sábado, 17 de maio de 2008

OS COMPUTADORES DE RAUL REYES






, por Laerte Braga



A mídia brasileira, a televisiva então deitou e rolou, deu ênfase ao relatório da INTERPOL que afirma estarem íntegros os arquivos do computador do chanceler das FARCs-EP (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas-Exército Popular), assassinado num ataque terrorista do narcotráfico que controla a Colômbia a um acampamento no Equador.

Não divulgou, claro, a íntegra do relatório. A INTERPOL afirma com todas as letras que o que lhe foi entregue para análise estava íntegro e não prova nenhuma vinculação do governo Chávez com a força guerrilheira e muito menos com o Equador, constando do relatório que sequer o Equador faz fronteira com a região colombiana libertada do narcotráfico/terrorista de Uribe pelas FARCs.

O primeiro-ministro francês François Fillon disse em entrevista coletiva em Lima, no Peru que "falamos com todos que tenham origem democrática com a finalidade de salvar a vida de Ingrid Betancourt".

"Que eu saiba, o presidente Chávez foi eleito democraticamente e é reconhecido como tal pelos países representados nesta Cúpula. A França não será negligente e não deixará passar qualquer oportunidade para libertá-la. Trata-se de um caso humanitário".

As sucessivas vitórias eleitorais de candidatos à esquerda em países da América do Sul, a transição democrática em Cuba com a saída de Fidel e a volta, pelo voto, dos sandinistas ao poder na Nicarágua (Daniel Ortega), ressuscitaram as velhas práticas da direita fascista nesta parte do mundo, a partir dos interesses de Washington. Práticas que a rigor nunca estiveram mortas, apenas adormecidas na Transilvânia dos DOI/CODIS, das OBANs e das várias fases da Operação Condor.

Tanto pode ser através de um narcotraficante como Uribe, ou de um corrupto como Alan Garcia, como na cooptação de um general, o supostamente brasileiro Augusto Heleno.

O que está em jogo são os interesses dos donos do mundo, nesse momento encurralados diante da perspectiva de uma recessão na sede (EUA) e das dificuldades encontradas para “libertar” o Iraque, o Afeganistão, tudo numa só panela que mistura os 60 anos do estado fascista de Israel.

Que o diga o sangue dos milhares de palestinos derramado na intolerância dos tacões suásticos do sionismo.

O mundo globalitarizado em forma de sanduíche McDonalds e lacrado em garrafa de coca cola.

É, por exemplo, o que levou o ministro da Justiça Tarso Genro a colocar um torturador, Jair Bolsonaro em seu devido lugar, no momento em que o governo Lula (do qual Tarso faz parte) perde a presença de Marina da Silva em função do que determinam a VALE e outras, nos gritos do general Augusto Heleno (versão brasileira de Custer). Tarso pagou o preço do equilibrismo e da falta de peito de um presidente que perdeu o rumo. Numa certa medida Tarso deu até o rumo. Depende de Lula entender para além dessa besteira de “Nova China”.

Aliança PTSDB para sacramentar o cruzamento de partidos geneticamente iguais e paulistas encravados no enclave DASLU/FIESP, ou vice versa.

Em nenhum momento a INTERPOL disse em seu relatório que Chávez e Corrêa ajudavam ou ajudam as FARCs-EP, pelo menos nos termos que Uribe pretendeu vender ao mundo na esteira do golpismo que busca atingir governos democráticos por aqui, exatamente como disse o primeiro-ministro francês, oriundos do voto, logo da vontade popular.

GLOBO, BANDEIRANTES, RECORD, SBT, as grandes cadeias de emissoras de rádio e os grandes jornais optaram pelo que interessa aos que pagam e compram as imagens e os espaços sórdidos da mídia golpista e podre.

Optaram por mentir, ou para usar uma expressão meio que fora de moda, mas precisa, optaram por escamotear a parte do relatório que não lhes interessava. Do ponto de vista de quem corta e costura a farda do general da banda William Bonner.

Blecaute vivia esse papel com muito mais autenticidade, porque da banda mesmo. Nada de histerismo que faltam ranhuras no aeroporto, quando faltava é cuidado da companhia com o avião e com vidas.

Mas a companhia paga e o comandante da guerra televisiva contra Chávez, Corrêa e Morales obedece a quem paga.

Há toda uma carreirinha nessa série de acontecimentos que envolvem desde o ataque ao acampamento do chanceler Reyes, até os arrozeiros em Roraima, a absolvição do latifundiário que mandou matar Doroty Stang, a redução da área não desmatável da Amazônia, ao grito de “dependência ou morte” do general Heleno e a volta de vampiros das câmaras de tortura como Bolsonaro.

O que o primeiro-ministro François Fillon disse em Lima reflete um mundo que não interessa a essa gente. E o governo francês é tudo menos de esquerda.

Breve Lula navegando nos desertos eucalipticos da Amazônia com o boné da VALE.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O naufrágio do centro do mundo: entre a recessão e o colapso







O artigo de Jorge Beinstein (Economista argentino) desvenda a economia americana e seus desdobramentos em escala mundial. A economia globalizada dá partida em uma crise prolongada com a recessão aberta nos EUA. As repercussões deste colapso podem quebrar a hegemonia imperial norte-americana? Provocarão uma histérica intensificação de guerras na periferia do capitalismo? É certo que esse terremoto desarticulará estados, economias regionais e uma nova configuração nas forças políticas e econômicas mundiais. Aos conflitos germinados, outra potência econômica pode despontar nesse contexto? Como será? Os norte-americanos conseguirão dar conta de sua economia sem exacerbar?
O possível naufrágio dos Estados Unidos: com a queda do dólar, das indústrias do consumo e militar, com a produção petrolífera alcançando o seu pico. Fatores que evidenciam o caráter alarmante da conjuntura, que meios de comunicação e analistas de diversos matizes ideológicos especulam mundo a fora. Confira aqui a matéria em Carta Maior.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Áudio das Conferência (mp3) - Intelectual engajado, figura em extinção? - Marilena de Souza Chaui







Intelectual engajado, figura em extinção? - Marilena de Souza Chaui

Desde o ‘caso Dreyfus’, a participação dos intelectuais na agitação política e cultural tinha se tornado parte da nossa vida social. A polêmica entre Sartre e Merleau-Ponty evidenciou a questão do engajamento político, do qual a década de 1960 deu mostras de vigor. Hoje, ao contrário, os intelectuais retraíram-se da vida pública. Por quê? É o que tentaremos responder.

Íntegra da Conferência - áudio/mp3
realizada no teatro Maison de France, em 22/08/2005

Justiça para Luiz Eduardo Merlino




(1948-1971)!

por paulaÚltima modificação 01/05/2008 14:53
Contribuidores: Michael Löwy

Se o coronel Ustra for declarado culpado, pela primeira vez um responsável do aparelho repressivo da ditadura prestará contas de uma morte sob tortura 30/04/2008


Michael Löwy



Luiz Eduardo Merlino, jovem jornalista brasileiro, militante da Quarta International, morreu sob tortura, com a idade de 23 anos, em julho de 1971. Sua ex-companheira, Angela Mendes de Almeida, e sua irmã, Regina Merlino Dias de Almeida, decidiram, apesar da anistia oficial que os militares se outorgaram há mais de vinte anos, levar à justiça o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado por várias testemunhas de ser o principal responsável por este crime. Felizmente o juiz, Carlos Abrão, acolheu o pedido de abertura da ação: a tortura é, segundo a lei brasileira e os tratados internacionais assinados pelo Brasil, imprescriptivel. O processo deverá começar dentro de algumas semanas. As duas autoras da ação não pedem a condenação penal do oficial, nem indenizações, mais simplesmente a verdade: que a justiça declare o coronel Ustra responsável pela tortura e morte de Merlino.

Este sinistro personagem era o chefe do Departamento de Operações de Informação (DOI-CODI) da ditadura militar em São Paulo. Sob este eufemismo escondia-se uma oficina de torturas, de que foram vítimas de tortura - entre 1970 et 1973, período de comando de Ustra – cerca de quinhentos presos, dentre os quais morreram mais de quarenta, entre eles nosso jovem camarada. Segundo a versão oficial, atestada por dois «médicos legistas» a serviço dos militares, Merlino teria se «suicidado», jogando-se debaixo das rodas de um carro: explicação ridícula, freqüentemente utilizada pela ditadura para cobrir seus crimes. Na realidade vários ex-presos – entre eles o escultor Guido Rocha, que compartilhou a cela com ele – testemunharam ter visto Merlino agonizando depois de ter sido submetido a 24 horas de tortura ininterrupta, sem entregar nenhuma informação a seus algozes. Submetido a eletrochoques e ao suplício do «pau de arara», isto é, pendurado com os pés e as mãos amarradas, ele já estava em um estado grave, semi-paralisado, quando os torturadores o jogaram no cimento do chão da cela. Faleceu dois dias depois.

Como salienta Angela, sua companheira, "o fim da impunidade começa com a memória e o restabelecimento da verdade. A tortura na ditadura era uma política do Estado brasileiro, mas seus executores têm nome. O coronel Ustra, sendo o comandante do DOI-CODI, é responsável por isso. As torturas foram realizadas por ele e os seus subalternos, sob seu comando e com o seu conhecimento".

Este processo é importante. Se o coronel for declarado culpado, será a primeira vez que um responsável do aparelho repressivo da ditadura deverá prestar contas de uma morte sob tortura. Aliás, o mesmo coronel é objeto de outra ação judicial, promovida pela familia Teles - um casal, a irmã da esposa e dois filhos – torturados nos mesmos locais do DOI-CODI em 1972. O processo está em curso. Neste caso, como no de nosso companheiro Merlino, a condenação do coronel será uma vitória, certamente simbólica mas de claro teor politíco, da verdade e da justiça.


Luiz Eduardo Merlino, conhecido também sob o pseudônimo de «Nicolau», era um dos dirigentes do Partido Operário Comunista (POC), uma organização simpatizante da Quarta Internacional no Brasil, que havia decidido, a partir de 1969, participar da resistência armada contra a ditadura militar estabelecida no pais em 1964. Em 1970-71 ele veio a Paris, com sua companheira Angela, para estreitar laços com a Quarta Internacional, estudar a experiência organizacional de Liga Comunista e estabelecer contatos com organizações irmãs na América Latina, em particular na Argentina. Foi nesta época que tive a sorte de conhecê-lo.


Luiz Eduardo era um rapaz magro, de feições delicadas e agradáveis, com óculos e um pequeno bigode. Era generoso, calmo e decidido. Não se resignava a ficar no exílio e havia tomado a decisão de voltar o mais cedo possível para o Brasil, para tentar reorganizar o POC e inseri-lo no processo de resistência armada à ditadura. Tentei dissuadi-lo, mas sem sucesso. Lúcido, ele reconhecia a dificuldade e o risco da empresa. Certa vez perguntei-lhe como avaliava sua chance de "sair-se bem" na volta ao Brasil. Respondeu-me: "cinqüenta por cento" ...


A análise de conjuntura era certa ou não? Será que a tática era a mais apropriada?A estratégia era correta ou equivocada? Trinta e cinco anos depois estas questões perderam muito de seu interesse. O que sobra é a integridade de um indivíduo, sua decisão de arriscar a vida pela causa da liberdade, da democracia, da emancipação dos trabalhadores, do socialismo. Para o Luiz Eduardo Merlino, voltar ao Brasil era uma clara exigência moral e política, uma espécie de "imperativo categórico" que não aceitava recuos ou concessões.

Certas pessoas, que na época partilhavam da luta de "Nicolau", mas hoje se converteram ao social-liberalismo - prefiro não citar nomes - pretendem que o comportamento daqueles que no Brasil e na América Latina arriscaram e perderam sua vida na luta desigual contra as ditaduras do continente, eram movidos por um "espírito suicida". Nada mais absurdo. Luiz Eduardo amava a vida, amava sua companheira e não tinha a mínima vocação para o suicídio. O que o levou a tomar a decisão que tomou e lhe custou a vida, foi simplesmente um sentimento de dever, uma ética, um compromisso com os companheiros de luta.

A historia do futuro não se fará sem a memória de nossos amigos e companheiros martirizados.


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Lembranças de Nicolau

Michael Löwy

Luiz Eduardo Merlino é destas pessoas que ficam para sempre gravadas na memória de quem as conheceu, por mais que passem os anos e as modas. Tive a chance de encontrá-lo em Paris, durante os poucos meses em que permaneceu no exílio (1970-71), como militante da nossa corrente (a velha Quarta), mas sobretudo como amigo, como "camarada", no amplo e fraterno sentido desta palavra.

Luiz Eduardo tinha escolhido como codinome "Nicolau". Certa vez me explicou que este era o nome que os primeiros comunistas brasileiros utilizavam para tentar traduzir "Vladimir", o prenome de Lenin, ao português. "Nicolau" era inseparável de sua companheira de amor e de lutas, Angela, codinome "Tais". Os dois haviam formado no POC uma corrente "quartista", a "Tendência Nicolau-Tais", que se designava, com auto-ironia, a "TNT". A escolha do pseudônimo não era casual: "Nicolau" era leninista confesso e convicto. Às vezes brincava, com humor e amizade, com minhas simpatias "luxemburguistas". A verdade é que nos entendíamos muito bem, partilhando aquela mistura de Trotsky com Che Guevara que era tão explosiva como a TNT.

Luiz Eduardo era um rapaz magro, de feições delicadas e agradáveis, sempre de óculos e bigode. Era generoso, calmo e decidido. Não se resignava a ficar no exílio e havia tomado a decisão de voltar o mais cedo possível ao Brasil, tentar reorganizar o POC e inseri-lo no processo de resistência armada à ditadura. Tentei dissuadi-lo, mas sem sucesso. Lúcido, ele reconhecia a dificuldade e o risco da empresa. Certa vez lhe perguntei como avaliava sua chance de "sair-se bem" da volta ao Brasil. "Cinqüenta por cento" me respondeu…

A análise de conjuntura era certa ou não? Será que a tática era a mais apropriada? A estratégia era correta ou equivocada? Trinta e cinco anos depois estas questões perderam muito de seu interesse. O que sobra é a integridade de um indivíduo, sua decisão de arriscar a vida pela causa da liberdade, da democracia, da emancipação dos trabalhadores, do socialismo. Para o Luiz Eduardo, voltar ao Brasil era uma alta exigência moral e política, uma espécie de "imperativo categórico" que não aceitava recuos ou concessões. Certas pessoas, que na época partilhavam da luta do "Nicolau", mas hoje se converteram ao social-liberalismo - prefiro não citar nomes - pretendem que o comportamento daqueles que no Brasil e na América Latina arriscaram e perderam sua vida na luta desigual contra as ditaduras do continente, eram movidos por um "espírito suicidário". Nada mais longe da verdade. Luiz Eduardo amava a vida, amava sua companheira, e não tinha a mínima vocação para o suicídio. O que o levou a tomar a decisão que tomou, e lhe custou a vida, foi simplesmente um sentimento de dever, uma ética, um compromisso com os companheiros de luta. É por isto que a memória dele continua tão viva e presente, não só no Brasil, mas também na França e em outros países em que se conheceu sua história.

Outro dia, mexendo em velhos jornais marxistas, dei com uma fotografia do Luiz Eduardo, com o título "morto em combate". O artigo que acompanhava a foto já envelheceu, não apresenta maior interesse. Mas o olhar do Luiz Eduardo não perdeu nem um pouco de sua força e de sua intensidade e me atingiu em pleno coração: não pude conter as lágrimas, era como se tudo se tivesse passado ontem.

A ditadura não deu uma chance ao Luiz Eduardo: preso logo depois de sua chegada, torturado, morto por não entregar informações. A herança que ele nos deixa é a de seguir lutando, para que nunca mais o Brasil conheça a opressão, a violência policial, a tortura.

Joe Hill, o dirigente sindicalista revolucionário norte-americano, autor de belas canções de luta, deixou esta mensagem a seus companheiros, pouco antes de ser fuzilado pelas autoridades em 1915: "don't mourn, organize" - não fiquem de luto, vão e organizem-se (os explorados e oprimidos). Acho que o "Nicolau" teria gostado desta mensagem…

Maio 2006

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Luís Eduardo Merlino

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DOS FILHOS DESTE SOLO
Luiz Eduardo da Rocha Merlino (18/10/1948 - 19/07/1971)
"Artéria rompida"

Às 20hs de 20 de julho de 1971, Iracema Merlino recebeu um telefonema de um delegado do DEOPS de Santos comunicando a morte de seu filho Luiz Eduardo. O informante disse que ele teria se jogado embaixo de um carro na BR-116, em Jacupiranga, após escapar da escolta que o estaria conduzindo a Porto Alegre, “para entregar companheiros”. Ela tinha sido tomada de imensa angústia desde o dia 15 de julho, quando vieram buscá-lo em sua casa, à Rua Itapura Miranda, 13, em Santos.

Naquele dia, um homem, em trajes civis, dizendo-se amigo, pediu para chamar seu filho. Já passavam das 21hs. Luiz Eduardo estava com uma gripe forte e fora deitar mais cedo. Ela o despertou e ele lhe disse que não conhecia ninguém com o nome dado, mas, mesmo assim, iria atendê-lo. Estava calmo. Em seguida, o visitante entrou na casa, acompanhado de dois outros agentes, considerando certa a presença de quem procuravam. A cordialidade anterior dos invasores cedeu lugar à brutalidade. Os militares ameaçaram a irmã de Luiz Eduardo, Regina, com metralhadoras em punho, porque ela protestara contra a invasão de sua casa e a iminente prisão do irmão. Perguntaram também por Ângela Maria Mendes de Almeida, companheira de Luiz Eduardo, e entraram no quarto dele para revistar e revirar tudo. Dona Iracema ficou nervosa. Luiz Eduardo, calmamente, tranquilizou sua mãe e a irmã, e os homens baixaram as metralhadoras. “Logo estarei de volta.” Foi levado em um Corcel, com os três e o motorista.

Passados cinco dias, o delegado do DEOPS em Santos comunica-lhe, por telefone, que seu filho estava morto, que teria se suicidado.

Dr. Geraldo Merlino, tio de Luiz Eduardo, por ser médico, ofereceu-se para localizar o corpo no IML. Pediu ao seu amigo, o patologista Antônio Cardoso de Almeida, para acompanhá-lo. Procuraram informar-se com dr. Arnaldo Siqueira, diretor do IML. Ele negou que o corpo de Luiz Eduardo da Rocha Merlino ali estivesse. Afortunadamente, um cunhado de Luiz burlou a vigilância no IML e viu o corpo. Os dois médicos voltaram ao IML e reconheceram o cadáver. Furiosos, dirigiram-se ao diretor Arnaldo Siqueira: “Por que mentiu; por que o corpo estava em uma gaveta sem nome; por que o IML ocultou um corpo?”. Arnaldo Siqueira alegou que aquele corpo aguardava identificação. Mentiu novamente. Na verdade a Requisição de Exame ao IML, datada do dia anterior, 19 de julho, já identificava Luiz Eduardo da Rocha Merlino e dava como “histórico do caso: no dia e hora supramencionados (19-07, 19:30 horas; BR-116, Jacupiranga) ao fugir da escolta que o levava para Porto Alegre/RS, na estrada BR-116, foi atropelado e em consequência veio a falecer.” No mesmo dia 19 de julho foi elaborado o laudo necroscópico, assinado pelos médicos-legistas Isaac Abramovitc e Abeylard Orsini, dando como causa da morte “anemia aguda traumática por ruptura da artéria ilíaca direita” e ainda, “segundo consta, foi vítima de atropelamento”.

O corpo de Luiz Merlino foi retirado do IML-SP e enterrado no Cemitério de Paquetá, em Santos, pela família.

Sessões de tortura

Guido Rocha já estava no x-zero, a “cela forte” ou “solitária” da OBAN/DOI-CODI, há vários dias quando os policiais chegaram com Luiz Merlino. Guido tentara sair do país por Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, onde chegara por trem. Enquanto prosseguia, o governo de esquerda de Juan José Torres foi derrubado; havia um intenso processo repressivo em curso. Guido Rocha foi preso e entregue aos militares brasileiros.

O x-zero era uma cela quase totalmente escura. Chão de cimento, colchão manchado de sangue jogado no piso, uma privada turca, que os presos chamavam de boi. Só entrava luz na cela quando uma portinhola era aberta para passar comida. Antes mesmo de Luiz Eduardo ser trazido para o x-zero, Guido já o conhecia pelos seus gritos e gemidos que ouvira muitas vezes vindos da sala de torturas, localizada bem ao lado. Ele diz que não se lembra quantas vezes Luiz Eduardo foi submetido a sessões de tortura. Mas ficou impressionado com a tranquilidade que ele demonstrava. Estava muito machucado e viera carregado pelos policiais. Com voz fraca, contou-lhe que tinha chegado da França há poucos dias, que trabalhara no Jornal da Tarde e na Folha da Tarde, que fora preso na casa da mãe em Santos - e que esperava sair dali logo. Mas a sua saúde começava a piorar. As duas pernas ficaram dormentes, devido ao tempo que passara pendurado no “pau-de-arara”. Para ir à privada turca, Guido tinha que carregá-lo, embora, por ser franzino, mal o aguentasse. Uma vez, trouxeram um outro preso político para ser acareado com Merlino na própria cela, o que demonstra o quanto ele estava mal. O procedimento comum nesses casos seria a acareação na sala de torturas.

Na manhã do dia 17, o enfermeiro da Equipe A do DOI-CODI arrastou uma escrivaninha até o pequeno muro que divide o pátio, onde existiam sete celas. Pediu então ao carcereiro Marechal para trazer o preso do x-zero. Luiz Merlino foi carregado até à mesa improvisada. O enfermeiro, com bata branca, calças e botas militares, tirou o calção de Merlino, colocou-o de costas para cima e massageou suas pernas. Ele gemeu, chorou e gritou de dor. Suas nádegas estavam esfoladas. Os presos das celas 2 e 3, em um breve período de afastamento do enfermeiro, conversaram com ele, que se identificou. Contou que fora torturado toda a noite e que suas pernas não o obedeciam mais. De volta ao x-zero, Merlino piorava. O enfermeiro fez o teste de reflexo no joelho e planta do pé, sem resposta alguma. Ficou perturbado, mas se irritou quando Guido Rocha cobrou a remoção do companheiro para um hospital, batendo a porta maciça de ferro. Guido deu uma pêra a Merlino, pois ele botava para fora tudo o que comia - e havia sangue nos vômitos. “Chame o enfermeiro rápido, que estou muito mal”, pediu Merlino. A dormência já alcançava os seus braços. Guido Rocha bateu na pesada porta e gritou por socorro. O enfermeiro reapareceu, com outras pessoas, que Guido identificou como torturadores. Eles levaram Merlino para morrer no Hospital Geral do Exército.

No dia seguinte, Guido foi removido do x-zero, que foi varrido e lavado. No dia 20, o PM Gabriel contou aos presos políticos que Merlino morrera no dia anterior, “por problemas de coração”.

Guido de Souza Rocha, posteriormente, foi transferido para a Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, e deu o nome de Luiz Eduardo Merlino à sua cela.

Denúncias em Auditorias

Os presos políticos Eleonora Menicucci de Oliveira, Ricardo Prata Soares e Laurindo Junqueira Filho denunciaram nas duas Auditorias Militares de São Paulo que viram Luiz Eduardo Merlino ser massageado no pátio do DOI-CODI, no dia 17 de julho, entre gracejos de um enfermeiro e de um capitão. O professor Rui Coelho, vice-diretor da Faculdade de Filosofia da USP, declarou também que viu Merlino na prisão e testemunhou que ele se portou com altivez em seu martírio. Zilá Prestes Pra Baldi disse que observou o corpo de Merlino, já morto, cheio de equimoses.

A primeira versão para a morte de Merlino, dada pelo PM Gabriel aos presos do DOI-CODI, problemas de coração, foi logo abandonada. Ficou como versão oficial o que foi dito à sua mãe, Dona Iracema, suicídio, auto-atropelamento: após uma breve parada em Jacupiranga, a escolta policial deixara Merlino sozinho e ele aproveitara para correr e se jogar sob as rodas de um carro na BR-116, às 19:30 horas do dia 19 de julho de 1971. Essa versão constou na Requisição de Exame ao IML, no Laudo Necroscópico, assinado por Isaac Abramovitc e Abeylard Orsini, e na Certidão de Óbito, que teve como declarante o Delegado do DEOPS Alcides Cintra Bueno.

Jornalistas amigos de Luiz Merlino, sem que soubessem de como realmente ele fora morto, deslocaram-se até Jacupiranga e não encontraram nenhum sinal, qualquer vestígio do suposto atropelamento ou outro acidente de trânsito ocorrido naquele ponto, no dia indicado.

O veículo que o teria atropelado nunca foi identificado nem foi feita ocorrência no local do fato. É inverossímil um preso político ser deixado sozinho numa viatura, naquelas circunstâncias. Seu estado precário de saúde, quando foi retirado do x-zero, era desesperador. Não conseguia sequer se manter de pé. Como iria correr e atirar-se sob um carro?

A imprensa foi impedida de noticiar a morte de Luiz Merlino. Somente no dia 26 de agosto de 1971 o Estado de São Paulo publicou um anúncio fúnebre: “ Os amigos e parentes do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino convidam os jornalistas brasileiros e o povo em geral para a missa de trigésimo dia de seu falecimento a realizar-se sábado próximo, 28 de agosto, às 18:30 horas, na Catedral da Sé, em São Paulo”.

No dia 27 de Agosto a Tribuna de Santos publicou: “ Estava morto há dias jornalista desaparecido. O jornalista Luiz Eduardo Merlino, que estava desaparecido desde o dia 16 de julho último, quando retornou da Europa, morreu quatro dias depois, segundo anúncio fúnebre publicado na edição de ontem de O Estado de São Paulo, convidando para a missa de trigésimo dia, que será celebrada amanhã, às 18:30 horas, na Catedral da Sé.

Há uma semana, um despacho enviado de Paris pela Agência Reuters, dava conta de que Luiz Merlino teria sido detido pelas Autoridades responsáveis pela Segurança Nacional no mesmo dia de sua chegada e seu corpo entregue à sua mãe, quatro dias depois. Todavia, somente com o anúncio fúnebre publicado hoje é que veio a se confirmar sua morte”.

Apesar da violência e dos riscos do período, cerca de 770 jornalistas compareceram ao culto na Sé, desafiando o forte aparato policial presente na Catedral: até no coro havia policiais portando metralhadoras.

Vida legal

Iracema, mãe de Merlino, morreu no dia 31 de março de 1995. Com a filha Regina, nunca deixou de lutar pela verdade. Em 1979 moveu ação declaratória contra a versão oficial, com o apoio do Sindicato dos jornalistas. Em entrevistas a O Estado de São Paulo, em 1º/08/70, disse: “Quero que ele seja reconhecido como homem de verdade, que foi morto. Acredito piamente que ele foi assassinado”.

Angela Maria Mendes de Almeida, que permanecera na França após o retorno de Merlino, denunciou o assassinato de seu companheiro tanto no exílio como no Brasil, após sua volta.

Luiz Merlino tinha 23 anos quando foi morto sob torturas. Nascido e criado em Santos, mudou-se aos 17 anos para São Paulo. Dois anos depois, fez parte da primeira equipe do Jornal da Tarde. Trabalhou também na Folha da Tarde e no Jornal do Bairro.

Ingressou na USP, no curso de História. Tinha trancado matrícula quando foi à Europa, por sete meses.

Iniciou sua militância no movimento secundarista, em Santos. Participou do movimento estudantil em 1968 Ingressou no POC nesse ano. Como repórter, esteve no Congresso da UNE, em Ibiuna, São Paulo, e foi, na ocasião, uma das principais fontes de informação sobre a repressão ao evento. Sua militância era clandestina, embora mantivesse vida legal, com seus documentos próprios e atividade profissional. Foi à França e voltou de lá com seu próprio passaporte.

O relator do caso na Comissão Especial foi Nilmário Miranda. Ele diz em seu parecer:

(...) é certo que a versão do suicídio, por auto-atropelamento não tem sustentação, porém, ainda que fosse verdadeira estaria abrangida pela lei, pois ocorreu sob a guarda dos agentes públicos.

Seu voto foi acolhido por unanimidade (7x0), no dia 23 de abril de 1996.

Do livro: Dos filhos deste solo - Mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado

Autores: Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio
São Paulo, Boitempo Editorial/Editora da Fundação Perseu Abramo, 1999, pp. 512-516.


sexta-feira, 9 de maio de 2008

O INDETERMINISMO E O PROBLEMA DAS “DUAS CULTURAS”



, por Isabel Serra




CICTSUL (Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa). Na era actual, de especialização crescente, a investigação científica desenvolve-se quase sempre num quadro disciplinar restrito, reforçando assim a separação entre os saberes. O indeterminismo, sendo um tema que convoca interesses da matemática, da física, da filosofia, e ainda de outras disciplinas, poderia contribuir para quebrar antigas barreiras entre as várias “culturas”. As publicações e os colóquios sobre a questão demonstram que assim é, já que têm reunido intelectuais de vários quadrantes. Por outro lado, o debate em torno do indeterminismo tem também denunciado oposições entre autores de diferentes áreas do conhecimento. Do clima gerado pela discussão interdisciplinar a propósito deste tema, e de outros que lhe estão próximos, tem resultado uma radicalização de posições o que acabou por acentuar diferenças e estimular antagonismos entre intelectuais.

Para compreender o mecanismo do divórcio entre culturas é essencial caracterizar a situação actual, mas também as suas origens históricas. É o que se tentará fazer, através de um percurso que, da antiguidade à actualidade, se deterá nalguns aspectos julgados importantes no problema do indeterminismo. A ideia de ordem e o determinismo dos cientistas, assim como o fascínio exercido pelas novas ideias da ciência, as ideias pós-modernas sobre a mudança de natureza da ciência e também o misticismo dos cientistas, são alguns dos aspectos abordados. Todas estas questões ilustram a complexidade da problemática do indeterminismo quando olhada sob a perspectiva das “duas culturas”.

O DIVÓRCIO DAS CULTURAS
A questão das “duas culturas” foi formulado por C. P. Snow (1905-1980), em Cambridge, durante a Rede Lecture de 19591 e, desde então, essa expressão tem sido usada para sintetizar diferenças e oposições entre áreas de conhecimento. A conferência de Snow gerou uma polémica que durou vários anos e serviu de tema a várias outras conferências e publicações. Os vários episódios dessa polémica são relatados por Collini2, que apresenta também uma breve panorâmica histórica sobre a questão. O debate em torno das duas culturas tinha, de facto, começado muito antes do tempo de Snow - “Enquanto angústia cultural, a preocupação com a separação entre as “duas culturas” data no essencial do século XIX”3.

Podemos aventurar-nos a acrescentar que o “divórcio” entre as “duas culturas” tem uma origem ainda mais remota - ele inicia-se no tempo da revolução científica do Renascimento. Durante esse período desenvolvem-se, nas ciências da natureza, os métodos de conhecimento que as vão distanciar do conhecimento filosófico ou literário: a experimentação e a construção de modelos matemáticos dos fenómenos naturais4.

Em Estudos Galilaicos, Koyré (1892-1964) defende a importância da matematização do real na física renascentista5, ideia sintetizada na frase “a teoria matemática precede a experiência”6, contrapondo esta posição à de outros autores, que privilegiam a experimentação. Mas seja quais forem os critérios adoptados para caracterizar a ciência do século XVII, podemos dizer que, a partir dessa altura, o conhecimento sobre o mundo físico é alimentado, já não pelos textos clássicos e por novas especulações, mas por factos colhidos na própria natureza, e por resultados matemáticos. Aliás, a finalidade de grande parte da matemática passa a ser “a descrição do mundo que nos rodeia da forma mais simples e mais rigorosa possível”7.

O exemplo da Medicina, uma área de conhecimento vocacionada para a intervenção técnica e não para a descrição do mundo físico, ilustra de forma significativa a profunda alteração renascentista. Essa alteração pode ser simbolizada por um facto histórico que hoje nos parece espantoso: durante cerca de quinze séculos os conhecimentos dos médicos sobre o corpo humano provinham não do próprio corpo mas sim da obra de Galeno (130-200)8. André Vesalio (1514-1564) é, na cultura ocidental, o primeiro médico a definir como objectivo da ciência do corpo humano, não a interpretação dos textos de Galeno9, mas sim a dissecção e a manipulação dos órgãos. Este facto traduz bem a transformação do conhecimento sobre o mundo natural que levou à separação dos saberes. O objecto de estudo e a matéria de conhecimento, nas ciências da natureza, passam a ter uma ligação muito menos directa com o saber dos antigos e, em certos casos, obrigam mesmo a uma ruptura total com esse saber.

Apesar do novo posicionamento do cientista face à natureza, após a revolução científica do Renascimento conservam-se laços culturais entre diversos tipos de conhecimento. Os cientistas dedicam-se a investigar os fenómenos naturais, mas também a especular sobre o significado filosófico dos conhecimentos adquiridos, e a apresentar novas visões do mundo. São exemplos dessa atitude múltipla Descartes (1596-1650), Leibniz (1646-1716) ou Laplace (1749-1827). As ideias atravessam as diversas áreas de conhecimento. O “homem máquina” da filosofia de Descartes é o mesmo dos desenhos de Leonardo da Vinci (1452-1519) e dos estudos anatómicos de Vesálio.

A conjugação de capacidades e atitudes múltiplas no mesmo cientista tornou-se cada vez mais rara com a evolução dos conhecimentos, embora restem alguns casos dessa multiplicidade ainda no século XX como, por exemplo, o de Einstein. Na actualidade parece ser impossível conciliar a produção de resultados em ciências exactas e o conhecimento aprofundado, até da própria ciência. A formação actual de um investigador em física, química ou biologia, dirige-se essencialmente ao desenvolvimento de capacidades técnicas, experimentais ou de cálculo, essenciais para produzir resultados. Na grande maioria dos casos essa formação revela-se incompatível com a aquisição de conhecimentos de outras áreas e, às vezes, mesmo da própria disciplina. Muitos dos cientistas que revelam grande capacidade para resolver problemas de investigação, têm pouca “cultura científica”. Embora a especialização seja um fenómeno de todas as áreas, o saber individual, no caso da literatura ou da filosofia, é construído de forma diferente. Nesses domínios, ao produzir resultados, o investigador alarga os seus horizontes culturais, em vez de os restringir.

O problema das limitações culturais resultantes da actividade de investigação afecta muitos cientistas no início da sua carreira, ou durante o seu doutoramento. Alguns sentem até que “deixaram de aprender a ciência que amavam”, pois a inevitável “especialização” faz-lhes perder a “visão de conjunto” que lhes era cara. Este problema tem uma tal importância, que algumas universidades americanas têm um programa de acompanhamento psicológico dos seus estudantes de doutoramento que, entre outras finalidades, ajuda os doutorandos a ultrapassar essa situação.

A investigação em ciências exactas criou uma comunidade de indivíduos, sem dúvida capazes, mas “analfabetos”, de muitos pontos de vista. É curioso que o mesmo tem acontecido em ciências humanas, tal como a história a sociologia, a psicologia, etc. A ânsia da especialização e da obtenção de resultados leva algumas vezes a um desprezo da “teorização” ou, no fim de contas, da reflexão. Nos congressos, é possível assistir a comunicações históricas que se resumem a um conjunto de dados e factos sem qualquer preocupação de enquadramento, que é a forma mais imediata de teorização em ciências históricas. A atitude desses investigadores é apenas o reflexo da tendência para reduzir a ciência a um conjunto de resultados.

A ausência de “visão de conjunto”, imputada aos cientistas, é uma das componentes que separam as “duas culturas”. A “cultura científica” ligada às ciências exactas aparece, frequentemente, como um saber feito exclusivamente de capacidades técnicas.

Há também que ter em conta a “massificação” do trabalho científico. A importância das aplicações da ciência implicou um aumento considerável do número de trabalhadores em áreas de ciências exactas, na sua grande maioria, “técnicos” que, frequentemente, desprezam o saber “livresco”. A abundância de inovações criadas pela tecnociência, e o seu extraordinário sucesso, são também responsáveis por uma atitude de arrogância, por parte dos cientistas, própria de quem “produz resultados úteis”, mas também própria de quem sabe pouco fora da sua área de estudo. O texto de C. P. Snow reflecte bem esse orgulho na “utilidade da ciência”, embora aí se manifeste como meio de defesa face aos “ataques” dos intelectuais literários.10

Para Bacon o conhecimento “não tem outro fim senão estabelecer e aumentar o poder e o domínio do homem sobre o universo”11. Esse domínio sobre a natureza, que se traduz pela capacidade das ciências em provocar efeitos, é precisamente uma das componentes da separação entre as duas culturas. Na época actual, em que as aplicações da ciência invadiram o quotidiano, assiste-se a um confronto de valores: de um lado estão os intelectuais literários, cujo saber não se traduz em nada de aparentemente “útil”. Do outro, estão os cientistas, ignorantes da tradição cultural, mas que são “motores da economia”. Afirmações tão usuais como, do trabalho em ciências humanas resulta um palavreado sem sentido, ou o trabalho em ciências exactas é feito por analfabetos altamente qualificados, são sem dúvida injustamente simplistas, mas traduzem uma situação real: na actualidade, ciências e estudos literários desenvolvem-se, ignorando-se quase completamente. Pode mesmo dizer-se que a distinção entre “duas culturas” é ainda mais forte do que no tempo de Snow.

INDETERMINISMO E OUTRAS PALAVRAS FASCINANTES
A indiferença, ou mesmo desprezo, a que se votam mutuamente as duas culturas, pareceu alterar-se com o aparecimento, nos anos sessenta do século XX, de um novo fenómeno interdisciplinar: o fascínio que as novas ideias da física e da matemática passaram a exercer sobre os intelectuais de outras áreas de conhecimento.

As ideias desenvolvidas por alguns matemáticos, físicos ou biólogos do século XX exercem, inegavelmente, uma enorme atracção nomeadamente em filosófos, literários e sociólogos. Só assim é possível compreender os exemplos dados por Sokal e Bricmont a propósito de textos de Lacan (1901-1981), de Julia Kristeva12 e de outros autores, publicados nas décadas de 60-70 do século XX. Lacan e Kristeva, em particular, utilizam insistentemente objectos matemáticos, e não apenas como simples metáforas ou símbolos. Eles exploram as suas propriedades para construir analogias, embora cometam erros do ponto de vista matemático, pondo em evidência que não conhecem os conceitos que utilizam. De qualquer maneira, mesmo admitindo que os dois autores pretendiam apenas fazer um jogo, ou mostrar erudição, estes exemplos põem em evidência o prestígio que as ideias da matemática parecem ter junto de alguns intelectuais.

Podemos dizer, sem necessidade de o demonstrar com grande rigor científico, que algumas das ideias originadas nas ciências, ganharam “direito de cidadania” no conhecimento universal. Podemos mesmo falar em “transferência” ou “emigração” de conceitos, em relação a certos termos como “relatividade”, “caos” ou “indeterminismo”. Significa este movimento que o fosso entre as duas culturas se atenuou? Não é essa a opinião de Sokal e Bricmont, ao mostrarem que, sob a aparência de terem adoptado ideias (palavras) da física e da matemática, alguns autores deformam completamente o seu sentido. Não se pretende aqui entrar em polémicas sobre a legitimidade da apropriação, por parte de diversos autores de ciências humanas, dos termos usados na matemática, ou na física. Mas é certo que, por exemplo, o “número imaginário” da matemática não é o mesmo que o de Lacan13. O mesmo acontece certamente a outros conceitos, também eles com nomes sugestivos, ao emigrar das ciências exactas, onde têm um significado quase sempre inacessível aos não iniciados.

O fenómeno referido nos textos de Kristeva e Lacan repete-se com Bruno Latour14 e a teoria da relatividade. É pouco provável que Latour tenha estudado profundamente essa teoria, cujas ideias e formalismo são de difícil apreensão, mesmo para dedicados estudantes de pós-graduação em física. Mas algumas das ideias divulgadas sobre a relatividade pareceram-lhe suficientemente atraentes para serem utilizadas nas suas análises.

Sokal e Bricmont referem ainda outros exemplos, o que sugere que muitas das novas ideias da física e da matemática do século XX parecem ter sido “saqueadas” pelos intelectuais das áreas de humanidades para definir uma nova filosofia. Eles citam, por exemplo, Lyotard e a sua afirmação “Ao interessar-se pelos indecidíveis, pelos limites da precisão do controlo, pelos quanta, pelos conflitos com informação não completa, pelos fracta, pelas catástrofes, pelos paradoxos pragmáticos, a ciência pós-moderna faz a teoria da sua própria evolução como descontínua, catastrófica, não rectificável, paradoxal. Ela muda o sentido da palavra saber e diz como essa mudança pode ter lugar. Produz, não o conhecido, mas o desconhecido.”15 Aqui, Lyotard não está apenas a fazer analogias, mas também a usar os novos domínios científicos para afirmar a existência uma nova natureza na ciência. Este autor parece sobredimensionar o significado das novas ideias em ciência16, por exemplo, quando usa o trabalho de René Thom para afirmar que “há apenas ilhas de determinismo”17. Sokal e Bricmont olham de forma bastante crítica a visão de Lyotard, referindo-se explicitamente às suas teses, quando afirmam: “No discurso pós-moderno inclui-se frequentemente a ideia de que os desenvolvimentos científicos mais ou menos recentes não só modificaram a nossa visão do mundo como trouxeram mudanças filosóficas e epistemológicas profundas e que, de certa forma, a ciência mudou de natureza. Os exemplos mais habitualmente citados em apoio desta tese são a mecânica quântica, o teorema de Godel e a teoria do caos”18.

A imagem de uma “ciência pós-moderna”, fabricada com palavras originadas no estudo dos fenómenos naturais, tem sido bastante divulgada, e ganhou adeptos também em Portugal. Um conhecido sociólogo “pós-moderno” português19 secunda Lyotard, ao afirmar: “A importância desta teoria20 está na nova concepção da matéria e da natureza que propõe, uma concepção dificilmente compaginável com a que herdámos da física clássica. Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente.”

Para a maioria daqueles que trabalham em ciências exactas estas afirmações aparecem como disparates. De facto, embora a ciência contemporânea esteja tocada por novas dimensões (como a irreversibilidade do tempo, o indeterminismo, o caos, a evolução das espécies), essas novas dimensões não substituem a procura da visão racional do mundo. Podemos dizer que os cientistas continuam essencialmente “deterministas”21, dado que as novas dimensões da ciência, mesmo as que estão associadas a palavras como caos e indeterminismo não impedem o domínio da natureza de que fala Bacon. Esses termos, surgidos para caracterizar certas realidades estudadas pela ciência, não traduzem, como se poderia pensar, uma “derrota” das suas capacidades de previsão.

Antes pelo contrário. Mesmo trabalhando com os fenómenos “indeterministas” da Mecânica Quântica, ou os “caóticos” da Dinâmica, é possível fazer previsões e construir aplicações. Nesse sentido, tudo é determinista, e toda a gente espera que assim seja, mesmo os “pós-modernos”. Quando utiliza o computador, ou quer aterrar no dia seguinte em Orly, um pós-moderno confia em que os transístores explicados pela mecânica quântica, e os fenómenos hidrodinâmicos, altamente caóticos, se comportem deterministicamente.

O pensamento de tipo determinista encontra razão de existência no modo como a ciência conseguiu explicar um grande número de factos e tirou partido dessa explicação para possibilitar o mundo em que vivemos. Nessa perspectiva, as palavras fascinantes da nova ciência, tais como caos e indeterminismo, transformadas em símbolos por alguns autores, não servem para caracterizar o saber nas ciências exactas.

UM UNIVERSO ORDENADO
O determinismo dos cientistas está associado à ideia de universo ordenado, ideia que tem uma longa história. A concepção de que existe uma ordem na Natureza é originada, tal como muitas outras, no pensamento grego, e sobretudo com Aristóteles, cuja Física assenta na crença da existência de uma ordem cósmica22. A ordem, para Aristóteles é também uma causa, um princípio justificativo da acção: o movimento de queda dos corpos reconduz as coisas ao seu «lugar natural». A ordem da Natureza justifica também a existência de um princípio estruturante, daí ele procurar uma sistematização tanto nos factos físicos como nos biológicos.

A noção de ordem afirmou-se e ganhou novas dimensões e contornos com a revolução científica do século XVII. O estabelecimento de leis universais, em especial a lei da gravitação, foi responsável pela construção de uma nova imagem da Natureza em que a ordem passou a ter uma representação matemática. Na física newtoniana o estudo do movimento faz-se à custa de equações diferenciais, desde que se conheçam as forças que actuam sobre os corpos. É este modelo da dinâmica que, progressivamente, se impôs a toda a física. A matematização tornou-se uma via sem retrocesso nas ciências. Os modelos matemáticos inicialmente usados na mecânica foram, mais tarde, aplicados com sucesso ao electromagnetismo. Um exemplo interessante que ilustra o poder das fórmulas matemáticas é o das equações de Maxwell (1831-1879). Este físico ficou impressionado pelo facto dos vectores eléctrico e magnético obedecerem à equação das ondas, deduzida no quadro da mecânica. Isso levou-o a concluir que as perturbações eléctricas e magnéticas se propagam como ondas. Hertz confirmou experimentalmente a existência dessas ondas. Este é apenas um exemplo, entre muitos outros, responsável pelas concepções “deterministas” que se tornaram a “filosofia natural” de numerosos investigadores em ciências exactas.

Poderíamos opor aos fenómenos físicos, descritos pela matemática, e ordenados no espaço e no tempo, os fenómenos estudados pelas ciências da vida, cuja descrição é sobretudo qualificativa. Mas, como mostra Michel Focault (1926-1984), um racionalista tão feroz como Leibniz já tinha por objectivo, em pleno século XVII, “estabelecer uma matemática das ordens qualificativas”.23

Para além de fomentarem uma atitude de crença natural nos instrumentos da ciência, e na sua capacidade de descrição da realidade, a convergência entre fórmulas matemáticas e fenómenos naturais também alimentou a ideia de que a natureza obedece a uma ordem rigorosa. Foi a possibilidade de enunciar leis, traduzidas por fórmulas e comprovadas pela experiência, que conduziu à defesa, porventura ingénua, de um determinismo estrito ou rígido (Laplaciano), que dominou o pensamento científico durante mais de um século. No entanto, o determinismo do cientista actual não se confunde com o determinismo Laplaciano. De facto, qualquer investigador deixou de considerar, desde há muito tempo, que os modelos matemáticos que utiliza são uma expressão directa da realidade24. Mas o sucesso desses modelos na previsão de fenómenos leva-o a considerar, implicitamente, que a natureza é “ordenada”, mesmo que nunca tenha pensado sobre a ordem do universo, nem saiba nada sobre a filosofia de Aristóteles, de Leibniz ou de Laplace. Quando investiga, ele confia na existência de uma “ordem”, ou seja, ele procura regularidades, periodicidades, estruturas, princípios de conservação e leis que se exprimam matematicamente. Se tal não fosse possível, não haveria trabalho para um cientista.

A “ideologia dominante”, dos que trabalham em ciências exactas é sem dúvida o determinismo, mas esse facto não nos permite separar os intelectuais em dois grupos, de um lado, os das ciências humanas, indeterministas, e de outro, os das ciências exactas, deterministas. De facto, não só há exemplos célebres de outras maneiras de pensar, como podemos mesmo dizer que a palavra “indeterminismo”, antes de ser adoptada pelos pós-modernos foi transferida da mecânica quântica para outros fenómenos por alguns dos físicos que trabalharam nesse domínio.

CIÊNCIA E MISTICISMO
As palavras “indeterminismo”, “caos”, e “indecidibilidade”, já existiam no dicionário, antes dos cientistas as usarem e foram escolhidas certamente por causa do seu significado. Mas, em relação a todas elas poderiam fazer-se afirmações análogas às que Amy Dalmedico enuncia, a propósito do caos: “La question du chaos a un sens technique précis mais elle a engendré de formidables spéculations sur les idées d’ordre et désordre. Pour certains, en révélant des régularités latentes au-delà des irregularités manifestes, la théorie du chaos consacrerait une conquête victorieuse du déterminisme universel; pour d’autres, en instituant la distinction entre déterminisme et prédictibilité, elle permettrait de sauvegarder la liberté humaine et l’exercise du libre arbitre”25.
As especulações em torno das palavras fascinantes da nova ciência têm, de facto, ultrapassado o sentido que elas aí assumem. Sokal e Bricmont, em Imposturas Intelectuais, parecem responsabilizar os filósofos e literatos, por eles citados, das deturpações e abusos em torno de questões como o caos, o indeterminismo, a relatividade e mais algumas outras. Mas estará nesses autores a origem do problema? Embora nalguns casos isso aconteça, há pelo menos uma questão, precisamente o indeterminismo quântico, em que as especulações partiram dos próprios especialistas.

Franco Selleri em Paradoxos e Realidades26, ao analisar as “tendências espiritualistas e misticizantes da física quântica”, afirma que “a porta para o irracionalismo foi conscientemente aberta pelos grandes físicos das escolas de Copenhaga e de Göttingen: Bohr (1885-1962), Heisenberg (1901-1976), Pauli (1900-1958), Wigner (1902-1995), Jordan (1902-1980)”27. Selleri refere vários casos de exportação de conteúdos da física de Copenhaga para outras áreas de conhecimento, uma tendência alimentada pelo próprio Bohr, em particular nos fenómenos da vida. Trabalhando sob a inspiração desses ideias, Delbruck (1906-1981) pensa poder encontrar nos fenómenos biológicos um paradoxo análogo ao que a física clássica encontrava quando era aplicada aos fenómenos atómicos28. A teoria dos quanta é invocada também para “demonstrar” a irredutibilidade dos fenómenos biológicos e psíquicos a processos materiais.

A tendência espiritualista da física moderna tem ainda muitos outros adeptos, tal como Crookes (1832-1919) e Wigner para quem o estudo dos fenómenos quânticos permite concluir que o conteúdo dos nossos conhecimentos é uma realidade irredutível aos fenómenos materiais. Outros físicos, entre os quais Niels Bohr, Wolfgang Pauli e, mais recentemente Paul Davies contribuíram directamente para o misticismo e para o irracionalismo apoiados na mecânica quântica. A importância dessas tendências pode avaliar-se pela actividade que foi desenvolvida pelos seus seguidores, em particular a organização de grandes encontros internacionais em que participam físicos, psicólogos, gurus, chefes religiosos, etc. Num deles Costa de Beauregard discutiu as consequências telepáticas e telecinéticas da sua formulação da teoria quântica. No mesmo encontro Capra sublinhou que a representação do mundo da física quântica é a mesma dos místicos orientais29.

Para Selleri “Um dos aspectos mais impressionantes da ciência contemporânea é a difusão de ideias e concepções anticientíficas no interior da comunidade dos cientistas e, em particular, entre os físicos teóricos.”30 No entanto, este aspecto “anti-científico” não é exclusivo da ciência do século XX. Já nos alvores da ciência grega tínhamos assistido a um episódio semelhante - a adopção de ideias místicas por uma escola de matemáticos, os Pitagóricos. Pode, de facto, estabelecer-se um paralelismo entre a mística associada à mecânica quântica e a mística pitagórica.

Pitágoras (580-500) e os seus discípulos são os iniciadores de uma área matemática, a Aritmética, hoje designada por Teoria de Números31. Eles produziram resultados matemáticos importantes, perfeitamente integrados no conjunto da ciência grega mas, para além disso, também especularam sobre a natureza e significado dos números, atribuindo-lhes propriedades místicas. Esse pensamento fez escola e perdurou: o desenvolvimento de especulações matemáticas, harmónicas, e de natureza moral e religiosa que se associam ao pitagorismo prolongaram-se por oito séculos (V AC a III DC). O pitagorismo é, pela sua dimensão, o exemplo mais importante de mística científica. Mas existem outros, como o de Kepler (1571-1630), que baseava as suas concepções cosmológicas na harmonia universal, relacionando-a com os sólidos platónicos.

O misticismo pitagórico, e também o de Kepler, assentam em propriedades de objectos científicos tal como acontece com a Mecânica Quântica. Para os pitagóricos, o estudo dos números era mesmo inseparável das especulações geométricas, harmónicas, físicas e cosmológicas. Podemos até dizer que a mística criada em torno dos números foi, para os pitagóricos, um incentivo para o estudo das suas propriedades embora, actualmente, o interesse pelo aspecto matemático dos números nos pareça incompatível com essas fantasias. Segundo Mattei “esse duplo sistema, místico e racional, perturba o nosso hábito moderno de pensar”32. Nem a mística pitagórica é agora necessária para avançar em teoria dos números, nem a crença na harmonia do Universo, tão importante para Kepler, é de qualquer utilidade na astrofísica moderna.

Todas essas ideias que, no passado, alimentaram o trabalho científico, aparecem-nos actualmente como fantasias curiosas. É bem possível que seja esse o futuro de certas interpretações associadas à Mecânica Quântica. Algumas das especulações serão confirmadas outras serão esquecidas e toda a “mística quântica” desaparecerá, para a ciência, tal como desapareceu a de Kepler e a de Pitágoras. Para os cientistas do futuro, toda esta “filosofia quântica” que alimenta disputas e “imposturas intelectuais” aparecerá, provavelmente, como um “paradoxo cultural”, já que, a par de espantosas descobertas, gerou as concepções mais obscuras da história das ideias.

Os casos referidos, de pensamento místico nos cientistas, mostram que não é possível imputar unicamente aos intelectuais de ciências humanas a responsabilidade das concepções pós-modernas acerca da ciência, como parecem fazer Sokal e Bricmont. Os exemplos citados por estes autores permitem talvez afirmar que o pensamento pós moderno, com base em conceitos da física ou da matemática, foi construído à revelia do seu significado nessas ciências. No entanto, as problemáticas do indeterminismo, e de todos os outros temas privilegiados pelos pós-modernos, são multifacetadas, não se podem articular exclusivamente em termos das “duas culturas”.

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1 O termo “duas culturas” é usado pela primeira vez por Snow no artigo “The Two Cultures”, da revista New Statement, 6 de Outubro de 1956, p. 413.
2 Collini, S. , Introdução a As Duas Culturas, Editorial Presença, Lisboa, 1995 (“The Two Cultures”, Cambridge Univ. Press, 1993)
3 Collini, S. Ibid, p. 11
4 No entanto, é possível encontrar, já nos matemáticos das escolas de Oxford e de Paris, do século XIV, em particular em Oresme, a ideia de que a matemática é um instrumento privilegiado de conhecimento dos fenómenos naturais (“Une Histoire des Mathématiques”, Ed. Seuil, 1985, p. 209).
5 Koyré, A., Estudos Galilaicos, Publicações D. Quixote, 1986, pp. 13-20.
6 Koyré, A., Ibid, p. 353
7 Jourdain, P.E.B., The Nature of Mathematics, in The World of Mathematics, Tempus Books, Washington, 1988, p.41.
8 Boorstin, D. “Les Découvreurs », Ed. Seghers, Paris, 1986, p. 331
9 Ibid, p. 338
10 Snow, C.P., As Duas Culturas, Editorial Presença, Lisboa, 1995, pp. 72-82.
11 Bacon, aforismo 129, Novum Organon, I , (1620)
12 Sokal, A. e Bricmont, J., Imposturas Intelectuais, Gradiva, Publicações, L.da, Lisboa, 1999, pp. 31-56
13 Ibid, pp. 37,38.
14 Ibid., pp. 123-131
15 Lyotard, J.-F., A condição Pós-Moderna, Gradiva, p.115, trad. La Condition Pós-Moderne, Paris, Ed. Minuit,1979, (citado por Sokal, A. e Bricmont, J., refª 12, p. 136)
16 Lyotard, J.-F., cf. refª. 15, cap. 13, pp. 105.
17 Lyotard, J.-F., cf. refª. 15, p. 114.
18 Sokal, A. e Bricmont , ob. cit.,ob. Cit., refª 12., p. 133
19 Santos, B. S.,Um discurso sobre as Ciências, Ed. Afrontamento, Porto, 1987, p. 28
20 O autor citado refere-se à Teoria das estruturas dissipativas de Prigogine.
21 Ver a este propósito o texto de Dalmedico, A. D., Le déterminisme de Pierre-Simon Laplace et le déterminisme aujourd’hui,in Chaos et Determinisme, Ed. Du Seuil, 1992, pp. 371- 406
22 “Tudo está ordenado com vista a uma existência única” (...) “o princípio do papel que cada coisa tem no Universo reside na sua própria natureza; quero eu dizer, todos os seres se vão separando necessariamente uns dos outros; e, dentro das suas diversas funções todos eles concorrem para a harmonia do conjunto, Metafísica, Aristóteles, in extractos de «Aristóteles», André Cresson, Ed. 70, p.75 (P.U.F., Paris, 1943)
23 Focault, M., As Palavras e as Coisas, Ed. 70, p.111 (Galimard, Paris, 1966)
24 Israel, G., L’histoire du príncipe du determinisme et ses rencontre avec les mathématiques, in Chaos et Determinisme, Ed. Dalmedico, Chabert et Chemla, Ed. Du Seuil, 1992, p. 257.
25 Dalmedico, A. D., cf. refª 19, p. 404.
26 Selleri, F., Paradoxos e Realidade, Ed. Fragmentos, Lisboa 1990.
27 Ibid, p. 200.
28 Ibid, p. 142
29 Ibid, p. 205
30 Ibid, p. 200
31 A obra aritmética dos pitagóricos é conhecida através do livro 7 dos Elementos de Euclides
32 Mattei, J-F., Pythagore et les Pythagoriciens, Presses Universitaires de France, Paris, 1993, p. 57.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Revolução e contra-revolução




por Ademar Bogo [*]

Escola Florestan Fernandes, do MST.Há quem queira dividir o mundo entre “bons” e “maus”, mas não é correto fazer isto Podemos sim, entender e dividir o mundo de outras maneiras; entre pobres e ricos; entre os que comem e os que não comem; entre revolucionários e contra-revolucionários etc.

Somos por natureza nômades e migrantes, porque estamos sempre em busca de soluções. Acontece que, na atualidade, o capitalismo já não apresenta soluções e por isso os povos migram sem destino.

Temos um poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto, que há cinqüenta anos atrás já previa poeticamente a barbárie. A região em que ele viveu é o nordeste do país onde temos dez milhões de camponeses pobres; e por ser uma região seca, ele nos disse que ali a vida e também a morte são severas ou “Severina”. Elas existem, e se desenvolvem dentro dos seres humanos, e por isso as pessoas costumeiramente são batizadas com este nome: Severino ou Severina.

Nessa mesma região chegamos a ter uma população em que a média de altura chegou a ser 1,57m (um metro e cinquênta e sete centímetros) e por isso as pessoas são conhecidas pela denominação sociológica de “Gabirús”. Destes locais, fugindo da seca as pessoas vão deixando para trás o destino feito com todos os tipos de carências e por isso migram em busca de melhores dias, mas estes, não estão em lugar nenhum. Por isso, bem descreveu o poeta, “somos todos Severinos”, em seu poema Morte e Vida Severina [**] . E disse assim:



O meu nome é Severino
Não tive outro de Pia
Como há tantos Severinos
Que é santo de romaria
Deram então de me chamar
Severino de Maria.
Como há muitos Severinos
Com mães chamadas marias

Fiquei sendo o da Maria
Do finado Zacarias.
Mas isto ainda diz pouco
Há muitos na freguesia
Por causa de um coronel
Que se chamou Zacarias
E que foi o mais antigo
Senhor destas sesmarias.
Como então dizer quem fala
Ora a vossas senhorias?
Vejamos: É o Severino
Da Maria do Zacarias
Lá da Serra da Costela
Limite da Paraíba.
Mas isto ainda diz pouco
Se ao menos mais cinco havia
Com nome de Severino
Com mães chamadas marias
Mulheres de outros tantos
Já finados zacarias
Vivendo na mesma serra
Magra e ossuda em que eu vivia.


Somos todos severinos
Iguais em tudo na vida
Na mesma cabeça grande
Que a custa é que se equilibra
No mesmo ventre crescido
Sobre as mesmas pernas finas
E iguais também porque o sangue
Que usamos tem pouca tinta.


E se somos severinos
Iguais em tudo e na vida
Morremos de morte igual
Mesma morte severina
Que é a morte de que se morre
De velhice antes dos trinta
De emboscada antes dos vinte
De fome um pouco por dia.
De fraqueza e de doença
É que a morte severina
Ataca em qualquer idade
E até gente não nascida.


Somos todos severinos
Iguais em tudo e na sina
Há de abrandar estas pedras
Suando-se muito em cima
Há de tentar despertar
Terra sempre mais extinta
E há de tentar arrancar
Algum roçado das cinzas.
Mas para que nos conheçam
Melhor essas senhorias
E melhor possam saber
A história de nossa vida:
Somos todos severinos
Que pelo planeta emigra”.


O nosso tema hoje, dentro desta ampla discussão sobre “Civilização ou Barbárie” é Revolução e Contra-revolução, juntamente com a ALCA, a Via Institucional na Luta Pelo Poder e a Atualidade do Marxismo.

Podemos iniciar dizendo que, se entendemos a revolução como um processo longo, sem tempo e lugar para chegar, concluiremos que estamos a caminho e todas as iniciativas e esforços são úteis dentro deste tempo indefinido. Se entendemos que a revolução pode ser um processo longo, mas que há um momento em que as forças revolucionárias necessitam definir com quem fica o poder, então estamos em desvantagem em relação a contra-revolução.

Nossa intenção aqui é falar de coisas muito práticas que estão ligadas às circunstâncias históricas e a própria trajetória que a revolução e a contra-revolução tiveram na América Latina.

Quando iniciamos o nosso Movimento tínhamos no Brasil uma ditadura militar, e portanto, um general na presidência da República. Completamos 20 anos e temos hoje um operário governando o País. Embora o operário fosse, na época, perseguido pelo general por suas idéias e práticas revolucionárias, ao chegar ao governo não fez avançar a revolução, pois se propôs a dar continuidade ao modelo econômico estabelecido pela ordem política, econômica e militar das potências capitalistas mundiais.

Mas isto não ocorreu apenas no Brasil! Quando iniciamos o nosso Movimento em 1984, vivíamos o auge do triunfo da revolução nicaraguênse. As lutas guerrilheiras da Guatemala, Peru, Colômbia e principalmente, o processo revolucionário de El Salvador, nos dizia que a revolução estava batendo à nossa porta e que a conquista do poder e a construção do socialismo era uma questão de tempo apenas. As condições estavam dadas.

A ideologia e a filosofia marxista faziam parte desta cultura de lutas e não se encerravam atos e encontros sem antes gritarmos com o punho esquerdo levantado: Viva a revolução e o socialismo!

Presenciamos um processo de desconstrução combinado. Tivemos no Brasil em 1989 uma derrota eleitoral ao mesmo tempo em que na Alemanha se derrubava o muro que separava o socialismo do capitalismo. Logo em seguida ruiu o bloco socialista do Leste Europeu e junto começou a desmoronar na consciência de intelectuais e lideres políticos o patrimônio do conhecimento marxista, colocando-se sobre ele o que se está chamando de “pensamento Pós-modermo”, que não explica nada, ao contrário, confunde e desqualifica o mundo das idéias e das práticas.

Desta forma percebemos que a contra-revolução avançou e se desenvolveu por dois caminhos: Liberalismo e reformismo.

Primeiro - O liberalismo ou neo-liberalismo, se tornou o referencial das forças de direita; estas rearticularam o modelo, recolocaram as suas forças e atacaram com meios mais suaves do que a violência física praticadas pelas ditaduras em quase todos os nossos países latinos americanos.


Primeiramente foram vítimas do modelo as categorias operárias e dos serviços públicos. Os meios usados, eficientemente, foram as privatizações e o emprego de tecnologias avançadas. Ao mesmo tempo em que rebaixavam os salários desempregavam em massas os operários das fábricas.

A classe operária foi diminuída em seu tamanho. O capital externo se apropriou do patrimônio público nacional e os governos, colocaram-se a serviço do império tornando os Estados mais violentos e menos prestativos.

Esta articulação entre: empresas, capital financeiro, Estados nacionais e o império, fizeram este trabalho de aniquilamento das forças revolucionárias e agora, após terem feito este desmonte estrutural da economia nacional urbana, voltam-se para a agricultura e para os locais que concentram matérias-primas fundamentais para uma nova impulsão do capitalismo, como é o caso das florestas, dos minérios, da água doce e das sementes.

Neste sentido é que o modelo se torna imperial do tipo exploração neo-colonial, onde os países além de serem saqueados de suas riquezas, são desautorizados de sua soberania e anexados ao poder central do império de um único país.

De que maneira isto se concretiza?

Através pelo menos de três aspectos:

a) Econômico – voltamos ao patamar de colônia. O meio de acumulação é o saque e a apropriação indevida das riquezas naturais, com o uso da violência física e moral. Os indígenas agora somos todos a grande maioria dos 800 milhões de seres humanos que vivemos nesta Área de Livre Comércio formada por 34 países.

b) Político, jurídico e militar- As decisões, políticas as condenações e os ataques militares virão de fora das colônias. O império tem sua casa protegida, por isso ataca os bárbaros e não civilizados fora de seu território.

c) Cultural - O império necessita destruir os valores e hábitos culturais para erradicar as resistências e controlar as desobediências. As diferenças incomodam demais e o ciúme “civilizatório” não permite que as coisas mais belas e interessantes não estejam sob o seu poder. Por isso, não tendo capacidade de absorvê-las e utilizá-las, as destrói como o menino rico que rasga a bola do menino pobre feita de meia, porque não sabe jogar de pés descalços.

Segundo – O reformismo e o oportunismo tornaram-se prática das forças de esquerda. Estas, no momento em que deveriam organizar e precipitar a revolução entraram em descompasso com o tempo diminuindo o potencial organizativo, rebaixando o nível ideológico, descaraterizando a própria identidade e destruindo a auto-estima militante.

Neste sentido é que podemos perceber pelo menos três grandes limitações que levaram a colaborar com a contra-revolução.

1º– O CUIDADO DA REVOLUÇÃO.

As forças contra-revolucionárias cuidam da contra-revolução, mas as forças “revolucionárias” se descuidaram desta tarefa e passaram a cuidar de alternativas que interceptaram o caminho da revolução.

Se aos movimentos sociais e aos sindicatos cabia cuidar da luta por conquistas imediatas, aos partidos políticos cabia a responsabilidade da formulação estratégica que indicasse o caminho para a tomada do poder. Como isto não ocorreu, e os partidos na sua totalidade (ao se dedicarem aos processos eleitorais), retrocederam à natureza ao nível dos movimentos de massas, tornado-se em vários casos em partidos cartoriais, de massas para uso eleitoral apenas.

2º– A RELAÇÃO ENTRE A LUTA ECONÔMICA E A LUTA POLÍTICA

Na medida em que o modelo econômico do império foi ganhando qualidade, as lutas corporativas foram perdendo a importância no sentido em que suas táticas não atacavam o inimigo principal. Neste sentido, a falta de visão estratégica das forças políticas levaram também ao esgotamento das lutas econômicas. Justamente no momento em que as lutas necessitavam atingir patamares nacionais e internacionais, os movimentos sociais e os sindicatos entraram em descenso.

Na ausência de mobilizações somadas à falta de perspectivas políticas, a contra revolução nos imprimiu duas derrotas fenomenais: a cooptação das forças de esquerda e a colocação dessas forças a seu serviço.

O processo eleitoral a nível continental, induziu as forças revolucionárias desmobilizarem as suas táticas e adotarem as táticas da contra-revolução para disputarem um lugar um lugar no parlamento, “doce lar da burguesia”. Quando mais precisávamos de comandantes, nossos líderes partidários transformaram-se em candidatos. Necessitamos de comandantes para conduzir a revolução e não de presidentes.

Mas a contra-revolução foi além do desmonte político ideológico das forças de esquerda, as elevou ao nível de governo e as colocou a seu serviço na implementação das reformas, o elo que faltava para fechar o circulo do modelo neoliberal. Porque estas, por tratarem da negação dos direitos adquiridos, somente com a conivência das organizações dos trabalhadores, lideradas por líderes populares seria possível. E as forças da social-democracia e de esquerda conseguiram realizar esta façanha não só nas Américas mas também em outros continentes do mundo.

Neste sentido é que intelectuais e lideres populares (como é o nosso caso), começamos a acordar e a nos dar conta de que, entre lutas sociais, sindicais e disputas parlamentares não há diferença, estão todas no mesmo patamar. Ou seja, enquanto as lutas sociais e sindicais nos levam até as conquistas econômicas, as disputas parlamentares nos levam até as reformas. Estas últimas satisfazem sempre mais à direita quanto menor for a pressão popular, mas, jamais por si só levarão a classe trabalhadora ao poder.

3º– O DILEMA ENTRE A ESPONTANEIDADE E A CONSCIÊNCIA

A espontaneidade é característica constitutiva dos movimentos sociais e da luta sindical. É onde se exercita a prática da formação da consciência. Ocorre que, há momentos em que a espontaneidade ganha formas de insurreição e então é o momento propício que as forças revolucionárias tem para tomar o poder.

Vivemos muito nitidamente esta situação recentemente no Equador e na Argentina, mas por falta de organização partidária e despreparo político das massas, o esforço foi desperdiçado.

Casos semelhantes são os da Venezuela e do Brasil. Na Venezuela na Venezuela não se pode atribuir o mérito do processo revolucionário lá desencadeado ás disputas eleitorais, isto porque, vários anos antes de Chaves candidatar-se à presidente da república, houve uma tentativa de tomada do poder através de um levante militar. As massas não estavam preparadas para a insurreição. Reconhecendo a impossibilidade de tomar o poder, Chaves e seu grupo depuseram as armas e se prepararam para um momento seguinte. Neste caso a disputa eleitoral serviu de meio para convocar as massas a reiniciarem a revolução.

No Brasil a eleição de Lula serviu para canalizar o descontentamento das massas contra o modelo e com isso comparecemos ás urnas e elegemos o Presidente com 65% dos votos. Sua popularidade e aceitação logo após a posse, chegaram ao patamar dos 80%. Mas o descontentamento não tinha caraterísticas insurrecionais, nem o governo tentou despertá-la e, por não haver contestação da contra-revolução aos métodos utilizados para governar, nem pressão popular, o modelo derrotado nas urnas ressurgiu no programa de governo com maior vigor. As massas vivem um período de “anestesia crítica”, ou seja, sabem que ganharam as eleições, mas não porque não estão tendo melhoras, e as elites sabem que não perderam e porque estão ganhando. O presidente tem o coração voltado para as massas que o elegeram, mas a cabeça voltada para a ordem capitalista. Não há portanto revolução sem comando e idéias revolucionárias.

Estamos vivendo em alguns lugares, a mesma situação vivida na Alemanha em 1918, onde as massas levaram a revolução até as portas do poder, mas os partidos se negaram a concluí-la.

Os recuos e deformações que impedem a revolução de avançar podemos constatar da seguinte forma:

  • A utopia socialista foi substituída pela topia parlamentar.

  • A elaboração teórica marxista cedeu lugar ao pensamento pós-moderno seguindo a influência pensamento único.

  • As lutas de massas deixaram de ser prioridade e a atração passou ser a disputa eleitoral

  • O militante político foi substituído pelo cabo eleitoral conquistador de votos e não construtor de consciências.

  • A aliança das forças políticas e sociais de caráter classista se conformou na composição de forças de interesses capitalistas e oportunistas.

  • Os princípios filosóficos e revolucionários, da direção coletiva, disciplina consciente, vinculação com as massas, trabalho de base etc. foram renegados.

  • As lutas e enfrentamentos entre as classes foram substituídas por entendimentos, câmaras setoriais e composição de conselhos articulados pelo governo.

  • O quadro político se transformou no de administrador público que entende de contas e contenção de gastos mas nada de revolução.

De modo que, estas duas vias da contra revolução produziram as circunstâncias históricas de desencanto que estamos vivendo em muitos lugares no mundo.

Mas não cabe aos revolucionários a acomodação. As dificuldades foram feitas para serem ultrapassadas. Por isso precisamos dedicar muito mais esforço para enfrentar a contra revolução e devemos começar pela recolocação da utopia socialista. O horizonte é o socialismo o meio para chegar até lá é a revolução.

A partir disso precisamos articular as idéias em torno de um projeto político que faça frente ao imperialismo em todos os seus aspectos. Este projeto deve orientar as lutas de massas, formar a consciência de classes, multiplicar quadros e elevar o grau de solidariedade entre os povos e explorados do mundo.

Por fim, devemos elevar o nível das disputas e articular nossas forças a nível internacional. Até então o imperialismo tem sido internacional, mas não cabe a ele este direito. A solidariedade e a ética revolucionária terão que vencê-lo.

Esta articulação dos povos explorados elevará nossa consciência e nossa capacidade de lutar contra a barbárie e nos colocará no caminho da transformação total e completa do capitalismo.

Para isto precisamos abandonar o objetivo de sermos apenas de “esquerda”, precisamos elevar-nos ao grau de revolucionários.

[*] Do MST brasileiro. Comunicação apresentada no Encontro Internacional "Civilização ou Barbárie", Serpa, Setembro de 2004.

[**] O poema é de João Cabral de Melo Neto.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



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