhadura da espada; b) a seguir surge a etapa da mão aberta e estendida, que resulta do trabalho sobre a dimensão egóica; c) por fim vem a mão estendida, que se continua por um braço, que por sua vez se alia a outro e ambos se dispõem a abraçar.

Os braços pertencem a um corpo. No estado atual de nossa cultura, este é comandado pelas determinações do ego não trabalhado, que precisa dele para utilizá-lo como arma ou ferramenta, dado que é assim que exerce a competição e a agressividade. O ego “possui” o corpo, e essa relação dividida transforma a vida das pessoas em uma sucessão de apegos, disputas e conflitos.


Já a experiência do ego trabalhado muda esse horizonte, porque torna-se claro que não possuímos o nosso corpo: nós o somos. Entendida dessa forma, a corporeidade passa a ser vivida como uma intercorporeidade — e assim nos damos conta de que o corpo é o lugar onde se fundem o morador e a morada, a teoria e a prática, o abstrato e o concreto, o ser e o nada.


Da intercorporeidade emerge a espiritualidade. Esta, como escrevi antes, corresponde a uma atitude de respeito pelo mundo natural e participação em seus processos. Tudo isso começa, é claro, pela relação com o outro. Não estou dizendo que não se deva buscar por outros meios a transcendência, mesmo porque esta é uma dimensão necessária e fundamental para o ser humano. O ponto no qual insisto é que nenhuma iniciativa de religação pode ser tomada sem que primeiro se chegue ao ponto mais importante de todo o processo, que é a legitimação da figura do outro.


Se a busca do outro é a procura da integração no mundo, dizer que o amor é uma dimensão biológica só na aparência é uma redução. Uma reflexão mais aprofundada revela que apenas por meio do outro é possível ampliar e transcender as limitações de nossa fragmentação e solidão existencial.

A busca da alteridade é inerente à condição humana. Já sabemos que a localização anatômica de nossos olhos revela que eles estão orientados para enxergar o outro. Também não podemos abraçar a nós mesmos: só o outro pode abraçar-nos. Eis por que precisamos dele: para que nos abrace e assim nos ajude a saber que existimos.

Somos seres desejantes. Mas, como intuiu o psicanalista W. Fairbairn, a finalidade do desejo não é o prazer e sim a relação com o outro. O prazer é um meio para esse fim. Não buscamos a convivência por causa do prazer — é ele que nos leva a procurá-la. O si-mesmo não é apenas único, é também coletivo. Nesse sentido, o indivíduo não tem primazia sobre a cultura em que vive. Quanto mais nos identificarmos apenas com o ego, mais dificuldade teremos de entender que o si-mesmo é a um só tempo individual e comunitário.


Já em 1953, o escritor argentino Ernesto Sábato15, certamente influenciado por Martin Buber, via no processo histórico um impulso em direção ao feminino, ao qual chamou de gamocentrismo. Esse abraço dos sexos pode ser visto como uma metáfora para exprimir a complementaridade dos pensamentos linear e sistêmico, que compõe o pensamento complexo, o qual por sua vez permite o entendimento e a prática da visão de mundo neomatrística. Para Sábato as sociedades humanas se movem, desde a Idade Média, segundo a seguinte dinâmica:


- Comunidade medieval (predomínio do Nós);

- individualismo mercantil do Renascimento (predomínio do Eu);

- ciência e capitalismo abstratos da modernidade (predomínio do Isso);

- rebelião romântica, existencial, concreta e feminina (predomínio do Eu);

- síntese fenomenológica, rumo a uma comunidade feminino-masculina

(predomínio do Nós).

Neste ponto, é necessário fazer uma digressão. Sabemos que o início da experiência mental é inconsciente e se estrutura com o feto no útero materno, imerso em seu pequeno mar de líquido amniótico. Nesse ambiente ele está em paz, satisfeito e em “união oceânica” com a mãe, como escreveu Freud. Ao determinar a expulsão brusca da criança dessa “oceanidade”, o nascimento representaria um trauma terrível. É dessa separação que se originaram mitos conhecidos, como o da queda e o que fala de uma idade de ouro há muito perdida.


Nessa ordem de idéias, a partir do nascimento o ser humano se vê diante de dois caminhos: ou supera o trauma primal e torna-se um indivíduo no mundo, ou o nega e sua vida passa a ser uma longa jornada de volta à unidade perdida. No segundo caso, tem-se o que ocorre com certos místicos, para os quais a busca de uma fusão com o Universo significa a negação da existência individual — julgada insignificante — e uma idealização da religação com o todo.


Essa posição tem sido interpretada por muitos como alienante. Em termos psicológicos, corresponde a uma renúncia radical ao ego, que por sua vez tem sido vista como uma alternativa a ter que enfrentar o terror de sentir-se abandonado num mundo estranho e hostil. Para outros, ela também representaria uma necessidade de onipotência, cujo resultado mais imediato seria um certo desprezo por tudo o que é material.


O desejo narcísico de diluição na totalidade pode também ser interpretado como a raiz de nossa tendência de achar que pouco ou nada podemos fazer por nós próprios, o que nos levaria a buscar apoio em âmbitos abstratos e idealizados. Como resultado, nossos semelhantes passariam a ser encarados como fracos e desprezíveis ou, na melhor das hipóteses, como companheiros de infortúnio. Tenderíamos a transferir o nosso centro de auto-regulação para um domínio externo, o que acabaria nos alienando cada vez mais da realidade.


É muito importante não confundir a necessidade de ser visto (reconhecido) e abraçado (acolhido) pelo outro com o desejo de retornar a essa “oceanidade”. Abraçar e ser abraçado derivam da primeira escolha atrás mencionada, isto é, da opção de tornar-se um indivíduo neste mundo. Sustento que ver e ser visto, tocar e ser tocado, abraçar e ser abraçado (pelo outro e pelo mundo) são metáforas de integração, não de diluição ou apagamento.


A religação de que fala o pensamento complexo é uma reaproximação de saberes, a ser posta em prática na concretude dos sistemas da natureza. Não se trata de uma vontade de retorno, mas sim de uma efetiva participação na dinâmica dos ciclos do mundo natural. É uma interdependência espontânea, que produz autoprodução e autonomia, e não uma co-dependência induzida pelo medo, que resulta em aprisionamento.


Foi dito e repetido que a negação radical do ego, ou sua transformação em vilão, traz consigo o perigo de alienação e, em conseqüência, a negação do outro. A suposição, por exemplo, de que a ancestral cultura matrística seria um reino encantado, um grande útero materno ao qual todos devemos retornar, é um equívoco que, em última análise, traduz o desejo de submissão a um matriarcado ideal, que nada tem a ver com o modo matrístico de convivência.


Por isso, é necessário que não confundamos as atuais propostas de sociedades de parceria com fantasias de regressão a uma idade de ouro perdida. Essas iniciativas incorporam várias das características da cultura matrística, mas a consciência que as orienta está baseada em uma visão de futuro realista, e nada receosa ou submissa.


Do mesmo modo, o pensamento complexo está muito longe dessa idéia de fusão “oceânica”. Sua proposta inclui a procura do autoconhecimento, que resulta da compreensão de que o ego é frágil e por isso precisa ser trabalhado e reestruturado, para que possa ser capaz de cumprir o seu papel. Um ego frágil, alienado ou negado em nada ajudará na reforma do sistema de pensamento.


O eu contém o múltiplo (a sociedade, a cultura), que por sua vez o contém. Eis a unitas multiplex — a unidade na multiplicidade, a tradução do abraço comunitário que envolve a cada um de nós. Tudo isso se expressa de um modo dinâmico: o eu se transforma com a cultura, que por sua vez o modifica, numa relação de congruência. O abraço não é um substantivo, e sim um verbo — um verbo no gerúndio: melhor seria que estivéssemos sempre abraçando e nos deixando abraçar.


A insistência em negar essa necessidade gera a interminável seqüência das nossas aflições. Fingimos não saber que quanto mais “competitividade” mais esperteza e menos inteligência. A esperteza fragmenta, mutila, não respeita a unidade das coisas naturais. A inteligência aproxima, abraça. Não pode ser medida, porque sua única dimensão é a totalidade.


Não é que a inteligência seja melhor do que a esperteza, nem vice versa. Vejo as duas do ponto de vista operacional — e afirmo que elas não precisam complementar-se, porque a primeira já inclui a segunda, isto é, o homem inteligente é aquele que sabe que, no fluxo das coisas, é preciso ser inteligente sem deixar de ser esperto. Sabe que é necessário temperar a habilidade de resolver problemas mecânico-fisiológicos com os limites éticos que a inteligência aponta para as conseqüências das ações que os geraram.


A “competitividade” é uma dimensão da esperteza. A competência está no âmbito da inteligência. Dizer que precisamos trabalhar por mais inteligência e menos esperteza equivale a propor que é necessário buscar mais individualidade e menos individualismo. A individualidade é o ponto de partida natural para a interpessoalidade. O individualismo é o marco inicial da competição predatória. O homem que se individualiza é aquele que se diferencia da massa, mas não imagina que pode se isolar de seus semelhantes. É o que se torna indivíduo sem se deixar alienar.

Não há, pois, individualidade sem interpessoalidade. Ser indivíduo é buscar a inteligência (que nasce da interpessoalidade) e saber lidar com a esperteza (que se origina no individualismo). Não nos esqueçamos de que o homem que se torna um indivíduo é uma síntese viva e criadora da condição humana, enquanto que aquele que mergulha no individualismo imagina-se sempre primeiro e único o que, como já foi dito, equivale a correr o risco de ser também o último.


Esperteza (“competitividade”) é querer vencer eliminando os vencidos. Inteligência (competência) é poder vencê-los e estender-lhes a mão, para que eles possam amanhã ser também vencedores. A mão fechada é o começo da separação. A mão estendida é o início do abraço. É o ponto de partida para o pensamento complexo — marco inaugural do longo processo de busca da solidariedade.


Notas
1. SENGE, Peter, et al. The Fifth Discipline Fieldbook. Nova York: Doubleday Currency, 1994, p.p. 3-4.

2. PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p. 212.

3. Id., ibid., p. 217.

4. MARIOTTI, Humberto. As Paixões do Ego: Complexidade, Política e Solidariedade. São Paulo: Palas Athena, 2000, pp. 245-246.

5.PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p.207.

6.Id., ibid., p. 207.

7.Id. ibid., p. 222.

8.Id., ibid., p. 234.

9.Id., ibid., p. 238.

10. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da Educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992, pág. 9, nota 1.

11. MONTAGU, Ashley A Superioridade Natural da Mulher. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970, p. 3.

12. Ver TODOROV, Tzvetan. A Vida em Comum: Ensaio de Antropologia Geral. Campinas (S. Paulo): Papirus, 1996, pp. 24-25.

13. MONTAGU, op. cit., p. 138.

14. SHAKESPEARE, William. The Complete Works of William Shakespeare. (William G. Clark, William A. Wright, eds.) Nova York: Grosset & Dunlap, 1911, Love’s Labour’s Lost, p. 182.

15. SÁBATO, Ernesto. Heterodoxia. Campinas (S. Paulo): Papirus, 1993, p.91.

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( © Mariotti, H., 2002 )


Observação.
Este texto corresponde a uma
palestra dada pelo autor nas 3as. Conferências Internacionais de Epistemologia e Filosofia. Instituto Piaget, Campus Acadêmico de Viseu, Portugal, em abril de 2002.


HUMBERTO MARIOTTI Médico psicoterapeuta. Professor e coordenador do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo (SP). Coordenador do Grupo de Estudos de Pensamento Complexo Aplicado à Administração e aos Negócios da Business School São Paulo.

Email- homariot@uol.com.br


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  • Guerra e Paz - LEON TOLSTOI
  • Incidente em Antares, de Érico Veríssimo
  • Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
  • O Alienista - Machado de Assis
  • O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
  • O Contrato de Casamento, de Honoré de Balzac
  • O Estrangeiro - Albert Camus
  • O homem revoltado - Albert Camus
  • O jogo da Amarelinha – Júlio Cortazar
  • O livro de Areia – Jorge Luis Borges
  • O mercador de Veneza, de William Shakespeare
  • O mito de Sísifo, de Albert Camus
  • O Nome da Rosa - Umberto Eco
  • O Processo - Franz Kafka
  • O Príncipe de Nicolau Maquiavel
  • O Senhor das Moscas, WILLIAM GOLDING
  • O Som e a Fúria (WILLIAM FAULKNER)
  • O ULTIMO LEITOR - PIGLIA, RICARDO
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Os Invencidos, WILLIAM FAULKNER
  • Os Miseravéis - Victor Hugo
  • Os Prêmios – Júlio Cortazar
  • OS TRABALHADORES DO MAR - Vitor Hugo
  • Por Quem os Sinos Dobram - ERNEST HEMINGWAY
  • São Bernardo - Graciliano Ramos
  • Vidas secas - Graciliano Ramos
  • VINHAS DA IRA, (JOHN STEINBECK)

zz - Estudar Sempre/CLÁSSICOS DA HISTÓRIA, FILOSOFIA E ECONOMIA POLÍTICA

  • A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo - Lênin
  • A História me absolverá - Fidel Castro Ruz
  • A ideologia alemã - Karl Marx e Friedrich Engels
  • A República 'Comunista' Cristã dos Guaranis (1610-1768) - Clóvis Lugon
  • A Revolução antes da Revolução. As guerras camponesas na Alemanha. Revolução e contra-revolução na Alemanha - Friedrich Engels
  • A Revolução antes da Revolução. As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França - Karl Marx
  • A Revolução Burguesa no Brasil - Florestan Fernandes
  • A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky - Lênin
  • A sagrada família - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Antígona, de Sófocles
  • As tarefas revolucionárias da juventude - Lenin, Fidel e Frei Betto
  • As três fontes - V. I. Lenin
  • CASA-GRANDE & senzala - Gilberto Freyre
  • Crítica Eurocomunismo - Ernest Mandel
  • Dialética do Concreto - KOSIK, Karel
  • Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico - Friedrich Engels
  • Do sonho às coisas - José Carlos Mariátegui
  • Ensaios Sobre a Revolução Chilena - Manuel Castells, Ruy Mauro Marini e/ou Carlos altamiro
  • Estratégia Operária e Neocapitalismo - André Gorz
  • Eurocomunismo e Estado - Santiago Carrillo
  • Fenomenologia da Percepção - MERLEAU-PONTY, Maurice
  • História do socialismo e das lutas sociais - Max Beer
  • Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels
  • MANUAL DE ESTRATÉGIA SUBVERSIVA - Vo Nguyen Giap
  • MANUAL DE MARXISMO-LENINISMO - OTTO KUUSINEN
  • Manuscritos econômico filosóficos - MARX, Karl
  • Mensagem do Comitê Central à Liga dosComunistas - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Minima Moralia - Theodor Wiesengrund Adorno
  • O Ano I da Revolução Russa - Victor Serge
  • O Caminho do Poder - Karl Kautsky
  • O Marxismo e o Estado - Norberto Bobbio e outros
  • O Que Todo Revolucionário Deve Saber Sobre a Repressão - Victo Serge
  • Orestéia, de Ésquilo
  • Os irredutíveis - Daniel Bensaïd
  • Que Fazer? - Lênin
  • Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda
  • Reforma ou Revolução - Rosa Luxemburgo
  • Revolução Mexicana - antecedentes, desenvolvimento, conseqüências - Rodolfo Bórquez Bustos, Rafael Alarcón Medina, Marco Antonio Basilio Loza
  • Revolução Russa - L. Trotsky
  • Sete ensaios de interpretação da realidade peruana - José Carlos Mariátegui/ Editora Expressão Popular
  • Sobre a Ditadura do Proletariado - Étienne Balibar
  • Sobre a evolução do conceito de campesinato - Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA GUERRILHEIRA

  • A Guerra de Guerrilhas - Comandante Che Guevara
  • A montanha é algo mais que uma imensa estepe verde - Omar Cabezas
  • Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana - Florestan Fernandes
  • EZLN – Passos de uma rebeldia - Emilio Gennari
  • Imagens da revolução – documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971; Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá
  • O Diário do Che na Bolívia
  • PODER E CONTRAPODER NA AMÉRICA LATINA Autor: FLORESTAN FERNANDES
  • Rebelde – testemunho de um combatente - Fernando Vecino Alegret

ZZ- Estudar Sempre /GEOGRAFIA EM MOVIMENTO

  • Abordagens e concepções de território - Marcos Aurélio Saquet
  • Campesinato e territórios em disputa - Eliane Tomiasi Paulino, João Edmilson Fabrini (organizadores)
  • Cidade e Campo - relações e contradições entre urbano e rural - Maria Encarnação Beltrão Sposito e Arthur Magon Whitacker (orgs)
  • Cidades Médias - produção do espaço urbano e regional - Eliseu Savério Sposito, M. Encarnação Beltrão Sposito, Oscar Sobarzo (orgs)
  • Cidades Médias: espaços em transição - Maria Encarnação Beltrão Spósito (org.)
  • Geografia Agrária - teoria e poder - Bernardo Mançano Fernandes, Marta Inez Medeiros Marques, Júlio César Suzuki (orgs.)
  • Geomorfologia - aplicações e metodologias - João Osvaldo Rodrigues Nunes e Paulo César Rocha
  • Indústria, ordenamento do território e transportes - a contribuição de André Fischer. Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski e Eliseu Savério Spósito
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira

ZZ - CINEMA

  • 1900 - Bernardo Bertolucci
  • 1984 (Michael Radford)
  • 2001 - Uma Odisséia no Espaço - Stanley Kubrick
  • A Batalha de Argel - Gillo Pontecorvo
  • A Classe Operária Vai ao Paraíso (Elio Petri)
  • A Cor Púrpura (Steven Spielberg)
  • A Dama e o Vagabundo (Clyde Geronimi)
  • A Dança dos Vampiros (Roman Polanski)
  • A Doce Vida - Federico Fellini
  • A Era do Rádio (Woody Allen)
  • A Excêntrica Família de Antônia - Marleen Gorris
  • A Fantástica Fábrica de Chocolate (Mel Stuart)
  • A Festa de Babette - Gabriel Axel
  • A Flauta Mágica (Ingmar Bergman)
  • A História Sem Fim (Wolfgang Petersen)
  • A Idade da Terra (Glauber Rocha)
  • A Infância de Górki (Mark Donskoi)
  • A Insustentável Leveza do Ser (Philip Kaufman)
  • A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Tim Burton)
  • A Liberdade É Azul (Krzysztof Kieslowski)
  • A Marca da Maldade - Orson Welles
  • A Mãe (Vsevolod Pudovkin)
  • A Primeira Noite de um Homem - Mike Nichols
  • A Raposa do Deserto (Henry Hathaway)
  • A Revolução dos Bichos - John Stephenson
  • A Rosa Púrpura do Cairo - Woody Allen
  • A Trapaça (Federico Fellini)
  • A Um Passo da Eternidade - Fred Zinnemann
  • A Vida É Bela (Roberto Benigni)
  • A Ópera do Malandro (Ruy Guerra)
  • Abismo de um Sonho (Federico Fellini)
  • Adeus Lenin! (Wolfgang Becker)
  • Adivinhe Quem Vem Para Jantar - Stanley Kramer
  • Aguirre, a Cólera dos Deuses - Werner Herzog
  • Amadeus - Milos Forman
  • Amarcord - Federico Fellini
  • Anna Karenina (Clarence Brown)
  • Apocalypse Now - Francis Ford Coppola
  • As Aventuras de Sherlock Holmes (Alfred L. Werker)
  • As Horas (Stephen Daldry)
  • As Invasões Bárbaras - Denys Arcand
  • Asas da Liberdade - Alan Parker
  • Assassinato no Orient Express (Sidney Lumet)
  • Assim Caminha a Humanidade - George Stevens
  • Balada do Soldado - Grigori Chukhrai
  • Bananas (Woody Allen)
  • Barravento (Glauber Rocha)
  • Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodansky)
  • Bird - biografia jazzista Charlie “bird” Parker (Clinton Eastwood )
  • Boa Noite, e Boa Sorte Título Original Good Night, and Good Luck - George Clooney
  • Bodas de Sangue (Carlos Saura)
  • Bonnie e Clyde - Arthur Penn
  • Brazil - O Filme -Terry Gilliam
  • Buena Vista Social Club (Wim Wenders)
  • Butch Cassidy - George Roy Hill
  • Bye, Bye Brasil - Carlos Diegues
  • Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho)
  • Cantando na Chuva - Stanley Donen
  • Carandiru - O Filme (Hector Babenco)
  • Caravaggio (Derek Jarman)
  • Carlota Joaquina, Princesa do Brasil - Carla Camurati
  • Carruagens de Fogo - Hugh Hudson
  • Casablanca - Michael Curtiz
  • Central do Brasil - Walter Salles
  • Chinatown - Roman Polanski
  • Chocolate (Lasse Hallström)
  • Cidade de Deus - Fernando Meirelles
  • Cidadão Kane - Orson Welles
  • Cinema Paradiso - Giuseppe Tornatore
  • Cria Cuervos - Carlos Saura
  • Crimes e Pecados - Woody Allen
  • Cría Cuervos - Carlos Saura
  • Cyrano de Bergerac (Michael Gordon)
  • Danton, o Processo da Revolução - Andrzej Wajda
  • Dança com Lobos -Kevin Costner
  • Dersu Uzala (Akira Kurosawa)
  • Desaparecido - Costa-Gavras
  • Deus e o Diabo na Terra do Sol - Glauber Rocha
  • Divórcio à Italiana (Pietro Germi)
  • Dona Flor e Seus Dois Maridos -Bruno Barreto
  • Dr. Fantástico - Stanley Kubrick
  • Drácula (Francis Ford Coppola)
  • Em Nome do Pai (Jim Sheridan)
  • Era Uma Vez no Oeste - Sergio Leone
  • Estado de Sítio (Costa-Gavras)
  • Eu Sei Que Vou Te Amar (Arnaldo Jabor)
  • Fahrenheit 451 (François Truffaut)
  • Fahrenheit 9/11 (Michael Moore)
  • Fausto (F.W. Murnau)
  • Feliz Ano Velho (Roberto Gervitz)
  • Filadélfia (Jonathan Demme)
  • Filhos da Guerra (Agnieszka Holland)
  • Filhos do Paraíso (Majid Majidi)
  • Frida (Julie Taymor)
  • Gandhi - Richard Attenborough
  • Gattaca - A Experiência Genética (Andrew Niccol)
  • Gritos e Sussurros - Ingmar Bergman
  • Hair (Milos Forman)
  • Hamlet - Laurence Olivier
  • Ironweed , Hector Babenco
  • Janela da Alma - João Jardim e Walter Carvalho
  • Juventude Transviada - Nicholas Ray
  • Ladrões de Bicicletas - Vittorio de Sica
  • Laranja Mecânica - Stanley Kubrick
  • Lawrence da Arábia - David Lean
  • Longa Jornada Noite Adentro (Sidney Lumet)
  • Luzes da Cidade - Charles Chaplin
  • Macbeth - Reinado de Sangue (Orson Welles)
  • Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)
  • Malcom X (Spike Lee)
  • Manhattan - Woody Allen
  • Matrimônio à Italiana (Vittorio de Sica)
  • Matrix (Andy Wachowski)
  • Melhor É Impossível - James L. Brooks
  • Memórias do Cárcere (Nelson Pereira dos Santos)
  • Mephisto (István Szabó)
  • Meu Pé Esquerdo - Jim Sheridan
  • Minha Vida de Cachorro -Lasse Hallström
  • Missing - (Desaparecido, um grande mistério) - Costa-Gravas
  • Mississipi em Chamas (Alan Parker)
  • Misterioso Assassinato em Manhattan (Woody Allen)
  • Morango e Chocolate (Tomás Gutiérrez Alea)
  • Morangos Silvestres - Ingmar Bergman
  • MOULIN ROUGE (1952) - John Huston
  • Moça com Brinco de Pérola (Peter Webber)
  • Muito Além do Jardim - Hal Ashby
  • Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos - Pedro Almodóvar
  • Má Educação - Pedro Almodóvar
  • Nascido para Matar - Stanley Kubrick)
  • Noivo Neurótico, Noiva Nervosa - Woody Allen
  • Nosferatu - F.W. Murnau
  • O Auto da Compadecida (Guel Arraes)
  • O Bebê de Rosemary - Roman Polanski
  • O Beijo da Mulher Aranha (Hector Babenco)
  • O Carteiro e o Poeta - Michael Radford
  • O Corcunda de Notre Dame - William Dieterle
  • O Crime do Padre Amaro (Carlos Carrera)
  • O Dorminhoco - Woody Allen
  • O Encouraçado Potekim - Sergei Eisenstein, Grigori Aleksandrov
  • O Enigma de Kasper Hauser - Werner Herzog
  • O Expresso da Meia-Noite (Alan Parker)
  • O Expresso de Shangai - Josef von Sternberg
  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain - Jean-Pierre Jeunet
  • O Grande Ditador - Charles Chaplin
  • O Homem Elefante - David Lynch
  • O Homem Que Copiava (Jorge Furtado)
  • O Iluminado Stanley Kubrick
  • O Inventor de Ilusões (Steven Soderbergh)
  • O Jardim Secreto (Agnieszka Holland)
  • O Leopardo - Luchino Visconti
  • O Mundo segundo a Monsanto - Marie-Monique Robin
  • O Médico e o Monstro - Rouben Mamoulian
  • O Nome da Rosa (Jean-Jacques Annaud)
  • O Paciente Inglês -Anthony Minghella
  • O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte)
  • O Pianista (Roman Polanski)
  • O Piano (Jane Campion)
  • O Poderoso Chefão - Francis Ford Coppola
  • O Resgate do Soldado Ryan - Steven Spielberg
  • O Senhor das Moscas (Peter Brook)
  • O Show de Truman -The Truman Show (1998) - Peter Weir
  • O Tambor - Volker Schlöndorff
  • O Último dos Moicanos (Michael Mann)
  • Olga - Jayme Monjardim
  • Os Canhões de Navarone (J. Lee Thompson)
  • Os Duelistas (Ridley Scott)
  • Os Imperdoáveis (Clint Eastwood)
  • Os Intocáveis - Brian De Palma
  • Os Miseráveis - Richard Boleslawski
  • Outubro - Sergei Eisenstein
  • Papillon (Franklin J. Schaffner)
  • Paris, Texas (Wim Wenders)
  • Passagem para a Indía (David Lean)
  • Perdidos na Noite - John Schlesinger
  • Perfume de Mulher (Martin Brest)
  • Pixote, a Lei do Mais Fraco - Hector Babenco
  • Platoon - Oliver Stone
  • Pollock (Ed Harris)
  • Por Quem os Sinos Dobram (Sam Wood)
  • Por Volta da Meia-Noite (Bertrand Tavernier)
  • Reds (Warren Beatty)
  • Rei Lear (Peter Brook)
  • Rembrandt (Alexander Korda)
  • Roger & Eu (Michael Moore)
  • Roma de Fellini (Federico Fellini)
  • Romeu e Julieta - Franco Zeffirelli
  • Rosa de Luxemburgo (Margarethe von Trotta)
  • Satyricon de Fellini (Federico Fellini)
  • Scarface (Brian De Palma)
  • Sem Destino - Dennis Hopper
  • Serpico (Sidney Lumet)
  • Sicko, de Michael Moore
  • Sob o Sol da Toscana - Audrey Wells
  • Sociedade dos Poetas Mortos (Peter Weir)
  • Sonhos (Akira Kurosawa)
  • Spartacus - Stanley Kubrick
  • Stalingrado - A Batalha Final (Joseph Vilsmaier)
  • Super Size Me - A Dieta do Palhaço (Morgan Spurlock)
  • Tango (Carlos Saura)
  • Taxi Driver - Martin Scorsese
  • Tempos Modernos - Charles Chaplin
  • Tenda dos Milagres (Nelson Pereira dos Santos)
  • Terra de Ninguém - Terrence Malick
  • Terra e Liberdade (Ken Loach)
  • Terra em Transe - Glauber Rocha
  • The Wall (Alan Parker)
  • Tiros em Columbine (Michael Moore)
  • Tootsie - Sydney Pollack
  • Um Estranho no Ninho (Milos Forman )
  • Um Sonho de Liberdade - Frank Darabont
  • Um Violinista no Telhado (Norman Jewison)
  • Uma Ponte Longe Demais (Richard Attenborough)
  • Van Gogh (Maurice Pialat)
  • Veludo Azul - David Lynch
  • Vidas Secas - Nelson Pereira dos Santos
  • Vinhas da Ira - John Ford
  • Vinte Mil Léguas Submarinas (Richard Fleischer)
  • Vinícius - Miguel Faria Jr.
  • Wall Street - Poder e Cobiça (Oliver Stone)
  • Woodstock - Onde Tudo Começou - Michael Wadleigh
  • Z - Costa-Gavras
  • Zurdo, de Carlos Salcés

5 HERÓIS CUBANOS

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KARL MARX

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LENIN

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ANTONIO GRAMSCI

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COMANDANTE FIDEL CASTRO

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COMANDANTE CHE GUEVARA

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ALEIDA GUEVARA

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Cmte. Manuel Marulanda Vélez -Tirofijo

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Cmte. RAÚL REYES

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A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA

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SOCIALISMO

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VENEZUELA - HUGO CHAVEZ

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BOLÍVIA - EVO MORALES

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EQUADOR - RAFAEL CORREA

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FLORESTAN FERNANDES

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PAULO FREIRE

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PRÉ-SOCRÁTICOS

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JORGE LUIS BORGES

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PABLO NERUDA

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JULIO CORTÁZAR

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