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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Tragédia em Santa Maria, RS!

Por Runildo Pinto


Prefeito Cezar Schirmer

O executivo municipal, o legislativo, o judiciário e os empresários são os responsáveis pela tragédia em Santa Maria. Por quê? Por que em primeiro lugar temos que levar em conta um princípio básico de que o poder de um país, de um Estado e de um município corresponde a um binômio: empresários e gestão pública. Os empresários, por sua vez, possuem os meios de produção e realmente exercem o poder sobre as instituições públicas. É assim que funciona o poder em um país, com seu Estado institucionalizado e sua superestrutura jurídico-política e militar. Este Estado em qualquer de suas instâncias está fundamentado na defesa permanente dos interesses empresariais como parte fundamental da classe dominante, e principalmente dos empresários mais poderosos. Esta é a constituição do poder, em qualquer setor da sociedade.



Elissandro Spohr, o Kiko e Mauro Hoffmann, donos da Boate Kiss
Em segundo lugar, em entendimento, que essa relação do poder constituído tem seus desdobramentos mais perversos no decorrer dos empreendimentos, negócios, do mercado e da economia como um todo em uma cidade. Há a conivência das instituições através de seus representantes, como Prefeito, vereadores que viabilizam os negócios dos empresários, numa relação de patrocínio-amparo-auxílio e proteção ao poder das empresas. É neste contexto que a tragédia da "Boate Kiss" aconteceu. Geralmente o que acontece é o seguinte: os empresários são fornecedores de subsídios polposos às campanhas eleitorais de candidatos e depois de eleitos, satisfazem os interesses dos "empreendedores". Portanto, em uma cidade como Santa Maria as relações entre empresários e autoridades municipais, estaduais e federais estabelecidas no município são muito estreitas, de amizade em troca privilégios, um jogo de influentes, e acontece sem exceção na política atual. Na prática se estabelece é uma situação de submissão do Prefeito, vereadores, e demais autoridades estaduais e federais, sejam ela de qualquer natureza principalmente do  judiciário em priorizar os interesses dos empresários. Os laudos expedidos pelos técnicos da prefeitura avaliam e constatam as irregularidades nas empresas e quando o técnico faz o trâmite burocrático e cai nas mãos dos "chefes", dos secretários e do Prefeito, a situação muda, o que vale é proveito, o lucro dos empresários, “dos amigos”. E, podemos afirmar, que foi isto que aconteceu em Santa Maria, RS. Devemos tomar medidas, como cidadãos, investigar os patrocínios dos empresários nas campanhas eleitorais do Prefeito Cezar Schirmer, seus secretários (muitos empresários) e vereadores, às relações com o judiciário e demais autoridades estaduais e federais em Santa Maria. Se a Boate por ventura estava com os documentos em dia, devemos saber: quem deu a autorização para que o estabelecimento funcionasse (parece óbvio)? Se a vida política do país continuar com estes privilégios, novas tragédias vão acontecer, e quem paga com qualquer crise no Estado e na nação e na vida cotidiana é a população, nunca os empresários. Historicamente cada tragédia como a da embarcação de nome Bateau Mouche no Rio de Janeiro, foram punidos apenas funcionários e nenhum empresário. O que pode se estender em Santa Maria é um enredo semelhante! Temos a convicção que a pressão deve vir da sociedade, não somente na hora das tragédias, mas diuturnamente na participação política em todas as instâncias. A população tem que criar mecanismos autônomos e diretos de controle dos sistemas públicos.

Pela punição exemplar do Prefeito Cezar Schirmer!
Pela punição exemplar dos proprietários da Boate Kiss: Elissandro Spohr, o Kiko e Mauro Hoffmann!
Pelo fim das negociatas entre Instituições Públicas e Empresários!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

OUTRO PRÍNCIPE CHEGOU


, por José Ernesto Alves Grisa*

A Sociologia é uma ciência, portanto, não é uma bola de cristal. Sua função não é prever o futuro, porém, possui categorias de análise e de pesquisa que permitem fazer prognósticos, elaborar perspectivas, criar cenários, hipóteses, etc. No campo da política, mais especificamente da governança, após passados os períodos eleitorais e empossados os novos mandatários e legislativos ( em Alegrete não é difrente), podemos fazer um exercício sociológico, utilizando algumas categorias de análise.

A mais importante, dentre tantas que podemos utilizar, é o conceito marxista de classe social, que além de ser uma identidade que se estabelece, localizada na estrutura social entre a burguesia x proletariado, é insuficiente quando não está qualificada pela consciência de classe que estipula a identidade proclamada pelo sujeito. Utilizando esta categoria, poderíamos fazer a primeira questão: a que classe social pertence o governante?

Outra categoria de análise não menos importante é a de trajetória, utilizada pelo sociólogo Pierre Bourdieu “como uma série de posições ocupadas por um mesmo agente” ao longo de um determinado tempo, portanto, a trajetória política de um governante pode se somar à categoria de ideologia (Altusser) como um conjunto de valores ou conceitos com considerações aos fatos sociais relevantes. Qual o conceito do governante, por exemplo, sobre o Movimento dos Sem Terra, sobre os Sem Teto? Qual a denominação que dá à ocupação do território: Invasão ou Ocupação? Aqui há uma valoração do discurso já profetizado, a utilização de conceitos ou preconceitos.

Talvez seja da trajetória profissional, já que mesmo individual, também é pública, que traga objetos de observação conceitual da fronteira entre o público e o privado.

As relações sociais e o pertencimento a um grupo social trazem, também, um referencial analítico, pois o ditado: “diga -me com quem anda, que te direi quem é” é uma grande contribuição do senso comum, baseada na observação empírica.

A categoria biografia e/ou autobiografia já é mais problemática, pois geralmente está contaminada pela vaidade e o gosto de falar de si, portanto, não é o retrato objetivo (fiel) da realidade, não é de todo inválida, apenas mais elástica, assim como a subjetividade. Poderemos utilizar outras categorias, como análise de discursos, anais etc que ficam mais para o campo da historiografia.

Maquiavel denominou de Príncipe o Governante, para nominar o político no poder e não precisar dar-lhe sua identidade, no caso, o nome próprio. Como funcionário público demitido, escreveu o Príncipe na tentativa de que o governante o lesse, entendesse seu espírito de colaboração, alertando sobre os perigos do poder, como dominar o povo, e este - O Príncipe – governante - revisse sua situação e o chamasse novamente aos cargos. Escrito em meados do século XVI, é impressionante a atualidade de sua obra, pois tem muito governante pensando que realmente é um Príncipe, tem muito funcionário público trocando de lado para ficar onde está, os que perderam pensando em voltar ou fazendo com que a agenda perdedora seja aplicada já que o Príncipe tem amigos de todos os lados. Das lições de Maquiavel, os políticos deturparam e aproveitaram na integra que “os fins justificam os meios”.

A inclusão da obra de Maquiavel neste texto, dá-se por também servir de categoria analítica sobre como se construiu o principado, no caso a governança local. Segundo ele: “digo que alguém chega a esse tipo de principado, seja pela vontade do povo, seja pela vontade dos grandes (.....) com efeito, encontram-se duas disposições de espírito diferentes: por um lado, o povo não quer ser nem comandado, nem oprimido pelos grandes; por outro, os grandes querem comandar e oprimir o povo”. É uma ou outra, mas não vão custar a aparecer os oportunistas pós-modernos para propor uma conciliação entre ambos. Como afirmou o filósofo Rosseau: “Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, deu grandes lições ao povo”.

A Sociologia é uma ciência humana e não exata, suas aproximações são processuais e mutáveis, assim como é a vida, existem várias variáveis.


* Prof. de Sociologia e Extensão Rural
da Escola Agrotécnica de Alegerete /RS
Mestre em Sociologia pela UFRGS

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 3


,in O Dragão da Garagem


, por




Este é o derradeiro final de "O Guia Cético para Assistir a 'O Segredo'". Talvez antes de continuar você queira conferir as partes 1 e 2.


00:44:15



"Imaginação é tudo. Ela é a prévia daquilo que a vida atrai."

Albert Einstein

Esta frase de Einstein de fato está disseminada pela Internet, então não se pode acusar Rhonda Byrne de tê-la inventado ou retirado do contexto como as outras. Mas assim como a frase de Emerson que abriu o filme, esta também não é encontrada em nenhum dos livros ou discursos do físico. Considerando-se ainda que o estilo é um pouco moderno demais, o mais provável é que esta seja mais uma das inúmeras citações bastardas que fazem parte do folclore relacionado a Einstein.

00:58:55

"É importante reconhecer que nosso corpo é realmente o produto dos nossos sentimentos. (...) Nós conhecemos o efeito placebo: o placebo é alguma coisa que supostamente não tem nenhum efeito em nosso corpo, como uma pílula de açúcar. Você diz ao paciente que ele é uma droga verdadeira e o que acontece é que o placebo tem o mesmo afeito, se não maior às vezes, do que o medicamento que seria indicado. Assim eles descobriram que a mente humana é o maior fator de cura na arte de curar."

Surpreendentemente, neste ponto "O Segredo" quase acerta. Se não fosse pelo que está tentando sugerir nas entrelinhas, John Hagelin teria finalmente acertado a mão.

Realmente o placebo apresenta resultados formidáveis em algumas situações: aparentemente funciona em cerca de 30% dos casos de dor, em 40% dos casos quando o paciente acha que está tomando Viagra e em até 50% quando usado no lugar do Prozac (alguns pesquisadores chegam a dizer que todas as drogas contra a depressão funcionam pelo efeito placebo).

John Hagelin portanto está certo em uma coisa: a disposição mental de um paciente, suas esperanças e crenças, são sim um fator poderoso em qualquer tratamento médico. Se bem que isso nunca foi nenhum Segredo...

Agora vêm os "poréns".

Porém Um: é muito difícil dizer qual a extensão real do efeito placebo. Existe um monte de doenças que se curam espontaneamente, ou que vão e vêm em ciclos, como alergias, dores musculares, enxaquecas, crises de depressão e outras (existem doenças que o paciente nem sequer tem, são fruto de sua imaginação, como no caso extremo dos hipocondríacos). Outras doenças têm um componente psicológico tão grande que se resolvem só com um pouco de atenção e cuidado genuíno do médico (coisa cada vez mais rara) ou com o ritual mágico de um curandeiro (coisa cada vez mais comum). E na maioria das vezes o que placebo faz é estimular uma mudança saudável de hábitos e um empenho maior no tratamento. A cura nesse caso não vem do placebo mas da confiança que se deposita nele.

Porém Dois: em muitos casos o placebo simplesmente não funciona. Trate um diabético com soro fisiológico em vez de insulina e ele definhará, por maior que seja sua crença no tratamento; dê um anticoncepcional de farinha a uma mulher e ela terá as mesmas chances de engravidar do que outra que não tomou nada.

Porém Três: o efeito do placebo nunca é maior do que o efeito do medicamento de verdade. É justamente assim que se sabe quando uma droga funciona mesmo, comparando-a com o placebo. Se chá de catuaba misturado com pó de chifre de rinoceronte incrementa a ereção de alguém tanto ou menos do que uma pílula azul de açúcar então a beberagem também é um placebo.


01:00:54

"Nós temos milhares de doenças lá fora. Elas são apenas o elo fraco da corrente. Elas são todas o resultado de uma coisa apenas: stress. Quando você coloca tensão na corrente você coloca tensão no sistema e um dos elos se parte. Nossa fisiologia cria doenças para nos dar feedback, para nos fazer saber que estamos desbalanceados, que não estamos amando, que não somos gratos. Por isso os sinais corporais e sintomas [de uma doença] não são algo terrível.

A questão que é freqüentemente perguntada é: quando uma pessoa manifesta uma doença no templo do seu corpo, ela pode ser curada através do pensamento positivo? A resposta é absolutamente sim!"

Realmente existem evidências bastante fortes mostrando relação entre stress e doenças como depressão, síndrome do pânico, asma, herpes, doenças do coração, obesidade, problemas estomacais etc. Mas daí a culpar o stress por todas as disfunções psicológicas, síndromes, infecções, viroses, doenças degenerativas, congênitas etc é um exagero que não têm respaldo da literatura científica.

Pior que dizer que todas as doenças são causadas por stress é afirmar que desenvolvemos doenças por sermos mal agradecidos ou por não estarmos enamorados com o Universo. Ninguém precisa pensar muito para ver que há alguma coisa errada nessa idéia. Afinal bebês recém nascidos, novos demais para serem tanto estressados quanto ingratos, também adoecem. De fato, a maior incidência de câncer em crianças ocorre entre zero e quatro anos de idade.

E para quem insistir nessa idéia eu tenho uma novidade: animais também ficam doentes! Galinhas ficam gripadas, gatos têm diabetes, peixinhos dourados têm cálculo renal, chimpanzés contraem HIV da mesma maneira que a gente, e a taxa de incidência de câncer entre os cães é quase a mesma que entre os humanos. Tudo bem que um animal pode ficar tão ou mais estressado que um homem, mas acho que ninguém acredita que a fisiologia canina cria doenças para que os cães saibam que precisam ser mais gratos por sua ração.

01:02:36

"Nós nascemos com um programa básico, chamado auto-cura. Se você tem um ferimento ele sara; se você pega uma infecção seu sistema imunológico entra em ação, elimina aquela bactéria e se cura. O sistema imunológico é feito para se curar. A doença não pode viver num corpo que está num estado emocional saudável. Seu corpo está criando milhões de células a cada segundo. Na verdade, partes inteiras do seu corpo são trocadas literalmente a cada dia. Outras partes levam alguns meses, ou anos para serem trocadas, mas dentro de alguns poucos anos nós temos um corpo inteiramente novo!"

Não, nosso corpo não foi feito para se curar e não, você não tem um corpo novo a cada temporada.

Mesmo que uma vida emocionalmente regrada operasse milagres isso não poderia curar nem doenças degenerativas do cérebro, como o mal de Alzheimer, nem distrofias musculares, uma vez que, diferentemente das células de outros tecidos, as células do sistema nervoso e as dos músculos nunca se renovam (é verdade que estudos mais novos têm mostrado que a neurogênese é sim possível em certas regiões específicas do cérebro, ao contrário do que se acreditava, mas isso não quer dizer que estas células têm um ciclo de renovação como o filme afirma).

Quanto à alegação de que pessoas emocionalmente saudáveis não ficam doentes, existem tantas maneiras de testá-la que é até difícil escolher uma. Nós poderíamos por exemplo fazer com que a Pessoa Mais Feliz do Mundo ingerisse uma cápsula com o vírus Ebola tratando-a unicamente com musicais da Disney, tipo o "High School Musical". Como normalmente menos de 10% das pessoas infectadas pelo Ebola sobrevive, será relativamente fácil verificar se a felicidade pode realmente expulsar o vírus.

01:03:49

"Pensamentos alegres levam a uma bioquímica alegre, um corpo mais feliz, mais saudável. Pensamentos negativos, stress, degradam seriamente o corpo e o funcionamento do cérebro."

O que é uma bioquímica alegre? Só uma figura de linguagem infeliz, do tipo que abunda na Superinteressante, ou realmente enzimas saltitantes cantarolando "Age of Aquarius" enquanto processam carboidratos no ciclo de Krebs? Exagero meu talvez, mas não se esqueça que John Hagelin estava naquele outro filme, que mostrou ao mundo células dançando polka numa festa de casamento...

Até onde se sabe pensamentos alegres não disparam alterações bioquímicas no corpo, em vez disso eles estimulam o cérebro a produzir certas substâncias associadas ao prazer como dopamina e endorfinas, que têm o feliz efeito de provocar alívio de dores e atenuação dos sintomas de algumas doenças.

É claro que pensamentos negativos não são bons para ninguém, mas sozinhos não podem ser culpados por provocar doenças. Se fosse assim os hipocondríacos -- pessoas que pensam o tempo todo que estão doentes e não acreditam quando o médico lhes diz o contrário -- manifestariam doenças reais e não imaginárias, como é quase sempre o caso.

01:04:09

"Remova o stress fisiológico do corpo e o corpo faz o que ele foi projetado para fazer: ele se cura."

A não ser que você acredite que o homem foi feito de barro no sexto dia de uma semana bem movimentada, esqueça essa idéia de que nosso corpo vem com um mecanismo de cura universal projetado por um designer cósmico.

Repetindo: nosso corpo não foi feito para se curar. O único motivo das pessoas hoje não morrerem aos milhões com um simples resfriado é porque... as pessoas já morreram aos milhões no passado com um simples resfriado! É assim que funciona a evolução pela seleção natural: aqueles que sobrevivem a uma praga por serem naturalmente resistentes a ela têm uma boa chance de passar esta imunidade aos seus descendentes. Esta é a sobrevivência do mais apto, de que falava Darwin.

Por exemplo, os índios da América não morreram como moscas quando os europeus invadiram suas praias por causa de uma crise de depressão coletiva (que seria até justificável se eles soubessem que seriam convertidos ao catolicismo à ferro e a fogo e depois de alguns séculos estariam vendendo miçangas nas estradas....). Morreram porque foram expostos a novos tipos de vírus -- principalmente Influenza (o vírus da gripe) e varíola -- para os quais não tinham ainda imunidade (sobre isso recomendo o excelente livro "Armas, Germes e Aço" de Jared Diamond). O mesmo aconteceu mais tarde com a gripe espanhola, que matou 5% da população do planeta no início do século. Se um designer planejava nos projetar resistentes a todas estas doenças desde a versão 1.0 ele fez um péssimo trabalho de engenharia...

01:11:01

"Uma das questões que eu recebo quase todo o tempo e que provavelmente está na sua cabeça agora é 'bem, se todo mundo usa o segredo e todos tratam o universo como um catálogo nós não vamos acabar com tudo? se todo mundo for ao caixa ao mesmo tempo isso não vai quebrar o banco?'

"A beleza do ensinamento de o segredo é que há mais do que o bastante para todo o mundo. Existe esta mentira, que age como um vírus na mente da humanidade, e esta mentira é que 'não há o bastante para todo mundo'; que há falta, que há limitação, que não há suficiente. Esta mentira faz com que as pessoas vivam com medo, ganância, avareza e estes pensamentos se tornam sua experiência. Assim o mundo tomou essa pílula do pesadelo [aqui o filme mostra um contigente militar indo à guerra]. Mas a verdade é que há o bastante para todo mundo; há mais do que o bastante de idéias criativas, há mais do que o bastante de amor, há mais do que o bastante de alegria."

Idéias criativas e amor, uma ova! Citando os Beatles, as melhores coisas da vida são de graça, mas você pode deixar isso para os pássaros e abelhas; agora me dá meu dinheiro que é isso é o que quero!

É um (triste) fato, não uma mentira ou um vírus: não há recursos naturais suficientes no planeta para sustentar indefinidamente as atuais taxas de crescimento econômico, tomando como base o padrão de consumo americano. Na verdade, os economistas estimam que se toda a população do mundo de repente começasse a consumir e gerar lixo nas mesmas quantidades que os EUA, seria necessário que nosso planeta fosse seis vezes maior.

01:12:19

"Todo grande mestre que já andou por este planeta nos ensinou que a vida deveria ser abundante. E assim, toda vez que nós pensamos que os recursos estão acabando, nós achamos novos recursos para fazer a mesma coisa."

Pode ser, pode não ser. Mas provavelmente no tempo dos grandes mestres nem todo mundo sonhava em ter banheiras de hidro-massagem em casa ou Hummers na garagem.

01:14:21

"Pense nisso por um instante: pegue sua mão e olhe para ela. Sua mão parece sólida mas não é. Se você a colocar num microscópio apropriado verá uma massa de energia vibratória".

É difícil entender aonde o sujeito que disse que não sabia o que era a eletricidade quer chegar, mas mesmo que você metesse a sua mão debaixo de um Microscópio Eletrônico de Tunelamento (o que a rigor não seria possível de qualquer maneira, mas aqui eu estou sendo apenas chato), você poderia no máximo resolver os átomos que compõe a superfície da sua mão, nunca veria alguma coisa parecida com uma "massa de energia vibratória".

Só para constar: energia não é uma entidade que pode ser observada, no sentido em que se observa uma pedra caindo ou um átomo. Mal comparando é como observar o vento, você não o vê diretamente, apenas vê o seu efeito nas coisas.

01:14:33

"Tudo é feito exatamente da mesma coisa, seja sua mão, seja o oceano ou uma estrela. Tudo é energia. E deixa eu te ajudar a entender isso: existe o Universo é claro, e nossa galáxia e nosso planeta, e então tem as pessoas e dentro delas, o orgãos, e as células e então vêm as moléculas, e os átomos e dentro deles há energia. Logo, há um monte de níveis sobre os quais falar, mas no final tudo no universo é energia."

"Não importa em qual cidade você vive, você tem energia em seu corpo, energia potencial, para iluminar uma cidade inteira por aproximadamente uma semana"

Vamos começar pelo final, que parece alguma coisa que o Morpheus disse em Matrix enquanto segurava uma pilha Duracell. O Brasil consome aproximadamente 2.000 kWh por pessoa anualmente (este número é seis vezes maior nos EUA). Fazendo as contas para quanto uma cidade de 1 milhão de habitantes consumiria em uma semana, dá mais ou menos 40 milhões de kWh. Deixa eu ver... nop, não há como extrair essa energia elétrica de um único corpo humano (a não ser é claro que você se lance dentro de um reator de fissão nuclear, mas eu acho que pouca gente está disposta a fazer isso).

A NASA, que por motivos óbvios tem o maior interesse em conseguir aproveitar a energia corporal nas viagens espaciais, calcula que uma pessoa dormindo pode gerar até 81 W de energia aproveitável, uma pessoa andando 163 e um maratonista 1048, o que daria no geral, calculam, uns 11 kWh por dia. Isso dá menos de 80 kWh em uma semana (na prática esse número seria muito menor pois é impossível com os meios atuais transformar a energia corporal em eletricidade com 100% de eficiência; por exemplo, os materiais termoelétricos existentes hoje só conseguem converter 3% do calor do corpo), muito abaixo dos 40 milhões necessários para manter uma cidade.

O outro erro é dizer que a energia está dentro dos átomos. Como Einstein mostrou com sua famosa expressão E=mc^2, matéria é energia. O que isto quer dizer é que a massa pode ser considerada como uma forma de energia (mas não o contrário); isto não quer dizer que se você observar a matéria em um microscópio muito poderoso chegará ao ponto em que verá a energia.

1:17:38



"Todo o poder vem de dentro e portanto está sob seu controle."

Robert Collier

Depois de Einstein, Buda e Graham Bell você poderia se achar na obrigação de conhecer esse tal de Robert Collier. Fique tranquilo: Collier é somente mais um autor de livros de auto-ajuda bem conhecido pelos íntimos do Novo Pensamento. Citá-lo tem mais ou menos o mesmo valor que citar a própria autora de "O Segredo".

01:20



Novo festival de caretas do Fred. Parece que alguém está precisando se alinhar ao Universo ou não vai ganhar filme novo esse ano...

01:24:08

"Lembre-se que nós usamos somente 5% do potencial da mente humana. Cem por cento podem ser alcançados com treinamento adequado. Agora imagine um mundo em todas as pessoas usam totalmente seu potencial mental e emocional. Nós poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa, conseguir qualquer coisa."

Já chegando ao final do filme John Hagelin lança mão do batido mito de que o homem só usa 5 ou 10% do cérebro (eu estava esperando que isso viesse mais cedo, afinal este é o maior suporte para as teorias mirabolantes sobre poder da mente).

O maior problema deste tipo de mito é que para dizer que alguém usa apenas 5 ou 10% do potencial da mente humana é preciso estabelecer quanto é 100% e ninguém imaginou ainda uma maneira de fazer isso. Por exemplo, como você vai virar para o Pelé e dizer que ele só usava 5% do potencial da mente dele para jogar futebol? Ou dizer pro Beethoven que ele só estava usando 10, ou 20, ou x porcento do potencial da mente dele quando compôs a Nona Sinfonia?

Em outras palavras, qualquer medida do potencial da mente humana será sempre arbitrária. John Hagelin por exemplo arbitrou vagamente que com 100% nós "poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa". Se isso incluir a capacidade de se teletransportar para outro planeta então acho que estamos ainda muito aquém dos 5%...

O Alexandre Taschetto escreveu um ótimo artigo sobre este mito no Projeto Ockham.


1:27:41



"Sinta-se bem."




Agora que o filme acabou eu me sinto bem melhor, obrigado.


Conclusão
Guaribas no Piauí, escolhida como marco zero do programa Fome Zero, é um dos vilarejos mais miseráveis do mundo. Lá não tem água, energia elétrica, telefone público, um posto de saúde sequer, farmácia, e o esgoto corre a céu aberto.

Em Guaribas as crianças não sonham com bicicletas, sonham com água. Se as crianças de Guaribas assistissem DVDs ou conseguissem ler livros de auto-ajuda, poderiam aprender com "O Segredo" que tudo o que precisam fazer para conseguir água -- em vez de andar 14 km, ida e volta, todos os dias, às vezes duas vezes por dia, até um açude lamacento -- é contemplar diuturnamente a foto de um balde d'água. Um dia, quem sabe, o Universo providenciará para que o próprio presidente da república apareça às suas portas saltando de um reluzente caminhão-pipa.

Mas como as crianças de Guariba não sabem usar o Segredo nem têm o que comer e o que bebem é uma água barrenta infectada pelo lixo, a taxa de mortalidade infantil por lá só é comparável às das regiões mais pobres da África. A maior parte das mulheres de Guaribas já perdeu pelo menos um filho. Rhonda Byrne poderia dizer a estas mães que seus filhos ficaram doentes porque eles, ou elas, não estavam suficientemente gratos pelo que o universo lhes oferece.

Extrapole este exemplo para qualquer rincão miserável do planeta e você verá qual o verdadeiro segredo de "O Segredo": que ele não passa de uma filosofia cruel que joga sobre os desafortunados, os doentes e miseráveis toda a responsabilidade por suas mazelas, enquanto libera os felizes, saudáveis e abastados da sua responsabilidade para com os primeiros.

E difícil entender porque uma filosofia tão egoísta veiculada em um filme tão ruim faz tanto sucesso, mesmo levando em conta sua massiva estratégia de marketing (que por aqui quer fazer da Ana Maria Braga a Oprah tupiniquim, com o livrinho "O Segredo por Ana Maria Braga"). Pois se em "Quem Somos Nós" a enganação e a pseudociência ficavam muito bem escondidas do leigo pela edição alucinada, os problemas de "O Segredo" afloram à superfície de uma maneira que qualquer um minimamente escolarizado pode ver (tanto que eu sei que este Guia Cético nunca terá a mesma importância do outro, sobre "What a Bleep Do We Know").

É claro que todo mundo (inclusive eu) quer saber como ganhar dinheiro sem trabalhar, emagrecer sem fazer dieta, conseguir um corpo bonito sem malhar, ficar inteligente sem estudar e ter cabelo sem fazer transplante capilar (tá, essa só eu e mais alguns). Mas só os fãs de "O Segredo" estão dispostos a não abandonar sua credulidade por coisas bobas como lógica e bom senso.



The End.

Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



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  • A Condição Pós-Moderna - Jean-François Lyotard
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  • A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo - Lênin
  • A História me absolverá - Fidel Castro Ruz
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  • A República 'Comunista' Cristã dos Guaranis (1610-1768) - Clóvis Lugon
  • A Revolução antes da Revolução. As guerras camponesas na Alemanha. Revolução e contra-revolução na Alemanha - Friedrich Engels
  • A Revolução antes da Revolução. As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França - Karl Marx
  • A Revolução Burguesa no Brasil - Florestan Fernandes
  • A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky - Lênin
  • A sagrada família - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Antígona, de Sófocles
  • As tarefas revolucionárias da juventude - Lenin, Fidel e Frei Betto
  • As três fontes - V. I. Lenin
  • CASA-GRANDE & senzala - Gilberto Freyre
  • Crítica Eurocomunismo - Ernest Mandel
  • Dialética do Concreto - KOSIK, Karel
  • Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico - Friedrich Engels
  • Do sonho às coisas - José Carlos Mariátegui
  • Ensaios Sobre a Revolução Chilena - Manuel Castells, Ruy Mauro Marini e/ou Carlos altamiro
  • Estratégia Operária e Neocapitalismo - André Gorz
  • Eurocomunismo e Estado - Santiago Carrillo
  • Fenomenologia da Percepção - MERLEAU-PONTY, Maurice
  • História do socialismo e das lutas sociais - Max Beer
  • Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels
  • MANUAL DE ESTRATÉGIA SUBVERSIVA - Vo Nguyen Giap
  • MANUAL DE MARXISMO-LENINISMO - OTTO KUUSINEN
  • Manuscritos econômico filosóficos - MARX, Karl
  • Mensagem do Comitê Central à Liga dosComunistas - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Minima Moralia - Theodor Wiesengrund Adorno
  • O Ano I da Revolução Russa - Victor Serge
  • O Caminho do Poder - Karl Kautsky
  • O Marxismo e o Estado - Norberto Bobbio e outros
  • O Que Todo Revolucionário Deve Saber Sobre a Repressão - Victo Serge
  • Orestéia, de Ésquilo
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  • Que Fazer? - Lênin
  • Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda
  • Reforma ou Revolução - Rosa Luxemburgo
  • Revolução Mexicana - antecedentes, desenvolvimento, conseqüências - Rodolfo Bórquez Bustos, Rafael Alarcón Medina, Marco Antonio Basilio Loza
  • Revolução Russa - L. Trotsky
  • Sete ensaios de interpretação da realidade peruana - José Carlos Mariátegui/ Editora Expressão Popular
  • Sobre a Ditadura do Proletariado - Étienne Balibar
  • Sobre a evolução do conceito de campesinato - Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA

  • 1984 - George Orwell
  • A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
  • A Espera dos Bárbaros - J.M. Coetzee
  • A hora da estrela - Clarice Lispector
  • A Leste do Éden - John Steinbeck,
  • A Mãe, MÁXIMO GORKI
  • A Peste - Albert Camus
  • A Revolução do Bichos - George Orwell
  • Admirável Mundo Novo - ALDOUS HUXLEY
  • Ainda é Tempo de Viver - Roger Garaud
  • Aleph - Jorge Luis Borges
  • As cartas do Pe. Antônio Veira
  • As Minhas Universidades, MÁXIMO GORKI
  • Assim foi temperado o aço - Nikolai Ostrovski
  • Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez
  • Contos - Jack London
  • Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • Desonra, de John Maxwell Coetzee
  • Desça Moisés ( WILLIAM FAULKNER)
  • Don Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes
  • Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado
  • Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
  • Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago
  • Fausto - JOHANN WOLFGANG GOETHE
  • Ficções - Jorge Luis Borges
  • Guerra e Paz - LEON TOLSTOI
  • Incidente em Antares, de Érico Veríssimo
  • Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
  • O Alienista - Machado de Assis
  • O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
  • O Contrato de Casamento, de Honoré de Balzac
  • O Estrangeiro - Albert Camus
  • O homem revoltado - Albert Camus
  • O jogo da Amarelinha – Júlio Cortazar
  • O livro de Areia – Jorge Luis Borges
  • O mercador de Veneza, de William Shakespeare
  • O mito de Sísifo, de Albert Camus
  • O Nome da Rosa - Umberto Eco
  • O Processo - Franz Kafka
  • O Príncipe de Nicolau Maquiavel
  • O Senhor das Moscas, WILLIAM GOLDING
  • O Som e a Fúria (WILLIAM FAULKNER)
  • O ULTIMO LEITOR - PIGLIA, RICARDO
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Os Invencidos, WILLIAM FAULKNER
  • Os Miseravéis - Victor Hugo
  • Os Prêmios – Júlio Cortazar
  • OS TRABALHADORES DO MAR - Vitor Hugo
  • Por Quem os Sinos Dobram - ERNEST HEMINGWAY
  • São Bernardo - Graciliano Ramos
  • Vidas secas - Graciliano Ramos
  • VINHAS DA IRA, (JOHN STEINBECK)

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA GUERRILHEIRA

  • A Guerra de Guerrilhas - Comandante Che Guevara
  • A montanha é algo mais que uma imensa estepe verde - Omar Cabezas
  • Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana - Florestan Fernandes
  • EZLN – Passos de uma rebeldia - Emilio Gennari
  • Imagens da revolução – documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971; Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá
  • O Diário do Che na Bolívia
  • PODER E CONTRAPODER NA AMÉRICA LATINA Autor: FLORESTAN FERNANDES
  • Rebelde – testemunho de um combatente - Fernando Vecino Alegret

ZZ- Estudar Sempre /GEOGRAFIA EM MOVIMENTO

  • Abordagens e concepções de território - Marcos Aurélio Saquet
  • Campesinato e territórios em disputa - Eliane Tomiasi Paulino, João Edmilson Fabrini (organizadores)
  • Cidade e Campo - relações e contradições entre urbano e rural - Maria Encarnação Beltrão Sposito e Arthur Magon Whitacker (orgs)
  • Cidades Médias - produção do espaço urbano e regional - Eliseu Savério Sposito, M. Encarnação Beltrão Sposito, Oscar Sobarzo (orgs)
  • Cidades Médias: espaços em transição - Maria Encarnação Beltrão Spósito (org.)
  • Geografia Agrária - teoria e poder - Bernardo Mançano Fernandes, Marta Inez Medeiros Marques, Júlio César Suzuki (orgs.)
  • Geomorfologia - aplicações e metodologias - João Osvaldo Rodrigues Nunes e Paulo César Rocha
  • Indústria, ordenamento do território e transportes - a contribuição de André Fischer. Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski e Eliseu Savério Spósito
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira