quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Silêncio dos Intelectuais


Texto do seminario "silêncio dos intelectuais"Intelectual engajado: uma figura em extinção(2005), por Marilena Chaui
o conhecimento não tem nenhuma luz senão a que brilha sobre o
mundo a partir da redenção. ( Adorno, Mínima Moralia).
I
Ao interpretar o projeto histórico moderno, Boaventura dos Santos considera queeste assentou-se sobre dois pilares: o da regulação e o da emancipação. Opilarda regulação, por sua vez, assentou-se sobre três princípios: o Estado (ou a soberania indivisa, que impõe a obrigação política vertical entre oscidadãos),o mercado (que impõe a obrigação política horizontal individualista eantagônica) e a comunidade (ou a obrigação política horizontal solidáriaentreseus membros). O pilar da emancipação, por seu turno, foi constituído portrêslógicas de autonomia racional: a racionalidade expressiva das artes, aracionalidade cognitiva e instrumental da ciência e técnica, e aracionalidadeprática da ética e do direito. O projeto da modernidade julgava possível odesenvolvimento harmonioso da regulação e da emancipação e a racionalizaçãocompleta da vida individual e coletiva. Todavia, o caráter abstrato dos princípios de cada um dos dois pilares levou cada um deles à tendência amaximizar-se com a exclusão do outro e a articulação entre o projetomoderno eo surgimento do capitalismo assegurou a vitória do pilar da regulaçãocontra oda emancipação.Mantendo a terminologia de Boaventura dos Santos, podemos dizer que opilar da emancipação ou a lógica da autonomia racional das artes, ciências, técnicas,ética e direito foi determinante para o surgimento da figura moderna dopensador e do artista não submetidos às instituições eclesiástica, estatal eacadêmico-universitária. A autonomia racional moderna das ações (artes,ética,direito e técnica) e do pensamento (ciências e filosofia) conferiu a seussujeitos algo mais do que a independência: conferiu-lhes autoridade teórica eprática para criticar as instituições religiosas, políticas e acadêmicas,comofizeram os philosophes da Ilustração Francesa, e, no século XIX, paracriticara economia, as relações sociais e os valores, como fizeram os socialistasutópicos, os anarquistas e os marxistas. O pilar da autonomia racional tornoupossível o surgimento daqueles que, durante o Caso Dreyfus, Zola convocou àcena pública com um nome novo: os intelectuais.Num ensaio de Pierre Bourdieu sobre o papel dos intelectuais no mundomoderno,lemos: Os intelectuais surgiram historicamente no e pelo ultrapassamento da oposiçãoentre a cultura pura e o engajamento, São por isso seres bi-dimensionais. Para invocar o título de intelectual, os produtores culturais precisam preencherduas condições: de um lado, pertencer a uma campo intelectualmente autônomo,independente do poder religioso, político, econômico e outros, e precisamrespeitar as leis particulares desse campo; de outro lado, precisammanifestarsua perícia e autoridade específicas numa atividade política exterior aocampoparticular de sua atividade intelectual. Precisam permanecer produtoresculturais em tempo integral sem se tornar políticos. Apesar da antinomiaentreautonomia e engajamento, é possível mantê-los simultaneamente. Quanto maior aindependência do intelectual com relação interesses mundanos, advinda de suamestria, tanto maior sua inclinação a asseverar essa independência,criticandoos poderes existentes e tanto maior a efetividade simbólica de qualquerposiçãopolítica que possam tomar. A fala pública e a ação pública dos intelectuais, justamente porque balizadaspela afirmação da autonomia, assumem dois traços principais: e a defesa decausas universais, isto é, distantes de interesses particulares, e atransgressão com referência à ordem vigente. Essas características dointelectual esclarecem porque, estudando a figura dos intelectuaisbrasileiros,Antônio Cândido desenvolve a tese instigante de que eles formam o ?partido docontra?.Acompanhando o percurso histórico dos intelectuais, Bourdieu fala em?situaçãoparadoxal? e em ?síntese difícil? da bi-dimensionalidade, pois osintelectuaisoscilam entre o recolhimento e o engajamento, o silêncio e a intervençãopública, oscilação que decorre das circunstâncias nas quais a demanda de autonomia racional é respeitada ou ameaçada pelos poderes instituídos. Nada melhor para ilustrar a síntese difícil entre o recolhimento e oengajamentodo que as divergências entre Sartre e Merleau-Ponty sobre a figura dointelectual engajado, surgida na França após a Segunda Guerra, e cuja formavisível foi a criação, pelos dois filósofos, de uma revista de intervençãopolítica e cultural, Les Temps Modernes. A divergência entre ambos ocorre em1953, por ocasião da defesa do Partido Comunista Francês por Sartre, que atéentão fora anticomunista.Em 28 de abril de 1953, o PCF convocou os operários franceses para umamanifestação contra a guerra da Coréia e, para 4 de maio, convocou uma grevegeral de repúdio à prisão do secretário geral do partido, Jacques Duclos,ocorrida durante a manifestação de abril. Nas duas ocasiões, os operários nãoresponderam em massa à convocação.Sartre, até então anticomunista, publica em Les Temps Modernes o primeiroartigoda série Os Comunistas e a Paz, contra a prisão de Duclos, o anticomunismoe afraca resposta operária ao chamamento do PCF. Com relação ao anticomunismo,declara que, quando atacado, um partido comunista deve ser incondicionalmentedefendido por todas as esquerdas. Com respeito à fraca resposta do operariadofrancês ao PCF, Sartre parte da afirmação de Marx, no Manifesto Comunista, danecessidade do proletariado organizar-se num partido revolucionário e concluique, sendo o Partido Comunista tal partido, sem ele os operários nãoexistirãocomo classe, mas apenas como massa passiva e alienada. Merleau-Ponty reage e recusa a posição de Sartre, publicando na revista umartigo sobre a relação entre filosofia e política, propondo abrir o debatesobre a crise atual da idéia de revolução porque substituiu-se a idéia deMarxdo desenvolvimento da consciência de classe pela idéia bolchevique de?interesses do partido?. Na opinião de Merleau-Ponty, Sartre, à maneirabolchevique, identifica a história do proletariado com a ação dos partidoscomunistas, esquecendo a longa e difícil história dos movimentos operáriosparaficar com a auto-imagem revolucionária de uma burocracia partidária, que secoloca como representante exclusiva da classe. Merleau-Ponty enfatiza adiferença entre Marx e os PCs: enquanto o primeiro exigia uma práxistecida nasmediações entre a subjetividade proletária e a objetividade da condiçõesmateriais históricas, os segundos praticam, a partir do bolchevismo, uma açãoidentificadora entre ambas, sem mediações.A questão, atada à figura do intelectual engajado, colocava um dos temasfundamentais que Sartre e Merleau-Ponty desenvolveram em suas obras: o darelação entre filosofia e política. Sob o impacto do marxismo e da revoluçãoproletária, ambos conceberam a filosofia como recusa de um pensamentoseparadodo mundo tal como era realizada pela filosofia universitária francesa,espiritualista e idealista; mas também a conceberam como crítica da filosofiada história feita pelo Partido Comunista Francês, esclerosada pela cisãoentreuma teoria idealista e uma práxis empirista, solidária com stalinismo e com avisão burocrática do pensamento e da ação. Nas Questões de Método, Sartre escreve:Havíamos sido educados no humanismo burguês e esse humanismo otimista seesfacelava porque adivinhávamos, nos arredores de nossa cidade, a imensamassade ?sub-homens conscientes de sua sub-humanidade, mas ainda sentíamos oesfacelamento de maneira idealista e individualista: os autores que amávamos,naquela época, nos diziam que a existência é um escândalo. Todavia, o que nosinteressava eram os homens reais, com seus trabalhos e suas penas; exigíamosuma filosofia que desse conta de tudo sem nos apercebermos de que ela jáexistia e que era ela, justamente, que procurava em nós essa exigência.4De modo semelhante, em ?A guerra aconteceu?, Merleau-Ponty descreve oesfacelamente do otimismo humanista universitário e da boa-consciênciafrancesa, sob os efeitos da guerra, que trouxe a evidência bruta eirrecusáveldo peso da história, da opacidade das relações sociais por que estas não sãorelações imediatas entre consciências, mas relações mediatizadas pelascoisas epelas instituições. Os franceses foram surpreendidos com a guerra, noverão de1939, por que ?não nos guiávamos pelos fatos? e ?havíamos secretamentedecididoignorar a violência e a infelicidade como elementos da história?. Nauniversidade, professores ensinavam que guerras nascem de mal-entendidos quepodem ser dissipados ou de acasos que podem ser conjurados pela paciência epela coragem. Por seu turno, os intelectuais do Partido Comunista Francês,certos de possuírem o segredo da história e da luta de classes,consideraram onazi-fascismo uma crise do capitalismo e a guerra apenas uma aparência quenãotocaria na solidariedade internacional do proletariado, em suma,elaboraram umaideologia da guerra e da luta de classes que lhes permitia, pela aplicaçãomecânica da relação capital-trabalho, evitar uma análise materialista ehistórica da guerra e da luta de classes. A tese nuclear da primeira obra filosófica de Sartre ? O Ser e o Nada ? é adiferença de essência entre o mundo das coisas ? o Ser ? e a consciência ? oNada. O Ser é resistente, opaco e viscoso; é o em-si, a objetividade nua ebruta. O Nada é a consciência que, ao contrário, é insubstancial, puraatividade e espontaneidade; é o para-si, a subjetividade plena. Para ela, osoutros, embora presumidos como humanos, são mundo, portanto, seres ou coisas.Donde a célebre expressão de Entre Quatro Paredes: ?o inferno são os outros?,pois cada um deles, enquanto consciência ou sujeito, reduz os demais àcondiçãode mera coisa e é reduzido pelos outros à condição de coisa. Emborasituada nomundo, a consciência, por ser nada, não é condicionada por ele, nãopodendo serdeterminada pelas coisas nem pelos fatos e, pelo contrário, tem o poder denadificá-los, fazendo-os existir como idéias, imagens, sentimentos e ações? aconsciência, sem amarras, é liberdade pura. Donde a conhecida fórmulasartreana: ?estamos condenados à liberdade?. Para Sartre, a liberdade dásentido ao engajamento.10Para Merleau-Ponty, desde suas primeiras obras, o Nada sartreano é a nova versão idealista e intelectualista da consciência de si reflexiva, portanto,soberana,fundadora, constituídora do sentido do Ser. Ao contrário, a filosofiamerleaupontyana acentua o mundo pré-reflexivo no qual vivemos e de ondeemergimos como intercorporeidade e intersubjetividade, portanto, atados aotecido do mundo e aos outros, sem o poder para constitui-los. A filosofia de Merleau-Ponty, ergue-se contra o intelectualismo, isto é, a suposição dasoberania da consciência como doadora de sentido e fundadora do mundoenquantosignificação. Contra a herança intelectualista, Merleau-Ponty afirma aencarnação da consciência num corpo cognoscente e reflexionante, dotado deinterioridade e de sentido, relacionando-se com as coisas como corpossensíveis, também dotados de interioridade e de sentido, e com os outros, osquais não são coisas nem partes da paisagem, mas nossos semelhantes. Se aconsciência não é pura espontaneidade desencarnada e soberana, compreende-seque a liberdade, na formulação merleau-pontyana, seja ?o poder paratranscendera situação de fato, que não escolhemos, dando-lhe um sentido novo?. Ofilósofonão pode, de modo algum, separar-se e afastar-se do mundo, pois nãoestamos nomundo (como queria Sartre ao falar em situação), mas somos do e com o mundo.Para Merleau-Ponty, o engajamento dá sentido à liberdade:Nenhum engajamento pode fazer-me ultrapassar todas as diferenças e tornar-selivre para tudo (...). Sou uma estrutura psicológica e histórica. (...).Todasas minhas ações e meus pensamentos estão em relação com essa estrutura e atémesmo o pensamento de um filósofo nada mais é do que uma maneira deexplicitarsua pegada sobre o mundo. E, no entanto, sou livre. Não a despeito ou aquémdessas motivações, mas por meio delas (...). Essa vida significante, essacertasignificação da natureza e da história que sou não limitam meu acesso aomundo;pelo contrário, são meu meio de comunicar-me com ele.11Quais as conseqüências políticas dessas duas concepções divergentes dafilosofia? Para Sartre, visto que a consciência é leve e insubstancial, ofilósofo pode aceitar o apelo de todos os fatos e de todos os acontecimentos,não se deixando impregnar por eles, conservando a soberania. ParaMerleau-Ponty, porque a consciência é encarnada num corpo e situada naintercorporeidade e na intersubjetividade, o filósofo não pode, parausarmos aexpressão que emprega no Elogio da Filosofia ?dar o assentimento imediato edireto a todas as coisas, sem considerandos?. Isso significa, comoescreve, que é preciso ser capaz de tomar distância para ser capaz de um engajamentoverdadeiro, o qual é sempre também um engajamento na verdade?.Sartre, porém, afirma que Merleau-Ponty possui uma concepção da filosofiaque sóaparentemente permitiria conciliá-la com a política, e que, realmente,ambas sãoinconciliáveis. A política, escreve ele, é ação fundada numa escolhaobjetiva, apartir dos dados e fatos disponíveis. Se a filosofia for, como pretendeMerleau-Ponty, a exigência de, antes de escolher, colocar-se numdistanciamentoque permita apreender totalidades parciais e não os fatos isolados que formamnossa experiência quotidiana, então, escreve Sartre, ?um filósofo de hoje nãopode tomar uma atitude política?.Que pretende Merleau-Ponty em julho de 1953? ?Que é preciso saber o que é oregime soviético para escolher? a favor ou contra. Ora, retruca Sartre, essaexigência, que parece ser meramente empírica ? isto é, a necessidade depossuirmais dados ?, é, na realidade, uma dificuldade de princípio, pois nuncapossuímos um saber total sobre as condições históricas. Escolhemos sempre sempleno conhecimento e, sobretudo, não podemos invocar a reflexão filosóficaquando somos chamados a reagir ao que é urgente. A concepção merleau-pontyanaestá equivocada. Com ela, renuncia-se à política. Não renunciei à política, retruca Merleau-Ponty, apenas recusei-me a conceber o engajamento nos mesmostermos em que Sartre o concebe.Como Sartre concebe o engajamento? O intelectual engajado é o escritor deatualidades que opina e intervém em todos os acontecimentos relevantes, àmedida que vão se sucedendo uns aos outros. É um estado de vigíliapermanente.Merleau-Ponty recusa esse tipo engajamento por dois motivos. O primeiro éo deque, ao escrever em conta-gotas sobre cada acontecimento, o escritor induz oleitor a aceitar fatos isolados que recusaria se pudesse ter uma visão maisabrangente, ou, ao contrário, o induz a recusar como odiosos fatos isoladosque, se percebesse de maneira mais abrangente, aceitaria. Essa vigíliaengajadaé, afinal, má-fé. Não informa, não analisa, não reflete, corre e muda aosabordos eventos, de tal modo que se fosse dado ao leitor, um dia, reunir oconjuntode manifestos e pequenos artigos diários ou mensais de um intelectualengajadoou de um comentarista político perceberia a incoerência, a leviandade, airresponsabilidade daquele que escreve. O segundo motivo é, à primeira vista,paradoxal. Com efeito, tendo apresentado o primeiro, seria de supor-se queMerleau-Ponty houvesse atacado Sartre por agir às cegas, manifestando-se emtoda parte sobre todos os acontecimentos sem jamais possuir um conhecimentoaproximado do todo ou, pelo menos, das linhas de força e vetores dos eventos,não lhes alcançando a significação. Ora, dá-se exatamente o contrário. É que,graças à soberania da consciência sobre o ser, Sartre construiu, empensamentoe em imaginação, um futuro fixo, mantido em segredo, que regulaclandestinamente o curso dos acontecimentos, Aconteça o que acontecer, Sartrepossui o futuro e a história em pensamento e em imaginação, sendo-lhe fácilopinar sobre tudo e tomar posição em tudo. Em outras palavras, osacontecimentos são tidos como a superfície de um sentido secreto conhecidoapenas pelo filósofo, que por isso, soberanamente, opina politicamente.Espectador absoluto, soberano e transcendente, o filósofo julga ter achave dotempo, da história e do mundo. Sob a aparente modéstia daquele que, disseraSartre, sabe que a condição humana é a da escolha na ambigüidade, àscegas, naignorância do todo, esconde-se presunção de ser Espírito Absoluto. Se ofilósofo julga poder dizer não importa o quê a cada dia é por julgar-se naposse do sentido total da história. Sua irresponsabilidade cotidiana tem comopressuposto uma história completa (já realizada em pensamento), queapagará damemória os passos empíricos por ela realizados por que os absorve num sentidoúnico que os tornará irrelevantes quando a pena de tê-los feito tambémhouver-se tornado irrelevante. Por isso mesmo, em julho de 1953, Sartre podiaescrever que ?todo anticomunista é uma criatura desprezível, nada me farámudarde opinião?, mas, três anos depois, sob o impacto da invasão soviética deBudapeste, não hesitou em escrever: ?jamais será possível reatar relações comas atuais dirigentes do PCF (...) resultado de trinta anos de mentiras eesclerose (...). Hoje, volto à oposição?.Com Sartre e Merleau-Ponty, duas concepções da filosofia e do engajamentointelectual estão em choque. Estamos perante a oposição entre a concepção dafilosofia como consciência soberana clandestina, que manobra as posições eopiniões políticas (sabendo, de antemão, que não são decisivas nemimportantespor que o curso da história se realiza secretamente com ou sem elas) e aquelaque percebe a consciência mergulhada no mundo, fazendo-se na relação comele eque, portanto, não dispõe da chave da história e da política. A histórianão éuma lógica da necessidade absoluta, nem a política, a álgebra da história: orevolucionário, escreve Merleau-Ponty nas Aventuras da Dialética, navega semmapas. Por isso mesmo, cada ato, cada gesto, cada palavra, cada pensamentocontam na determinação do curso da história e da política, pois está sobnossaresponsabilidade compreender as mediações subjetivas e objetivas queorientarãoo rumo dos acontecimentos. Manifestar-se sobre tudo, assumir posição e teropinião sobre tudo, mudar de atitude conforme mudem os ventos, abandonar aobrajá escrita, desdizendo-a e desdizendo-se, é irresponsabilidade, não éliberdade.Isso significa que, muitas vezes, o verdadeiro engajamento exige quefiquemos emsilêncio e que não cedamos às exigências cegas da sociedade. As relações dofilósofo com a Cidade são difíceis, diz Merleau-Ponty, porque ela lhe pedeexatamente o que ele não lhe pode dar: o assentimento imediato, sem maioresconsiderações.As divergências entre Sartre e Merleau-Ponty nos colocam diante dosimpasses edas aporias da autonomia racional. A defesa da autonomia racional por MP évista por Sartre como álibi para que uma filosofia impotente aceite umengajamento fraco. A suspensão provisória da autonomia racional por Sartre évista por MP como álibi para o uso instrumental do engajamento por umafilosofia onipotente.II.Sob o poder do modo de produção capitalista, fracassa o projeto moderno deharmonia entre o pilar da regulação e o da emancipação (para continuarmos ausar a terminologia de Boaventura dos Santos). A vitória do pilar daregulaçãosobre o da emancipação conferiu hegemonia à identidade entre a ordemvigente ea racionalidade, esta não mais autônoma e sim repressiva e instrumental, parausarmos a expressão cunhada pela Escola de Frankfurt.Uma vez que o fracasso do projeto moderno decorre da forma de inserção daracionalidade no modo de produção capitalista, torna-se indispensávelpensar aautonomia racional em outra chave. Lembremos que a vitória da regulaçãosobre aemancipação ? ou da ordem sobre a transformação -- recebeu, com Marx, um nomepreciso: chama-se ideologia burguesa. Em outras palavras, a autonomiaracionaldas artes, ciências, técnicas, filosofia, ética e direito não poderia escaparde ser determinada pela forma histórica da divisão social das classes, com aseparação entre trabalho manual e trabalho intelectual no modo de produçãocapitalista. Essa separação levou ao ocultamento da determinação material daracionalidade, invertendo a relação real entre a materialidadesócio-econômicae o espírito e, por isso mesmo, conferiu a este último o poder de produzir oreal e a marcha da história. A independência conquistada a duras penas pelaracionalidade moderna transformou-se num fantasma poderoso, a crença deque oasidéias determinam o movimento da história ou são o motor da história.Ocultandoa determinação histórica do saber, a divisão social das classes, a exploraçãoeconômica e a dominação política, as idéias se tornaram representaçõesabstratas, imagens que a classe dominante possui de si mesma e que seestendempara todas as classes sociais e para todas as épocas. Numa palavra, aideologiaintegra a lógica da luta de classes em favor da classe dominante. Issosignifica, como explicou Gramsci, que a classe dominante possui ?intelectuaisorgânicos?, mas significa também que a autonomia racional das artes e dopensamento, entendida como autonomia dos intelectuais e de sua intervençãopública, só pode ser afirmada se for balizada pela tomada de posição nointerior da luta de classes contra os dominantes e na redefinição dosuniversais, compreendendo-os como universais concretos.Essa tomada de posição é exatamente o que a noção de engajamento ou dointelectual como figura que intervém criticamente na esfera pública procuraexprimir, trazendo consigo não só a transgressão da ordem (como afirmaBourdieu) e a crítica do existente (como pretende a Escola de Frankfurt), mastambém a crítica da forma e do conteúdo da própria atividade das artes,ciências, técnicas, filosofia e direito. Com a noção de engajamento comotomadade posição no interior da luta de classes contra a forma de exploração edominação vigentes em nome da emancipação ou da autonomia em todas esferas davida econômica, social, política e cultural, podemos diferenciar ointelectuale o ideólogo. Este fala a favor da ordem vigente, justificando-a elegitimando-a. Aquele fala contra. Donde o problema que espreita osintelectuais quando se engajam nos partidos políticos de esquerda, isto é, ospartidos do contra, quando esses deslizam para a condição de partidos daordem.III.Se a diferença entre o intelectual e artistas, cientistas, técnicos,filósofos,juristas encontra-se no fato de que o primeiro é o artista ou o cientista, otécnico, o filósofo, o jurista quando intervêm criticamente no espaçopúblico,falando em público, então a expressão ?o silêncio dos intelectuais? pareceriacontraditória. Quando em silêncio, um artista ou um pensador deixam de serintelectuais. Mas se há silêncio, convém indagar quais poderiam ser suascausas. Delas falarão os demais conferencistas. Aqui, nos limitaremos aindicarapenas aquelas que nos parecem mais relevantes para examinar o retraimentoatualda figura do intelectual engajado.A primeira dessas causas, certamente, é o ?amargo abandono das utopiasrevolucionárias (...) a rejeição da política (...) e um ceticismodesencantado?, sob os efeitos do totalitarismo nos países ditos comunistas, do fracasso daglasnost na União Soviética e do recuo da social-democracia, com a adoção dachamada ?terceira via? ou do ?capitalismo acrescido de valores socialistas?,como diz o Partido Trabalhista Inglês. Assim, desaparece o horizontehistóricodo futuro, o presente se fecha sobre si mesmo, a ordem vigente apareceauto-legitimada e justificada porque nada parece contradize-la nem a ela seopor, e os ideólogos podem comprazer-se falando do ?fim da história? ou eafirmando o capitalismo como destino final da humanidade. O retraimento doengajamento ou o silêncio dos intelectuais é, aqui, signo de uma ausênciamaisprofunda: a ausência de um pensamento capaz de desvendar e interpretar ascontradições que movem o presente. Não se trata de uma recusa de proferir umdiscurso público e sim da impossibilidade de formulá-lo.A segunda causa, é o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaçoprivado sob os imperativos da nova forma de acumulação do capital, conhecidacomo neoliberalismo. Um dos efeitos dessa situação é a transformação dedireitos econômicos e sociais em serviços definidos pela lógica de mercadoe atransformação do cidadão em consumidor. Ora a democracia institui a cidadaniacomo ação de contra-poderes sociais para a criação e garantia de direitos,graças à participação nas lutas políticas. Se os direitos, conquistados nosembates do espaço público e na luta de classes, são privatizados ao setransformar em serviços vendidos e comprados como mercadorias, o cerne dademocracia é ferido mortalmente e a despolitização da sociedade é umadecorrência necessária. O recuo da cidadania e a despolitização produzem asubstituição do intelectual engajado pela figura do especialista competentecujo suposto saber lhe confere o poder para, em todas as esferas da vidasocial, dizer aos demais o que devem pensar, sentir, fazer e esperar. Acríticaao existente é silenciada pela proliferação ideológica dos receituários paraviver bem.A terceira causa, é a nova forma de inserção do saber e da tecnologia nomodo deprodução capitalista: tornaram-se forças produtivas, deixando de ser merosuporte do capital para se converter em agentes de sua acumulação.Consequentemente, mudou o modo de inserção dos pensadores e técnicos nasociedade por que se tornaram agentes econômicos diretos, e a força e o podercapitalistas encontram-se, hoje, no monopólio dos conhecimentos e dainformação.Surge a expressão ?sociedade do conhecimento? para indicar que a economiacontemporânea se funda sobre as ciência e a informação, graças ao usocompetitivo do conhecimento, da inovação tecnológica e da informação nosprocessos produtivos. Chega-se mesmo a falar em ?capital intelectual?,considerado por muitos como o principal princípio ativo das empresas.Afirma-se que, hoje, o conhecimento não se define mais por disciplinasespecíficas e sim por problemas e por sua aplicação nos setoresempresariais. Apesquisa é pensada como uma estratégia de intervenção e de controle demeios ouinstrumentos para a consecução de um objetivo delimitado. Em outraspalavras, éum survey de problemas, dificuldades e obstáculos para a realização doobjetivo,e um cálculo de meios para soluções parciais e locais para problemas eobstáculos locais. Emprega intensamente redes eletrônicas para se produzire setransformar em tecnologia e submete-se a controles de qualidade segundo osquaisdeve mostrar sua pertinência social mostrando sua eficácia econômica.Fala-se em?explosão do conhecimento? para indicar o aumento vertiginoso dos saberesquando, na realidade, indica o modo da determinação econômica doconhecimento,pois no jogo estratégico da competição no mercado, uma organização depesquisase mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades,obstáculos sempre novos. O conhecimento contemporâneo se caracteriza pelocrescimento acelerado e pela tendência a uma rápida obsolescência.Nesse novo contexto, como falar em autonomia racional? Se as artes já haviamsido devoradas pela indústria cultural, agora são as ciências e astécnicas quese encontram submetidas à lógica empresarial. Não só a pesquisa setransformouem survey, e posse de instrumentos para intervir e controlar alguma coisa,mastambém depende diretamente dos investimentos empresariais, os quais sãodeterminados pelo jogo estratégico da competição no mercado, de maneiraque ospesquisadores são mantidos e se firmam se forem capazes de propor áreas deproblemas, dificuldades, obstáculos sempre novos, o que é feito pelafragmentação de antigos problemas em novíssimos micro-problemas, sobre osquaiso controle parece ser cada vez maior. Os produtores de conhecimentos etecnologias absorvem a lógica da competição empresarial e dão a ela suaadesão,negando, portanto, a autonomia racional que dava autoridade à intervençãocrítica dos intelectuais.Esse fenômeno não atinge apenas as chamadas ciências duras e as ciênciasaplicadas, mas também as ciências humanas. Se até há pouco, economistas,cientistas sociais e psicólogos entravam nas empresas pela porta do DRH, nacondição de assalariados, hoje, são estimulados a se tornar capitalistas,criando empresas de consultoria e de assessoria para grandes empresas einstituições públicas. Até os filósofos se tornaram proprietários demicro-empresas de assessoria ética para as grandes corporações enquantooutrosbuscam a inserção no mercado como ?filósofos clínicos?!Além da dependência das universidades e dos centros de pesquisa em relação aopoder econômico, é preciso lembrar que esse poder se baseia na propriedadeprivada dos conhecimentos e das informações, de sorte que estes se tornamsecretos e constituem um campo de competição econômica e militar semprecedentes. Em outras palavras, uma vez que o saber dos especialistas é o?capital intelectual? das empresas e que o jogo estratégico da competiçãoeconômica e militar impõe, de um lado, o segredo e, de outro, a aceleração eobsolescência vertiginosas dos conhecimentos, tanto a produção quanto acirculação das informações estão submetidas a imperativos que escapam docontrole dos produtores do saber e do controle social e político doscidadãos.Ao contrário, o social e o político são controlados por um saber ou umacompetência cujo sentido lhes escapa inteiramente. Isso significa que nãosó aeconomia, mas também a política é considerada assunto de especialistas eque asdecisões parecem ser de natureza técnica, via de regra secretas ou, quandopublicadas, o são em linguagem perfeitamente incompreensível para amaioria doscidadãos.A autonomia racional era a independência com que a racionalidade científicadefinia seus objetos, métodos, resultados e aplicação, segundo critériosimanentes ao próprio conhecimento e à distância dos interessesparticulares. Anova situação do saber como força produtiva determina a heteronomia doconhecimento e da técnica, que passam a ser determinados por imperativosexteriores ao saber, bem como a heteronomia dos cientistas e técnicos, cujaspesquisas dependem do investimento empresarial. Ora, a autonomia racionalera acondição tanto da qualidade do saber como da autoridade do intelectualengajadopara transgredir a ordem vigente. Perdida a autonomia, que resta senão osilêncio?
IV.
Se os intelectuais estão em silêncio, em contrapartida, os ideólogos estãocadavez mais tagarelas. Sua tagarelice recebeu o nome de pós-modernismo --definidopor Frederic Jameson como ?lógica cultural do capitalismo tardio?.Em sua forma contemporânea, a sociedade capitalista se caracteriza pelafragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação daprodução, da dispersão espacial e temporal do trabalho, do desempregoestrutural e da destruição dos referenciais que balizavam a identidade declasse e as formas da luta de classes. A sociedade aparece como uma redemóvel,instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégiasparticulares e programas particulares, competindo entre si. Aparece como?meioambiente? perigoso, ameaçador e ameaçado, que deve ser gerido, programado,planejado e controlado por estratégias de intervenção tecnológica e jogos depoder .A materialidade econômica e social da nova forma do capital é inseparávelde umatransformação sem precedentes na experiência do espaço e do tempo,designada porDavid Harvey como a ?compressão espaço-temporal?, ou seja, o fato de que afragmentação e a globalização da produção econômica engendram dois fenômenoscontrários e simultâneos: de um lado, a fragmentação e dispersão espacial etemporal e, de outro, sob os efeitos das tecnologias eletrônicas e deinformação, a compressão do espaço ? tudo se passa aqui, sem distâncias,diferenças nem fronteiras ? e a compressão do tempo ? tudo se passa agora,sempassado e sem futuro. Na verdade, fragmentação e dispersão do espaço e dotempocondicionam sua reunificação sob um espaço indiferenciado e um tempoefêmero, ousob um espaço que se reduz a uma superfície plana de imagens e sob umtempo queperdeu a profundidade e se reduz ao movimento de imagens velozes e fugazes.A naturalização e valorização positiva da fragmentação e dispersãosócio-econômica estimulam o individualismo agressivo e a busca do sucesso aqualquer preço, ao mesmo tempo em que dão lugar a uma forma de vidadeterminadapela insegurança e pela violência, institucionalizadas pela volatilidade domercado. Insegurança e medo levam ao gosto pela intimidade, ao reforço deantigas instituições, sobretudo a família e o clã como refúgios contra ummundohostil, ao retorno das formas místicas e autoritárias ou fundamentalistas dereligião e à adesão à imagem da autoridade política forte ou despótica.Se, sob os imperativos da sociedade de consumo e do espetáculo, as artesforamsubmetidas à lógica da indústria cultural, agora, com aqueles imperativosacrescidos do fortalecimento da figura pessoal do governante, a política setorna indústria política. Por isso dá ao marketing a tarefa de vender aimagemdo político e reduzir o cidadão à figura privada do consumidor. Para obter aidentificação do consumidor com o produto, o marketing produz a imagem dopolítico enquanto pessoa privada: características corporais, preferênciassexuais, culinárias, literárias, esportivas, hábitos cotidianos, vida emfamília, bichos de estimação. A privatização das figuras do político e docidadão privatiza o espaço público. Por isso a avaliação ética dosgovernos nãopossui critérios próprios a uma ética pública e se torna avaliação dasvirtudese vícios dos governantes; e a corrupção é atribuída ao mau caráter dosdirigentes e não às instituições públicas.Do ponto de vista da experiência cognitiva contemporânea, Paul Virilio fala emacronia e atopia, ou a desaparição das unidades sensíveis do tempo e doespaçotopológico da percepção sob os efeitos da revolução eletrônica einformática. Aprofundidade do tempo e seu poder diferenciador desaparecem sob o poder doinstantâneo. Por seu turno, a profundidade de campo, que define o espaçotopológico, desaparece sob o poder de uma localidade sem lugar e dastecnologias de sobrevôo. Vivemos sob o signo da telepresença e dateleobservação, que impossibilitam diferenciar entre a aparência e osentido, ovirtual e o real, pois tudo nos é imediatamente dado sob a forma datransparência temporal e espacial das aparências, apresentadas comoevidências.Nossa experiência e nosso pensamento se efetuam na perigosa fratura entre osensível e o inteligível, a experiência do corpo como corpo próprio édesmentida pela experiência da ausência de distâncias e horizontes e somosconvidados a um pensamento sedentário e ao esquecimento.Nossa experiência desconhece qualquer sentido de continuidade e se esgota numpresente vivido como instante fugaz. Essa situação, longe de suscitar umainterrogação sobre o presente e o porvir, leva ao abandono de qualquerlaço como possível e ao elogio da contingência e de sua incerteza essencial. Ocontingente não é percebido como uma indeterminação que a ação humana podedeterminar, mas como o modo de ser dos homens, das coisas e dosacontecimentos.Há uma adesão à descontinuidade e à contingência bruta, pois, ao perdermos adiferenciação temporal, não só perdemos a profundidade do passado, mas tambémperdemos a profundidade do futuro como possibilidade inscrita na ação humanaenquanto poder para determinar o indeterminado e para ultrapassar situaçõesdadas, compreendendo e transformando o sentido delas.A essa nova forma da experiência corresponde a formulação ideológica dopós-modernismo, comemoração entusiasmada da dispersão e fragmentação doespaçoe do tempo, da impossibilidade de distinguir entre aparência e sentido,imageme realidade. Em outras palavras, essa ideologia toma a fragmentaçãoeconômica esocial como um dado positivo e último; toma a ausência de sentido temporalcomoelogio da contingência e do acaso.Em 1979, Jean-François Lyotard , examinando a mutação conceitual dasciências daNatureza, estendia a mudança às ciências sociais e à filosofia econtrapunha opensamento moderno (o pensamento que vai do século XVII aos anos 1970 doséculoXX) a essas transformações que constituem o que ele designou como a condiçãopós-moderna. Afirmou, então, que a sociedade não é uma realidade orgânica nemum campo de conflitos e sim uma rede de comunicações lingüísticas, umalinguagem composta de por uma multiplicidade de diferentes jogos cuja regrassão incomensuráveis, cada jogo entrando em competição ou numa relaçãoagonística com os outros. Ciência, política, filosofia, artes são jogos delinguagem, ?narrativas? em disputa, nenhuma delas denotativa, isto é, nenhumadelas referida às coisas mesmas, à realidade.Por isso, o pós-modernismo comemora o que designa de ?fim dameta-narrativa?, ouseja, os fundamentos do conhecimento moderno, relegando à condição de mitoseurocêntricos totalitários os conceitos que fundaram e orientaram amodernidade: as idéias de verdade, racionalidade, universalidade, ocontrapontoentre necessidade e contingência, os problemas da relação entresubjetividade eobjetividade, a história como dotada de sentido imanente, a diferença entreNatureza e Cultura, etc. Em seu lugar, o pós-modernismo afirma a fragmentaçãocomo modo de ser do real fazendo das idéias de diferença (contra aidentidade ea contradição), singularidade (contra a de totalidade) e nomadismo (contra adeterminação necessária) o núcleo provedor de sentido da realidade; preza asuperfície do aparecer social ou as imagens e sua velocidade espaço-temporal;recusa que a linguagem tenha sentido e interioridade.A ideologia pós-moderna, sob a ação das tecnologias virtuais, faz o elogio dosimulacro cuja peculiaridade, na sociedade contemporânea, encontra-se no fatode que por trás dele não haveria alguma coisa que ele simularia oudissimularia, mas apenas outra imagem, outro simulacro. Suscita o gosto e apaixão pelo efêmero e pelas imagens, em consonância com a mudança sofrida nosetor da circulação das mercadorias e do consumo, no qual prevalece um tiponovo de publicidade e marketing em que não se vendem e compram mercadorias ou?coisas?, mas o simulacro delas, isto é, vendem-se e compram-se imagens (desaúde, beleza, juventude, sucesso, bem-estar, segurança, felicidade) que, porserem efêmeras, precisam ser substituídas rapidamente.Do ponto de vista da política, a concepção pós-moderna, identificaracionalismo,capitalismo e socialismo: a razão moderna é exercício de poder ou o idealmoderno do saber como dominação da natureza e da sociedade; o capitalismo é arealização desse ideal por meio do mercado; e o socialismo o realiza por meioda economia planejada. Trata-se, portanto, de combater o racionalismo, ocapitalismo e o socialismo seja desvendando e combatendo a rede demicro-poderes que normalizam ou normatizam capilarmente toda a sociedade ,sejaerguendo-se contra a territorialidade das identidades orgânicas que sufocam onomadismo das singularidades , seja, enfim, combatendo os investimentoslibidinais impostos pelo capitalismo e pelo socialismo, isto é, mudando oconteúdo, a forma e a direção do desejo . A ?política? pós-moderna opera,assim, três grandes inversões: substitui a lógica da produção pela dacirculação (os micro-poderes e o nomadismo das singularidades) e por issosubstitui a lógica do trabalho pela da informação (a realidade comonarrativa ejogos de linguagem) e, como conseqüência, substitui a luta de classes pelasatisfação-insatisfação do desejo.Diante disso, não é surpreendente a atual fascinação das esquerdaspós-modernaspelas idéias políticas de um ideólogo como Carl Schmitt, particularmente pelo?decisionismo? ou sua concepção da soberania como poder de decisão exnihilo emsituações de exceção (isto é, de guerra e de crise). Uma decisão soberana éincondicionada, ou seja, não depende de qualquer condição (econômica, social,jurídica, cultural, histórica) e não se submete a nenhuma condição. Porconseguinte, é instantânea, despojada de qualquer lastro temporal ? é uminícioabsoluto, sem vínculo com um passado e sem prolongamento num futuro.Também o gosto pós-moderno pelas singularidades nômades oudesterritorializadasencontra eco nesse ideólogo, para quem a esfera política é autônoma, isto é,não é determinada pela economia, pela ética nem pelo direito, e se definepelaoposição amigo-inimigo. Politicamente, amigo é o que compartilha nossomodo devida, inimigo, o outro, ?o estrangeiro? que ameaça nosso modo de vida e, comisso, nossa existência. A política não é senão o movimento que reúne e agregaos semelhantes ? os amigos ? para que entrem numa relação de força com oinimigo, isto é, o outro. Visto que não há uma determinação econômica, socialou histórica dos amigos e inimigos, esses agrupamentos são móveis, instáveis,nômades, variando conforme as circunstâncias. Sob essa perspectiva, amodernidade é a catástrofe, em primeiro lugar, porque ao introduzir aidéia deEstado de Direito dá anterioridade jurídica ao político e o identifica aoEstado; em segundo, porque destrói o núcleo definidor da soberania, aoproibirque o soberano intervenha na ordem jurídica; em terceiro, porque institui aunião do individualismo igualitário e apolítico do liberalismo econômicocom ademocracia, a qual, entretanto fica desfigurada, pois realmente admiteapenas aigualdade dos cidadãos cuja semelhança decorre de sua identidade pela língua,pela moral e pela religião, excluindo o outro ou o diferente. Ao contrário, oliberalismo introduz a igualdade universal sem discriminação porque éapolítico, uma vez que a política é uma operação de distinções edesigualdades.Pela mediação da democracia, o liberalismo se torna uma política escondida eclandestina, sob a máscara do direito, da justiça, da lei, da verdade, dauniversalidade e da racionalidade. E o marxismo é o equívoco teórico epráticode interpretar a realidade a partir do economicismo que caracterizaintrinsecamente o liberalismo.V.Em 1980, quando se desenvolvia a chamada ?redemocratização?, participei, nosEstados Unidos, de um colóquio sobre o Brasil e mencionei a forte presençadosintelectuais nos debates políticos brasileiros, deixando transparecer minhaapreensão e um certo desconforto pelo fato de que seu discurso sobre asociedade brasileira poderia fazer calar os discursos da sociedadebrasileira.A fala dos intelectuais, dominando o campo da opinião pública, poderiaimpor osilêncio aos outros sujeitos sociais, situação tanto mais grave quando aprática social e política brasileiras passava por uma mutação sem precedentesem decorrência do surgimento de um novo sujeito histórico, os movimentossociais de luta pela criação de direitos, definidores da cidadania.Durante a discussão, uma antropóloga norte-americana me disse: ?Não sepreocupe.Assim que houver democracia no Brasil, os intelectuais deixarão de ter muitaimportância?. Esse comentário poderia ser interpretado de duas maneiras. Numadelas, está presente a idéia de que a democracia, instituindo a igualdade doscidadãos, confere a todos o direito de manifestar-se na esfera pública e departicipar da formação da opinião pública. Na outra, poderia estar presente aexperiência histórica recente dos Estados Unidos, isto é, a forte presençadosintelectuais nos movimentos contra a guerra do Vietnã que, uma vez terminada,os reconduziu ao seu habitat natural, a universidade. Da mesma maneira quenummomento de contestação da ordem vigente os intelectuais norte-americanosocuparam a cena pública, também no Brasil, passada a luta contra a ditadura,eles voltariam ao silêncio de seus trabalhos acadêmicos.Naquela mesma discussão, uma historiadora inglesa perguntou-me se apresença dosintelectuais brasileiros na cena pública não seria influência da culturafrancesa sobre nossa intelligenzia. Minha resposta foi negativa. Voltei-meparaa tradição ibérica, hierárquica e autoritária, na qual os letrados sedistribuíam em três campos: na formulação do poder, como teólogos e juristas;no exercício do poder, como membros da vasta burocracia estatal e dahierarquiauniversitária; e no usufruto dos favores do poder, como bacharéis e poetas deprestígio. No Brasil, essa tradição combinou-se com a percepção da culturacomoornamento e signo de superioridade, reforçando o mandonismo e oautoritarismo, ecomo instrumento de ascenção social, reforçando desigualdades e exclusões; emsuma, o letrado como ideólogo ou intelectual orgânico da classe dominante ecomo detentor de poderes no interior da burocracia estatal. Com astransformações econômicas e sociais do capitalismo no Brasil, isto é, aindustrialização, os intelectuais do contra se tornaram de esquerda e, sob osefeitos do bolchevismo, tenderam a colocar-se como vanguarda esclarecida cujopapel era trazer a consciência de classe às massas proletárias alienadas,desconsiderando a história dos movimentos operários, o anarquismo e osocialismo, as formas de ação e de organização dos trabalhadores brasileiros.Posteriormente, com a implantação da indústria de modelo fordista etayloristaou da ?gerência científica?, com o crescimento da urbanização, osurgimento dasuniversidades e das investigações científicas, a implantação da indústriacultural ou da cultura de massa pelos meios de comunicação e pelapublicidade,a figura tradicional do letrado recebeu um acréscimo, qual seja, a doespecialista, e tornou-se portadora do discurso competente, segundo o qualaqueles que possuem determinados conhecimentos têm o direito natural demandare comandar os demais em todas as esferas da vida social, de sorte que adivisãosocial das classes é sobredeterminada pela divisão entre os especialistascompetentes, que mandam, e os demais, incompetentes, que executam ordens ouaceitam os efeitos das ações dos especialistas.Era essa figura do intelectual brasileiro -- como letrado de prestígio, comoburocrata estatal, como vanguarda política e como especialista competente ? acausa de minha apreensão e de meu desconforto naqueles idos de 1980, poismuitos de nós indagávamos se seríamos capazes de perceber os novos sujeitossociais e políticos e se seriamos capazes de ouvir o discurso do social semsubstitui-lo pelo discurso competente sobre a sociedade e a política. Sobessaperspectiva, poder-se-ia indagar se o silêncio dos intelectuais não seriabenéfico e bem-vindo.No entanto, ainda uma vez, é preciso responder negativamente. Por um lado,porque a figura do letrado-especialista brasileiro simplesmente deslocou-separa os meios de comunicação de massa, que, como a figura anterior dointelectual, impedem a instituição da esfera da opinião pública, impondo suaspróprias opiniões. E, por outro lado, porque o silêncio dos intelectuais nãoteve como origem o fortalecimento da cidadania e da participação, mas amudançana forma de inserção das artes e do saber no modo de produção capitalista e orefluxo do pensamento de esquerda ou da idéia revolucionária deemancipação dogênero humano.Merleau-Ponty escreveu certa vez que todo mundo gosta que o filósofo seja umrevoltado. A revolta agrada porque é sempre bom ouvir que as coisas comoestãovão muito mal. Dito e ouvido isso, a má-consciência se acalma, o silêncio sefaz e toda gente, satisfeita, volta para casa e para seus afazeres. O quadroque aqui tracei poderia parecer um grito de revolta contra o mal. No entanto,como intelectual engajada, quero aqui fazer minhas as palavras desse filósofoquando escreve:O mal não é criado por nós nem pelos outros, nasce do tecido que fiamos entrenós e que nos sufoca. Que nova gente, suficientemente dura, serásuficientemente paciente para refazê-lo verdadeiramente? A conclusão não é arevolta, é a virtù sem qualquer resignação8.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A Pseudociência nas Universidades Brasileiras

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,in O Dragão da Garagem

A Pseudociência nas Universidades Brasileiras - Trabalho apresentado na Primeira Conferência Iberoamericana sobre Pensamento Crítico da revista Pensar, na Argentina, em setembro de 2005.

Por Widson Porto Reis


INTRODUÇÃO

A pseudociência chegou à última fronteira do pensamento crítico. Depois que os mapas astrológicos se espalharam pelas revistas femininas e o feng-shui e a radiestesia fincaram pé nas revistas de decoração; depois que a homeopatia tornou-se prática médica reconhecida ea memória da água virou citação comum nas revistas de ciência; depois que as correntes dee-mail convenceram os legisladores de um estado brasileiro que o uso de celulares deveriaser proibido nos postos de gasolina e enquanto o criacionismo se avizinha das aulas de ciência das escolas públicas de outro estado... agora a pseudociência e o pensamento mágico travestido de ciência chegaram à universidade.

O PROBLEMA
O fato não é realmente novo mas nunca antes se viu tantas atividades vindas de dentro da universidade destinadas a difundir e legitimar a pseudociência. A cada dia surgem na imprensa notícias de novos cursos de extensão, pós graduação e até mesmo graduação, pesquisas científicas, palestras e seminários promovendo as pseudociências.

A universidade privada já é terra arrasada há tempos. Com um estrito compromisso com o lucro, a universidade particular oferece ao cliente o que ele quiser. Assim pode-se encontrar cursos de pós-graduação e de extensão em praticamente qualquer pseudociência que se imagine: “Astrologia Clínica” na respeitada Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e "Astrologia Aplicada na Gestão de Pessoas" na UBC; “Terapias Naturais e Holísticas” na Universidade Castelo Branco; “Feng-Shui” na Universidade Veiga de Almeida; “I-Ching” na Faculdade Cândido Mendes; “Florais de Bach” na Faculdade Helio Afonso (FACHA) e na Estácio de Sá (UNESA); Reflexologia na UNISUL... só para citar uma minúscula fração dos cursos oferecidos.

Mas é quando a pseudociência passa a ser difundida com o dinheiro público que a situação se agrava. A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por exemplo, ministra regularmente cursos de extensão em Reiki – técnica oriental de cura com as mãos – Aromaterapia e Mandalas. Os cursos são oferecidos pelo CCSA, Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Já a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), certamente uma das mais conceituadas universidades do país, é a instituição pública brasileira com a maior oferta de cursos de extensão para a formação de profissionais esotéricos: “Terapia Floral”, “Fisiologia Chinesa e Práticas Energéticas”, “Astrologia, Corpo e Saúde“, “Cromoterapia” e especialmente o “Ecologia da Mente”, guarda chuva místico sob o qual se abrigam Radiestesia, I-Ching, Feng-Shui e Tarô. Para ser honesto, nenhum dos cursos citados causaria estranheza no triste cenário atual não fosse o fato de estarem catalogados na área de “Ciências da Saúde” e serem oferecidos pela Divisão de Ensino, Pesquisa e Extensão do Hospital Escola São Francisco de Assis. De fato, um dos projetos em andamento neste hospital universitário é a implantação destas técnicas no tratamento dos pacientes, buscando a “redução de custos hospitalares e melhoria da qualidade de vida e saúde (...) aprofundando e construindo o conhecimento das terapias naturais numa perspectiva multidisciplinar”.

Depois de ganhar os cursos de extensão, a pseudociência chegou a graduação. Já se espalham pelo país os cursos superiores em naturologia. A princípio a proposta parece inatacável. Afinal, seria muito bem vindo um profissional que pudesse prescrever tratamentos naturais reconhecidamente eficazes, separando-os de inócuos, e às vezes perigosos, curandeirismos. Mas como todo cético escaldado sabe, o rótulo de terapias naturais geralmente é uma fachada para as velhas esotéricas técnicas “milenares”. Realmente, uma análise mais cuidadosa do programa desses cursos revela o que se espera: radiestesia, florais de Bach, cromoterapia e reflexoterapia são algumas das disciplinas que um bom naturólogo terá em seu currículo.

Além das terapias naturais e artes divinatórias, também a religião vem ganhando espaço na universidade, o que não seria problema nenhum desde que a ocupação não se desse no território das ciências. Uma destas iniciativas está na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, que criou em 2001 o NIETE - Núcleo Interdisciplinar de Estudos Transdisciplinares Sobre Espiritualidade, atualmente coordenado pela a professora Malvina do Amaral Dorneles. Uma das atividades recentes do NIETE foi estabelecer uma parceria com a Sociedade Brasileira de Apometria para a formação de um grupo de estudos em apometria (GEPEA) a fim de “contribuir para a promoção da saúde da população de nossa comunidade (...) inserindo-se nas discussões contemporâneas da Organização Mundial da Saúde”. Bem, para quem não conhece, a apometria é uma técnica espírita, controversa mesmo entre os adeptos desta religião, que consiste em aplicar “pulsos magnéticos concentrados e progressivos no corpo astral do paciente”. Cursos de apometria incluem técnicas de desobssessão (exorcismo) e defesa contra vampirismo e espíritos parasitas. Outro filhote do NIETE é o Grupo Psi-Alfa-Ômega, coordenado pelo professor da UFGRS, Cícero Marcos Teixeira. Um das principais linhas de pesquisa do grupo é a Transcomunicação Instrumental (TI), a arte de receber mensagens do além através de ondas de rádio ou televisão. Quem pratica, jura que pode captar mensagens dos mortos nos ruídos de velhos rádios valvulados ou ver espíritos em difusas imagens de televisão; um update do velho mito das mensagens subliminares em discos de rock. "Queremos contribuir em termos acadêmicos para a compreensão do ser humano, uma vez que ele não vive somente no plano físico", diz Cícero, que também é autor do livro “Internautas do Além”.

Já na UNIFESP, o biólogo Ricardo Monezzi defendeu sua dissertação de mestrado: “Avaliação de efeitos da prática do Reiki sobre o sistema imunológico de camundongos machos”. No estudo, um terço do grupo de ratos recebia tratamento por impostação de mãos, outro terço tinha uma luva colocada sobre as gaiolas (para simular a impostação) e o restante não recebia nenhum tipo de tratamento. Ao final do experimento, Monezzi detectou um aumento do número de linfócitos e monócitos dos ratos submetidos ao tratamento. O trabalho já seria controverso o bastante sem a afirmação non sense com que foi divulgado por Monezzi na imprensa: “O corpo humano é um emissor de energias que ainda não foram qualificadas, mas exames como o eletrocardiograma e eletroencefalograma mostram que existem”. O estudo de Monezzi, mesmo sem ter sido replicado por nenhum outro pesquisador, é utilizado pelo GenteComSaude, Grupo de Meditação e Técnicas Complementares em Saúde, da UNIFESP, na promoção do curso de extensão do Centro de Aperfeiçoamento em Saúde: “Gerenciamento das doenças através do REIKI/impostação das mãos”, do qual, aliás, Monezzi é professor.

O caso UnB
Neste quadro, a Universidade de Brasília certamente representa o caso mais grave. Esta prestigiada instituição, sediada na capital do País, criou em 1989 o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais (NEFP), ligado ao CEAM - Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares. O que parecia uma interessante iniciativa acabou se revelando um verdadeiro cavalo de tróia, com o qual astrólogos, radiestesistas, ufólogos, médiuns, entortadores de colheres e outros tantos vêm invadindo a academia, utilizando-a para difundir suas crenças pessoais.

O coordenador do NEFP é o engenheiro civil e astrólogo, Paulo Celso dos Reis Gomes. Paulo Celso é autor do trabalho “Verificação dos efeitos das posições dos astros na eclíptica com respeito à formação do homem e seu cotidiano”. Na pesquisa, os astrólogos (os próprios autores) confeccionaram o mapa astral de 100 voluntários conhecendo apenas as datas e locais de nascimento de cada um. Depois de receber seu perfil astrológico, os voluntários preencheram um questionário onde pontuaram, numa escala de 1 a 5, o grau de acerto ou relevância de cada uma das características levantadas. Somente 40 dos 100 questionários foram analisados; destes, os pesquisadores verificaram o impressionante índice de 95% de acertos.

É evidente que a única coisa que o estudo de Paulo Celso mediu foi a capacidade que as pessoas têm de se identificar com perfis vagos, especialmente os positivos e lisonjeiros, sobre si mesmas – o velho conhecido Efeito Forer. Esta falha grosseira de metodologia, contudo, não ficou no caminho do NEFP, que assim mesmo divulgou o trabalho nos maiores meios de comunicação do país. O astrólogo Francisco Seabra, também membro do NEFP, chegou a declarar à revista ISTOÉ, segunda maior revista de notícias do país: “A universidade faz uma revolução ao reconhecer que a astrologia é uma ciência”. A bisonha afirmação só revela o desconhecimento de Seabra sobre o que é ciência.

Um dos objetivos confessos do NEFP é trabalhar para a “sistematização da Astrologia e sua inclusão no rol das ciências oficiais”. Neste esforço já se encontra em sua quarta edição o Curso de Astrologia para Pesquisadores, promovido pela UnB e coordenado por Hiroshi Masuda, outro membro do NEFP. O curso tem uma missão bem definida: “formar astrólogos pesquisadores que venham a comprovar, de forma racional, os fundamentos da astrologia”.
Firme em sua missão, recentemente o NEFP conseguiu aprovar a realização do “1o Encontro Nacional de Astrologia”, ocorrido em agosto deste ano. O tema central do encontro foi a capciosa pergunta “Até que ponto a astrologia deve ser entendida como ciência?”. Francisco Seabra declarou a imprensa meses antes: “Vamos debater pesquisas que têm contribuído para aproximar o conceito astrológico do conceito científico”. Como se vê, à rigor não teria sido um debate muito amplo...

O vice coordenador do NEFP é físico PhD Álvaro Luis Tronconi. Pródigo em alegações que desafiam o bom senso, Tronconi já entregou à imprensa pérolas como: “Queremos saber por que a força do pensamento desorganiza a configuração dos átomos dos metais e se ela pode ser identificada e calculada como se faz com a energia elétrica, que não conhecemos por inteiro, mas todos acreditam que existe e a usam”, e “Se podemos melhorar nossa oratória, também podemos dominar a bioenergia e usá-la para nos teletransportar ou curar doenças”.
O objeto de estudo de Tronconi é o famoso paranormal brasileiro Luiz Carlos Amorim que, assim como o paranormal ícone dos anos 70, Uri Geller, exercita seus poderes em talheres e ganha a vida como oráculo de políticos, atores e qualquer um que possa pagar seus gordos cachês. Na verdade Tronconi e os demais pesquisadores do NEFP parecem considerar as habilidades paranormais de Amorim suficientemente demonstradas, já que o convidaram em 2003 a apresentar seus poderes durante uma palestra na UnB. Segundo a assessoria de imprensa da UnB, a demonstração foi um fiasco. A platéia, constituída em sua maioria pelos estudantes da universidade, compareceu decidida a desmascarar o paranormal e conseguiram fazê-lo perder a compostura (e aparentemente os poderes) em mais de uma ocasião - um interessante caso em que os alunos demonstraram mais senso crítico que seus professores. Como seria de se esperar, também este pequeno obstáculo de credibilidade não ficou no caminho do NEFP, que manteve agendado o curso “Despertando o Eu Paranormal” que Amorim ministraria na universidade. (O valor de aproximadamente 100 dólares que o interessado deveria desembolsar pelo curso pode ser visto como um grande investimento, já que aumentar a sorte em bingos e loterias é uma das artes que Amorim ensina em seus cursos.)

A relação de Luiz Carlos Amorim com o NEFP vem de longa data. O ex-coordenador do Núcleo, o psicólogo Joston Miguel Silva, estudou durante oito anos 13 pessoas que diziam possuir alguma habilidade paranormal, entre eles Amorim e Thomas Green Morton, outro paranormal brasileiro badalado entre os famosos. Dos 13, o pesquisador da UnB confirmou as habilidades de cinco. Outros cinco tiveram seus poderes parcialmente comprovados e sobre os três restantes não houve nenhuma conclusão. A técnica de Joston para validar os paranormais? a kirliangrafia, em que se usa uma Máquina Kirlian para fotografar a aura do sujeito.

O interesse do vice-coordenador do NEFP, pelo estudo da paranormalidade nasceu de uma marcante experiência pessoal. Tronconi atribui a cura de uma hérnia-de-disco ao poder mental da enfermeira que o tratou utilizando passes de mão. Arrebatado pela experiência, Tronconi hoje é coordenador e professor do curso de extensão “Ensaios Parapsíquicos”, promovido pela UnB. O programa do curso é um pout pouri esotérico envolvendo viagem astral, regressão a vidas passadas, kirliangrafia, chacras, interpretação de sonhos, retrocognição e outros assuntos que nos fazem imaginar como são as aulas de física que Tronconi leciona na universidade.

Onde está o limite?
Criticar qualquer tipo de pesquisa na universidade é caminhar em uma linha muito tênue. Uma escorregadela e se atravessa para o lado do preconceito e do patrulhamento da liberdade acadêmica. Por isso é importante responder muito claramente: por quê a presença da pseudociência na universidade é tão nociva?

Como ponto de partida é preciso deixar claro que nenhum tema jamais deve ser considerado tabu na universidade. Muito pelo contrário. As pesquisas acadêmicas sobre as pseudociências são o necessário ferramental para o cético que promove a razão e o pensamento crítico. Afinal não se deve esperar que as alegações da astrologia e outras artes divinatórias, de diversas terapias alternativas e de inúmeros fenômenos paranormais sejam descartadas somente por desafiar o senso comum. Pesquisar é preciso.

O que torna o quadro atual preocupante é que o que se está fazendo em grande parte dentro da universidade não é somente pseudociência, é ciência ruim; ciência ruim em nome da legitimização da pseudociência. Os astrólogos, ufólogos, terapeutas alternativos e religiosos que vêm utilizando o nome da universidade em suas pesquisas não estão em busca da verdade, mas apenas da validação, custe o que custar, de suas crenças pessoais. Estes pesquisadores invertem o caminho que devem trilhar as novas idéias e levam suas controversas pesquisas aos meios de comunicação leigos antes de fazê-las chegar aos periódicos científicos, onde poderiam ser avaliados por seus pares. Na verdade, bem poucos destes trabalhos chegam a ver a luz de um revista peer-review. Trabalhos com resultados extraordinários, que se verdadeiros fossem obrigariam a ciência a rever seus conceitos mais básicos e introduzir novas entidades, forças e “energias”, são divulgados entusiasticamente sem a devida análise crítica dos resultados e sem que as potenciais fontes de erros sejam apontadas. Citações bibliográficas são seletivas e simplesmente ignoram toda a massa de dados, geralmente abundante nestes casos, que se opõem à visão dos autores. Acima de tudo não há replicação dos trabalhos; um único resultado favorável é considerado suficiente para confirmar as hipóteses do ansioso autor – muito pouco para quem está dirigindo na contra-mão do conhecimento estabelecido. O que estes pesquisadores estão fazendo é o que Richard Feynman chamava de “ciência de culto a carga”: algo que usa a linguagem científica, que segue os preceitos básicos do método científico e que até mesmo parece ciência – pelo menos tanto quanto um boneco parece um homem – mas no qual falta um elemento fundamental: integridade científica.

Mas a universidade também contribui para a legitimização do pensamento mágico quando serve de fórum para debate com a pseudociência. Tome-se como exemplo a recente palestra sobre “criacionismo científico” (uma contradição a partir do título) ocorrida na Universidade Federal do Estado de São Paulo (UNIFESP) sob (tímidos) protestos da comunidade científica. Sabe-se que para o criacionismo não interessa o resultado do debate, mas apenas ser debatido; o simples fato de ocupar o palanque em uma grande universidade e ser ouvido pela elite intelectual do país já empresta ao movimento criacionista a imagem de cientificismo que ele tanto busca para se colocar como alternativa ao ensino da evolução. Novamente não se trata de impor nenhum tipo de censura ou de “inquisição sem fogueiras” - como rapidamente protestam os que se consideram censurados ou perseguidos. Mas permitir que tudo seja dito em nome da ciência e esperar que as evidências falem por si mesmas, decididamente não funciona em um país onde grassa a ignorância científica e onde a mídia, vilã e vítima, noticia apenas a parte sensacional da notícia. Além disso, mesmo o mais ferrenho defensor da liberdade irrestrita de expressão concordará com o cético mais radical que há uma linha em algum lugar entre, por exemplo, a quiromancia e a apuncultura. Onde está a linha descobre-se checando-se as evidências e não emprestando o púlpito à primeira cigana interessada. E evidentemente ninguém está mais apto a investigar evidências do que a universidade.

Por fim é preciso lembrar que a crença em certas pseudociências traz um ônus para a sociedade. Este ônus pode não ser óbvio enquanto a astrologia fica restrita aos inocentes horóscopos das páginas dos jornais e o feng-shui às revistas de decoração. Mas e quando mapas astrológicos estiverem sendo usados em entrevistas de emprego ou nas salas dos tribunais? Alguém gostaria de perder um emprego ou uma causa judicial por causa da hora em que foi retirado da barriga de sua mãe? E quando pêndulos estiverem auxiliando os diagnósticos médicos e a imposição de mãos for prática comum nos hospitais públicos, no lugar dos tratamentos convencionais? E quando tudo isso estiver acontecendo porque a universidade deu a astrólogos e radiestesistas a mesma credibilidade profissional de engenheiros e médicos? Quanto tempo ainda temos até que cirurgias espirituais, devidamente abalizadas pelas pesquisas “científicas” da academia, sejam cobertas pelos planos de saúde? É bom lembrar que no Brasil, a homeopatia já chegou lá.

A CAUSA
O Brasil tem um quadro desanimador no que diz respeito ao combate à pseudociência. O movimento cético no país é um fenômeno relativamente recente, 100% amador e que não surgiu dentro da universidade e sim na internet em torno de grupos de discussão e uns poucos sites. Sendo um grupo formado em sua maioria por jovens ainda sem credenciais científicas, o Movimento Cético Brasileiro, se podemos chamá-lo assim, sofre por falta de credibilidade, o que até agora tem lhe permitido atingir apenas de raspão a mídia. Já a comunidade científica nacional está muito mais ocupada em concorrer pelos minguados recursos oficiais e lutar contra as dificuldades diárias de infra-estrutura, sucateamento de laboratórios, cargas horárias excessivas e toda a sorte de problemas, do que em combater voluntariamente a penetração da pseudociência em seu quintal.

Mas não faltam apenas as pessoas para combater o pensamento mágico, faltam os meios de divulgação. Dizer que as revistas de ciência no Brasil são tolerantes com as pseudociências é dizer pouco. Dizer muito seria chamar de “revistas de ciência”, revistas que já produziram suplementos especiais sobre astrologia e feng-shui. Sobre este tema Allan Novaes em seu artigo “Ciência em crise, jornalismo em queda?” mostra que de 2000 a 2004, 75% das capas da revista Superinteressante, maior revista de seu gênero no Brasil, foram sobre ciências sociais ou humanas e 42% foram de temas religiosos, místicos ou pseudocientíficos. Aqui, a crise do jornalismo científico se confunde a tal ponto com a questão da infiltração da pseudociência nas universidades que fica difícil distinguir causa e efeito.

Há outros motivos por que pseudociências e misticismos encontraram um terreno fértil nas universidades. O Brasil é um país que respira religiosidade, e onde existe uma mistura, talvez única no mundo, de religiões, cultos e seitas. Projetos de pesquisa e extensão como os que a UnB, UFRJ e UFRGS vêm realizando são populares porque mostram uma aproximação entre ciência e espiritualidade que muitos acreditam ser saudável. A idéia de que a ciência deveria dar as mãos à religião em uma espécie de “retorno às origens”, e que deste casamento forçado entre o materialismo e o espiritualismo nasceria o melhor dos dois mundos é muito promovida pelas ciências humanas e bastante apreciada pelo público leigo. Condenar esta promiscuidade científico-místico-religisosa, modernamente camuflada por palavras como “interdisciplinaridade” e “multidisciplinaridade”, tem soado cada vez mais politicamente incorreto, e os cientistas não raro o evitam. Some-se a este quadro a natureza do povo brasileiro, hábil em conciliar o inconciliável – por exemplo, no sincretismo religioso que mescla os cultos africanos com o cristianismo – e sua aversão a qualquer tipo de confrontamento que possa ser levemente confundido com intolerância religiosa.

O que nos leva a maior de todas as causas para disseminação da pseudociência nas universidades: o Relativismo. O Relativismo é a idéia de que todos os saberes são apenas questão de opinião, fruto do seu contexto histórico e social. O relativista acredita que todos os pontos de vista são igualmente válidos e vê a ciência apenas como mais uma maneira de representar o mundo, em pé de igualdade com a não-ciência. A verdade científica, nesta onda relativista, é vista apenas como um produto social, uma questão democrática, de consenso da maioria. Desta maneira as teorias mais exóticas tornam-se irrepreensíveis e passam a ser escudadas por bordões como: “Você tem a sua opinião, eu tenho a minha” ou “tudo é relativo”. Novamente torna-se uma imperdoável intolerância criticar qualquer saber, por mais primitivo e desligado da realidade que seja. Francamente impulsionado pelas ciências humanas e sociais, esse relativismo paralisante não reconhece como final nenhum conhecimento científico (o que rigorosamente falando não é mesmo), mas tampouco descarta nenhuma alegação extraordinária; tudo pode ser, como pode não ser. Se a ciência ainda não comprovou a eficácia daquela “técnica milenar”, o problema é da ciência; dê-lhe mais alguns milênios e ela chegará lá.

CONCLUSÃO (temporária)
Não se propõe com este trabalho nenhum tipo de censura à produção universitária, mesmo em se tratando de fenômenos supostamente paranormais, místicos ou esotéricos; pelo contrário este trabalho propõe o acirramento da discussão sobre estes fenômenos, mas definindo o escopo e o valor da Ciência, que parece ter se esmaecido em algum lugar do passado.

Acima de tudo este trabalho propõe o estabelecimento de políticas vindas de dentro dos comitês universitários, que restringam o impacto de pesquisas levianas, sejam elas naquilo que hoje se considera pseudociência ou não. Este trabalho propõe que núcleos de pesquisa de borda, como o NEFP e o NIETE, sejam julgados periodicamente por sua produção científica, publicada em revistas indexadas e que isso determine seu subsidiamento pela universidade pública; isto sempre foi sinônimo de pesquisa de qualidade em qualquer área e a pesquisa em fenômenos paranormais não deve ser exceção. E finalmente este trabalho sugere que cursos de extensão e pós graduação em terapias médicas alternativas promovidas pelas ciências da saúde, sejam julgados e aprovados por comitês multidisciplinares (similares aos comitês de ética normalmente requeridos para aprovar estudos que trabalham com populações) que possam atestar a cientifidade e segurança das técnicas ensinadas. No mínimo isso servirá para mover estas terapias alternativas para fora do escopo da ciência.

Widson Porto Reis é Engenheiro Metalúrgico, mestre em Ciências dos Materiais e exprofessor
do Instituto Militar de Engenharia.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

CPERS ADVERTE: EDUCAÇÃO EM PERIGO NO RS



28/01/2008 Escrito por Marco Weissheimer - RS URGENTE


O Centro de Professores do Estado do RS (CPERS/Sindicato) denunciou hoje o aprofundamento do sucateamento da educação pública gaúcha. Entre os novos motivos de preocupação para a comunidade escolar, o CPERS cita o fechamento de centenas de turmas no estado, o fim da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em muitas escolas e a introdução de programas de educação privados em escolas públicas. Na avaliação do sindicato, essas medidas que vêm sendo colocadas em prática pela Secretaria Estadual de Educação estão articuladas com uma estratégia de comprometer a qualidade do ensino público, com o objetivo de municipalizar e, em seguida facilitar, a sua privatização. O CPERS traçou uma cronologia das medidas tomadas até aqui pelo governo Yeda Crusius (PSDB) na área da educação:

“Primeiro veio o corte de 30% nos recursos da Educação, a suspensão das obras de reforma nas escolas, a suspensão de licitações e o fim da gestão democrática – mesmo contrariando a lei. Isso produziu como conseqüência a falta de professores e o sucateamento das estruturas das escolas. Buscando resolver o problema de falta de professores a Secretária Mariza Abreu mandou fechar bibliotecas, laboratórios de ciências e de informática, e acabou com a orientação pedagógica (Orientadores Educacionais e Supervisores Escolares). Com isso, durante todo o ano de 2007, o aluno do ensino público dispunha apenas da estrutura de sala de aula. Para aprofundar o sucateamento e ao mesmo tempo ainda suprir a falta de professores, a secretária decidiu fazer a enturmação e a multisseriação. Aumentando o número de alunos por turma e juntando séries diferentes, a secretária tenta fazer sobrar professores”.

A entidade também critica a implantação de programas de educação privados em escolas públicas (Programas "Entre Jovens" e "Jovens do Futuro)", convencendo diretores com compensações na infra-estrutura e no apoio pedagógico (obrigações do Estado). Para o CPERS, o ano de 2008 será ainda mais difícil que o de 2007. “Só em Porto Alegre foram fechadas mais de 1.300 turmas. Em Bagé foram fechadas quatro escolas no turno da noite. Dezenas de escolas em todo o estado tiveram suas turmas de EJA canceladas. E esta semana a secretária foi aos jornais convocar os prefeitos para assumirem a educação infantil através da municipalização”. E adverte: “Esta prática de amontoar alunos nas salas de aula vai acabar com a qualidade que a Educação Pública Gaúcha ainda tem, pois os professores ficarão impossibilitados de fazer um acompanhamento individualizado aos alunos com dificuldades”.

Escrito por Marco Weissheimer às 21h17

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Intelectuais lançam manifesto contra a condenação de Emir Sader


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Intelectuais brasileiros lançaram nesta quarta-feira (1º) um manifesto de “veemente repúdio” contra a condenação despropositada do professor Emir Sader, por este ter escrito um artigo em que criticou declarações preconceituosas e “racistas” do senador Jorge Bornhausen (PFL-SC).
No manifesto, que é encabeçado por Antonio Cândido e está aberto a adesões, os abaixo-assinados classificam a decisão judicial como um ataque ao direito de livre-expressão e à autonomia universitária – já que o juiz também determinou a demissão de Sader da universidade pública em que dá aulas.
“Ao impor a pena de prisão e a perda do emprego conquistado por concurso público, é um recado a todos os que não se silenciam diante das injustiças”, diz o texto.
Leia abaixo a íntegra do manifesto:

A sentença do juiz Rodrigo César Muller Valente, da 11ª Vara Criminal de São Paulo, que condena o professor Emir Sader por injúria no processo movido pelo senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), é um despropósito: transforma o agressor em vítima e o defensor dos agredidos em réu.
O senador moveu processo judicial por injúria, calúnia e difamação em virtude de artigo publicado no site Carta Maior (http://cartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=2171), no qual Emir Sader reagiu às declarações em que Bornhausen se referiu ao PT como uma "raça que deve ficar extinta por 30 anos". Na sua sentença, o juiz condena o sociólogo "à pena de um ano de detenção, em regime inicial aberto, substituída (...) por pena restritiva de direitos, consistente em prestação de serviços à comunidade ou entidade pública, pelo mesmo prazo de um ano, em jornadas semanais não inferiores a oito horas, a ser individualizada em posterior fase de execução". O juiz ainda determina: “(...) considerando que o querelante valeu-se da condição de professor de universidade pública deste Estado para praticar o crime, como expressamente faz constar no texto publicado, inequivocamente violou dever para com a Administração Pública, motivo pelo qual aplico como efeito
secundário da sentença a perda do cargo ou função pública e determino a comunicação ao respectivo órgão público em que estiver lotado e condenado, ao trânsito em julgado”.
Numa total inversão de valores, o que se quer com uma condenação como essa é impedir o direito de livre-expressão, numa ação que visa intimidar e criminalizar o pensamento crítico. É também uma ameaça à autonomia universitária, que assegura que essa instituição é um espaço público de livre pensamento. Ao impor a pena de prisão e a perda do emprego conquistado por concurso público, é um recado a todos os que não se silenciam diante das injustiças.
Nós, abaixo-assinados, manifestamos nosso mais veemente repúdio.
(Os que desejarem assinar cliquem, por favor, em http://www.petitiononline.com/emir/petition.html).

Leia mais sobre a notícia da condenação de Emir Sader na Ag ência Carta Maior

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 3


,in O Dragão da Garagem


, por




Este é o derradeiro final de "O Guia Cético para Assistir a 'O Segredo'". Talvez antes de continuar você queira conferir as partes 1 e 2.


00:44:15



"Imaginação é tudo. Ela é a prévia daquilo que a vida atrai."

Albert Einstein

Esta frase de Einstein de fato está disseminada pela Internet, então não se pode acusar Rhonda Byrne de tê-la inventado ou retirado do contexto como as outras. Mas assim como a frase de Emerson que abriu o filme, esta também não é encontrada em nenhum dos livros ou discursos do físico. Considerando-se ainda que o estilo é um pouco moderno demais, o mais provável é que esta seja mais uma das inúmeras citações bastardas que fazem parte do folclore relacionado a Einstein.

00:58:55

"É importante reconhecer que nosso corpo é realmente o produto dos nossos sentimentos. (...) Nós conhecemos o efeito placebo: o placebo é alguma coisa que supostamente não tem nenhum efeito em nosso corpo, como uma pílula de açúcar. Você diz ao paciente que ele é uma droga verdadeira e o que acontece é que o placebo tem o mesmo afeito, se não maior às vezes, do que o medicamento que seria indicado. Assim eles descobriram que a mente humana é o maior fator de cura na arte de curar."

Surpreendentemente, neste ponto "O Segredo" quase acerta. Se não fosse pelo que está tentando sugerir nas entrelinhas, John Hagelin teria finalmente acertado a mão.

Realmente o placebo apresenta resultados formidáveis em algumas situações: aparentemente funciona em cerca de 30% dos casos de dor, em 40% dos casos quando o paciente acha que está tomando Viagra e em até 50% quando usado no lugar do Prozac (alguns pesquisadores chegam a dizer que todas as drogas contra a depressão funcionam pelo efeito placebo).

John Hagelin portanto está certo em uma coisa: a disposição mental de um paciente, suas esperanças e crenças, são sim um fator poderoso em qualquer tratamento médico. Se bem que isso nunca foi nenhum Segredo...

Agora vêm os "poréns".

Porém Um: é muito difícil dizer qual a extensão real do efeito placebo. Existe um monte de doenças que se curam espontaneamente, ou que vão e vêm em ciclos, como alergias, dores musculares, enxaquecas, crises de depressão e outras (existem doenças que o paciente nem sequer tem, são fruto de sua imaginação, como no caso extremo dos hipocondríacos). Outras doenças têm um componente psicológico tão grande que se resolvem só com um pouco de atenção e cuidado genuíno do médico (coisa cada vez mais rara) ou com o ritual mágico de um curandeiro (coisa cada vez mais comum). E na maioria das vezes o que placebo faz é estimular uma mudança saudável de hábitos e um empenho maior no tratamento. A cura nesse caso não vem do placebo mas da confiança que se deposita nele.

Porém Dois: em muitos casos o placebo simplesmente não funciona. Trate um diabético com soro fisiológico em vez de insulina e ele definhará, por maior que seja sua crença no tratamento; dê um anticoncepcional de farinha a uma mulher e ela terá as mesmas chances de engravidar do que outra que não tomou nada.

Porém Três: o efeito do placebo nunca é maior do que o efeito do medicamento de verdade. É justamente assim que se sabe quando uma droga funciona mesmo, comparando-a com o placebo. Se chá de catuaba misturado com pó de chifre de rinoceronte incrementa a ereção de alguém tanto ou menos do que uma pílula azul de açúcar então a beberagem também é um placebo.


01:00:54

"Nós temos milhares de doenças lá fora. Elas são apenas o elo fraco da corrente. Elas são todas o resultado de uma coisa apenas: stress. Quando você coloca tensão na corrente você coloca tensão no sistema e um dos elos se parte. Nossa fisiologia cria doenças para nos dar feedback, para nos fazer saber que estamos desbalanceados, que não estamos amando, que não somos gratos. Por isso os sinais corporais e sintomas [de uma doença] não são algo terrível.

A questão que é freqüentemente perguntada é: quando uma pessoa manifesta uma doença no templo do seu corpo, ela pode ser curada através do pensamento positivo? A resposta é absolutamente sim!"

Realmente existem evidências bastante fortes mostrando relação entre stress e doenças como depressão, síndrome do pânico, asma, herpes, doenças do coração, obesidade, problemas estomacais etc. Mas daí a culpar o stress por todas as disfunções psicológicas, síndromes, infecções, viroses, doenças degenerativas, congênitas etc é um exagero que não têm respaldo da literatura científica.

Pior que dizer que todas as doenças são causadas por stress é afirmar que desenvolvemos doenças por sermos mal agradecidos ou por não estarmos enamorados com o Universo. Ninguém precisa pensar muito para ver que há alguma coisa errada nessa idéia. Afinal bebês recém nascidos, novos demais para serem tanto estressados quanto ingratos, também adoecem. De fato, a maior incidência de câncer em crianças ocorre entre zero e quatro anos de idade.

E para quem insistir nessa idéia eu tenho uma novidade: animais também ficam doentes! Galinhas ficam gripadas, gatos têm diabetes, peixinhos dourados têm cálculo renal, chimpanzés contraem HIV da mesma maneira que a gente, e a taxa de incidência de câncer entre os cães é quase a mesma que entre os humanos. Tudo bem que um animal pode ficar tão ou mais estressado que um homem, mas acho que ninguém acredita que a fisiologia canina cria doenças para que os cães saibam que precisam ser mais gratos por sua ração.

01:02:36

"Nós nascemos com um programa básico, chamado auto-cura. Se você tem um ferimento ele sara; se você pega uma infecção seu sistema imunológico entra em ação, elimina aquela bactéria e se cura. O sistema imunológico é feito para se curar. A doença não pode viver num corpo que está num estado emocional saudável. Seu corpo está criando milhões de células a cada segundo. Na verdade, partes inteiras do seu corpo são trocadas literalmente a cada dia. Outras partes levam alguns meses, ou anos para serem trocadas, mas dentro de alguns poucos anos nós temos um corpo inteiramente novo!"

Não, nosso corpo não foi feito para se curar e não, você não tem um corpo novo a cada temporada.

Mesmo que uma vida emocionalmente regrada operasse milagres isso não poderia curar nem doenças degenerativas do cérebro, como o mal de Alzheimer, nem distrofias musculares, uma vez que, diferentemente das células de outros tecidos, as células do sistema nervoso e as dos músculos nunca se renovam (é verdade que estudos mais novos têm mostrado que a neurogênese é sim possível em certas regiões específicas do cérebro, ao contrário do que se acreditava, mas isso não quer dizer que estas células têm um ciclo de renovação como o filme afirma).

Quanto à alegação de que pessoas emocionalmente saudáveis não ficam doentes, existem tantas maneiras de testá-la que é até difícil escolher uma. Nós poderíamos por exemplo fazer com que a Pessoa Mais Feliz do Mundo ingerisse uma cápsula com o vírus Ebola tratando-a unicamente com musicais da Disney, tipo o "High School Musical". Como normalmente menos de 10% das pessoas infectadas pelo Ebola sobrevive, será relativamente fácil verificar se a felicidade pode realmente expulsar o vírus.

01:03:49

"Pensamentos alegres levam a uma bioquímica alegre, um corpo mais feliz, mais saudável. Pensamentos negativos, stress, degradam seriamente o corpo e o funcionamento do cérebro."

O que é uma bioquímica alegre? Só uma figura de linguagem infeliz, do tipo que abunda na Superinteressante, ou realmente enzimas saltitantes cantarolando "Age of Aquarius" enquanto processam carboidratos no ciclo de Krebs? Exagero meu talvez, mas não se esqueça que John Hagelin estava naquele outro filme, que mostrou ao mundo células dançando polka numa festa de casamento...

Até onde se sabe pensamentos alegres não disparam alterações bioquímicas no corpo, em vez disso eles estimulam o cérebro a produzir certas substâncias associadas ao prazer como dopamina e endorfinas, que têm o feliz efeito de provocar alívio de dores e atenuação dos sintomas de algumas doenças.

É claro que pensamentos negativos não são bons para ninguém, mas sozinhos não podem ser culpados por provocar doenças. Se fosse assim os hipocondríacos -- pessoas que pensam o tempo todo que estão doentes e não acreditam quando o médico lhes diz o contrário -- manifestariam doenças reais e não imaginárias, como é quase sempre o caso.

01:04:09

"Remova o stress fisiológico do corpo e o corpo faz o que ele foi projetado para fazer: ele se cura."

A não ser que você acredite que o homem foi feito de barro no sexto dia de uma semana bem movimentada, esqueça essa idéia de que nosso corpo vem com um mecanismo de cura universal projetado por um designer cósmico.

Repetindo: nosso corpo não foi feito para se curar. O único motivo das pessoas hoje não morrerem aos milhões com um simples resfriado é porque... as pessoas já morreram aos milhões no passado com um simples resfriado! É assim que funciona a evolução pela seleção natural: aqueles que sobrevivem a uma praga por serem naturalmente resistentes a ela têm uma boa chance de passar esta imunidade aos seus descendentes. Esta é a sobrevivência do mais apto, de que falava Darwin.

Por exemplo, os índios da América não morreram como moscas quando os europeus invadiram suas praias por causa de uma crise de depressão coletiva (que seria até justificável se eles soubessem que seriam convertidos ao catolicismo à ferro e a fogo e depois de alguns séculos estariam vendendo miçangas nas estradas....). Morreram porque foram expostos a novos tipos de vírus -- principalmente Influenza (o vírus da gripe) e varíola -- para os quais não tinham ainda imunidade (sobre isso recomendo o excelente livro "Armas, Germes e Aço" de Jared Diamond). O mesmo aconteceu mais tarde com a gripe espanhola, que matou 5% da população do planeta no início do século. Se um designer planejava nos projetar resistentes a todas estas doenças desde a versão 1.0 ele fez um péssimo trabalho de engenharia...

01:11:01

"Uma das questões que eu recebo quase todo o tempo e que provavelmente está na sua cabeça agora é 'bem, se todo mundo usa o segredo e todos tratam o universo como um catálogo nós não vamos acabar com tudo? se todo mundo for ao caixa ao mesmo tempo isso não vai quebrar o banco?'

"A beleza do ensinamento de o segredo é que há mais do que o bastante para todo o mundo. Existe esta mentira, que age como um vírus na mente da humanidade, e esta mentira é que 'não há o bastante para todo mundo'; que há falta, que há limitação, que não há suficiente. Esta mentira faz com que as pessoas vivam com medo, ganância, avareza e estes pensamentos se tornam sua experiência. Assim o mundo tomou essa pílula do pesadelo [aqui o filme mostra um contigente militar indo à guerra]. Mas a verdade é que há o bastante para todo mundo; há mais do que o bastante de idéias criativas, há mais do que o bastante de amor, há mais do que o bastante de alegria."

Idéias criativas e amor, uma ova! Citando os Beatles, as melhores coisas da vida são de graça, mas você pode deixar isso para os pássaros e abelhas; agora me dá meu dinheiro que é isso é o que quero!

É um (triste) fato, não uma mentira ou um vírus: não há recursos naturais suficientes no planeta para sustentar indefinidamente as atuais taxas de crescimento econômico, tomando como base o padrão de consumo americano. Na verdade, os economistas estimam que se toda a população do mundo de repente começasse a consumir e gerar lixo nas mesmas quantidades que os EUA, seria necessário que nosso planeta fosse seis vezes maior.

01:12:19

"Todo grande mestre que já andou por este planeta nos ensinou que a vida deveria ser abundante. E assim, toda vez que nós pensamos que os recursos estão acabando, nós achamos novos recursos para fazer a mesma coisa."

Pode ser, pode não ser. Mas provavelmente no tempo dos grandes mestres nem todo mundo sonhava em ter banheiras de hidro-massagem em casa ou Hummers na garagem.

01:14:21

"Pense nisso por um instante: pegue sua mão e olhe para ela. Sua mão parece sólida mas não é. Se você a colocar num microscópio apropriado verá uma massa de energia vibratória".

É difícil entender aonde o sujeito que disse que não sabia o que era a eletricidade quer chegar, mas mesmo que você metesse a sua mão debaixo de um Microscópio Eletrônico de Tunelamento (o que a rigor não seria possível de qualquer maneira, mas aqui eu estou sendo apenas chato), você poderia no máximo resolver os átomos que compõe a superfície da sua mão, nunca veria alguma coisa parecida com uma "massa de energia vibratória".

Só para constar: energia não é uma entidade que pode ser observada, no sentido em que se observa uma pedra caindo ou um átomo. Mal comparando é como observar o vento, você não o vê diretamente, apenas vê o seu efeito nas coisas.

01:14:33

"Tudo é feito exatamente da mesma coisa, seja sua mão, seja o oceano ou uma estrela. Tudo é energia. E deixa eu te ajudar a entender isso: existe o Universo é claro, e nossa galáxia e nosso planeta, e então tem as pessoas e dentro delas, o orgãos, e as células e então vêm as moléculas, e os átomos e dentro deles há energia. Logo, há um monte de níveis sobre os quais falar, mas no final tudo no universo é energia."

"Não importa em qual cidade você vive, você tem energia em seu corpo, energia potencial, para iluminar uma cidade inteira por aproximadamente uma semana"

Vamos começar pelo final, que parece alguma coisa que o Morpheus disse em Matrix enquanto segurava uma pilha Duracell. O Brasil consome aproximadamente 2.000 kWh por pessoa anualmente (este número é seis vezes maior nos EUA). Fazendo as contas para quanto uma cidade de 1 milhão de habitantes consumiria em uma semana, dá mais ou menos 40 milhões de kWh. Deixa eu ver... nop, não há como extrair essa energia elétrica de um único corpo humano (a não ser é claro que você se lance dentro de um reator de fissão nuclear, mas eu acho que pouca gente está disposta a fazer isso).

A NASA, que por motivos óbvios tem o maior interesse em conseguir aproveitar a energia corporal nas viagens espaciais, calcula que uma pessoa dormindo pode gerar até 81 W de energia aproveitável, uma pessoa andando 163 e um maratonista 1048, o que daria no geral, calculam, uns 11 kWh por dia. Isso dá menos de 80 kWh em uma semana (na prática esse número seria muito menor pois é impossível com os meios atuais transformar a energia corporal em eletricidade com 100% de eficiência; por exemplo, os materiais termoelétricos existentes hoje só conseguem converter 3% do calor do corpo), muito abaixo dos 40 milhões necessários para manter uma cidade.

O outro erro é dizer que a energia está dentro dos átomos. Como Einstein mostrou com sua famosa expressão E=mc^2, matéria é energia. O que isto quer dizer é que a massa pode ser considerada como uma forma de energia (mas não o contrário); isto não quer dizer que se você observar a matéria em um microscópio muito poderoso chegará ao ponto em que verá a energia.

1:17:38



"Todo o poder vem de dentro e portanto está sob seu controle."

Robert Collier

Depois de Einstein, Buda e Graham Bell você poderia se achar na obrigação de conhecer esse tal de Robert Collier. Fique tranquilo: Collier é somente mais um autor de livros de auto-ajuda bem conhecido pelos íntimos do Novo Pensamento. Citá-lo tem mais ou menos o mesmo valor que citar a própria autora de "O Segredo".

01:20



Novo festival de caretas do Fred. Parece que alguém está precisando se alinhar ao Universo ou não vai ganhar filme novo esse ano...

01:24:08

"Lembre-se que nós usamos somente 5% do potencial da mente humana. Cem por cento podem ser alcançados com treinamento adequado. Agora imagine um mundo em todas as pessoas usam totalmente seu potencial mental e emocional. Nós poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa, conseguir qualquer coisa."

Já chegando ao final do filme John Hagelin lança mão do batido mito de que o homem só usa 5 ou 10% do cérebro (eu estava esperando que isso viesse mais cedo, afinal este é o maior suporte para as teorias mirabolantes sobre poder da mente).

O maior problema deste tipo de mito é que para dizer que alguém usa apenas 5 ou 10% do potencial da mente humana é preciso estabelecer quanto é 100% e ninguém imaginou ainda uma maneira de fazer isso. Por exemplo, como você vai virar para o Pelé e dizer que ele só usava 5% do potencial da mente dele para jogar futebol? Ou dizer pro Beethoven que ele só estava usando 10, ou 20, ou x porcento do potencial da mente dele quando compôs a Nona Sinfonia?

Em outras palavras, qualquer medida do potencial da mente humana será sempre arbitrária. John Hagelin por exemplo arbitrou vagamente que com 100% nós "poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa". Se isso incluir a capacidade de se teletransportar para outro planeta então acho que estamos ainda muito aquém dos 5%...

O Alexandre Taschetto escreveu um ótimo artigo sobre este mito no Projeto Ockham.


1:27:41



"Sinta-se bem."




Agora que o filme acabou eu me sinto bem melhor, obrigado.


Conclusão
Guaribas no Piauí, escolhida como marco zero do programa Fome Zero, é um dos vilarejos mais miseráveis do mundo. Lá não tem água, energia elétrica, telefone público, um posto de saúde sequer, farmácia, e o esgoto corre a céu aberto.

Em Guaribas as crianças não sonham com bicicletas, sonham com água. Se as crianças de Guaribas assistissem DVDs ou conseguissem ler livros de auto-ajuda, poderiam aprender com "O Segredo" que tudo o que precisam fazer para conseguir água -- em vez de andar 14 km, ida e volta, todos os dias, às vezes duas vezes por dia, até um açude lamacento -- é contemplar diuturnamente a foto de um balde d'água. Um dia, quem sabe, o Universo providenciará para que o próprio presidente da república apareça às suas portas saltando de um reluzente caminhão-pipa.

Mas como as crianças de Guariba não sabem usar o Segredo nem têm o que comer e o que bebem é uma água barrenta infectada pelo lixo, a taxa de mortalidade infantil por lá só é comparável às das regiões mais pobres da África. A maior parte das mulheres de Guaribas já perdeu pelo menos um filho. Rhonda Byrne poderia dizer a estas mães que seus filhos ficaram doentes porque eles, ou elas, não estavam suficientemente gratos pelo que o universo lhes oferece.

Extrapole este exemplo para qualquer rincão miserável do planeta e você verá qual o verdadeiro segredo de "O Segredo": que ele não passa de uma filosofia cruel que joga sobre os desafortunados, os doentes e miseráveis toda a responsabilidade por suas mazelas, enquanto libera os felizes, saudáveis e abastados da sua responsabilidade para com os primeiros.

E difícil entender porque uma filosofia tão egoísta veiculada em um filme tão ruim faz tanto sucesso, mesmo levando em conta sua massiva estratégia de marketing (que por aqui quer fazer da Ana Maria Braga a Oprah tupiniquim, com o livrinho "O Segredo por Ana Maria Braga"). Pois se em "Quem Somos Nós" a enganação e a pseudociência ficavam muito bem escondidas do leigo pela edição alucinada, os problemas de "O Segredo" afloram à superfície de uma maneira que qualquer um minimamente escolarizado pode ver (tanto que eu sei que este Guia Cético nunca terá a mesma importância do outro, sobre "What a Bleep Do We Know").

É claro que todo mundo (inclusive eu) quer saber como ganhar dinheiro sem trabalhar, emagrecer sem fazer dieta, conseguir um corpo bonito sem malhar, ficar inteligente sem estudar e ter cabelo sem fazer transplante capilar (tá, essa só eu e mais alguns). Mas só os fãs de "O Segredo" estão dispostos a não abandonar sua credulidade por coisas bobas como lógica e bom senso.



The End.

Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



ZZ - ESTUDAR SEMPRE

  • A Condição Pós-Moderna - DAVID HARVEY
  • A Condição Pós-Moderna - Jean-François Lyotard
  • A era do capital - HOBSBAWM, E. J
  • Antonio Gramsci – vida e obra de um comunista revolucionário
  • Apuntes Criticos A La Economia Politica - Ernesto Che Guevara
  • As armas de ontem, por Max Marambio,
  • BOLÍVIA jakaskiwa - Mariléia M. Leal Caruso e Raimundo C. Caruso
  • Cultura de Consumo e Pós-Modernismo - Mike Featherstone
  • Dissidentes ou mercenários? Objetivo: liquidar a Revolução Cubana - Hernando Calvo Ospina e Katlijn Declercq
  • Ensaios sobre consciência e emancipação - Mauro Iasi
  • Esquerdas e Esquerdismo - Da Primeira Internacional a Porto Alegre - Octavio Rodríguez Araujo
  • Fenomenologia do Espírito. Autor:. Georg Wilhelm Friedrich Hegel
  • Fidel Castro: biografia a duas vozes - Ignacio Ramonet
  • Haciendo posible lo imposible — La Izquierda en el umbral del siglo XXI - Marta Harnecker
  • Hegemonias e Emancipações no século XXI - Emir Sader Ana Esther Ceceña Jaime Caycedo Jaime Estay Berenice Ramírez Armando Bartra Raúl Ornelas José María Gómez Edgardo Lande
  • HISTÓRIA COMO HISTÓRIA DA LIBERDADE - Benedetto Croce
  • Individualismo e Cultura - Gilberto Velho
  • Lênin e a Revolução, por Jean Salem
  • O Anti-Édipo — Capitalismo e Esquizofrenia Gilles Deleuze Félix Guattari
  • O Demônio da Teoria: Literatura e Senso Comum - Antoine Compagnon
  • O Marxismo de Che e o Socialismo no Século XXI - Carlos Tablada
  • O MST e a Constituição. Um sujeito histórico na luta pela reforma agrária no Brasil - Delze dos Santos Laureano
  • Os 10 Dias Que Abalaram o Mundo - JOHN REED
  • Para Ler O Pato Donald - Ariel Dorfman - Armand Mattelart.
  • Pós-Modernismo - A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio - Frederic Jameson
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira
  • Simulacro e Poder - uma análise da mídia, de Marilena Chauí (Editora Perseu Abramo, 142 páginas)
  • Soberania e autodeterminação – a luta na ONU. Discursos históricos - Che, Allende, Arafat e Chávez
  • Um homem, um povo - Marta Harnecker

zz - Estudar Sempre/CLÁSSICOS DA HISTÓRIA, FILOSOFIA E ECONOMIA POLÍTICA

  • A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo - Lênin
  • A História me absolverá - Fidel Castro Ruz
  • A ideologia alemã - Karl Marx e Friedrich Engels
  • A República 'Comunista' Cristã dos Guaranis (1610-1768) - Clóvis Lugon
  • A Revolução antes da Revolução. As guerras camponesas na Alemanha. Revolução e contra-revolução na Alemanha - Friedrich Engels
  • A Revolução antes da Revolução. As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França - Karl Marx
  • A Revolução Burguesa no Brasil - Florestan Fernandes
  • A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky - Lênin
  • A sagrada família - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Antígona, de Sófocles
  • As tarefas revolucionárias da juventude - Lenin, Fidel e Frei Betto
  • As três fontes - V. I. Lenin
  • CASA-GRANDE & senzala - Gilberto Freyre
  • Crítica Eurocomunismo - Ernest Mandel
  • Dialética do Concreto - KOSIK, Karel
  • Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico - Friedrich Engels
  • Do sonho às coisas - José Carlos Mariátegui
  • Ensaios Sobre a Revolução Chilena - Manuel Castells, Ruy Mauro Marini e/ou Carlos altamiro
  • Estratégia Operária e Neocapitalismo - André Gorz
  • Eurocomunismo e Estado - Santiago Carrillo
  • Fenomenologia da Percepção - MERLEAU-PONTY, Maurice
  • História do socialismo e das lutas sociais - Max Beer
  • Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels
  • MANUAL DE ESTRATÉGIA SUBVERSIVA - Vo Nguyen Giap
  • MANUAL DE MARXISMO-LENINISMO - OTTO KUUSINEN
  • Manuscritos econômico filosóficos - MARX, Karl
  • Mensagem do Comitê Central à Liga dosComunistas - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Minima Moralia - Theodor Wiesengrund Adorno
  • O Ano I da Revolução Russa - Victor Serge
  • O Caminho do Poder - Karl Kautsky
  • O Marxismo e o Estado - Norberto Bobbio e outros
  • O Que Todo Revolucionário Deve Saber Sobre a Repressão - Victo Serge
  • Orestéia, de Ésquilo
  • Os irredutíveis - Daniel Bensaïd
  • Que Fazer? - Lênin
  • Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda
  • Reforma ou Revolução - Rosa Luxemburgo
  • Revolução Mexicana - antecedentes, desenvolvimento, conseqüências - Rodolfo Bórquez Bustos, Rafael Alarcón Medina, Marco Antonio Basilio Loza
  • Revolução Russa - L. Trotsky
  • Sete ensaios de interpretação da realidade peruana - José Carlos Mariátegui/ Editora Expressão Popular
  • Sobre a Ditadura do Proletariado - Étienne Balibar
  • Sobre a evolução do conceito de campesinato - Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA

  • 1984 - George Orwell
  • A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
  • A Espera dos Bárbaros - J.M. Coetzee
  • A hora da estrela - Clarice Lispector
  • A Leste do Éden - John Steinbeck,
  • A Mãe, MÁXIMO GORKI
  • A Peste - Albert Camus
  • A Revolução do Bichos - George Orwell
  • Admirável Mundo Novo - ALDOUS HUXLEY
  • Ainda é Tempo de Viver - Roger Garaud
  • Aleph - Jorge Luis Borges
  • As cartas do Pe. Antônio Veira
  • As Minhas Universidades, MÁXIMO GORKI
  • Assim foi temperado o aço - Nikolai Ostrovski
  • Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez
  • Contos - Jack London
  • Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • Desonra, de John Maxwell Coetzee
  • Desça Moisés ( WILLIAM FAULKNER)
  • Don Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes
  • Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado
  • Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
  • Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago
  • Fausto - JOHANN WOLFGANG GOETHE
  • Ficções - Jorge Luis Borges
  • Guerra e Paz - LEON TOLSTOI
  • Incidente em Antares, de Érico Veríssimo
  • Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
  • O Alienista - Machado de Assis
  • O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
  • O Contrato de Casamento, de Honoré de Balzac
  • O Estrangeiro - Albert Camus
  • O homem revoltado - Albert Camus
  • O jogo da Amarelinha – Júlio Cortazar
  • O livro de Areia – Jorge Luis Borges
  • O mercador de Veneza, de William Shakespeare
  • O mito de Sísifo, de Albert Camus
  • O Nome da Rosa - Umberto Eco
  • O Processo - Franz Kafka
  • O Príncipe de Nicolau Maquiavel
  • O Senhor das Moscas, WILLIAM GOLDING
  • O Som e a Fúria (WILLIAM FAULKNER)
  • O ULTIMO LEITOR - PIGLIA, RICARDO
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Os Invencidos, WILLIAM FAULKNER
  • Os Miseravéis - Victor Hugo
  • Os Prêmios – Júlio Cortazar
  • OS TRABALHADORES DO MAR - Vitor Hugo
  • Por Quem os Sinos Dobram - ERNEST HEMINGWAY
  • São Bernardo - Graciliano Ramos
  • Vidas secas - Graciliano Ramos
  • VINHAS DA IRA, (JOHN STEINBECK)

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA GUERRILHEIRA

  • A Guerra de Guerrilhas - Comandante Che Guevara
  • A montanha é algo mais que uma imensa estepe verde - Omar Cabezas
  • Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana - Florestan Fernandes
  • EZLN – Passos de uma rebeldia - Emilio Gennari
  • Imagens da revolução – documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971; Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá
  • O Diário do Che na Bolívia
  • PODER E CONTRAPODER NA AMÉRICA LATINA Autor: FLORESTAN FERNANDES
  • Rebelde – testemunho de um combatente - Fernando Vecino Alegret

ZZ- Estudar Sempre /GEOGRAFIA EM MOVIMENTO

  • Abordagens e concepções de território - Marcos Aurélio Saquet
  • Campesinato e territórios em disputa - Eliane Tomiasi Paulino, João Edmilson Fabrini (organizadores)
  • Cidade e Campo - relações e contradições entre urbano e rural - Maria Encarnação Beltrão Sposito e Arthur Magon Whitacker (orgs)
  • Cidades Médias - produção do espaço urbano e regional - Eliseu Savério Sposito, M. Encarnação Beltrão Sposito, Oscar Sobarzo (orgs)
  • Cidades Médias: espaços em transição - Maria Encarnação Beltrão Spósito (org.)
  • Geografia Agrária - teoria e poder - Bernardo Mançano Fernandes, Marta Inez Medeiros Marques, Júlio César Suzuki (orgs.)
  • Geomorfologia - aplicações e metodologias - João Osvaldo Rodrigues Nunes e Paulo César Rocha
  • Indústria, ordenamento do território e transportes - a contribuição de André Fischer. Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski e Eliseu Savério Spósito
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira