quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A esquerda no limiar do século XXI



— um livro importante de Marta Harnecker

Por Miguel Urbano Rodrigues




Há muito que não lia um livro que me empurrasse para uma meditação tão profunda e complexa. Mas não é fácil definir a impressão por ele produzida. A palavra assombro talvez seja adequada. Não esperava nada daquilo quando iniciei a leitura. O desafio, entretanto, figura no titulo: "Haciendo posible lo imposible — La Izquierda en el umbral del siglo XXI " (1)

Como definir o gênero da obra? Trata-se simultaneamente de uma reflexão sobre acontecimentos da história contemporânea; de um ensaio político; e também de um manual para a acção revolucionária. O conteúdo está à altura do título. Na capa figura uma informação incomum: versão preliminar.

Porquê? A autora explica na introdução: esta edição é o resultado de diferentes versões que incorporaram ideias e sugestões de amigos e companheiros. Admite que da ampliação e aprofundamento dos temas tratados possa resultar «uma obra colectiva de grande envergadura e utilidade para a militância, tarefa a empreender em Cuba, onde estão as melhores fontes e condições para realizar esse trabalho». Em determinado «momento — esclarece — colocou-se-me o dilema de prosseguir durante uns anos aprofundando e ampliando o trabalho ou publicá-lo no estado atual, como um trabalho preliminar, inacabado, que servisse de instrumento para provocar o debate e me permitisse receber contribuições de muita gente, de muitos militantes que talvez não estejam dispostos a escrever, ou não saibam como fazê-lo, mas disponíveis com prazer para a discussão de um material já estruturado. Acabei, finalmente, por me inclinar para esta ultima opção e isso é o que apresento aqui, esperando poder publicar algo mais definitivo dentro de um ou dois anos. Numerei os parágrafos para facilitar as correções e sugestões». São 774 os parágrafos deste livro preliminar, simultaneamente ambicioso e modesto.

Marta Harnecker (MH) afirma que o seu livro diz respeito «à esquerda latino-americana e aos seus desafios atuais». Mas o seu trabalho transcende essa meta: interessa a toda a humanidade progressista, sem distinção de continentes, nacionalidades e opções partidárias.

A Primeira Parte é uma síntese de acontecimentos importantes que tiveram peso na história da América Latina (e não só ) desde a vitória da Revolução Cubana.
Na Segunda Parte, a autora procura iluminar o mundo da transição do milénio tal como o vê e sente no âmbito da revolução técnico-cientifica instrumentalizada pela globalização imperial e pela imposição do neoliberalismo como sistema hegemónico num contexto em que o controlo da informação proporciona um poder imenso.
Na Terceira Parte MH reflete sobre a posição em que se encontra a esquerda, mergulhada numa crise teórica, programática e orgânica. Assumindo a herança de Marx e reivindicando a atualidade do seu pensamento, a autora aborda a questão fulcral de uma alternativa ao neoliberalismo. Com modéstia, traz ao debate em torno da esquerda algumas ideias que lhe permitam reorganizar-se e enfrentar em melhores condições os grandes desafios do século XXI.

A palavra esquerda é em si mesma —ela não o desconhece — uma fonte de equívocos. Mas não há outra tão breve e útil para o debate que possa englobar o conjunto de forças e cidadãos progressistas que, a nível planetário, condenam a exploração do homem, repudiam o neoliberalismo e a sacralização do mercado e rejeitam o projecto de sociedade hoje imposto à humanidade.

Perguntará o leitor do "Avante!", não sem motivo, onde está aquilo que diferencia este livro de dezenas de outros sobre a mesma temática?

Em primeiro lugar no poder e na técnica da comunicação. A reflexão de MH sobre o passado recente e as sínteses a que procede bem como a muito cautelosa meditação em torno dos caminhos a percorrer (na busca de respostas à pergunta que fazer?) não são acadêmicas. Um dos segredos da autora consiste na fórmula que lhe permite utilizar uma linguagem extremamente simples, acessível a trabalhadores sem cultura para tratar temas muito complexos. Ela demonstra mais uma vez que as grandes questões que condicionam o futuro da humanidade podem ser tratadas, com rigor metodológico e alto conteúdo, como se fossem assuntos da vida quotidiana.
A estrutura do texto é inabitual, por simples. Impressiona a secura da linguagem. O discurso, quase sem imagens, é despojado de metáforas, frio na forma. O estilo está, afinal, na sua aparente ausência.
Outra das originalidades do livro é a forma como MH utiliza a documentação: No espaço de 143 páginas maneja uma bibliografia torrencial. Evitando sempre que possível intervir de maneira ostensiva, evitando interpretações subjectivas, ela transcreve, em centenas de parágrafos, trechos de diferentes autores que ora informam sobre a história, ora clarificam grandes problemas em debate, ora contribuem para uma melhor iluminação da sinuosidade das estratégias neoliberais, ora ajudam o leitor a caminhar pela sua mão no terreno movediço da procura de alternativas, ora o mergulham num mundo de indagações sobre a idéia de revolução, as relações entre organizações de vanguarda e o movimento popular e as motivações e formas da militância .

A seleção dos autores e dos trechos transcritos é obviamente fundamental no desenvolvimento desta obra atípica. Mas isso não significa que MH esteja sempre de acordo com as opiniões que cita. Com alguma freqüência servem para evidenciar discordâncias. Na fusão do que dizem autores muito diferentes e do que ela, MH, vai tentando colocar no tabuleiro em que as ideias são movidas como peças de xadrez, o livro adquire, pouco a pouco, uma estrutura sólida, torna-se lição e projecto.

MH confessa na Introdução que as leituras feitas para aprofundar os temas, em vez de a tranquilizarem a foram angustiando cada vez mais. O cepticismo e o catastrofismo da maioria dos historiadores e cientistas sociais contemporâneos tendem a apagar a esperança e a conduzir ao desespero, ou pelo menos a uma atitude de passividade como a de Eric Hobsbawm, um grande historiador que olha hoje para o mundo atual como se este fosse a estrela Sirius.

O leitor já terá compreendido que o livro de MH é polêmico do começo ao fim. Não vejo nisso defeito, mas uma virtude. Estamos, para mal da humanidade, pouco habituados a que a maioria dos intelectuais, num tempo dominado pelo poder da sociedade informacional (2), cultive a virtude revolucionária da autenticidade.

Talvez por isso mesmo, a Terceira Parte do livro, estuário natural das duas anteriores, é simultaneamente a mais importante e de certa forma a sua justificação, embora tenha sido a mais dolorosa para a autora e a mais difícil, porque a esquerda, no limiar do século XXI não se encontra em boas condições para enfrentar os grandes desafios resultantes da hegemonia desumana do neoliberalismo e do pensamento único. Essa esquerda, perplexa (e de fronteiras fluidas) tem pouco de gratificante a oferecer, e naquilo que pede — a revolução das mentalidades — esbarra em obstáculos mal estudados e em tendências imobilistas enraizadas.

MH não acredita que se possa compreender o mundo contemporâneo e partir daí para a busca de alternativas viáveis sem que a análise da realidade recorra ao instrumental cientifico de Marx não apenas como sociólogo e economista, mas sobretudo como historiador. Responsabilizar o marxismo pelo que aconteceu na URSS como faz a propaganda neoliberal é — sublinha — um absurdo tão grande como responsabilizar uma boa receita de cozinha quando o pudim se queima no forno.

Ninguém melhor do que Marx, insiste, elaborou uma critica tão profunda e acertada do capitalismo da sua época, ninguém como ele «foi capaz de vislumbrar para onde caminhava a humanidade submetida às relações capitalistas de produção». De certa maneira, ele «previu com um século de antecipação o processo de globalização que o mundo está a viver hoje».

Nas páginas de «La Izquierda en el umbral del siglo XXI», MH ilumina bem o caráter monstruoso do projecto neoliberal e do funcionamento das engrenagens de uma sociedade concebida para minorias onde o poder informacional desempenha um papel decisivo. Mas vai muito mais fundo do que o fizeram recentemente autores como Ignacio Ramonet e Viviane Forrester em livros de grande êxito editorial.

Porquê?

Ela não escreve como espectadora angustiada. A sua perspectiva é a de alguém que dedicou a vida ao trabalho militante da transformação revolucionária da sociedade. Não pode assim permanecer apenas no terreno do diagnóstico da crise civilizacional.

Creio que comunistas e progressistas de muitas tendências vão ler com emoção — discordando muitas vezes, porque o livro, repito, é sempre polêmico e desafiador — o que ela escreve sobre temas como os instrumentos políticos adequados aos novos desafios, os diferentes tipos de militância, o centralismo democrático na era neoliberal, os espaços para debate, a democracia nos partidos revolucionários, os quadros de direção, a relação entre partido e sindicatos e partido e massas, e os desafios no terreno eleitoral e na esfera institucional.

Incluo-me entre aqueles que consideram ser hoje muito mais difícil a opção revolucionaria do que noutras épocas, ao longo dos últimos dois séculos, porque tanto a atual geração como as próximas tem consciência de que não serão protagonistas de rupturas sociais que concretizem os ideais do socialismo.

Num encadeamento de idéias e factos fascinante, movendo-se de Marx a Fidel, de Lenine a Gramsci, de sociólogos da esquerda contemporânea a teóricos do neoliberalismo, entre as vitorias de movimentos revolucionários e derrotas do presente, MH, usando a palavra como pá e picareta de uma arquitetura simultaneamente simples e elaborada, empurra-nos sempre para o palco do grande desafio à imaginação e ao trabalho político: o que fazer ?

Não traz naturalmente propostas de soluções. Chama a atenção para muitas questões esquecidas ou subestimadas, ajuda a refletir na busca de caminhos, o que é muito, até porque não carrega certezas.

Nas últimas páginas recorda palavras de um grande revolucionário por as julgar adequadas à compreensão das dificílimas lutas que as forças progressistas terão de travar na próxima década: «para o verdadeiro revolucionário, o maior perigo, talvez o único, é exagerar o revolucionarismo, ignorar quais são os limites em que métodos revolucionários são adequados e eficazes». São de Lenine essas palavras, de enorme atualidade não obstante o contexto ser muito diferente daquele em que foram proferidas.

A nossa época é de desalento e confusão, de esperanças frouxas. Por isso mesmo é preciso ter sempre presente que as reformas pela via institucional não podem resolver problemas que exigem soluções revolucionárias. Mas com a atual relação de forças é também indispensável estar consciente de, perante a impossibilidade de assalto ao poder pela via insurrecional, não podemos abdicar da luta por reformas cujo conteúdo e alcance são incompatíveis com a lógica da engrenagem neoliberal.

Valorizando experiências muito importantes na área do Poder Local em cidades governadas por partidos de esquerda, MH alerta-nos para o trabalho pouco lembrado mas criador, que se pode desenvolver— a nível nacional — entre o terreno do legal e do ilegal, num campo que define como alegal, isto é, que abrange iniciativas que não são legais, mas também não são ilegais .


O livro de Marta Harnecker é sobretudo dirigido às esquerdas latino-americanas; mas tem, repito, valor universal. O belo antetítulo é esclarecedor. Os progressistas de todos os continentes compartilham o objectivo: tornar possível o impossível. Todas as revoluções orientadas para a construção de uma sociedade sem explorados têm de lutar contra o impossível aparente.

Será positivo, creio, que o livro de Marta Harnecker seja lido pela gente progressista de Portugal e que da terra do 25 de Abril lhe cheguem também sugestões que a ajudem a transformar em definitiva a versão preliminar .

Uma revolucionária chilena

Marta Harnecker é uma revolucionária de larga trajetória. Tornou-se famosa no final dos anos 60 quando, jovem, publicou um livro, "Os conceitos fundamentais do Materialismo Histórico" que cumpriu na América Latina o papel que a obra de Politzer desempenhou na Europa. Até hoje vendeu aproximadamente um milhão de exemplares (a editora Siglo XXI lançou 5l edições).
MH foi uma grande divulgadora do marxismo na América Latina. Muita gente que, pela complexidade do texto, resistia a ler "O Capital" sentiu-se atraída para o comunismo pela mão de Marta. O seu nome andava de boca em boca durante o governo da Unidade Popular. Na época ela militava no Partido Socialista (uma organização marxista que não se assemelhava minimamente à social democracia européia).
Não a encontrei nessa época no Chile. Creio que me parecia então um pouco esquerdista. Não lera com suficiente atenção os seus trabalhos. Somente vim a conhecê-la agora, em Havana, onde dirige o Centro de Investigações Memória Popular Latino-americana (MEPLA), uma ONG mobilizada para a recuperação da memória nevoenta de um continente imperializado. MH reside em Cuba desde o golpe de estado de Pinochet em l973. Chilena de origem alemã é uma mulher alta, loura, com uma figura elegante e uma distinção natural incomum. Não perdeu o doce sotaque chileno.
Conheço poucas pessoas que vivam como ela de modo tão absorvente para a transformação revolucionaria da vida. E, contudo, ela o faz na recusa de tudo o que possa desumanizar a maravilhosa aventura da existência individual. "O objectivo da revolução social — recorda — não é somente lutar para sobreviver, mas transformar a forma de viver". Por isso mesmo considera indispensável penetrar «no mundo da moral e do amor, a transformação directa e quotidiana do modo de viver, pensar e sentir».
Fazendo da teoria pratica, MH é uma pessoa realizada também no plano afetivo. Seu marido, Manuel Piñeiro — o famoso comandante Barba Roja da Sierra Maestra, há dias falecido num desastre de viação, era uma personagem carismática da Revolução Cubana. Tem uma filha de l8 anos, Camila, que tornou sua a mundividência dos pais .
Psicóloga, autora de vídeos originais sobre experiências comunitárias em Cuba, no Brasil, na Venezuela e no Uruguai, Marta Harnecker aparece aos leitores como uma socióloga não acadêmica que faz da militância, como intelectual revolucionária, um acto de coerência e de amor, no grande combate que deve ser a vida.

_______________

(l) - Editado pelo Centro de Investigaciones Memoria Popular Latinoamericana; La Habana, Cuba, l998
(2) - A expressão sociedade informacional parece ter sido criada pelo sociólogo espanhol Manuel Castells, (La Era de la información: la sociedad real, vol I, Alianza Ed, Barcelona) repetidamente citado por MH. A sociedade informacional seria uma forma especifica de organização social na qual a geração, o processamento e a transmissão da informação se convertem nas fontes fundamentais da produtividade e do poder.


«Avante!» Nº 1269 - 26.Março.98

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Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
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Vos abraço com todo o fervor revolucionário

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