quinta-feira, 9 de agosto de 2007

IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO


A variação das condições materiais de uma sociedade constitui a História dessa sociedade e Marx as designou como modos de produção. A História é a mudança, passagem ou transformação de um modo de produção para outro. Tal mudança não se realiza por acaso nem por vontade livre dos seres humanos, mas acontece de acordo com condições econômicas, sociais e culturais já estabelecidas, que podem ser alteradas de uma maneira também determinada, graças à práxis humana diante de tais condições dadas.

O fato de que a mudança de uma sociedade ou a mudança histórica se faça em condições determinadas, levou Marx a afirmar que: “Os homens fazem a História, mas o fazem em condições determinadas”, isto é, que não foram escolhidas por eles. Por isso também, ele disse: “Os homens fazem a História, mas não sabem que a fazem”.

Estamos, aqui, diante de uma situação coletiva muito parecida com a que encontramos no caso de nossa vida psíquica individual. Assim como julgamos que nossa consciência sabe tudo, pode tudo, faz o que pensa e quer, mas, na realidade, está determinada pelo inconsciente e ignora tal determinação, assim também, na existência social, os seres humanos julgam que sabem o que é a sociedade, dizendo que Deus ou a Natureza ou a Razão a criaram, instituíram a política e a história, e que os homens são seus instrumentos; ou, então, acreditam que fazem o que fazem e pensam o que pensam porque são indivíduos livres, autônomos e com poder para mudar o curso das coisas como e quando quiserem.

Por exemplo, quando alguém diz que uma pessoa é pobre porque quer, porque é preguiçosa, ou perdulária, ou ignorante, está imaginando que somos o que somos somente por nossa vontade, como se a organização e a estrutura da sociedade, da economia, da política não tivesse qualquer peso sobre nossas vidas. A mesma coisa acontece quando alguém diz ser pobre “pela vontade de Deus” e não por causas das condições concretas em que vive. Ou quando faz uma afirmação racista, segundo a qual “a Natureza fez alguns superiores e outros inferiores”.

A alienação social é o desconhecimento das condições histórico-sociais concretas em que vivemos, produzidas pela ação humana também sob o peso de outras condições históricas anteriores e determinadas. Há uma dupla alienação: por um lado, os homens não se reconhecem como agentes e autores da vida social com suas instituições, mas, por outro lado e ao mesmo tempo, julgam-se indivíduos plenamente livres, capazes de mudar suas vidas individuais como e quando quiserem, apesar das instituições sociais e das condições históricas. No primeiro caso, não percebem que instituem a sociedade: no segundo caso, ignoram que a sociedade instituída determina seus pensamentos e ações

As três formas da alienação social

Podemos falar em três grandes formas de alienação existentes nas sociedades modernas ou capitalistas:

1. A alienação social, na qual os humanos não se reconhecem como produtores das instituições sociopolíticas e oscilam entre duas atitudes: ou aceitam passivamente tudo o que existe, por ser tido como natural, divino ou racional, ou se rebelam individualmente, julgando que, por sua própria vontade e inteligência, podem mais do que a realidade que os condiciona. Nos dois casos, a sociedade é o outro (alienus), algo externo a nós, separado de nós, diferente de nós e com poder total ou nenhum poder sobre nós.

2. A alienação econômica, na qual os produtores não se reconhecem como produtores, nem se reconhecem nos objetos produzidos por seu trabalho. Em nossas sociedades modernas, a alienação econômica é dupla:

Em primeiro lugar, os trabalhadores, como classe social, vendem sua força de trabalho aos proprietários do capital (donos das terras, das indústrias, do comércio, dos bancos, das escolas, dos hospitais, das frotas de automóveis, de ônibus ou de aviões, etc.). Vendendo sua força de trabalho no mercado da compra e venda de trabalho), os trabalhadores são mercadorias e, como toda mercadoria, recebem um preço, isto é, o salário. Entretanto, os trabalhadores não percebem que foram reduzidos à condição de coisas que produzem coisas; não percebem que foram desumanizados e coisificados.

Em segundo lugar, os trabalhos produzem alimentos (pelo cultivo da terra e dos animais), objetos de consumo (pela indústria), instrumentos para a produção de outros trabalhos (máquinas), condições para a realização de outros trabalhos (transporte de matérias-primas, de produtos e de trabalhadores). A mercadoria-trabalhador produz mercadorias. Estas, ao deixarem as fazendas, as usinas, as fábricas, os escritórios e entrarem nas lojas, nas feiras, nos supermercados, nos shoppings centers parecem ali estar porque lá foram colocadas (não pensamos no trabalho humano que nelas está cristalizado e não pensamos no trabalho humano realizado para que chegassem até nós) e, como o trabalhador, elas também recebem um preço.

O trabalhador olha os preços e sabe que não poderá adquirir quase nada do que está exposto no comércio, mas não lhe passa pela cabeça que foi ele, não enquanto indivíduo e sim como classe social, quem produziu tudo aquilo com seu trabalho e que não pode ter os produtos porque o preço deles é muito mais alto do que o preço dele, trabalhador, isto é, o seu salário.

Apesar disso, o trabalhador pode, cheio de orgulho, mostrar aos outros as coisas que ele fabrica, ou, se comerciário, que ele vende, aceitando não possuí-las, como se isso fosse muito justo e natural. As mercadorias deixam de ser percebidas como produtos do trabalho e passam a ser vistas como bens em si e por si mesmas (como a propaganda as mostra e oferece). Na primeira forma de alienação econômica, o trabalhador está separado de seu trabalho - este é alguma coisa que tem um preço; é um outro (alienus), que não o trabalhador.

Na segunda forma da alienação econômica, as mercadorias não permitem que o trabalhador se reconheça nelas. Estão separadas dele, são exteriores a ele e podem mais do que ele. As mercadorias são um igualmente um outro, que não o trabalhador.

3. A alienação intelectual, resultante da separação social entre trabalho material (que produz mercadorias) e trabalho intelectual (que produz idéias). A divisão social entre as duas modalidades de trabalho leva a crer que o trabalho material é uma tarefa que não exige conhecimentos, mas apenas habilidades manuais, enquanto o trabalho intelectual é responsável exclusivo pelos conhecimentos. Vivendo numa sociedade alienada, os intelectuais também se alienam. Sua alienação é tripla:

Primeiro, esquecem ou ignoram que suas idéias estão ligadas às opiniões e pontos de vista da classe a que pertencem, isto é, a classe dominante, e imaginam, ao contrário, que são idéias universais, válidas para todos, em todos os tempos e lugares.

Segundo, esquecem ou ignoram que as idéias são produzidas por eles para explicar a realidade e passam a crer que elas se encontram gravadas na própria realidade e que eles apenas as descobrem e descrevem sob a forma de teorias gerais.

Terceiro, esquecendo ou ignorando a origem social das idéias e seu próprio trabalho para criá-las, acreditam que as idéias existem em si e por si mesmas, criam a realidade e a controlam, dirigem e dominam. Pouco a pouco, passam a acreditar que as idéias se produzem umas as outras, são causas e efeitos umas das outras e que somos apenas receptáculos delas ou instrumentos delas. As idéias se tornam separadas de seus autores, externas a eles, transcendentes a eles: tornam-se um outro.

As três grandes formas da alienação (social, econômica e intelectual) são a causa do surgimento, da implantação e do fortalecimento da ideologia.

A ideologia

A alienação social se exprime numa “teoria” do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida.

Um exemplo desse senso comum aparece no caso da “explicação da pobreza, em que o pobre é pobre por sua própria culpa (preguiça, ignorância) ou por vontade divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, na verdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade - sacerdotes, filósofos. cientistas, professores, escritores, jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante de sua sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as idéias de uma das classes sociais - a dominante e dirigente - tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade.

A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos. Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos todos iguais porque participamos da idéia de “humanidade”, ou da idéia de “nação’ e “pátria”, ou da idéia de “raça”, etc. Diferenças naturais: somos levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos talentos e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor, etc.

A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as idéias.

Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos cidadãos e, portanto, temos todos os mesmos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. No entanto, sabemos que isso não acontece de fato: as crianças de rua não têm direitos; os idosos não têm direitos; os direitos culturais das crianças nas escolas públicas é inferior aos das crianças que estão em escolas particulares, pois o ensino não é de mesma qualidade em ambas; os negros e índios são discriminados como inferiores; os homossexuais são perseguidos como pervertidos, etc.

A maioria, porém, acredita que o fato de ser eleitor, pagar as dívidas e contribuir com os impostos já nos faz cidadãos, sem considerar as condições concretas que fazem alguns serem mais cidadãos do que outros. A função da ideologia é impedir-nos de pensar nessas coisas.

Os procedimentos da ideologia

Como procede a ideologia para obter esse fantástico resultado? Em primeiro lugar, opera por inversão, isto é, coloca os efeitos no lugar das causas e transforma estas últimas em efeitos. Ela opera como o inconsciente: este fabrica imagens e sintomas; aquela fabrica idéias e falsas causalidades.

Por exemplo, o senso comum social afirma que a mulher é um ser frágil, sensitivo, intuitivo, feito para as doçuras do lar e da maternidade e que, por isso, foi destinada, por natureza, para a vida doméstica, o cuidado do marido e da família. Assim o “ser feminino” é colocado como causa da “função social feminina”.

Ora, historicamente, o que ocorreu foi exatamente o contrário: na divisão sexual-social do trabalho e na divisão dos poderes no interior da família, atribuiu-se à mulher um lugar levando-se em conta o lugar masculino: como este era o lugar do domínio, da autoridade e do poder, deu-se à mulher o lugar subordinado e auxiliar, a função complementar e, visto que o número de braços para o trabalho e para a guerra aumentava o poderio do chefe da família e chefe militar, a função reprodutora da mulher tornou-se imprescindível, trazendo como conseqüência sua designação prioritária para a maternidade.

Estabelecidas essas condições sociais, era preciso persuadir as mulheres de que seu lugar e sua função não provinham do modo de organização social, mas da Natureza, e eram excelentes e desejáveis. Para isso, montou-se a ideologia do “ser feminino” e da “função feminina” como naturais e não como históricos e sociais. Como se observa, uma vez implantada uma ideologia, passamos a tomar os efeitos pelas causas.

A segunda maneira de operar da ideologia é a produção do imaginário social, através da imaginação reprodutora. Recolhendo as imagens diretas e imediatas da experiência social (isto é, do modo como vivemos as relações sociais), a ideologia as reproduz, mas transformando-as num conjunto coerente, lógico e sistemático de idéias que funcionam em dois registros: como representações da realidade (sistema explicativo ou teórico) e como normas e regras de conduta e comportamento (sistema prescritivo de normas e valores). Representações, normas e valores formam um tecido de imagens que explicam toda a realidade e prescrevem para toda a sociedade o que ela deve e como deve pensar, falar, sentir e agir. A ideologia assegura, a todos, modos de entender a realidade e de se comportar nela ou diante dela, eliminando dúvidas, ansiedades, angústias, admirações, ocultando as contradições da vida social, bem como as contradições entre esta e as idéias que supostamente a explicam e controlam.

Enfim, uma terceira maneira de operação da ideologia é o silêncio. Um imaginário social se parece com uma frase onde nem tudo é dito, nem pode ser dito, porque, se tudo fosse dito, a frase perderia a coerência, tornar-se-ia incoerente e contraditória e ninguém acreditaria nela. A coerência e a unidade do imaginário social ou ideologia vêm, portanto, do que é silenciado (e, sob esse aspecto, a ideologia opera exatamente como o inconsciente descrito pela psicanálise).

Por exemplo, a ideologia afirma que o adultério é crime (tanto assim que homens que matam suas esposas e os amantes delas são considerados inocentes porque praticaram um ato em nome da honra), que a virgindade feminina é preciosa e que o homossexualismo é uma perversão e uma doença grave (tão grave que, para alguns, Deus resolveu punir os homossexuais enviando a peste, isto é, a Aids).

O que está sendo silenciado pela ideologia? Os motivos pelos quais, em nossa sociedade. o vínculo entre sexo e procriação é tão importante (coisa que não acontece em todas as sociedades, mas apenas em algumas, como a nossa). Nossa sociedade exige a procriação legítima e legal a que se realiza pelos laços do casamento, porque ela garante, para a classe dominante, a transmissão do capital aos herdeiros. Assim sendo, o adultério e a perda da virgindade são perigosos para o capital e para a transmissão legal da riqueza; por isso, o primeiro se torna crime e a segunda é valorizada como virtude suprema das mulheres jovens.

Em nossa sociedade, a reprodução da força de trabalho se faz pelo alimento do número de trabalhadores e, portanto, a procriação é considerada fundamental para o aumento do capital que precisa da mão-de-obra. Por esse motivo, toda sexualidade que não se realizar com finalidade reprodutiva será considerada anormal, perversa e doentia, donde a condenação do homossexualismo. A ideologia, porém, perderia sua força e coerência se dissesse essas coisas e por isso as silencia.

Ideologia e inconsciente

Dissemos que a ideologia se assemelha ao inconsciente freudiano. Há, pelo menos, três semelhanças principais entre eles:

1. o fato de que adotamos crenças, opiniões, idéias sem saber de onde vieram, sem pensar em suas causas e motivos, sem avaliar se são ou não coerentes e verdadeiras;

2. ideologia e inconsciente operam através do imaginário (as representações e regras saídas da experiência imediata) e do silêncio, realizando-se indiretamente perante a consciência. Falamos, agimos, pensamos, temos comportamentos e práticas que nos parecem perfeitamente naturais e racionais porque a sociedade os repete, os aceita, os incute em nós pela família, pela escola, pelos livros, pelos meios de comunicação, pelas relações de trabalho, pelas práticas políticas. Um véu de imagens estabelecidas interpõe-se entre nossa consciência e a realidade;

3. inconsciente e ideologia não são deliberações voluntárias. O inconsciente precisa de imagens, substitutos, sonhos, lapsos, atos falhos, sintomas, sublimação para manifestar-se e, ao mesmo tempo, esconder-se da consciência. A ideologia precisa das idéias-imagens, da inversão de causas e efeitos, do silêncio para manifestar os interesses da classe dominante e escondê-los como interesse de uma única classe social. A ideologia não é o resultado de uma vontade deliberada de uma classe social para enganar a sociedade, mas é o efeito necessário da existência social da exploração e dominação, é a interpretação imaginária da sociedade do ponto de vista de uma única classe social.

Erguendo o véu, tirando a máscara

Diante do poder do inconsciente e da ideologia poderíamos ser levados a “entregar os pontos”, dizendo: Para que tanto esforço na teoria do conhecimento, se, afinal, tudo é ilusão, véu e máscara? Para que compreender a atividade da consciência, se ela é a “pobre coitada”, espremida entre o id e o super-ego, esmagada entre a classe dominante e os ideólogos?

Todavia, uma pergunta também é possível:

Como, sendo a consciência tão frágil, o Inconsciente e a ideologia tão poderosos, Freud e Marx chegaram a conhecê-los, explicar seus modos de funcionamento e suas finalidades?

No caso de Freud, foram a prática médica e a busca de uma técnica terapêutica para os indivíduos que permitiram a descoberta do inconsciente e o trabalho teórico de onde nasceu a psicanálise. No caso de Marx, foi a decisão de compreender a realidade a partir da prática política de uma classe social (os trabalhadores) que permitiu a percepção dos mecanismos de dominação e exploração sociais, de onde surgiu a formulação teórica da ideologia.

A busca da cura dos sofrimentos psíquicos, em Freud, e a luta pela emancipação dos explorados, em Marx, criaram condições para uma tomada de consciência pela qual o sujeito do conhecimento pôde recomeçar a crítica das ilusões e dos preconceitos que iniciara desde a Grécia, mas, agora, como crítica de suas próprias ilusões e preconceitos.

Em lugar de invalidar a razão, a reflexão, o pensamento e a busca da verdade, as descobertas do inconsciente e da ideologia fizeram o sujeito do conhecirnerto conhecer as condições - psíquicas, sociais, históricas - nas quais o conhecimento e o pensamento se realizam.

Como disseram os filósofos existencialistas acerca dessas descobertas:

Encarnaram o sujeito num corpo vivido real e numa história coletiva real, situaram o sujeito. Desvendando os obstáculos psíquicos e histórico-sociais para o conhecimento, puseram em primeiro plano as relações entre pensar e agir, ou, como se costuma dizer entre a teoria e a prática.

Marilena Chauí, “Convite à filosofia” – Ed. Ática, p.172-5

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terça-feira, 7 de agosto de 2007

O GLOBO, A REVOLUÇÃO CUBANA E O PAN




(Ivan Pinheiro)


"Acrescentam tais notícias que, nas cidades do interior (na área de Sierra Maestra), registraram-se vários atos de sabotagem, inclusive um atentando contra uma escola rural."


O Globo, 1º de agosto de 1957 (página 9 do Segundo Caderno, 01/08/07)

(sobre atividades da guerrilha em Cuba, comandada por Fidel Castro)


"-Ele (Fidel) já se aposentou. Quem manda agora é seu irmão – disse o sapateiro Eduardo Diaz."


O Globo. 2 de agosto de 2007 (página 32 do Caderno Economia, 02/08/07)

(sobre especulações a respeito de divergências entre Fidel e Raul Castro)





As organizações Globo comemoram 50 anos de luta sem tréguas contra a Revolução Cubana. Que coerência! A campanha sistemática começou antes mesmo da entrada vitoriosa dos guerrilheiros em Havana, em 1º de janeiro de 1959!



São 50 anos de manipulação. Você consegue imaginar Fidel Castro, Chê Guevara e Camilo Cienfuegos cometendo atentado contra uma escola rural e, mais tarde, entrando gloriosamente em Havana, recebidos com festa por onde passavam? Você acredita que algum repórter entrevistou o "sapateiro Eduardo Diaz", em Cuba?



Durante este tempo, Fidel já esteve para ser "derrubado" e a economia cubana "faliu" dezenas de vezes. Logo após a queda do Muro de Berlim e da União Soviética, a contagem regressiva do fim do "regime cubano" era acionada o tempo todo. O grande debate era quantos dias duraria a "ditadura de Fidel"!



Na cobertura dos Jogos Pan-Americanos não podia ser diferente. Pelo contrário, teria que ser pior. A doença de Fidel aumentou o ódio do imperialismo, ao qual "O Globo" serve, pois desmoralizou uma mentira repetida durante décadas: sem ele, o socialismo acabaria. Lembram-se das imagens no Jornal Nacional quando do afastamento de Fidel? Os exilados cubanos em Miami fazendo festa e os "analistas" anunciando a derradeira contagem regressiva.



Foi ridícula a cobertura do Pan pela imprensa brasileira, em especial a da Rede Globo. Só o indomável Fausto Wolff teve a coragem de denunciá-la, em sua coluna no JB. Não era uma cobertura do Pan, como espetáculo esportivo. Era a cobertura das vitórias do Brasil no Pan! Uma competição indisfarçável com os cubanos pelo segundo lugar nas medalhas.



Quem visse a Globo durante o dia, assistia, em flashes ao vivo, no meio da programação, todas as vitórias do Brasil. À noite, quando se exibia o quadro de medalhas, muitos de nós devíamos nos perguntar como Cuba continuava na frente do Brasil, se durante o dia não ganhava nada. Só se via cubano ganhando medalha quando o confronto era contra o Brasil e nossas chances eram boas. E não ouvíamos o hino nacional cubano! No caso dos venezuelanos, como seus esportes principais não coincidem com os do Brasil, simplesmente não os vimos ganhar medalhas. Alguém aí se lembra do uniforme venezuelano? E, no entanto, a Venezuela ganhou 69 medalhas, chegando na frente da Argentina, pela primeira vez na história dos Pans.



A cobertura histérica e "patrioteira" da Globo, no indefectível estilo Galvão Bueno e com os gritinhos de "Brasil!", empurrou a torcida brasileira para um comportamento patético contra os "inimigos". Vaiavam-se atletas estrangeiros até nos momentos em que o esportista precisava concentração, desequilibrando o mais importante dos fatores numa competição: a igualdade de condições.



Mas nada se comparou à mais grosseira das manipulações da Globo no Pan: a "debandada" da equipe cubana no sábado à noite. Com duas equipes ao vivo, uma na Vila do Pan e outra no aeroporto do Galeão, a reportagem mostrava os atletas voltando para Cuba, enquanto o repórter informava ao distinto público que toda a delegação estava indo embora, por ordem do governo, porque no dia seguinte haveria uma "defecção em massa".



Ali, a Globo queria ir às forras pela ousadia dos cubanos de chegarem na frente do Brasil. Aproveitando-se de um erro da delegação cubana (não ter deixado alguns atletas do vôlei para receber as medalhas de bronze) e da defecção de três atletas (numa delegação de 520) que aceitaram ser comprados como mercadoria, na esperança de ficarem ricos no exterior, a emissora mentiu descaradamente e acabou pautando toda a imprensa no dia seguinte.



O desmentido saiu nas últimas páginas dos jornais de segunda-feira, em espaço reduzido. Mas o estrago estava feito. A verdade -- do conhecimento prévio da ODEPA, do COI e do governo brasileiro -- era outra. Como fizeram todas as delegações estrangeiras, inclusive a norte-americana, os atletas estrangeiros chegavam e saiam em função do cronograma dos jogos, na medida que algumas modalidades acabavam e outras iniciavam. O vôo da "debandada dos cubanos", no sábado à noite, era o penúltimo da volta gradual da delegação cubana, que dispunha de um único avião fretado, da Cubana de Aviación.



Mas a mentira teve perna curta. No domingo de manhã, a direção da Globo soube que o vôo de sábado não era o último e que haviam ficado quase 200 membros da delegação cubana, para a cerimônia de encerramento. Com todo o aparato técnico e equipes já instalados no Maracanã, a Globo resolveu suspender a transmissão, pois seria impossível esconder, ao vivo, a garbosa delegação cubana desfilando em meio às outras, cena que só pudemos assistir porque a Bandeirantes transmitiu. Aliás, só neste canal conseguimos ver os muitos maratonistas cubanos que participaram da competição no domingo de manhã: a Globo os escondeu!



Quanto às defecções, exploradas de forma sensacionalista, fizeram-me lembrar os milhares de atletas brasileiros que atuam no exterior -- como praticamente todos os jogadores de nossas seleções de futebol e de vôlei – e que são vendidos, alguns a peso de ouro, até à sua revelia, como mercadorias, por seus proprietários (empresas, clubes e empresários). Hoje mesmo, informa-nos a Globo, um jovem jogador gaúcho, aos 17 anos, ainda civilmente menor, foi vendido para a Itália por R$56 milhões! Lembro-me também, o que é mais triste, dos milhares de brasileiros que fogem daqui para tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos, com risco de vida, para lavar pratos ou entregar pizzas.



Como brasileiro, estou orgulhoso dos nossos atletas que ganharam medalhas, principalmente os que tiveram que lutar muito para vencer, num país capitalista, mesmo em esportes em que não é preciso ser rico, como iatismo ou hipismo. Quem de nós não encheu os olhos de lágrimas ao ver a fita de chegada da maratona ser rompida por um brasileiro de origem humilde? A primeira coisa que me veio à mente foi a certeza de que o Brasil tem tudo para ser o primeiro lugar em medalhas, inclusive olímpicas, quando tivermos aqui uma sociedade justa, democrática, fraterna, sem a exploração do homem pelo homem, como em Cuba, em que brancos, negros e mulatos, homens e mulheres, são rigorosamente iguais, em direitos e deveres.



Mas, cá entre nós, como internacionalista, estou muito orgulhoso com o primeiro lugar de Cuba neste Pan Americano, na frente dos Estados Unidos. Primeiro lugar? Alguém pode perguntar: mas não foi segundo? Não. O meu grande amigo Simões já fez as contas, irretorquíveis, baseadas no critério mais justo: a proporção de medalhas por cada milhão de habitantes.



Cuba, primeiro lugar disparado, ganhou neste Pan 11,25 medalhas por um milhão de habitantes. O Canadá, 4,15; a Venezuela, 2,65. E mais uma vitória do Brasil: com 0,89, chegamos na frente dos norte-americanos, que ficaram na lanterna, com 0,79!

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

“Não precisa explicar.... eu só queria entender!”


Escrito por Waldemar Rossi
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02-Ago-2007


Em tempos passados, podia-se assistir na TV a um programa humorístico em que o macaco perguntava e ele mesmo respondia às questões referentes à vida sócio-econômica e à política nacional. E essa frase me veio à mente, tão logo li as palavras do presidente Lula, durante sua passagem por Cuiabá: “Os que estão vaiando são os que mais deveriam estar aplaudindo. Posso garantir que foram os que ganharam muito dinheiro neste país, no meu governo. Aliás, a parte mais pobre é que deveria estar mais zangada, porque ela teve menos do que eles tiveram. É só ver quanto ganharam os banqueiros, os empresários, e vamos continuar fazendo política sem discriminação”.

Nítido como água cristalina que jorra da nascente do alto da serra. Lula teve a coragem de se desnudar e afirmar que, de fato, privilegiou o capital, em detrimento do povo trabalhador. Mas os céticos, os apaixonados pelo lulismo não querem enxergar a realidade. É preciso que o “cacique mor” explique, que repita mais uma vez, esclarecendo sua opção política. Tem mais: é ele mesmo quem reafirma que vai continuar essa política que - ao contrário de sua última palavra na frase acima - é discriminatória, em que os pobres continuarão com as migalhas que caem das faustosas mesas dos ricaços.

Bem, aí vem a outra parte dessa história trágica, trágica porque diz respeito à vida e à felicidade que o povo tanto busca, caso contrário seria cômica: o PT conclama seus filiados a defender Lula da “oposição de direita que ataca o governo..., nos pontos mais fracos de nossa atuação, nos flancos que deixamos abertos e nos erros cometidos”, enquanto que o próprio Lula responde com mais uma bravata: “se alguns quiserem brincar de democracia, ninguém neste país sabe colocar mais gente nas ruas do que eu”.

Ora, o PT e seu governo viraram as costas para o povo, dando-lhes migalhas, como confessa o presidente, escolheu como novos parceiros os banqueiros, os empresários da cidade e do campo e, agora que está sendo “picado pelo escorpião” (*) que vem carregando às costas, pretende chamar os que foram e são por eles marginalizados para ir às ruas em sua defesa?

De Lula podemos compreender sua atitude em blefar com quem também blefa, porque “ameaçam” sua estabilidade política (pois nenhum capitalista que tem garantidos lucros tão avantajados vai querer comer sua “galinha dos ovos de ouro”). Entretanto, vindo isso do PT é cinismo puro, é querer nos passar a idéia de que são representantes do pensamento popular, privilégio que usufruiu nos primeiros anos de sua existência, época em que seus principais militantes vinham dos movimentos sociais organizados e combativos.

O PT fez questão de aparelhar os movimentos populares, de desmobilizá-los, de transformá-los em meros instrumentos eleitoreiros. Tendo-lhes virado as costas, quer agora que saiam em defesa de quem rejeitou sua participação nos destinos da nação?

Como dizia o macaco, “não precisa explicar”. O Lula já explicou.

(*) Da fábula sobre o sapo e o escorpião.

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.


Carnaval de Salvador: “Atrás do trio elétrico só vai quem pode pagar”


Em entrevista exclusiva à Carta Maior, o professor Clímaco Dias explica como a hegemonia dos blocos particulares, com segregação e exclusão, acabou com a festa popular mais famosa do Brasil.

Carlos Gustavo Yoda – Carta Maior*

As horas passam. E corre o relógio em contagem regressiva no portal eletrônico do Carnaval de Salvador 2007 (visite aqui). “O coração do mundo bate aqui / Feliz de quem pode escutar / Minha cidade é sua / Pode vir”, canta Daniela Mercury o hino deste ano de um dos carnavais mais conhecidos do mundo.

Só que a história do “pode vir, pode chegar” não é bem assim. Desde os anos 90, com a explosão da Axé Music, os tradicionais trios elétricos que democratizaram e popularizaram a festa nos anos 60 e 70 acabaram tornando-se um negócio milionário que atraiu grandes tubarões da produção e do marketing cultural.

Para cair nessa folia, é preciso ter dinheiro. Um pacote de um camarote famoso para três dias de brincadeira chega a custar mais de R$ 2 mil, com direito a foliar com DJ Marky e Fat Boy Slim (ah.. assim, sim). Pular na rua também custa caro: o Camaleão, um dos mais conhecidos, não sai por menos de R$ 840 o abadá.

Este ano, a prefeitura chegou a organizar um pequeno ‘Camarote do Povo’ (os ingressos são trocados por quilos de alimentos), mas que deve atender apenas a 400 brincantes, e não está no roteiro dos grandes destaques da folia. Assim acontece a maior festa popular do Brasil: excluindo.

“Da segunda metade do século XX para cá, chegaram os trios elétricos que romperam com a festa elitizada dos clubes e mansões. Só que, hoje, o trio elétrico é quem atende à elite. A música do Caetano Veloso expressou muito bem em sua época: ‘Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu’ (1969). Com o passar do tempo, esse trio elétrico foi transformado em mercadoria e instrumento de ganho de capital. Então nasceu a corda para cercá-lo, e surgiram os blocos pagos, e os camarotes. Então, atrás do trio elétrico só vai quem pode pagar”, analisa o professor de Geografia da UFBA, Clímaco Dias.

Em sua dissertação de mestrado, Carnaval de Salvador – Produção do Espaço de Exclusão, Segregação e Conflito, o pesquisador ataca todos problemas trabalhistas e de conflitos classistas da festa. Em entrevista exclusiva à parceria Carta Maior e Cultura e Mercado, Clímaco Dias explicou como a hegemonia dos blocos particulares acabou com a festa popular mais famosa do Brasil.

Carta Maior - Existe segregação de classe no Carnaval de Salvador?
Clímaco Dias
– Existe uma segregação violenta de classes e de grupos sociais. O Carnaval de Salvador segrega até mesmo no espaço físico, como na Barra. Lá é onde desfilam os principais nomes do Axé Music, é uma festa para basicamente a classe média. O povo vai, mas a hegemonia dos blocos e camarotes é classe média. O povo é um espectador de segunda categoria. O carnaval do centro da cidade é popular, mas é um popular que não tem uma organização e disposição de divulgação dos desfiles de blocos afros. Isso acaba deixando o espaço um tanto esvaziado. Isso só não acontece no horário em que o desfile está sendo transmitido pela tevê. Isso é só um exemplo do módulo hegemônico. Mas existem vários carnavais na Bahia. Agora, todos os carnavais são hegemonizados por um pequeno grupo de artistas. De meados dos anos 90 para cá, meia dúzia de artistas são responsáveis por organizar as principais atrações do carnaval. Aí o que acontece? Ivete Sangalo tem fila de patrocinadores, só ela este ano terá sete patrocínios. Enquanto isso, a prefeitura de Salvador não conseguiu fechar uma cota ínfima de patrocínio de R$ 8 milhões. O governo do estado de R$ 3 milhões, mas ainda faltam mais de R$ 2 milhões para completar a cota. Então, é fácil perceber que a prefeitura fica o tempo todo de pires na mão. E a iniciativa privada não se interessa, pois os blocos dos artistas consagrados dão mais visibilidade às marcas.

CM – E a questão do uso do espaço público? Esses camarotes e blocos não revertem benefícios à administração municipal?
CD
– O fenômeno do camarote é apenas uma continuação do que acontecia com os blocos. Os blocos são algum tipo de entidade privada que usam o espaço público e nobre e fazem pagamentos ínfimos hoje em dia. Até pouco tempo atrás, eles não pagavam nada, pois eles vinham em nome de entidades sociais. Hoje as produtoras já pagam, mas é muito pouco. E nós somos o país da Lei Rouanet. Só Daniela Mercury conseguiu, há pouco, R$ 800 mil pela lei para montar seu bloco particular. É complicado, isso. E a discussão do espaço público em Salvador é primitiva. Até a esquerda fecha a praia para festa privada no reveillòn. Eu cheguei a escrever um artigo sobre isso e um colega de esquerda me enviou um e-mail reclamando, dizendo que ele pagava todas as taxas para usar o espaço. Como se pagar todas as taxas fosse o suficiente para cercar uma praia que é pública.

CM – Mas o Carnaval de Salvador nem sempre foi assim. Em que momento da história ele deixou de ser popular?
CD
– O nosso carnaval é muito dinâmico. Se pegarmos do início do século XX até hoje, nós já passamos por quatro ou cinco formas de brincar o carnaval. Da segunda metade do século XX para cá, chegaram os trios elétricos que romperam com a festa elitizada dos clubes e mansões. Só que hoje, o trio elétrico é quem atende à elite. A música do Caetano Veloso expressou muito bem a sua época: “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu” (1969). É porque o trio elétrico conduzia o povo democraticamente atrás de si. Com o passar do tempo, esse trio elétrico foi transformado em mercadoria e instrumento de ganho de capital. Então nasceu a corda para cercá-lo, e surgiram os blocos pagos. Então, atrás do trio elétrico só vai quem pode pagar. Hoje, mesmo esse modelo é um modelo em crise. Não tem mais como avançar. Ele continua excluindo cada vez mais, só que o mercado fonográfico do Axé entrou em crise. O Axé Music tocava nas rádios brasileiras o ano todo. Agora, mal toca no carnaval. E cada dia mais o número de artistas que surgem é bem menor do que no passado. Se formos verificar a década de 90, explodiu Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Tatau, Margareth e vários. Coisas boas e a maioria tudo ruim. E estavam toda semana na mídia. Hoje isso ficou mais restrito. E o pior é que eles vêm com um discurso de que fazem um ‘trio independente’. É um pouco da volta dos trios antigos. Mas isso é uma forma deles conseguirem os patrocínios. E aqueles que pagavam para entrar no bloco estão subindo para os camarotes. E os blocos e os camarotes vivem brigando pelo direito de arena. Isso é o maior sintoma da crise e como o carnaval está se transformando.

CM – Mas e as organizações sociais e agremiações não se mobilizam para melhorar isso?
CD
– As organizações sociais precisam discutir isso, mas não há mobilização para rediscutir o papel do carnaval de Salvador. O jornal A Tarde publicou a pouco que muitas entidades e blocos afros estavam com problemas nas contas e não receberiam verba da prefeitura. Depois voltaram atrás e resolveram liberar o dinheiro para não prejudicar todas. E o carnaval popular tem esse tipo de problema. Tem também a questão do tamanho das entidades. O bloco Filhos de Ghandi tem cinco mil pessoas. Outros pequenos afoxés não têm nem setenta batuqueiros. Não dá para eles andarem juntos o tempo todo. Tem outra questão que é muito perversa. Nos folhetos de divulgação do carnaval, parece que há a maior democracia, pois eles colocam todos os blocos na divulgação do cardápio cultural. No entanto, muitos deles não chegam a sair para rua, pois não têm estrutura e nem patrocínio. Isso não é dito nunca. Fica tudo como se fosse uma grande alegria nessa proposta falsa de ‘magia e alegria na Bahia’.

CM – O poder público precisa ser mais atuante na regulação e organização da festa?
CD
– Tem uma questão que transcende o próprio Estado. As organizações populares e o próprio Estado ficaram reféns desses seis ou sete nomes que controlam o carnaval. É uma situação extremamente difícil. Uma pessoa do povo vai à rua e se ela não vê um desses blocos ela não foi ao carnaval. É difícil gestar um modelo sem diminuir o poder dessas pessoas com elas tendo esse efeito bombástico no imaginário popular.

CM – Com a nova administração do Estado nas mãos do Jacques Wagner (PT), que vem com uma proposta progressista depois de anos do sufocamento coronelista dos Magalhães, não há uma abertura para rever políticas para a cultura?
CD
– Não vejo agora, que o governo vá tomar uma postura decisiva na mudança desse quadro.

CM – E o senhor coloca nesse bolo o ministro Gilberto Gil. Não é um contra-senso o Gil músico que participa desses megablocos e o Gil ministro que trabalha diversidade cultural?
CD
– Gil é o grande homenageado por esses módulos, ele nunca se estabeleceu no centro da cidade. Ele é dono de camarote na Barra. Então eu não vejo muita diferença entre ele e os outros, não. É claro que ele tem uma expressividade e importância muito grande, não serei injusto com ele. Ele tem uma força muito grande com as expressões populares. Mas o Gil músico é o do camarote da Barra, não é o do Gil preocupado em dar outra direção ao Carnaval da Bahia.

CM – Em outras regiões da Bahia ainda existe o carnaval popular?
CD
– Existe, mas é pouco. Nos anos 90, esse modelo de carnaval se reproduziu como uma praga.

CM – Mas até aquela coisa de carnaval o ano inteiro no Brasil acabou, né?
CD
– Sim, faz parte da crise. Netinho já chegou a ter 18 blocos em todo o país. O maior faturamento deles não era no carnaval. Era nas micaretas o ano todo pelo Brasil. Até em São Paulo tinha o ‘SP Folia’. Mas isso acabou. O modelo está em crise, volto a afirmar.

CM – Nos anos 90, a câmara de vereadores de Salvador chegou a abrir investigação por racismo nos blocos?
CD
– Sim. Alguns blocos chegavam a pedir fotografias para quem quisesse comprar o abadá e selecionavam pela cor os convidados. É claro que hoje não existe mais. A segregação hoje é dos pobres que não podem pagar para brincar a nossa festa mais popular. O capital fala mais alto. E o negro é sinônimo de pobre.

CM – Em sua pesquisa de mestrado, o Sr. trata muito das questões trabalhistas. Quais são os principais problemas?
CD
– O trabalho infantil é algo assustador, principalmente com os catadores de latas de alumínio. Isso eu já venho denunciando desde 2000 e ninguém toma uma providência. Outro problema eterno sem solução é a condição de trabalho dos cordeiros (as pessoas que carregam as cordas dos blocos particulares). Eles trabalham em condições extremamente precárias. Boa parte deles tem problemas auditivos por trabalharem sem protetores auriculares, não têm luvas e a alimentação é pouca. E no fim de tudo isso, a remuneração é miserável, cerca de R$ 10 por dia, isso quando recebiam. Eu falo essas coisas porque ninguém fala. Todos falam apenas das belezas. Eu não sou porta-voz da beleza. Eu sou o porta-voz dos problemas. Problemas que precisam de soluções urgentemente.

Fonte: Carta Maior

Ditadura, entre amigos



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Escrito por Fábio Luís

03-Ago-2007



Quando minha amiga perguntou:

- Você é a favor da ditadura?

Dei-me conta em um instante do vão que existe entre a atividade do intelectual e a prática militante.

Como historiador, sei que o termo “ditadura” tem uma origem positiva na república romana: associada a tempos de exceção, principalmente guerras, a instituição da ditadura conferia poderes excepcionais por um tempo limitado - geralmente a 6 meses. Era um dispositivo engenhoso, que visava garantir a centralização do mando necessária às circunstâncias, evitando o risco da monarquia. Em uma palavra, uma astuta invenção da república romana destinada a preservar a sua própria existência.

Sei também que, a partir de Sila, a instituição foi se deturpando até adquirir caráter vitalício, aproximando-se do que os gregos chamavam de “tirania”.

Ambos os usos foram recuperados pela Revolução Francesa, o que permitiu o seu emprego seja no campo revolucionário como pelos reacionários. A escolha do título de “cônsul” por Napoleão depois do golpe de 18 Brumário mostra que o termo seguira o desprestígio de Robespierre à guilhotina.

E, no entanto, personagens como Garibaldi e Blanqui na Europa, Bolívar e Francia entre nós, reivindicaram a ditadura com um sentido positivo nas décadas seguintes: basicamente, para diferenciar tanto do parlamentarismo inglês como das monarquias continentais, uma forma alternativa de governo.

E, no entant, foi Marx, a partir dos artigos reunidos em “Luta de classes na França”, quem deu um novo sentido ao termo: ao explicitar a natureza de classe dos conflitos sociais, esvaziou o caráter da ditadura associada a uma personalidade. E postulou a “ditadura do proletariado” como característica de uma transição do capitalismo a uma sociedade sem classes. Esta fórmula foi recuperada e aplicada por Lênin.

É no entre-guerras europeu que o termo volta a adquirir conotação negativa, associada principalmente ao facismo. Sua aplicação na América Latina será herdeira deste momento histórico, que informa até hoje o uso corrente do termo entre nós.

E, portanto, o entendimento que eu devo supor em minha interlocutora, a quem, no entanto, devo ser conciso. Afinal, trata-se de uma conversa e não de uma aula.

Mas o militante, assim como a criança, não anseia na sua pergunta a uma explicação erudita. Quer captar o sentido da resposta e não a sua anatomia. Porém, nem um nem outro aceitam evasiva como resposta.

- Sou a favor da ditadura da maioria. Ou seja: do interesse dos pobres sobre os ricos, que, como não aceitam perder os privilégios por bem, tem que ser pelo mal. Toda revolução produz e é produzida por um alto grau de desorganização social e gera uma resposta violenta. Ambos os fatores exigem centralização no comando para sustentar o novo regime – fazer guerra aos de dentro e aos de fora. A violência é a parteira da história: mas sem dor do parto não há vida nova.

Moral da história: um socialista não é a favor de hierarquia. Portanto, é por princípio contrário ao mando de poucos sobre muitos. No entanto, o marxista reconhece na dialética o movimento da história: só a ditadura dos trabalhadores pode conter o final não apenas da ditadura, mas de toda forma de opressão.

Disso é preciso ter clareza entre amigos, militantes e filhos.

Fábio Luís é historiador e jornalista.

CARNAVAL: Mais um palpite infeliz do capital


, por Luiz Ricardo Leitão


Quem é você que não sabe o que diz... Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!
(Noel Rosa, Palpite Infeliz, 1936)


O recente episódio protagonizado pelo emérito compositor Martinho da Vila (presidente de honra da Unidos de Vila Isabel) e pela diretoria da sua escola de samba reacendeu a discussão sobre o implacável processo de mercantilização e espetacularização a que vem sendo submetida a maior festa popular brasileira ao longo das últimas décadas. A fim de prestigiar a escolha e despertar o interesse do público e da mídia, os cartolas da escola o convidaram a participar da disputa do samba-enredo/ 2006, mas depois decidiram cortar a música composta por Martinho (autor de enredos geniais como Sonho de um sonho e Pra tudo se acabar na quarta-feira) e Luiz Carlos da Vila (co-autor de Kizomba, a festa da raça, com o qual a Vila foi campeã em 1988), sem dar a mínima satisfação aos dois sambistas. Magoado com a agremiação, cujo badalado enredo Soy loco por ti, América - a Vila canta a latinidade foi concebido pelo artista, Martinho resolveu afastar-se do Rio em 2006, preferindo viajar para Pernambuco e animar os festejos em Recife e Jaboatão, onde ainda é possível ver maracatu, maculelê, vaquejada, fandangos e marujada, manifestações praticamente ignoradas pelos nossos meios de comunicação.
Entrevistado pelos jornais, Martinho mediu bem as palavras, mas não poupou críticas à nova fisionomia imposta pela sociedade do espetáculo ao desfile das escolas de samba cariocas, que, ao lado do frevo pernambucano e dos gêneros afro-baianos, foram convertidos nos maiores ícones do carnaval em Pindorama. Para ele, a festa mudou completamente: quando começou a desfilar, nos anos 1960, as escolas tinham em média 400 componentes; hoje, só a bateria possui 400 ritmistas e algumas agremiações chegam a passar com 5.000 pessoas na Sapucaí, muitas delas inteiramente alheias à Escola, comprando fantasia pela internet e desembarcando no Sambódromo às vésperas do evento, para curtir sua fugaz “celebridade” por algumas centenas de dólares ou reais. O sambista da terra de Noel sintetiza a alienação reinante com uma frase de efeito: - Silas de Oliveira não ganharia hoje uma disputa de samba-enredo.
A pesquisadora Lygia Santos, fi lha de um patriarca do samba (o inesquecível Donga, que não apenas compôs, como também lutou em defesa da cidadania negra), é ainda mais contundente em sua análise: “Acho que o que está acontecendo com Martinho e as escolas de samba é o resultado dessa loucura avassaladora da classe dominante em busca de dinheiro, fama e diversão barata. Ninguém tem amor a escola alguma.”

Superescolas de Samba S/A superalegorias escondendo gente bamba,que covardia
(Beto Sem Braço & Aluísio Machado, Bumbum paticumbum prugurundum, Império Serrano/1982)

A gênese desse voraz processo de metamorfose do carnaval remonta aos anos de chumbo da ditadura militar. Se, por um lado, o desfile sofreu até o duro controle ideológico dos aparelhos de censura e repressão, com a expressa recomendação de que os únicos temas abordados deveriam ser os de fundo cívico ou histórico, por outro, com a consolidação dos meios de comunicação de massa e, em especial, da televisão - que, a partir da criação de um sistema nacional de telecomunicações (Embratel), pôde atingir 98% do nosso território, fator decisivo para o crescimento da Rede Globo no período -, as classes dominantes investiriam gradualmente nesse novo “produto”, até transformá-lo em sofisticada mercadoria visual, cuja exportação lhes traria gordos dividendos anuais.
Há distintas etapas nessa mudança, todas elas marcadas pelos obscuros acordos firmados entre o poder público e os grandes grupos empresariais de turismo e comunicação de massas. Nos anos 70, ainda em pleno regime de exceção, eram notórias as conexões entre os políticos da ditadura e os “banqueiros” do jogo do bicho, principais “patronos” ou dirigentes das escolas, quase todos eles ativos cabos eleitorais da Arena e, posteriormente, do PDS. A mulher e o filho do General Figueiredo, por exemplo, mantinham estreitas relações com Anísio Abraão David, homem forte da Beija-Flor de Nilópolis, município da Baixada Fluminense governado durante décadas pela família David. Coincidência ou não, ao longo desse namoro a escola ganharia seis desfiles no Grupo Especial do carnaval carioca, todos eles sob a batuta de Joãosinho Trinta, o polêmico e talentoso maranhense que iniciara sua carreira nos anos 60 como auxiliar de mestre Fernando Pamplona no Salgueiro (onde criou enredos como A visita do rei de França ao Maranhão) e depois viria a ser o grande maestro da escola de Nilópolis. Embora costume dizer, por cinismo ou conveniência, que ele “não gostava da ditadura”, o carnavalesco desenvolveu temas laudatórios ao regime, conforme ilustra, em 1974, o enredo O Grande Decênio, óbvia exaltação das conquistas dos governos tecnocráticos dos militares após 1964. Joãosinho iria consagrar na avenida a “estética do luxo” e, em resposta às críticas que a esquerda lhe formulava, cunhou a célebre frase segundo a qual “quem gosta de miséria é intelectual”...
Em 1983, após a fragorosa derrota do regime nas eleições estaduais de 82, a ditadura vivia seus últimos suspiros, mas o espetáculo, decerto, não iria parar. Leonel Brizola, eleito governador do Rio de forma surpreendente (superando, inclusive, na apuração dos votos o esquema fraudulento armado pela direita em favor de Moreira Franco, candidato do PDS, episódio que ficou conhecido como “o escândalo do Proconsult”, convocou Darcy Ribeiro para ocupar-se do evento e este delegou a Oscar Niemeyer a tarefa de criar, em nove meses, uma nova estrutura para a pista de desfiles. Surgia, assim, o singular “Sambódromo”, um monumental palco de concreto capaz de abrigar 70 mil pessoas, o que representaria, nos anos seguintes, o progressivo abandono do carnaval de rua pelos governos municipal e estadual (com o esvaziamento dos desfiles de blocos e sociedades carnavalescas em outros pontos da cidade, como a Avenida Rio Branco, no Centro, ou os bairros de Vila Isabel e Madureira, cujos desfiles, sempre gratuitos, atraíam dezenas de milhares de foliões).
O samba possuía enfim o mesmo status do futebol ou de outros espetáculos de massa. A cultura popular, fosse ela um plástico jogo corporal com o qual as crianças se divertem na rua (sonhando ou não com as glórias de Pelé, Romário e Ronaldinho) ou uma expressão musical e coreográfica que condensa em uma festa mágica séculos de ritos, cantos e danças que atravessaram três continentes, devia transformar- se em vedete da sociedade espetacular. Para tanto, fabulosos contratos comerciais passariam a ser firmados entre a Prefeitura, a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA) e as emissoras de televisão. Era de se supor que estas, por decisão do poder público, não detivessem qualquer monopólio sobre a transmissão; porém, desde os anos 1990, resumem-se a uma única empresa: a onipotente Rede Globo, que hoje organiza o desfile da maneira mais comercial possível, reunindo 14 escolas no Grupo Especial e dividindo o desfile em dois dias (domingo e segunda-feira). O esquema, aliás, também já se estendeu a São Paulo, onde o “espetáculo” se realiza em duas noites (sexta e sábado), preenchendo inteiramente a grade da programação “globeleza”. Como cantava, com rara lucidez, o samba do Império Serrano em 1982, surgia enfi m a era das “Superescolas de Samba S/A”, a partir da qual muita gente bamba seria escondida pela covardia do monopólio midiático e empresarial que regia a “festa”.

Sem preconceito ou mania de passado
sem querer ficar do lado de quem não quer navegar
Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar

(Paulinho da Viola, Argumento, 1975)

A bem da verdade, a industrialização da cultura não é prerrogativa da segunda metade do século 20. Ela retrocede ao século anterior, quando Edison inventa o fonógrafo (1877) e os irmãos Lumière projetam o seu primeiro fi lme (1895). Nasciam na Europa e nos EUA as empresas fonográficas e cinematográficas: a britânica The Gramophone Company e a alemã Deutsche Gramophon são fundadas em 1898 e a estadunidense Victor Talking Machine se constitui em 1901. A companhia inglesa, por sua vez, logra instalar em 1908 uma fábrica em Calcutá e estúdios em Bombaim, os quais exportam para a África Oriental, estimulando precocemente a indústria cultural indiana, cuja produção cinematográfica supera há muito as cifras de Hollywood (os indianos produzem 900 fi lmes por ano, em sua maioria melodramas de larga difusão na Ásia e na Rússia). O prelúdio da indústria cultural, porém, situa-se entre 1830 e 1840, quando surge o poderoso “império dos sentimentos” na imprensa européia. Mesclando as tradições da literatura popular da Espanha, França e Inglaterra, o romancefolhetim foi o primeiro produto de exportação da moderna “cultura de massas”.
O negócio prospera. Depois da era das ferrovias e do império do automóvel, o capital patrocina a “indústria da informação”, que em 1960 já respondia por 29% do PIB estadunidense. Nas últimas décadas do século XX, quando o Estado do Bem-Estar Social cede passagem à globalização neoliberal, testemunhamos a avassaladora eclosão da “sociedade do espetáculo”, essa esquizofrenia pós-moderna por meio da qual as manifestações legítimas de um povo são convertidas em uma artificial representação midiática. Após o vertiginoso processo de urbanização do planeta, nada escapa a esse fenômeno transnacional, desde o megaespetáculo do futebol (o contrato firmado entre a Fifa e as redes de TV para a transmissão das duas últimas Copas alcançou a incrível marca de 2,3 bilhões de dólares) até uma das mais exuberantes festas populares que o mundo conhece - o carnaval brasileiro.
Apesar da adversa conjuntura que a era neoliberal iria instaurar no país a partir da eleição de Fernando Collor de Mello em 1989, não convém perder o otimismo acerca do caráter contraditório da indústria cultural, por mais que ela se empenhe em pasteurizar todas as produções mais nobres do espírito humano, aniquilandoas por meio da reprodução tecnológica e o consumo de massas da “aldeia global”. Como bem advertiu Marx, os fenômenos humanos são uma “síntese de múltiplas determinações”. A própria Vila Isabel, em 1988, sem dispor de nenhum “padrinho” ou patrocinador, ganhou o título do Grupo Especial prestando uma homenagem emocionante ao centenário da abolição da escravatura no Brasil. Martinho da Vila, o criador do enredo, convidou grupos culturais de Angola e Moçambique, celebrando com o desfile uma dionisíaca festa de identidade afro-brasileira. Como eles conseguiram superar o luxo e a riqueza das grandes escolas? Bem, na América Latina, “ou inventamos, ou fracassamos”, preconizava o sábio Simón Rodríguez, mestre do libertador Bolívar. Diante das câmeras de TV, as fantasias e carros alegóricos adornados de ráfia e outras fibras vegetais obtiveram um efeito originalíssimo e superimpactante. Um reino virtual... porém deste mundo. Além disso, era um baile de negros, contando a toda sua gente uma história de opressão secular e eterna luta em prol da liberdade.
Agora mesmo, em 2006, a grande novidade do carnaval tem sido os “ensaios técnicos” das escolas na Sapucaí, de sexta a domingo, em que as agremiações, livres da obrigação de competir, desfilam à vontade na pista, com as alas da comunidade caprichando em suas coreografias e os ritmistas deleitando o público com suas acrobacias musicais. Como a entrada é franca (durante o carnaval, o ingresso de arquibancada custa em média R$ 150,00), cerca de 40 mil pessoas lotam o Sambódromo a cada noite, fazendo dos ensaios uma das mais democráticas formas de lazer da cidade. Contente com a iniciativa, Martinho da Vila sugere que, a partir do próximo ano, os componentes coloquem um abre-alas com o nome da escola à frente do cortejo e vistam- se com fantasias bem leves, “nas cores dos pavilhões, com os mestres-salas e as porta-bandeiras devidamente fantasiados”. Já que não há concurso oficial, nem profusão de câmeras de TV, o desfile fica diferente, bem distante do caráter mercantil e espetacular do domingo e segunda de carnaval. Martinho lembra ainda que, sem a sonorização da avenida, os foliões “têm de levar o samba no gogó”, o que termina por conferir ao evento uma autenticidade há muito perdida.
Sinais de vida no planeta samba. Mais uma vez, o velho Marx tinha razão: tudo que é sólido desmancha no ar... Parece que os sambistas cariocas, pouco a pouco, somam-se a todos aqueles brasileiros indignados com a promiscuidade a que as elites submeteram as mais genuínas expressões culturais do nosso povo. Quem apostou na morte do carnaval, por sua vez, vai pagar caro por isso. Como diz a canção, façamos como o velho marinheiro, “que durante o nevoeiro leva o barco devagar”: apesar dos pesares, saberemos resistir a mais um palpite infeliz do capital.

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino- Americana pela Universidade de La Habana, é autor de ¿A dónde va la telenovela brasileña? (Editora Ciencias Sociales, Cuba)

Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



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  • A Condição Pós-Moderna - Jean-François Lyotard
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  • A História me absolverá - Fidel Castro Ruz
  • A ideologia alemã - Karl Marx e Friedrich Engels
  • A República 'Comunista' Cristã dos Guaranis (1610-1768) - Clóvis Lugon
  • A Revolução antes da Revolução. As guerras camponesas na Alemanha. Revolução e contra-revolução na Alemanha - Friedrich Engels
  • A Revolução antes da Revolução. As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França - Karl Marx
  • A Revolução Burguesa no Brasil - Florestan Fernandes
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  • A sagrada família - Karl Marx e Friedrich Engels
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  • Reforma ou Revolução - Rosa Luxemburgo
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  • Revolução Russa - L. Trotsky
  • Sete ensaios de interpretação da realidade peruana - José Carlos Mariátegui/ Editora Expressão Popular
  • Sobre a Ditadura do Proletariado - Étienne Balibar
  • Sobre a evolução do conceito de campesinato - Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA

  • 1984 - George Orwell
  • A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
  • A Espera dos Bárbaros - J.M. Coetzee
  • A hora da estrela - Clarice Lispector
  • A Leste do Éden - John Steinbeck,
  • A Mãe, MÁXIMO GORKI
  • A Peste - Albert Camus
  • A Revolução do Bichos - George Orwell
  • Admirável Mundo Novo - ALDOUS HUXLEY
  • Ainda é Tempo de Viver - Roger Garaud
  • Aleph - Jorge Luis Borges
  • As cartas do Pe. Antônio Veira
  • As Minhas Universidades, MÁXIMO GORKI
  • Assim foi temperado o aço - Nikolai Ostrovski
  • Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez
  • Contos - Jack London
  • Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • Desonra, de John Maxwell Coetzee
  • Desça Moisés ( WILLIAM FAULKNER)
  • Don Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes
  • Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado
  • Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
  • Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago
  • Fausto - JOHANN WOLFGANG GOETHE
  • Ficções - Jorge Luis Borges
  • Guerra e Paz - LEON TOLSTOI
  • Incidente em Antares, de Érico Veríssimo
  • Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
  • O Alienista - Machado de Assis
  • O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
  • O Contrato de Casamento, de Honoré de Balzac
  • O Estrangeiro - Albert Camus
  • O homem revoltado - Albert Camus
  • O jogo da Amarelinha – Júlio Cortazar
  • O livro de Areia – Jorge Luis Borges
  • O mercador de Veneza, de William Shakespeare
  • O mito de Sísifo, de Albert Camus
  • O Nome da Rosa - Umberto Eco
  • O Processo - Franz Kafka
  • O Príncipe de Nicolau Maquiavel
  • O Senhor das Moscas, WILLIAM GOLDING
  • O Som e a Fúria (WILLIAM FAULKNER)
  • O ULTIMO LEITOR - PIGLIA, RICARDO
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Os Invencidos, WILLIAM FAULKNER
  • Os Miseravéis - Victor Hugo
  • Os Prêmios – Júlio Cortazar
  • OS TRABALHADORES DO MAR - Vitor Hugo
  • Por Quem os Sinos Dobram - ERNEST HEMINGWAY
  • São Bernardo - Graciliano Ramos
  • Vidas secas - Graciliano Ramos
  • VINHAS DA IRA, (JOHN STEINBECK)

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  • A Guerra de Guerrilhas - Comandante Che Guevara
  • A montanha é algo mais que uma imensa estepe verde - Omar Cabezas
  • Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana - Florestan Fernandes
  • EZLN – Passos de uma rebeldia - Emilio Gennari
  • Imagens da revolução – documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971; Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá
  • O Diário do Che na Bolívia
  • PODER E CONTRAPODER NA AMÉRICA LATINA Autor: FLORESTAN FERNANDES
  • Rebelde – testemunho de um combatente - Fernando Vecino Alegret

ZZ- Estudar Sempre /GEOGRAFIA EM MOVIMENTO

  • Abordagens e concepções de território - Marcos Aurélio Saquet
  • Campesinato e territórios em disputa - Eliane Tomiasi Paulino, João Edmilson Fabrini (organizadores)
  • Cidade e Campo - relações e contradições entre urbano e rural - Maria Encarnação Beltrão Sposito e Arthur Magon Whitacker (orgs)
  • Cidades Médias - produção do espaço urbano e regional - Eliseu Savério Sposito, M. Encarnação Beltrão Sposito, Oscar Sobarzo (orgs)
  • Cidades Médias: espaços em transição - Maria Encarnação Beltrão Spósito (org.)
  • Geografia Agrária - teoria e poder - Bernardo Mançano Fernandes, Marta Inez Medeiros Marques, Júlio César Suzuki (orgs.)
  • Geomorfologia - aplicações e metodologias - João Osvaldo Rodrigues Nunes e Paulo César Rocha
  • Indústria, ordenamento do território e transportes - a contribuição de André Fischer. Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski e Eliseu Savério Spósito
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira