quarta-feira, 21 de maio de 2008

Os Sete Povos Missioneiros: Das fazendas coletivas ao latifúndio pastoril rio-grandense













, por Mário Maestri

Doutor em História pela UCL (Bélgica) e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF.


I. A colonização tupi-guarani das Américas

Nos anos 1600, três grandes comunidades nativas dividiam o atual território do Brasil Meridional. Na Serra e no Planalto viviam povos de língua jê, especializados na caça, pesca e coleta florestal. Os campos abertos eram dominados pelos pampianos, hábeis cavaleiros após a introdução do gado vacum e cavalar nessas regiões pelos europeus.

Os guaranis pertenciam à importante civilização tupi-guarani que colonizara boa parte da América do Sul, após dominarem a horticultura de floresta tropical e subtropical, na Amazônia Central, há mais de dois mil anos. Eles foram os últimos chegados ao atual Rio Grande do Sul.

As aldeias tupi-guaranis, com uns 150 habitantes, tinham de três a cinco residências coletivas. O chefe da aldeia e das moradias comunitárias possuía prestígio comunitário, mas nenhum poder de fato sobre a comunidade aldeã. A família celular independente era a unidade de produção e consumo de base dessa microsociedade.

Cada três a cinco anos, as aldeias tupi-guaranis transferiam de local, devido ao esgotamento da caça e da coleta e à degradação das condições higiênicas dos terrenos habitados e de suas proximidades. Comumente, as aldeias superpovoadas dividiam-se durante as transferências periódicas, dando origem a uma nova comunidade independente.

Minha aldeia, meu mundo

O mundo tupi-guarani esgotava-se nos quadros da comunidade aldeã, formada em geral por famílias aparentadas residindo nas moradias coletivas. As aldeias eram independentes, já que supriam as necessidades de subsistência dos moradores sem a necessidade de realizarem trocas econômicas.

Os aldeões dispunham comunitariamente dos territórios controlados pela aldeia, desconhecendo qualquer forma de apropriação privada da terra. Reinava grande solidariedade entre os produtores, sobretudo da mesma moradia. Alguns bens eram do domínio dos moradores da residência – amambaé. Armas, utensílios, ferramentas, etc. pertenciam aos aldeões, individualmente – abambaé.

A produção tupi-guarani assentava-se na divisão sexual do trabalho. O homem caçava, pescava, guerreava, participava da construção da moradia coletiva, abria as clareiras para as plantações, em geral associado aos companheiros de moradia, etc. A divisão sexual do trabalho tupi-guarani sobrecarregava as mulheres, responsáveis pela coleta, pelo transporte, pelo cuidado dos filhos, pelo preparo dos alimentos, etc. As mulheres eram responsáveis pelas plantações.

O produto-base da horticultura tupi-guarani era a mandioca brava, de alto poder calórico e escassa riqueza protéica. Os tupi-guaranis não criavam animais para o abate. Nos meses de escassez de caça e de coleta, careciam penosamente de proteínas, o que parece ter contribuído à prática do abate e consumo cerimonial dos inimigos.

Os tupi-guaranis partiram do Médio Amazonas para colonizar boa parte da América do Sul. O braço guarani avançou ocupando as florestas em galeria dos afluentes da margem direita do Amazonas – Bolívia, Paraguai, Uruguai, sul do Brasil, etc. O braço tupinambá despontou na foz do Amazonas e ocupou grande parte da então exuberante Mata Atlântica do litoral.

II. Missões – Um novo mundo guarani

Em 1494, em Tordesilhas, as coroas portuguesa e espanhola dividiram os mundos descobertos e a descobrir. Na América do Sul, a coroa portuguesa enriqueceu-se distribuindo graciosamente sesmarias – treze mil hectares – aos homens bons com cabedais suficientes para povoá-las com o braço americano ou africano escravizado.

Os colonos espanhóis enricaram-se empregando o trabalho americano nas fabulosas minas de prata dos Andes. Privilegiados na partilha de Tordesilhas, faltava-lhes, entretanto, capitais para ocupar e explorar diretamente as imensas regiões do continente que lhe couberam na exótica apropriação americana.

A administração espanhola temia que os portugueses avançassem sobre os territórios não-ocupados, aproximando-se das cobiçadas minas andinas, fontes de ingentes riquezas. As missões constituíram inteligente projeto de ocupação, defesa e incorporação de imensas regiões das Américas ao mundo colonial espanhol, praticamente sem investimentos.

A coroa espanhola propunha que as comunidades nativas dispersas se reunissem em pueblos estáveis, sob a administração de jesuítas, franciscanos, dominicanos, etc. Os pueblos dependeriam diretamente do rei de Espanha, escapando, portanto, das pesadíssimas exigências em tributos e em trabalho dos insaciáveis proprietários coloniais.

Impasses e solução

À exclusão dos povos andinos, não houve comunidade nativa que mantivesse os tupi-guaranis longe dos territórios florestais do litoral e das margens dos rios e lagoas que conquistavam para assentar suas roças horticultoras. A aldeia e as moradias comunitárias tupi-guaranis formavam coesas e poderosas equipes de produtores de alimentos e de guerreiros.

Por razões compreensíveis, os guaranis acolheram a opção missioneira. Após uma expansão territorial pluricentenar vitoriosa, havia um século que as comunidades tupi-guaranis perdiam inexoravelmente as terras e a liberdade para a frente de expansão colonial ibérica.

O embate americano entre os nativos guaranis e os colonizadores ibéricos dava-se entre, por um lado, a comunidade doméstica nativa, ignorante das diferenças de classe e da organização do Estado, estruturada em aldeias autárquicas; e, por outro, Portugal e Espanha, Estados classistas, vanguardas do mercantilismo, inseridos na divisão mundial do trabalho. Comumente, a aldeia tupi-guarani isolada apoiava o europeu no combate à comunidade vizinha sua inimiga.

Modo de produção missioneiro

A proposta das missões retirara as comunidades tupi-guaranis da perplexidade e do desalento em que haviam sido lançadas pelas derrotas incessantes diante dos vorazes colonizadores ibéricos, ao garantir-lhes segurança relativa diante dos encomenderos espanhóis e dos escravizadores paulistas.

Sobretudo, as reduções asseguraram melhorias substanciais na alimentação, na moradia, no vestuário, na segurança, etc. às comunidades americanas, ao ensejarem a transição das formas de produção doméstica pré-classistas guaranis à sociedade missioneira, estatal, comunitária, complexa, tendencialmente não-classista.

Hábeis horticultores, os guaranis aclimataram com facilidade as técnicas, as ferramentas e as plantas da agricultura européia. Incorporaram ao quotidiano produtivo as ferramentas de ferro, o arado simples, a tração animal, a adubação, a fruticultura. Com a crescente importância da agricultura, essas práticas, essencialmente das mulheres na sociedade guarani, tornaram-se tarefas masculinas, realizadas com o apoio feminino, nas missões.

Tecer redes e faixas de algodão era tarefa feminina tupi-guarani. Liberadas parcialmente das obrigações horticultoras, as mulheres assumiram novas responsabilidades na fiação e na tecelagem do algodão e da lã, produzindo vestimentas e cobertores que facilitaram a ocupação de regiões golpeadas duramente pelos frios invernais, como o noroeste do atual Rio Grande do Sul.

Cerâmica e olarias

O conhecimento oleiro guarani desdobrou-se nas práticas ceramistas missioneiras que produziam os materiais com os quais se levantavam e telhavam os celeiros, os estábulos, os galões, as igrejas, as moradias, as oficinas, etc. Novas residências com diversos aposentos unifamiliares recebiam os habitantes das antigas moradias coletivas.

A divisão sexual e familiar do trabalho, apoiada na cooperação simples entre os produtores das residências coletivas e da aldeia, ampliou-se, originando práticas produtivas realizadas comumente por artífices especializados. As reduções possuíam de trinta a quarenta oficinas: ferraria, marcenaria, olaria, sapataria, tecelagem, tornearia, etc.

Os guaranis desconheciam completamente a criação animal. Em verdade, as Américas desconheciam o gado vacum, cavalar, muar, etc. Sobretudo, as missões introduziram-nos nas práticas criatórias vacuns, cavalares, caprinas, ovinas, etc., que forneciam com segurança e relativa fartura os recursos protéicos que as comunidades nativas tinham, em abundância, apenas episodicamente.

Realizada muitas vezes em ervais distantes, a extração e produção da erva-mate tinha grande importância para as missões. Diariamente, distribuía-se uma cuia de erva-mate por família missioneira. A erva entrava como equivalente nas trocas intermissões e era exportada, em grandes carretas de duas rodas, para regiões, não raro, muito distantes – Buenos Aires, Santa-Fé, Chile, Peru, etc.

Contabilidade social

O missioneiro recebia pequena parcela da terra comunal para sua exploração familiar. Porém, trabalhava nas plantações comunitárias nas segundas e sábados. A produção agrícola e pastoril comunitária financiava a subsistência dos trabalhadores especializados – administradores, artífices, ervateiros, vaqueiros, etc. – ou improdutivos – velhos, doentes, etc.

No contexto de técnicas e métodos novos e tradicionais, o desenvolvimento da produção missioneira comunitária [tupambaé] e familiar [abambaé] permitiu divisão do trabalho e, conseqüentemente, produtividade social muito superiores às da comunidade guarani tradicional. O que certamente ensejou o sustento de uma comunidade maior, com maior esperança de vida.

Grande parte do consumo familiar era produzida pela própria família. A administração central de cada missão – cabildo –, monopólio dos caciques, realizava a equalização das trocas internas entre os agentes das diversas esferas produtivas. A contabilidade central substituía a mercantilização como meio de troca dos mais diversos produtos, que não se transformavam em mercadorias, dominando seu valor de uso e não de troca.

A maior parte do produto excedente, permitido pela maior produtividade do trabalho, era reinvestida na comunidade. O caráter progressista do novo modo de organização e de produção aumentava o prestígio dos seus vetores ideológicos – os jesuítas e o cristianismo – e a coesão social missioneira.

III. Das Missões do Tapes aos Sete Povos

De 1610 a 1634, os jesuítas espanhóis fundaram as províncias guaraníticas do Paraguai: Itatim, Guairá e Uruguai. As missões do Tapes faziam parte da província do Uruguai. Elas tinham dezesseis pueblos e localizavam-se no noroeste sul-rio-grandense atual, no Planalto e nos vales do Jacuí, Ibicuí e Ijuí.

Porém, muito logo, as reduções do Tapes foram atacados por paulistas, à procura de nativos para serem escravizados, devido à falta de braços africanos cativos, sobretudo desde a ocupação holandesa dos portos negreiros portugueses da costa da África. Nesse então, a casa real espanhola reinava igualmente sobre Portugal [Unificação Ibérica, 1580–1640].

Talvez vinte mil missioneiros tenham sido arrastados para as capitanias portuguesas como cativos. Antes da viagem, matavam-se os caciques e os guerreiros mais combativos, para que não organizassem revoltas. Os velhos e as crianças eram executados ou abandonados, para que não atrasassem a marcha terrível.

Em 25 de março 1641, expedição escravizadora de 3.400 paulistas, mamelucos e tupis foi completamente derrotada nas barrancas do rio M’Bororé, afluente do rio Uruguai, por quatro mil missioneiros portando as armas tradicionais, arcabuzes e canhões de bambus gigantes. Com a guerra de libertação de Portugal, a coroa espanhola permitira que os missioneiros se armassem contra os seus antigos súditos portugueses.

Vacarias missioneiras

Entretanto, em 1636-8, para protegerem-se dos ataques, os missioneiros do Tapes transferiram-se para a margem direita do Uruguai, abandonando os atuais territórios do Rio Grande do Sul para se estabelecerem nas regiões da atual província argentina de Misiones e no sudoeste do Paraguai. Em 1634, cada missão recebera umas cem cabeças de gado para formar rebanhos. Os animais foram deixados nas margens meridionais do Jacuí, para que se reproduzissem.

Como as condições ambientais da região – pampa – eram excelentes, as manadas de gado reproduziram-se exuberantemente e expandiram-se para o litoral, à busca de pastagens, alcançando o Atlântico e avançando para o sul, dando origem às vacarias da região – campos de gado selvagem. Os vaqueiros missioneiros atravessavam periodicamente o rio Uruguai para levar rebanhos das vacarias para as estâncias, formadas entre o rio Jacuí e a lagoa dos Patos.

As estâncias eram áreas menores onde os gados eram confinados para que se realizassem periodicamente rodeios. As invernadas eram pequenas estâncias, próximas às missões. Sobretudo os acidentes geográficos e valas com plantações de espinheiros e outras barreiras mantinham os gados nas estâncias. Posteiros missioneiros controlavam as passagens por onde os gados escapavam.

Os campos do atual Rio Grande do Sul, povoados pelos gados selvagens, formavam uma enorme hacienda trilhada continuamente pelos vaqueiros missioneiros à busca dos animais. As vacarias do Mar, nas pastagens que iam da margem direita do rio Camaquã até o rio Negro, eram mantidas como uma espécie de reserva estratégica.

Sacramento – Os portugueses no Prata

Durante a Unificação Ibérica [1580-1640], os lusitanos desenvolveram rentável atividade comercial na bacia do Prata, contrabandeando trabalhadores escravizados e produtos manufaturados, sobretudo ingleses, em Buenos Aires, por couros e a prata andina. As autoridades espanholas fechavam os olhos para essa atividade. Em 1640, com a guerra de independência lusitana, o mercado platino fechou-se inexoravelmente para os lusitanos.

Com a crise do comércio açucareiro, a coroa lusitana procurou novos negócios, entre eles a ocupação do norte de suas possessões americanas. No sul da América, em janeiro de 1680, os lusitanos fundaram a colônia do Santíssimo Sacramento, na deserta margem oriental do Prata, diante de Buenos Aires, em territórios pertencentes à Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas, para prosseguir o rendoso comércio interrompido quarenta anos antes.

A coroa espanhola respondeu à intrusão lusitana cercando e conquistando, em agosto, a cidadela, com a ajuda de mil milicianos missioneiros. No ano seguinte, Sacramento foi devolvida, diplomaticamente, aos lusitanos, para tornar-se, então, até 1777, o grande pomo da discórdia entre as coroas ibéricas no sul da América.

Sete Povos das Missões

Diante da nova situação, a administração espanhola ordenou que os missioneiros atravessassem novamente o rio Uruguai para fundar, desde 1682, novas reduções no noroeste dos atuais territórios sulinos. Os Sete Povos da Banda Oriental do rio Uruguai eram formados pelas reduções de São Miguel, São Nicolau, São Borja, São Luiz Gonzaga, São Lourenço, São João Batista e Santo Ângelo.

A nova ocupação estendeu o controle, mais ou menos legal e efetivo, dos Sete Povos sobre grande parte dos atuais territórios sul-rio-grandenses e uruguaios. No Planalto, os gados missioneiros ocuparam os campos abertos e os ervateiros missioneiros exploraram parte das matas da região. Nos pampas, já em 1683, os vaqueiros de São Miguel chegaram até a atual cidade de Bagé, próxima da fronteira atual com o Uruguai, de onde se retiraram devido à oposição dos nativos locais.

Com administração própria, os Sete Povos permitiam melhor gestão dos recursos pastoris, agrícolas, ervateiros da região e uma melhor proteção desse flanco do vice-reinado do Peru, ameaçado por Sacramento. Entretanto, cada missão possuía suas terras, seus gados e administrava-se independentemente. Produzindo em geral os mesmos produtos, eram muito limitadas as trocas e, portanto, a interdependência dos Sete Povos.

No início do século 18, os trinta povos das Missões Ocidentais e Orientais do rio Uruguai possuíam uns 150 mil habitantes. A população dos Sete Povos seria de 30 mil missioneiros, sobretudo guaranis, ainda que ali vivessem charruas, minuanos e outras comunidades. Uma população considerável. Na época, Portugal apenas ultrapassaria um milhão e meio de habitantes.

Missão cumprida

As Missões protegiam essas regiões da expansão lusitana, participando ativamente dos ataques aos portugueses, o que as debilitava fortemente, já que os milicianos missioneiros eram, nos fatos, agricultores, vaqueiros, artífices, etc., que tinham que abandonar suas funções, para ir à guerra. As milícias missioneiras protegiam também as povoações espanholas dos ataques de nativos “selvagens”. Eram verdadeira guarda pretoriana contra eventuais insubordinações das elites criollas às autoridades coloniais.

As Missões incorporavam também economicamente esses vastos territórios da América do Sul ao espaço colonial hispânico, já que exportavam diversos produtos – couros, mulas, erva-mate, etc. – para pagar os impostos de capitação e adquirir o que não podiam ou não queriam produzir na região.

O crescente esgotamento da produção mineradora andina e o desenvolvimento da importância da bacia do Prata para as trocas comerciais e as comunicações selaram a sorte dos Sete Povos. O crescente desenvolvimento semi-autônomo de fato de uma verdadeira nação guarani-missioneira desagradava mais e mais as classes dominantes crioulas e a coroa espanhola.

IV. O Tratado de Madrid e a Guerra Guaranítica

Em janeiro de 1750, em Madri, as coroas ibéricas pactuaram solução pacífica global das desavenças territoriais americanas. Para a América Meridional, acordou-se trocar a colônia de Sacramento pelos territórios dos Sete Povos. O tratado garantia à coroa espanhola o domínio pleno do estuário do Prata às custas das populações missioneiras, expropriadas de suas vilas, moradias, oficinas, igrejas, terras, fazendas, rebanhos e ervais.

O Tratado ordenava: “Das povoações ou aldeias que cede Sua Majestade Católica na margem oriental do rio Uruguai, sairão os missionários com todos os móveis e efeitos, levando consigo os índios para os aldear em outras terras de Espanha (…); entregar-se-ão as povoações à Coroa de Portugal, com todas as suas casas, igrejas e edifícios e a propriedade e posse do terreno (…).”

Os missioneiros deviam abandonar as terras natais e localizaram-se a mais de seiscentos quilômetros, na então semideserta Banda dos Charruas [Uruguai]. Como a transferência era decisão que os ibéricos não esperavam que os missioneiros obedecessem de livre-vontade, em 1751, tratado secreto acertou o uso conjunto da força militar luso-espanhola contra a previsível resistência missioneira.

Para ocupar as Missões, a coroa portuguesa mandou vir camponeses sem ou com pouca terra das ilhas dos Açores e da Madeira. Os casais assentados receberiam 272 hectares de terra, ferramentas, sementes, dinheiro, etc., tudo gratuitamente. Até 1754, três mil ilhotas associaram-se aos 1.500 povoadores luso-brasileiros da região. Esperava-se que os camponeses produzissem braços e meios de subsistência para as tropas coloniais.

Guerra guaranítica

O general-de-batalha Gomes Freire de Andrade, comissário português da expedição demarcadora, ao chegar ao Rio Grande, concedeu sesmarias no Chuí, em Viamão, em Cima da Serra, no Vale do Rio dos Sinos, no Jacuí, no Caí, no rio das Antas, na Vacaria dos Pinhais, incentivando ocupação latifundiária sesmeira dos territórios sulinos pelos luso-brasileiros.

Em setembro de 1752, a expedição luso-espanhola – astrônomos, diplomatas, engenheiros, geógrafos, militares, etc. – encontrava-se em Castilhos Grande e, em inícios de outubro, assentava o primeiro marco divisório. Porém, muito logo, seria barrada por tropas missioneiras comandadas por José Tiaraju – Sepé –, alferes real de São Miguel, na coxilha de São Sebastião, no atual município de Bagé, já em territórios missioneiros. As tropas gerais missioneiras encontravam-se sob o comando de Nicolau Neenguiru, corregedor de Concepción, na margem ocidental do Uruguai.

Em 23 de fevereiro de 1754, uns trezentos missioneiros atacaram por quatro horas a apenas fundada tranqueira de Rio Pardo, fronteira oeste luso-brasileira, no vale do Jacuí. Teriam morrido 22 atacantes e de três a quatorze defensores. Em 28 de abril, tropas unificadas dos Sete Povos atacam, novamente, com pouquíssima decisão, o forte de Rio Pardo, que reforçara suas defesas. Nos inícios dos combates, morreu Alexandro Mbaruari, comandante militar de São Miguel, chefe-geral das tropas missioneiras.

Em 1574, um poderoso exército português, com mais de mil homens em armas, partiu de Rio Grande, no litoral rio-grandense, para Rio Pardo, aonde chegou em agosto. As tropas espanholas também chegaram à região. Porém, devido ao forte inverno e à resistência missioneira, em novembro de 1754, os exércitos ibéricos retiraram-se da região, após pactuarem armistícios separados com os representantes dos pueblos que, nos fatos, ampliavam as terras sob controle lusitano.

Finalmente, em 16 de janeiro de 1756, um exército hispano-português de 2.600 homens, poderosamente armado e artilhado, reuniu-se nas cabeceiras do rio Negro, nos atuais territórios uruguaios, de onde partiu para as Missões. Ao entrarem em terras missioneiras, as tropas ibéricas sofreram diversas emboscadas. Porém, em inícios de fevereiro, caía em combate Sepé Tiaraju, comandante das tropas de São Miguel.

A morte de Sepé

Em 7 de fevereiro, os missioneiros armam mais uma emboscada às tropas ibéricas, ao deixarem, como isca, uma ponta de gado à vista dos invasores. Cavaleiros missioneiros atacaram céleres e lancearam mortalmente dois peões portugueses lusitanos que haviam cruzado o arroio Guacacay para reunir, abater e carnear os animais.

Talvez prevenidos contra a tática utilizada anteriormente, às cinco e meia da tarde, o comandante Andonaégui enviou trezentos soldados espanhóis e portugueses, em dois esquadrões, em perseguição dos setenta a oitenta cavaleiros missioneiros, reunidos próximos a um capão.

Na perseguição, a montaria de Sepé Tiaraju teria tropeçado em um desnível do terreno, lançando o cavaleiro ferido ao solo. Aproveitando a oportunidade, um peão português quebrou uma lança contra o chefe militar missioneiro. No combate, os espanhóis tiveram dois mortos e os missioneiros, oito.

Em São Gabriel

A documentação é divergente e imprecisa sobre os acontecimentos posteriores. Possivelmente capturado e identificado, devido ao livro de orações e cartas que levava consigo, Sepé teria sido torturado por seus algozes – “queimado com pólvora ainda quando aspirando” e martirizado “de outras maneiras”.

A seguir, Sepé teria sido justiçado com um tiro de pistola, pelo próprio governador de Montevidéu, talvez para conquistar a honra da morte de um chefe missioneiro. O corpo de Sepé, decapitado, teria sido recuperado pelas tropas missioneiras, para enterramento de fortuna. Acredita-se que o chefe missioneiro morreu lutando em algum ponto próximo da cidade de São Gabriel.

A grande derrota

As razões da derrota missioneira foram, sobretudo, políticas. Os jesuítas tentaram impedir diplomaticamente e, a seguir, retardar, a implementação do tratado, esperando sua anulação. Nos fatos, terminaram dividindo-se quanto à obediência das ordens emanadas pela coroa espanhola.

Os superiores da Companhia de Jesus apoiaram o abandono das Missões, entregando, em maio de 1753, os Sete Povos às autoridades civis e religiosas de Buenos Aires. Entretanto, alguns jesuítas permaneceram, até o fim, nas missões, em contato com os caciques missioneiros.

Com a defecção jesuítica, a resistência encontrou-se nas mãos dos administradores dos Sete Povos que se dividiram igualmente sobre o caminho a seguir. Eles mantiveram sempre a esperança de negociar a manutenção dos Sete Povos, procurando preservar ciosamente as relações com Espanha. Durante todos os combates, as tropas missioneiras mantiveram ação militar essencialmente defensiva.

Apesar de possuírem uma enorme homogeneidade de civilização, os Trinta Povos jamais constituíram entidade coerida por laços sociais, econômicos e políticos necessários. Nos fatos, constituíam verdadeiras autarquias, mantendo frágeis laços essenciais entre si. A desorganização dos Sete Povos parece também ter sido uma ação ibérica contra a tendência, jamais realizada, de formação de uma nação guarani-missioneira no sul da América.

O fim da República

Os povos da margem direita do rio Uruguai não teriam compreendido que também eram atingidos pelo Tratado de Madri, que se referia explicitamente às Missões da margem esquerda do rio. Sobretudo diante da defecção e neutralização do comando jesuítico unificado, jamais participaram efetivamente da resistência militar, que se restringiu às milícias dos Sete Povos, essencialmente.

Vivendo a mesma autonomia sócio-econômica, os Sete Povos jamais unificaram e centralizaram ferreamente a resistência ao avanço ibérico, procurando comumente pactuar acordos em separado e fazer frente aos invasores apenas quando penetraram em suas terras. Jamais houve, nos fatos, a consciência plena de uma civilização guarani-missioneira reunindo os Trinta Povos.

Em 10 de fevereiro, em Caaibaté, 1.800 missioneiros, armados de lanças, arcos e flechas e peças de artilharia de bambu forradas de couro tentaram abrir negociações e impedir o avanço dos ibéricos que contavam com mais de 3.700 combatentes, poderosamente armados e fortemente artilhados.

Apesar das oposições históricas, as tropas dos Sete Povos teriam recebido o apoio de guerreiros charruas, minuanos, guenoas e outras comunidades nativas regionais, segundo parece chamados ao desconhecimento dos jesuítas.

Rejeitando o pedido de negociação, os canhões portugueses e espanhóis abriram fogo em forma coordenada, desorganizando as desmotivadas milícias missioneiras. A seguir, iniciou-se o massacre de talvez mil guaranis, perseguidos e executados. Em 16 de maio de 1756, após pequenos confrontos, as tropas ibéricas entravam em São Miguel. A República dos Sete Povos fora derrotada.

V. A consolidação do latifúndio pastoril sulino

Em 1757, devido à demora do prosseguimento da demarcação e à não-evacuação dos moradores dos Sete Povos, as tropas lusitanas, longe de suas linhas de defesa, recuaram para Rio Pardo, transferindo alguns milhares de missioneiros para Rio Pardo, Cachoeira do Sul e Gravataí, o que causou grande despovoamento nas Missões.

Assim, os portugueses debilitavam as forças militares hispânicas e minoravam a carestia de trabalhadores nas fazendas, plantações e vilas lusitanas. A seguir, os missioneiros foram obrigados a adotar a língua e nomes portugueses, dissolvendo-se na população subalternizada do Rio Grande do Sul. Essa enorme contribuição ao povoamento original do Rio Grande é menosprezada pela historiografia tradicional rio-grandense.

Derrotados, milhares de missioneiros migraram para a Banda Oriental – Uruguai –, onde se empregaram nos campos, como peões, e em Montevidéu, como chacreiros, artífices, etc., guaranitizando profundamente aquela região. Missioneiros incorporaram-se, igualmente, aos toldos charruas e minuanos do pampa uruguaio.

Em 12 de fevereiro de 1761, o Tratado de El Pardo anulou o Tratado de Madri, mantendo as condições anteriores, ou seja, Sacramento, em mãos portuguesas, e as Missões, sob domínio espanhol e administração militar. Finalmente, os jesuítas foram expulsos das colônias hispano-americanas, em 1767.

Perda e restauração

O confronto da França, em união com a Espanha, com a Inglaterra e, conseqüentemente, Portugal, seu pequeno e tradicional aliado, ensejou a chamada Guerra dos Sete – 1756 a 1763 –, que envolveu diversos outros beligerantes. Em outubro de 1762, tropas espanholas e missioneiras apoderaram-se da colônia de Sacramento e, em abril de 1763, da vila de Rio Grande, obrigando aos luso-brasileiros a recuarem para os Campos de Viamão.

Apenas em 1776, a vila e o porto de Rio Grande e as terras do interior rio-grandense seriam retomadas, por poderoso exército lusitano de sete mil homens. Em resposta, os espanhóis ocuparam a ilha de Santa Catarina e Sacramento, permanecendo para sempre na última povoação.

Em inícios de 1777, a morte de dom José I, e a entronização de sua filha, dona Maria I, permitiu a deposição do poderoso marquês do Pombal, e a volta ao poder pleno da grande aristocracia fundiária portuguesa. Em outubro de 1777, o Tratado Santo Ildefonso reconhecia a soberania espanhola sobre a colônia do Sacramento e sobre as Missões, em troca de Santa Catarina, num tratado em tudo lesivo aos lusitanos.

Trigos, couros e mulas

Até 1780, a produção luso-rio-grandense centrava-se, sobretudo, no abate de bovinos pelo couro, na triticultura açoriana, na pequena agricultura de gêneros de subsistência, no envio de tropas principalmente de mulas para Sorocaba, a grande feira sulina daqueles animais, em São Paulo.

Os trigais rio-grandenses haviam sido plantados pelos colonos açorianos nas proximidades da lagoa dos Patos, ao longo do rio Jacuí e Taquari, nas cercanias de Rio Pardo, em geral com o apoio de alguns trabalhadores escravizados. Ela era comercializada e embarcada no porto de Porto Alegre e exportada para o Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Portugal.

A ferrugem (1811), as dificuldades dos transportes, a rusticidade da produção, o alto preço relativo dos cativos, a inadequação do cultivo do produto à produção escravista e, sobretudo, a concorrência do trigo estadunidense, após a liberdade comercial decretada em 1808 por dom João, levaram a que o grão rio-grandense fosse alijado dos mercados regional, “nacional” e mundial.

O Rio Grande luso-brasileiro exportava tropas de muares que subiam pelo nordeste da Serra e do Planalto em direção da feira de Sorocaba, onde eram vendidas para São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na época, as mulas eram o principal meio de transporte de cargas e de homens. A decadência da mineração no Brasil Central, nos anos 1770, e, portanto, da necessidade de mulas para o transporte, arrefeceu a criação muar sulina, até ser relançada pelas necessidades da produção cafeicultora do Rio de Janeiro, a partir dos anos 1830.

A ocupação da Campanha

Inicialmente, a economia pastoril rio-grandense exportava couros para o mercado internacional e produzia carne apenas para o limitado mercado regional, em geral através do abate do gado selvagem. A ocupação da Campanha por fazendas criatórias recebeu poderoso impulso com a instalação da indústria charqueadora, que valorizava o gado vacum ao permitir o transporte de suas carnes através da salgação.

As grandes secas de 1777-8 e 1791-2, no nordeste do Brasil, dizimaram os animais que alimentavam a produção de carne-de-sol, sobretudo do Ceará e do Piauí, que abastecia tradicionalmente a colônia naquele alimento, uma das bases da alimentação das populações escravizadas e de poucos recursos.

Com a expulsão dos espanhóis de Rio Grande, em 1776, charqueadas surgiram nas margens das lagoas, no rio Jacuí, em torno de Porto Alegre e, sobretudo, na margem direita do arroio Pelotas. Desde então, as necessidades do Brasil passaram a ser satisfeitas pelas charqueadas sulinas, que exploravam duramente a mão-de-obra escravizada.

No mesmo sentido, os numerosos oficiais trazidos para a conquista de Rio Grande receberam ou apoderaram-se de sesmarias, valorizadas agora pela necessidade de gado das charqueadas. Em pouco tempo, as terras acessíveis do pampa esgotavam-se. Em 1785, poucos anos após o início da produção sistemática de charque, 64,22% das 841 propriedades sulinas recenseadas tinham mais de 1.000 ha.

O fim das Missões

Diminuídos poderosamente em sua população e territórios, sob a administração corrupta de prepostos espanhóis, os Sete Povos vinham conhecendo rápida e inexorável decadência, após a Guerra Guaranítica. Em 1801, aproveitando as hostilidades entre Espanha e Portugal, devido à guerra napoleônica, tropas irregulares luso-brasileiras apoderaram-se dos Sete Povos. A nova administração militar lusitana aprofundou os desmandos do governo espanhol.

A privatização definitiva dos territórios missioneiros ocorreria poucos anos mais tarde. Em 1808, dom João impulsionou a ocupação dos sertões do Brasil. Nesse processo, mandou “descobrir, povoar e cultivar os campos de Guarapuava” [Paraná], que se encontravam “infestados [sic] de gentios”. Pretendia-se abrir estrada direta entre a feira de Sorocaba e as Missões, agora sob poder português.

Em 1809-1810, um destacamento militar demarcou caminho entre Curitiba e os campos de Guarapuava, fundando a seguir o forte de Atalaia, freqüentemente atacado pelas comunidades nativas da região. Nos anos seguintes, criadores estabeleceram propriedades, nessas regiões, sempre mais ao sul, em direção à fronteira com o Rio Grande do Sul.

Em 1816, uma expedição partiu para estabelecer contato direto com as Missões, através dos campos de Guarapuava. O nativo Jongong, que orientou a expedição, temendo a belicosidade coroada nas margens do rio Uruguai, tomou o caminho do leste e dos Campos de Palmas, descobriu os Campos Novos, atravessou o rio Pelotas, chegou ao Campo do Meio, no nordeste do Rio Grande do Sul, de onde prosseguiu para São Borja.

A expropriação final

A expedição falhara na abertura de caminho direto entre a feira de Sorocaba e as Missões, mas redescobrira o caminho, através do Planalto Médio, ligando os Campos de Vacaria a Santo Ângelo, utilizado nos séculos anteriores, pelos nativos e pelos tropeiros e ervateiros missioneiros. A rota ficou conhecida como Caminho Novo das Missões.

A abertura do caminho entre os Campos de Vacaria e as Missões acelerou a substituição das antigas estâncias missioneiras por latifúndios pastoris luso-brasileiros e a ocupação do Planalto Médio, onde surgiram, a seguir, as povoações de Cruz Alta, Passo Fundo, Campo do Meio, Lagoa Vermelha, etc.

Desde 1816, o cabildo dos povos missioneiros e administradores luso-brasileiros venderam, a preços mínimos, ou concederam, gratuitamente, terras missioneiras e terrenos não-designados, ensejando que militares, tropeiros e criadores, chegados de São Paulo, Curitiba, Lages e Laguna, organizassem fazendas criatórias nas antigas estâncias guaraníticas.

Segundo Nicolau Dreys, a população missioneira caíra de vinte mil missioneiros, em 1801, para oito mil, em 1914. O “Relatório ao Conselho Geral”, de dezembro de 1830, de Caetano Lopes Gama, presidente da província sulina, sentenciava: “Os Sete Povos (…) estão quase extintos. Santo Ângelo, São João, São Luiz e São Nicolau não têm um só índio. São Borja, São Lourenço e São Miguel, apenas 38.”

Expropriadas de suas estâncias coletivas, as populações missioneiras cruzaram o rio Uruguai ou dispersaram-se pelas fazendas sulinas, onde se empregaram, permanente ou periodicamente, como trabalhadores pastoris, dando origem, com as populações escravizadas e as comunidades pampianas aculturadas, às classes subalternizadas rio-grandenses dedicadas às atividades pastoris.

Com os anos, à expropriação das terras, seguiu-se a própria expropriação da memória. Os missioneiros, agora peões pobres, sequer recordavam-se dos tempos gloriosos em que senhoreavam solidários as imensas e frutíferas fazendas comunitárias dos Sete Povos Missioneiros.

Principais autores consultados

BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos guaranis. Porto Alegre: Sulina; Caxias do Sul: UCS; Porto Alegre, EST, 1978.

CESAR, Guilhermino. História do Rio Grande do Sul: Período colonial. Porto Alegre: Globo, 1970.

CORTESÃO, Jaime (ed). Manuscritos da coleção de Angelis. 3 vols. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1951, 1952, 1969.

DALCIN, Ignácio. Em busca de uma terra sem males. Porto Alegre: Palmarinca, EST: Porto Alegre, 1993.

FLORES, Moacyr. Colonialismo e missões jesuíticas. Porto Alegre: EST/Instituto de Cultura Hispânica do RS, 1983.

GADELHA, Regina Maria A. F. As missões jesuítica do Itatim: Um estudo das estruturas sócio-econômicas coloniais do Paraguai, séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

GOLIN, Tau. A guerra guaranítica. 2ª ed. Passo Fundo: EdiUPF, 1999.

KERN, Arno. Arqueologia pré-histórica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.

KERN, Arno. Missões: Uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.

LUGONM Clovis. A República “comunista” cristã dos guaranis: 1610-1768. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

MAESTRI, Mário. Os senhores do litoral: Conquista portuguesa e agonia tupinambá no litoral brasileiro. 2ª ed. Porto Alegre: EdiUFRGS, 1995.

MAESTRI, Mário. Uma história do Rio Grande do Sul: A ocupação do território. Da luta pelo território à instalação da economia pastoril-charqueadora escravista. Passo Fundo: EdiUPF, 2006.

MONTOYA, Antonio R. La Conquista Espiritual. 3ª ed. Rosario: Equipo Difusor de Estudíos de História Ibero-Americana, 1989.

NEUMANN, Eduardo. O trabalho guarani missioneiro no rio da Prata colonial 1640-1750. Porto Alegre: Marins Livreiro, 1996.

PORTO, Aurélio. História das missões orientais do Uruguai. Porto Alegre: Selbach, 1954. Vol. I e II.

RIBEIRO, Darcy [Ed.]. Suma etnológica brasileira. 2ª ed. 1. Etnobiologia. Petrópolis: Vozes/FINEP, 1987.

RIBEIRO, Darcy [Ed.]. Suma etnológica brasileira. 2ª ed. 2. Tecnologia indígena. Petrópolis: Vozes/FINEP, 1987.

RIBEIRO, Darcy [Ed.]. Suma etnológica brasileira. 2ª ed. 3. Arte índia. Petrópolis: Vozes/FINEP, 1987.

RODERJAN, Roselys Vellozo. Raízes e pioneiros do Planalto Médio. Carazinho: Prefeitura Municipal de Carazinho/UPF/Diário da Manhã, 1991.

SANTOS, Lucila Maria Sgarbi et al. Bom Jesus e o tropeirismo no Brasil Meridional. Porto Alegre: EST, 1995.

SEVERAL, Rejane da Silveira. A guerra guaranítica. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1995.

TESCHAUER, Carlos. História do Rio Grande do Sul dos dois primeiros séculos. 2ª ed. São Leopoldo: EdiUnisinos, 2002. 3. vol.

TREVISAN, Armindo. A escultura dos Sete Povos. Porto Alegre: Movimento, 1980.

Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/058/58maestri.htm

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terça-feira, 20 de maio de 2008

Consumo, logo existo






, por Frei Betto*




Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. “Quem trouxe a fome foi a geladeira”, disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc.

A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano – e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos “Manuscritos econômicos e filosóficos” (1844), ele constata que “o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós.” O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela…

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de “com mercê”, com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. “Nada poderia ser maior que a sedução“ – diz Jean Baudrillard – ”nem mesmo a ordem que a destrói.“ E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. “Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático”, respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

* Frei Betto é escritor, autor de “Típicos tipos – perfis literários” (A Girafa), entre outros livros.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O ESPÍRITO CAPITALISTA








, por Frei Betto

O sistema capitalista, que deita raízes na quebra da sociedade feudal e no advento da manufatura, alavancou-se com a revolução industrial. Expandiu-se no século 19, acelerou a pesquisa científica e o progresso técnico. Aumentou a produção e agravou a desigualdade na distribuição de bens. De seu ventre contraditório surgiu o socialismo, que aprimorou a distribuição sem conseguir desenvolver a produção. A onda neoliberal derrubou o socialismo europeu qual castelo de areia.

Hoje, o capitalismo é vitorioso para as nações da União Européia e da América do Norte (excluindo o México). No resto do mundo, deixa um lastro de miséria e probreza, conflitos e mortes, salvando-se as elites que, em seus respectivos países, gerenciam os negócios segundo o velho receituário colonial, agora prescrito pelo FMI: tudo para o benefício da metrópole.

Em plena globocolonização, o capitalismo é também vitorioso em conrações e mentes. Mas não em todos. Há ricos, remediados e pobres que não têm espírito capitalista. São pessoas generosas, altruístas, capazes de se debruçar perante o sofrimento alheio e de estender a mão em solidariedade a causas coletivas.

A tendência do espírito capitalista é aguçar o egoismo; dilatar ambições de consumo; ativar energias narcísicas; tornar-nos competitivos e sedentos de lucro. Criar pessoas menos solidárias, mais insensíveis as questões sociais, indiferentes à miséria, alheias ao drama de índios e negros, distantes de iniciativas que visam defender os direitos dos pobres. Aos poucos, o espírito capitalista molda em nós esse estranho ser que aceita, sem dor, a desigualdade social; assume a cultura da glamourização do fútil; diverte-se com entretenimentos que exaltam a violência, banalizam a pornografia e ridicularizam pobres e mulheres, como são exemplos certos programas de humor na TV.

O capitalismo promove tamanha inversão de valores em nossa consciência que defeitos qualificados pelo cristianismo de "pecados capitais" são tidos como virtudes: a avareza, o orgulho, a lúxuria, a inveja e a cobiça.

O capitalismo é irmão gêmeo do individualismo. Ao exaltar como valores a competição, a riqueza pessoal, o acúmulo de posses, interioriza em nós ambições que nos afastam do esforço coletivo de conquista de direitos para nos mergulhar na ilusão pessoal de que, uma dia, também galgaremos, como alpinistas sociais, o pico da fortuna e do sucesso.

A magia capitalista dissolve, pelo calor de sua sedução, todo conceito gregário, como nação ou povo. O que há são indivíduos atomizados, premiados pela loteria biológica por não terem nascido entre os pobres ou pela roda da fortuna, que os fez ascender miraculosamente para o universo em que os sofrimentos morais são camuflados sob o brilho da opulência.

O espírito capitalista não faz distinção de classe: inocula-se no favelado e na empregada doméstica, no camponês e no motorista de táxi. E induz ricos, remediados e pobres à apropriação privada, não apenas de bens simbólicos: oro para alívio dos meus problemas e a cura de minhas doenças; voto no candidato que melhor corresponde às minhas ambições; adoto um comportamento que realça a minha figura e o meu prestígio.

Esse espectro de ser humano não conhece a cooperação e a gratuidade; considera a generosidade uma humilhação; encara a probreza insubmissa como caso de polícia; faz da função de mando uma segunda pele; trata os subalternos com desdém. O mundo centra-se em seu umbigo. Ainda que não tape as orelhas ao ouvir falar em "amor ao próximo", do outro ele se faz próximo quando estão em jogo seus interesses. Mas prefere distância se o outro sofre, decai socialmente ou mergulha em fracasso. Seu espelho é o da bruxa que indaga: "Há alguém tão bem-sucedido quanto eu?" Se a resposta for positiva, então quer conhecê-lo, adulá-lo, idolatrá-lo, como a um ícone religioso do qual se esperam graças e proveitos.

Capitalista não é apenas o banqueiro, o Tio Patinhas. É também o Donald, que se submete a seus caprichos. O mundo é, para ele, um jogo de espelhos, no qual se vê projetado nas mais variáveis dimensões. Ele inveja os que estão acima dele e nutre ódio por quem o ameaça como concorrente. Quando se faz religioso, ér para ganhar o Céu, já que a Terra lhe pertence. Dá esmolas, mas não direitos; acende velas, nunca esperanças; prega a mudança de coração, não da sociedade; é capaz de reconhecer Cristo na eucaristia, jamais no rosto de quem padece fome, é sem-terra ou sem-teto.

Horroriza-nos pensar que, outrora, a sociedade praticou o canibalismo. Quiça alimentar-se com a carne do semelhante, em vez de entregá-la ao repasto dos vermes, seja masi saudável e ético que do que, hoje, excluí-lo do direito de ser, simplesmente, humano.

"texto de Frei Beto publicado no jornal o Estado de S. Paulo de 14 de junho de 2000"

sábado, 17 de maio de 2008

OS COMPUTADORES DE RAUL REYES






, por Laerte Braga



A mídia brasileira, a televisiva então deitou e rolou, deu ênfase ao relatório da INTERPOL que afirma estarem íntegros os arquivos do computador do chanceler das FARCs-EP (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas-Exército Popular), assassinado num ataque terrorista do narcotráfico que controla a Colômbia a um acampamento no Equador.

Não divulgou, claro, a íntegra do relatório. A INTERPOL afirma com todas as letras que o que lhe foi entregue para análise estava íntegro e não prova nenhuma vinculação do governo Chávez com a força guerrilheira e muito menos com o Equador, constando do relatório que sequer o Equador faz fronteira com a região colombiana libertada do narcotráfico/terrorista de Uribe pelas FARCs.

O primeiro-ministro francês François Fillon disse em entrevista coletiva em Lima, no Peru que "falamos com todos que tenham origem democrática com a finalidade de salvar a vida de Ingrid Betancourt".

"Que eu saiba, o presidente Chávez foi eleito democraticamente e é reconhecido como tal pelos países representados nesta Cúpula. A França não será negligente e não deixará passar qualquer oportunidade para libertá-la. Trata-se de um caso humanitário".

As sucessivas vitórias eleitorais de candidatos à esquerda em países da América do Sul, a transição democrática em Cuba com a saída de Fidel e a volta, pelo voto, dos sandinistas ao poder na Nicarágua (Daniel Ortega), ressuscitaram as velhas práticas da direita fascista nesta parte do mundo, a partir dos interesses de Washington. Práticas que a rigor nunca estiveram mortas, apenas adormecidas na Transilvânia dos DOI/CODIS, das OBANs e das várias fases da Operação Condor.

Tanto pode ser através de um narcotraficante como Uribe, ou de um corrupto como Alan Garcia, como na cooptação de um general, o supostamente brasileiro Augusto Heleno.

O que está em jogo são os interesses dos donos do mundo, nesse momento encurralados diante da perspectiva de uma recessão na sede (EUA) e das dificuldades encontradas para “libertar” o Iraque, o Afeganistão, tudo numa só panela que mistura os 60 anos do estado fascista de Israel.

Que o diga o sangue dos milhares de palestinos derramado na intolerância dos tacões suásticos do sionismo.

O mundo globalitarizado em forma de sanduíche McDonalds e lacrado em garrafa de coca cola.

É, por exemplo, o que levou o ministro da Justiça Tarso Genro a colocar um torturador, Jair Bolsonaro em seu devido lugar, no momento em que o governo Lula (do qual Tarso faz parte) perde a presença de Marina da Silva em função do que determinam a VALE e outras, nos gritos do general Augusto Heleno (versão brasileira de Custer). Tarso pagou o preço do equilibrismo e da falta de peito de um presidente que perdeu o rumo. Numa certa medida Tarso deu até o rumo. Depende de Lula entender para além dessa besteira de “Nova China”.

Aliança PTSDB para sacramentar o cruzamento de partidos geneticamente iguais e paulistas encravados no enclave DASLU/FIESP, ou vice versa.

Em nenhum momento a INTERPOL disse em seu relatório que Chávez e Corrêa ajudavam ou ajudam as FARCs-EP, pelo menos nos termos que Uribe pretendeu vender ao mundo na esteira do golpismo que busca atingir governos democráticos por aqui, exatamente como disse o primeiro-ministro francês, oriundos do voto, logo da vontade popular.

GLOBO, BANDEIRANTES, RECORD, SBT, as grandes cadeias de emissoras de rádio e os grandes jornais optaram pelo que interessa aos que pagam e compram as imagens e os espaços sórdidos da mídia golpista e podre.

Optaram por mentir, ou para usar uma expressão meio que fora de moda, mas precisa, optaram por escamotear a parte do relatório que não lhes interessava. Do ponto de vista de quem corta e costura a farda do general da banda William Bonner.

Blecaute vivia esse papel com muito mais autenticidade, porque da banda mesmo. Nada de histerismo que faltam ranhuras no aeroporto, quando faltava é cuidado da companhia com o avião e com vidas.

Mas a companhia paga e o comandante da guerra televisiva contra Chávez, Corrêa e Morales obedece a quem paga.

Há toda uma carreirinha nessa série de acontecimentos que envolvem desde o ataque ao acampamento do chanceler Reyes, até os arrozeiros em Roraima, a absolvição do latifundiário que mandou matar Doroty Stang, a redução da área não desmatável da Amazônia, ao grito de “dependência ou morte” do general Heleno e a volta de vampiros das câmaras de tortura como Bolsonaro.

O que o primeiro-ministro François Fillon disse em Lima reflete um mundo que não interessa a essa gente. E o governo francês é tudo menos de esquerda.

Breve Lula navegando nos desertos eucalipticos da Amazônia com o boné da VALE.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O naufrágio do centro do mundo: entre a recessão e o colapso







O artigo de Jorge Beinstein (Economista argentino) desvenda a economia americana e seus desdobramentos em escala mundial. A economia globalizada dá partida em uma crise prolongada com a recessão aberta nos EUA. As repercussões deste colapso podem quebrar a hegemonia imperial norte-americana? Provocarão uma histérica intensificação de guerras na periferia do capitalismo? É certo que esse terremoto desarticulará estados, economias regionais e uma nova configuração nas forças políticas e econômicas mundiais. Aos conflitos germinados, outra potência econômica pode despontar nesse contexto? Como será? Os norte-americanos conseguirão dar conta de sua economia sem exacerbar?
O possível naufrágio dos Estados Unidos: com a queda do dólar, das indústrias do consumo e militar, com a produção petrolífera alcançando o seu pico. Fatores que evidenciam o caráter alarmante da conjuntura, que meios de comunicação e analistas de diversos matizes ideológicos especulam mundo a fora. Confira aqui a matéria em Carta Maior.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Áudio das Conferência (mp3) - Intelectual engajado, figura em extinção? - Marilena de Souza Chaui







Intelectual engajado, figura em extinção? - Marilena de Souza Chaui

Desde o ‘caso Dreyfus’, a participação dos intelectuais na agitação política e cultural tinha se tornado parte da nossa vida social. A polêmica entre Sartre e Merleau-Ponty evidenciou a questão do engajamento político, do qual a década de 1960 deu mostras de vigor. Hoje, ao contrário, os intelectuais retraíram-se da vida pública. Por quê? É o que tentaremos responder.

Íntegra da Conferência - áudio/mp3
realizada no teatro Maison de France, em 22/08/2005

Justiça para Luiz Eduardo Merlino




(1948-1971)!

por paulaÚltima modificação 01/05/2008 14:53
Contribuidores: Michael Löwy

Se o coronel Ustra for declarado culpado, pela primeira vez um responsável do aparelho repressivo da ditadura prestará contas de uma morte sob tortura 30/04/2008


Michael Löwy



Luiz Eduardo Merlino, jovem jornalista brasileiro, militante da Quarta International, morreu sob tortura, com a idade de 23 anos, em julho de 1971. Sua ex-companheira, Angela Mendes de Almeida, e sua irmã, Regina Merlino Dias de Almeida, decidiram, apesar da anistia oficial que os militares se outorgaram há mais de vinte anos, levar à justiça o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado por várias testemunhas de ser o principal responsável por este crime. Felizmente o juiz, Carlos Abrão, acolheu o pedido de abertura da ação: a tortura é, segundo a lei brasileira e os tratados internacionais assinados pelo Brasil, imprescriptivel. O processo deverá começar dentro de algumas semanas. As duas autoras da ação não pedem a condenação penal do oficial, nem indenizações, mais simplesmente a verdade: que a justiça declare o coronel Ustra responsável pela tortura e morte de Merlino.

Este sinistro personagem era o chefe do Departamento de Operações de Informação (DOI-CODI) da ditadura militar em São Paulo. Sob este eufemismo escondia-se uma oficina de torturas, de que foram vítimas de tortura - entre 1970 et 1973, período de comando de Ustra – cerca de quinhentos presos, dentre os quais morreram mais de quarenta, entre eles nosso jovem camarada. Segundo a versão oficial, atestada por dois «médicos legistas» a serviço dos militares, Merlino teria se «suicidado», jogando-se debaixo das rodas de um carro: explicação ridícula, freqüentemente utilizada pela ditadura para cobrir seus crimes. Na realidade vários ex-presos – entre eles o escultor Guido Rocha, que compartilhou a cela com ele – testemunharam ter visto Merlino agonizando depois de ter sido submetido a 24 horas de tortura ininterrupta, sem entregar nenhuma informação a seus algozes. Submetido a eletrochoques e ao suplício do «pau de arara», isto é, pendurado com os pés e as mãos amarradas, ele já estava em um estado grave, semi-paralisado, quando os torturadores o jogaram no cimento do chão da cela. Faleceu dois dias depois.

Como salienta Angela, sua companheira, "o fim da impunidade começa com a memória e o restabelecimento da verdade. A tortura na ditadura era uma política do Estado brasileiro, mas seus executores têm nome. O coronel Ustra, sendo o comandante do DOI-CODI, é responsável por isso. As torturas foram realizadas por ele e os seus subalternos, sob seu comando e com o seu conhecimento".

Este processo é importante. Se o coronel for declarado culpado, será a primeira vez que um responsável do aparelho repressivo da ditadura deverá prestar contas de uma morte sob tortura. Aliás, o mesmo coronel é objeto de outra ação judicial, promovida pela familia Teles - um casal, a irmã da esposa e dois filhos – torturados nos mesmos locais do DOI-CODI em 1972. O processo está em curso. Neste caso, como no de nosso companheiro Merlino, a condenação do coronel será uma vitória, certamente simbólica mas de claro teor politíco, da verdade e da justiça.


Luiz Eduardo Merlino, conhecido também sob o pseudônimo de «Nicolau», era um dos dirigentes do Partido Operário Comunista (POC), uma organização simpatizante da Quarta Internacional no Brasil, que havia decidido, a partir de 1969, participar da resistência armada contra a ditadura militar estabelecida no pais em 1964. Em 1970-71 ele veio a Paris, com sua companheira Angela, para estreitar laços com a Quarta Internacional, estudar a experiência organizacional de Liga Comunista e estabelecer contatos com organizações irmãs na América Latina, em particular na Argentina. Foi nesta época que tive a sorte de conhecê-lo.


Luiz Eduardo era um rapaz magro, de feições delicadas e agradáveis, com óculos e um pequeno bigode. Era generoso, calmo e decidido. Não se resignava a ficar no exílio e havia tomado a decisão de voltar o mais cedo possível para o Brasil, para tentar reorganizar o POC e inseri-lo no processo de resistência armada à ditadura. Tentei dissuadi-lo, mas sem sucesso. Lúcido, ele reconhecia a dificuldade e o risco da empresa. Certa vez perguntei-lhe como avaliava sua chance de "sair-se bem" na volta ao Brasil. Respondeu-me: "cinqüenta por cento" ...


A análise de conjuntura era certa ou não? Será que a tática era a mais apropriada?A estratégia era correta ou equivocada? Trinta e cinco anos depois estas questões perderam muito de seu interesse. O que sobra é a integridade de um indivíduo, sua decisão de arriscar a vida pela causa da liberdade, da democracia, da emancipação dos trabalhadores, do socialismo. Para o Luiz Eduardo Merlino, voltar ao Brasil era uma clara exigência moral e política, uma espécie de "imperativo categórico" que não aceitava recuos ou concessões.

Certas pessoas, que na época partilhavam da luta de "Nicolau", mas hoje se converteram ao social-liberalismo - prefiro não citar nomes - pretendem que o comportamento daqueles que no Brasil e na América Latina arriscaram e perderam sua vida na luta desigual contra as ditaduras do continente, eram movidos por um "espírito suicida". Nada mais absurdo. Luiz Eduardo amava a vida, amava sua companheira e não tinha a mínima vocação para o suicídio. O que o levou a tomar a decisão que tomou e lhe custou a vida, foi simplesmente um sentimento de dever, uma ética, um compromisso com os companheiros de luta.

A historia do futuro não se fará sem a memória de nossos amigos e companheiros martirizados.


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Lembranças de Nicolau

Michael Löwy

Luiz Eduardo Merlino é destas pessoas que ficam para sempre gravadas na memória de quem as conheceu, por mais que passem os anos e as modas. Tive a chance de encontrá-lo em Paris, durante os poucos meses em que permaneceu no exílio (1970-71), como militante da nossa corrente (a velha Quarta), mas sobretudo como amigo, como "camarada", no amplo e fraterno sentido desta palavra.

Luiz Eduardo tinha escolhido como codinome "Nicolau". Certa vez me explicou que este era o nome que os primeiros comunistas brasileiros utilizavam para tentar traduzir "Vladimir", o prenome de Lenin, ao português. "Nicolau" era inseparável de sua companheira de amor e de lutas, Angela, codinome "Tais". Os dois haviam formado no POC uma corrente "quartista", a "Tendência Nicolau-Tais", que se designava, com auto-ironia, a "TNT". A escolha do pseudônimo não era casual: "Nicolau" era leninista confesso e convicto. Às vezes brincava, com humor e amizade, com minhas simpatias "luxemburguistas". A verdade é que nos entendíamos muito bem, partilhando aquela mistura de Trotsky com Che Guevara que era tão explosiva como a TNT.

Luiz Eduardo era um rapaz magro, de feições delicadas e agradáveis, sempre de óculos e bigode. Era generoso, calmo e decidido. Não se resignava a ficar no exílio e havia tomado a decisão de voltar o mais cedo possível ao Brasil, tentar reorganizar o POC e inseri-lo no processo de resistência armada à ditadura. Tentei dissuadi-lo, mas sem sucesso. Lúcido, ele reconhecia a dificuldade e o risco da empresa. Certa vez lhe perguntei como avaliava sua chance de "sair-se bem" da volta ao Brasil. "Cinqüenta por cento" me respondeu…

A análise de conjuntura era certa ou não? Será que a tática era a mais apropriada? A estratégia era correta ou equivocada? Trinta e cinco anos depois estas questões perderam muito de seu interesse. O que sobra é a integridade de um indivíduo, sua decisão de arriscar a vida pela causa da liberdade, da democracia, da emancipação dos trabalhadores, do socialismo. Para o Luiz Eduardo, voltar ao Brasil era uma alta exigência moral e política, uma espécie de "imperativo categórico" que não aceitava recuos ou concessões. Certas pessoas, que na época partilhavam da luta do "Nicolau", mas hoje se converteram ao social-liberalismo - prefiro não citar nomes - pretendem que o comportamento daqueles que no Brasil e na América Latina arriscaram e perderam sua vida na luta desigual contra as ditaduras do continente, eram movidos por um "espírito suicidário". Nada mais longe da verdade. Luiz Eduardo amava a vida, amava sua companheira, e não tinha a mínima vocação para o suicídio. O que o levou a tomar a decisão que tomou, e lhe custou a vida, foi simplesmente um sentimento de dever, uma ética, um compromisso com os companheiros de luta. É por isto que a memória dele continua tão viva e presente, não só no Brasil, mas também na França e em outros países em que se conheceu sua história.

Outro dia, mexendo em velhos jornais marxistas, dei com uma fotografia do Luiz Eduardo, com o título "morto em combate". O artigo que acompanhava a foto já envelheceu, não apresenta maior interesse. Mas o olhar do Luiz Eduardo não perdeu nem um pouco de sua força e de sua intensidade e me atingiu em pleno coração: não pude conter as lágrimas, era como se tudo se tivesse passado ontem.

A ditadura não deu uma chance ao Luiz Eduardo: preso logo depois de sua chegada, torturado, morto por não entregar informações. A herança que ele nos deixa é a de seguir lutando, para que nunca mais o Brasil conheça a opressão, a violência policial, a tortura.

Joe Hill, o dirigente sindicalista revolucionário norte-americano, autor de belas canções de luta, deixou esta mensagem a seus companheiros, pouco antes de ser fuzilado pelas autoridades em 1915: "don't mourn, organize" - não fiquem de luto, vão e organizem-se (os explorados e oprimidos). Acho que o "Nicolau" teria gostado desta mensagem…

Maio 2006

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Luís Eduardo Merlino

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DOS FILHOS DESTE SOLO
Luiz Eduardo da Rocha Merlino (18/10/1948 - 19/07/1971)
"Artéria rompida"

Às 20hs de 20 de julho de 1971, Iracema Merlino recebeu um telefonema de um delegado do DEOPS de Santos comunicando a morte de seu filho Luiz Eduardo. O informante disse que ele teria se jogado embaixo de um carro na BR-116, em Jacupiranga, após escapar da escolta que o estaria conduzindo a Porto Alegre, “para entregar companheiros”. Ela tinha sido tomada de imensa angústia desde o dia 15 de julho, quando vieram buscá-lo em sua casa, à Rua Itapura Miranda, 13, em Santos.

Naquele dia, um homem, em trajes civis, dizendo-se amigo, pediu para chamar seu filho. Já passavam das 21hs. Luiz Eduardo estava com uma gripe forte e fora deitar mais cedo. Ela o despertou e ele lhe disse que não conhecia ninguém com o nome dado, mas, mesmo assim, iria atendê-lo. Estava calmo. Em seguida, o visitante entrou na casa, acompanhado de dois outros agentes, considerando certa a presença de quem procuravam. A cordialidade anterior dos invasores cedeu lugar à brutalidade. Os militares ameaçaram a irmã de Luiz Eduardo, Regina, com metralhadoras em punho, porque ela protestara contra a invasão de sua casa e a iminente prisão do irmão. Perguntaram também por Ângela Maria Mendes de Almeida, companheira de Luiz Eduardo, e entraram no quarto dele para revistar e revirar tudo. Dona Iracema ficou nervosa. Luiz Eduardo, calmamente, tranquilizou sua mãe e a irmã, e os homens baixaram as metralhadoras. “Logo estarei de volta.” Foi levado em um Corcel, com os três e o motorista.

Passados cinco dias, o delegado do DEOPS em Santos comunica-lhe, por telefone, que seu filho estava morto, que teria se suicidado.

Dr. Geraldo Merlino, tio de Luiz Eduardo, por ser médico, ofereceu-se para localizar o corpo no IML. Pediu ao seu amigo, o patologista Antônio Cardoso de Almeida, para acompanhá-lo. Procuraram informar-se com dr. Arnaldo Siqueira, diretor do IML. Ele negou que o corpo de Luiz Eduardo da Rocha Merlino ali estivesse. Afortunadamente, um cunhado de Luiz burlou a vigilância no IML e viu o corpo. Os dois médicos voltaram ao IML e reconheceram o cadáver. Furiosos, dirigiram-se ao diretor Arnaldo Siqueira: “Por que mentiu; por que o corpo estava em uma gaveta sem nome; por que o IML ocultou um corpo?”. Arnaldo Siqueira alegou que aquele corpo aguardava identificação. Mentiu novamente. Na verdade a Requisição de Exame ao IML, datada do dia anterior, 19 de julho, já identificava Luiz Eduardo da Rocha Merlino e dava como “histórico do caso: no dia e hora supramencionados (19-07, 19:30 horas; BR-116, Jacupiranga) ao fugir da escolta que o levava para Porto Alegre/RS, na estrada BR-116, foi atropelado e em consequência veio a falecer.” No mesmo dia 19 de julho foi elaborado o laudo necroscópico, assinado pelos médicos-legistas Isaac Abramovitc e Abeylard Orsini, dando como causa da morte “anemia aguda traumática por ruptura da artéria ilíaca direita” e ainda, “segundo consta, foi vítima de atropelamento”.

O corpo de Luiz Merlino foi retirado do IML-SP e enterrado no Cemitério de Paquetá, em Santos, pela família.

Sessões de tortura

Guido Rocha já estava no x-zero, a “cela forte” ou “solitária” da OBAN/DOI-CODI, há vários dias quando os policiais chegaram com Luiz Merlino. Guido tentara sair do país por Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, onde chegara por trem. Enquanto prosseguia, o governo de esquerda de Juan José Torres foi derrubado; havia um intenso processo repressivo em curso. Guido Rocha foi preso e entregue aos militares brasileiros.

O x-zero era uma cela quase totalmente escura. Chão de cimento, colchão manchado de sangue jogado no piso, uma privada turca, que os presos chamavam de boi. Só entrava luz na cela quando uma portinhola era aberta para passar comida. Antes mesmo de Luiz Eduardo ser trazido para o x-zero, Guido já o conhecia pelos seus gritos e gemidos que ouvira muitas vezes vindos da sala de torturas, localizada bem ao lado. Ele diz que não se lembra quantas vezes Luiz Eduardo foi submetido a sessões de tortura. Mas ficou impressionado com a tranquilidade que ele demonstrava. Estava muito machucado e viera carregado pelos policiais. Com voz fraca, contou-lhe que tinha chegado da França há poucos dias, que trabalhara no Jornal da Tarde e na Folha da Tarde, que fora preso na casa da mãe em Santos - e que esperava sair dali logo. Mas a sua saúde começava a piorar. As duas pernas ficaram dormentes, devido ao tempo que passara pendurado no “pau-de-arara”. Para ir à privada turca, Guido tinha que carregá-lo, embora, por ser franzino, mal o aguentasse. Uma vez, trouxeram um outro preso político para ser acareado com Merlino na própria cela, o que demonstra o quanto ele estava mal. O procedimento comum nesses casos seria a acareação na sala de torturas.

Na manhã do dia 17, o enfermeiro da Equipe A do DOI-CODI arrastou uma escrivaninha até o pequeno muro que divide o pátio, onde existiam sete celas. Pediu então ao carcereiro Marechal para trazer o preso do x-zero. Luiz Merlino foi carregado até à mesa improvisada. O enfermeiro, com bata branca, calças e botas militares, tirou o calção de Merlino, colocou-o de costas para cima e massageou suas pernas. Ele gemeu, chorou e gritou de dor. Suas nádegas estavam esfoladas. Os presos das celas 2 e 3, em um breve período de afastamento do enfermeiro, conversaram com ele, que se identificou. Contou que fora torturado toda a noite e que suas pernas não o obedeciam mais. De volta ao x-zero, Merlino piorava. O enfermeiro fez o teste de reflexo no joelho e planta do pé, sem resposta alguma. Ficou perturbado, mas se irritou quando Guido Rocha cobrou a remoção do companheiro para um hospital, batendo a porta maciça de ferro. Guido deu uma pêra a Merlino, pois ele botava para fora tudo o que comia - e havia sangue nos vômitos. “Chame o enfermeiro rápido, que estou muito mal”, pediu Merlino. A dormência já alcançava os seus braços. Guido Rocha bateu na pesada porta e gritou por socorro. O enfermeiro reapareceu, com outras pessoas, que Guido identificou como torturadores. Eles levaram Merlino para morrer no Hospital Geral do Exército.

No dia seguinte, Guido foi removido do x-zero, que foi varrido e lavado. No dia 20, o PM Gabriel contou aos presos políticos que Merlino morrera no dia anterior, “por problemas de coração”.

Guido de Souza Rocha, posteriormente, foi transferido para a Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, e deu o nome de Luiz Eduardo Merlino à sua cela.

Denúncias em Auditorias

Os presos políticos Eleonora Menicucci de Oliveira, Ricardo Prata Soares e Laurindo Junqueira Filho denunciaram nas duas Auditorias Militares de São Paulo que viram Luiz Eduardo Merlino ser massageado no pátio do DOI-CODI, no dia 17 de julho, entre gracejos de um enfermeiro e de um capitão. O professor Rui Coelho, vice-diretor da Faculdade de Filosofia da USP, declarou também que viu Merlino na prisão e testemunhou que ele se portou com altivez em seu martírio. Zilá Prestes Pra Baldi disse que observou o corpo de Merlino, já morto, cheio de equimoses.

A primeira versão para a morte de Merlino, dada pelo PM Gabriel aos presos do DOI-CODI, problemas de coração, foi logo abandonada. Ficou como versão oficial o que foi dito à sua mãe, Dona Iracema, suicídio, auto-atropelamento: após uma breve parada em Jacupiranga, a escolta policial deixara Merlino sozinho e ele aproveitara para correr e se jogar sob as rodas de um carro na BR-116, às 19:30 horas do dia 19 de julho de 1971. Essa versão constou na Requisição de Exame ao IML, no Laudo Necroscópico, assinado por Isaac Abramovitc e Abeylard Orsini, e na Certidão de Óbito, que teve como declarante o Delegado do DEOPS Alcides Cintra Bueno.

Jornalistas amigos de Luiz Merlino, sem que soubessem de como realmente ele fora morto, deslocaram-se até Jacupiranga e não encontraram nenhum sinal, qualquer vestígio do suposto atropelamento ou outro acidente de trânsito ocorrido naquele ponto, no dia indicado.

O veículo que o teria atropelado nunca foi identificado nem foi feita ocorrência no local do fato. É inverossímil um preso político ser deixado sozinho numa viatura, naquelas circunstâncias. Seu estado precário de saúde, quando foi retirado do x-zero, era desesperador. Não conseguia sequer se manter de pé. Como iria correr e atirar-se sob um carro?

A imprensa foi impedida de noticiar a morte de Luiz Merlino. Somente no dia 26 de agosto de 1971 o Estado de São Paulo publicou um anúncio fúnebre: “ Os amigos e parentes do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino convidam os jornalistas brasileiros e o povo em geral para a missa de trigésimo dia de seu falecimento a realizar-se sábado próximo, 28 de agosto, às 18:30 horas, na Catedral da Sé, em São Paulo”.

No dia 27 de Agosto a Tribuna de Santos publicou: “ Estava morto há dias jornalista desaparecido. O jornalista Luiz Eduardo Merlino, que estava desaparecido desde o dia 16 de julho último, quando retornou da Europa, morreu quatro dias depois, segundo anúncio fúnebre publicado na edição de ontem de O Estado de São Paulo, convidando para a missa de trigésimo dia, que será celebrada amanhã, às 18:30 horas, na Catedral da Sé.

Há uma semana, um despacho enviado de Paris pela Agência Reuters, dava conta de que Luiz Merlino teria sido detido pelas Autoridades responsáveis pela Segurança Nacional no mesmo dia de sua chegada e seu corpo entregue à sua mãe, quatro dias depois. Todavia, somente com o anúncio fúnebre publicado hoje é que veio a se confirmar sua morte”.

Apesar da violência e dos riscos do período, cerca de 770 jornalistas compareceram ao culto na Sé, desafiando o forte aparato policial presente na Catedral: até no coro havia policiais portando metralhadoras.

Vida legal

Iracema, mãe de Merlino, morreu no dia 31 de março de 1995. Com a filha Regina, nunca deixou de lutar pela verdade. Em 1979 moveu ação declaratória contra a versão oficial, com o apoio do Sindicato dos jornalistas. Em entrevistas a O Estado de São Paulo, em 1º/08/70, disse: “Quero que ele seja reconhecido como homem de verdade, que foi morto. Acredito piamente que ele foi assassinado”.

Angela Maria Mendes de Almeida, que permanecera na França após o retorno de Merlino, denunciou o assassinato de seu companheiro tanto no exílio como no Brasil, após sua volta.

Luiz Merlino tinha 23 anos quando foi morto sob torturas. Nascido e criado em Santos, mudou-se aos 17 anos para São Paulo. Dois anos depois, fez parte da primeira equipe do Jornal da Tarde. Trabalhou também na Folha da Tarde e no Jornal do Bairro.

Ingressou na USP, no curso de História. Tinha trancado matrícula quando foi à Europa, por sete meses.

Iniciou sua militância no movimento secundarista, em Santos. Participou do movimento estudantil em 1968 Ingressou no POC nesse ano. Como repórter, esteve no Congresso da UNE, em Ibiuna, São Paulo, e foi, na ocasião, uma das principais fontes de informação sobre a repressão ao evento. Sua militância era clandestina, embora mantivesse vida legal, com seus documentos próprios e atividade profissional. Foi à França e voltou de lá com seu próprio passaporte.

O relator do caso na Comissão Especial foi Nilmário Miranda. Ele diz em seu parecer:

(...) é certo que a versão do suicídio, por auto-atropelamento não tem sustentação, porém, ainda que fosse verdadeira estaria abrangida pela lei, pois ocorreu sob a guarda dos agentes públicos.

Seu voto foi acolhido por unanimidade (7x0), no dia 23 de abril de 1996.

Do livro: Dos filhos deste solo - Mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado

Autores: Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio
São Paulo, Boitempo Editorial/Editora da Fundação Perseu Abramo, 1999, pp. 512-516.


Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



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  • A Revolução antes da Revolução. As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França - Karl Marx
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  • Sobre a Ditadura do Proletariado - Étienne Balibar
  • Sobre a evolução do conceito de campesinato - Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina

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  • A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
  • A Espera dos Bárbaros - J.M. Coetzee
  • A hora da estrela - Clarice Lispector
  • A Leste do Éden - John Steinbeck,
  • A Mãe, MÁXIMO GORKI
  • A Peste - Albert Camus
  • A Revolução do Bichos - George Orwell
  • Admirável Mundo Novo - ALDOUS HUXLEY
  • Ainda é Tempo de Viver - Roger Garaud
  • Aleph - Jorge Luis Borges
  • As cartas do Pe. Antônio Veira
  • As Minhas Universidades, MÁXIMO GORKI
  • Assim foi temperado o aço - Nikolai Ostrovski
  • Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez
  • Contos - Jack London
  • Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • Desonra, de John Maxwell Coetzee
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  • O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
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  • Imagens da revolução – documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971; Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá
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  • Indústria, ordenamento do território e transportes - a contribuição de André Fischer. Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski e Eliseu Savério Spósito
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