terça-feira, 2 de outubro de 2007

Matando pelo bem do Brasil



Escrito por Mário Maestri

01-Out-2007


Em “Tropa de Elite”, o singular não é o filme em si, mas o estrondoso sucesso antes mesmo do seu lançamento. Como película, a obra de José Padilha repete em geral as receitas inovadoras de “Cidade de Deus”, sem o brilho do célebre longa-metragem de Fernando Meirelles: a criminalidade urbana como tema; o narrador como condutor da trama; os quadros dinâmicos em uma sucessão de clips. Uma espécie de plágio doce devido parcialmente ao fato de Bráulio Mantovani assinar os roteiros das duas películas.


Na essência, os filmes são opostos. Em “Cidade de Deus”, através da história da comunidade homônima, Fernando Meirelles relata a construção social do criminoso, para propor superação individual pela arte e pelo trabalho (fotografia) do destino do jovem favelado ao crime. Mantendo-se nos marcos da leitura da favela pela cidade, a câmara de Meirelles procura dar a voz aos protagonistas. No fundo, é leitura social otimista, ainda que ingênua.


Não há meias cores em “Tropa de Elite”, apesar do sinistro claro-escuro em que o filme se move. Os protagonistas e antagonistas são feitos de uma só peça: corruptos ou honestos às vísceras. Os únicos heróis são os policiais do BOPE, a sinistra tropa de elite carioca que, no filme, tortura, mata e morre em desesperada e incompreendida última defesa da civilização contra a barbárie, da cidade contra o morro. Ao iniciar a película, o narrador traça o quadro geral maniqueísta: “Se o Rio dependesse só da polícia tradicional, os traficantes já teriam tomado a cidade [...]”.


“Tropa de Elite” não cria muito. Limita-se a encenar sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime, corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão sem piedade. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa parcela da população que materializa, no sentimento de insegurança, o stress permanente produzido pelas incertezas e insatisfações da vida quotidiana.


O que não significa que o filme não possua soluções imaginosas, como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao apresentar a execução do horrível traficante “Baiano”, branco, pelo honestíssimo Matias, policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador dos assassinatos e homem sensível à espera do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende, à custa de permanente descida ao inferno.


O deputado quer apenas saber o “quanto” vai ganhar, ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes discutem as causas e as soluções da marginalização social mas, no frigir dos ovos, são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de criminosos. Nesse mundo em degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que entregam a vida se necessário no cumprimento de suas missões. Tudo pelo bem do Brasil.


José Padilha apenas dramatiza a apologia das execuções de populares pelas forças policiais, sob as ordens e cumplicidade das autoridades e os aplausos dos meios de comunicação. “Carandiru”, de Hector Babenco, denunciou sem maior sucesso o mega-massacre da polícia militar paulista. Invertendo o sinal, “Tropa de Elite” glamouriza mortandades como as do Complexo do Alemão, em junho deste ano.


Através da escusa da encenação do real, “Tropa de Elite” radicaliza as propostas de “Tolerância Zero” com a criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações de séries como “Lei & Ordem” sobre a legitimidade da execução e da tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.


Em fins dos anos 1980, o sucesso da subliteratura de tema esotérico de Paulo Coelho registrou a crise geral da confiança nas soluções sociais racionalistas, devido à vitória mundial da maré neoliberal. No mundo fantástico do segundo governo Lula da Silva, enquanto cresce a dilaceração dos laços sociais e nacionais, os ricos tornam-se mais ricos e as classes médias viajam ao exterior despreocupadas com a inevitável ressaca do dia seguinte do real-maravilha.


O sucesso de “Tropa de Elite” registra o conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças populares tradicionais na corrupção. É enorme vitória dos poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da insegurança nacional, distribuindo a morte entre os pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”. E, se não te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo!

Mário Maestri é professor do curso de História e do PPGH da UPF.

E-mail: maestri@via-rs.net

Massacre do Carandiru completa 15 anos e permanece impune




Terça-Feira, 02 de outubro de 2007



Adital -
Hoje (02), quando o relógio marcar 11 horas, o início de um dos episódios de maior violência e desrespeito aos direitos humanos da história do Brasil estará completando 15 anos: o massacre do Carandiru - casa de detenção da Zona Norte paulistana, no qual 111 presos foram assassinados por policiais. Serão completos também 15 anos de impunidade dos policiais envolvidos nos crimes.

Mais de 80 policiais acusados de homicídio ainda esperam pela decisão do júri e a defesa quer estender a absolvição. Ninguém foi punido pelas mortes. Pelo contrário, a cidade de São Paulo entregou, na sede da Câmara Municipal de São Paulo, no último dia 21 de setembro, o título de cidadão paulistano ao coronel aposentado da Polícia Militar Luiz Nakaharada.

Nakaharada, que é um dos denunciados pelo Ministério Público pelos crimes na casa de detenção, teria entrado atirando com uma metralhadora Beretta 9 milímetros. Ele comandou 74 homens, dos 325 policiais militares que ingressaram no pavilhão 9 da casa de detenção sem as respectivas insígnias e crachás de identificação.

Em 2 de outubro de 1992, uma briga entre dois presos -Coelho e Barba- deu início a um tumulto no pavilhão 9, que culminou com o Massacre do Carandiru. Segundo a pesquisa de Sandra Carvalho e Evanize Sydow, tendo como fonte o estudo "Massacre do Carandiru, Chega de Impunidade", elaborado pela Comissão Organizadora de Acompanhamento para os Julgamentos do Caso do Carandiru, apesar do tumulto e de sinais de fogo, não havia perigo de fuga de presos.

Os presos inclusive, quando perceberam a chegada da polícia começaram a jogar estiletes e facas para fora, demonstrando que não resistiriam à invasão e alguns colocaram faixas nas janelas, pedindo trégua. A tomada do térreo, pelos policiais, foi feita sem resistência ou reação com armas de fogo por parte dos presos, segundo o depoimento dos próprios policiais envolvidos na ação.

Mas soldados do Grupo de Ações Táticas Especiais -desrespeitando a ordem das autoridades reunidas de tentar uma última negociação - quebram o cadeado e correntes do portão do pavilhão e invadem o local sem negociação. Não foi permitida a presença de autoridades civis durante a invasão.

"Os PMs dispararam contra os presos com metralhadoras, fuzis e pistolas automáticas, visando principalmente a cabeça e o tórax. Na operação também foram usados cachorros para atacar os detentos feridos. Ao final do confronto foram encontrados 111 detentos mortos: 103 vítimas de disparos (515 tiros ao todo) e 8 mortos devido a ferimentos promovidos por objetos cortantes", constatou a pesquisa. Houve ainda 153 feridos, sendo 130 detentos e 23 policiais militares. Nenhum policial foi morto.

Cerca de 80% das vítimas do massacre esperavam por uma sentença definitiva da Justiça, ou seja, não tinham sido condenados. Só nove deles haviam recebido penas acima de 20 anos. 51 dos presos mortos tinham menos de 25 anos e 35 tinham entre 29 e 30 anos. Dos detentos recolhidos na Casa de Detenção, 66% eram condenados por assalto e 8% por homicídio.

Quando a perícia chegou ao local da violência policial, os responsáveis pelo massacre haviam modificado a cena do crime, destruindo provas valiosas que teriam possibilitado a atribuição de responsabilidade pelas mortes a indivíduos específicos. Civis foram proibidos de irem até os andares superiores do Pavilhão 9, enquanto a PM dava ordens aos detentos para que removessem os corpos dos corredores e celas a fim de empilhá-los no 1° andar.

De acordo com a análise da perícia, só 26 detentos foram mortos fora de suas celas. A maioria deles foi atingida na parte superior do corpo, em regiões letais como cabeça e coração. Dos 103 mortos por arma de fogo, 126 receberam balas na cabeça, o pescoço foi alvo de 31 balas, e as nádegas levaram 17. Os troncos tiveram 223 tiros. "Os exames de balística informam que os alvos sugerem a intenção premeditada de matar", disse a pesquisa.

E acrescentou: "a tese de que houve confronto armado entre policias militares e detentos não é sustentada pelas provas dos autos do processo. A legítima defesa alegada pela cúpula da Polícia Militar não tem fundamento nos fatos". O laudo do Instituto de Criminalística concluiu que: "Em todas as celas examinadas, as trajetórias dos projéteis disparados indicavam atirador(es) posicionado(s) na soleira das celas, apontando sua arma para os fundos ou laterais. Não se observou quaisquer vestígios que pudessem denotar disparos de armas de fogo realizados de dentro para fora das celas".



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Falecimento de Lygia Prestes

Lygia Prestes


Com pesar, comunicamos o falecimento de Lygia Prestes, valorosa combatente comunista.
Lygia encerra aos 94 anos uma longa trajetória de luta ao lado do de nosso povo. Jovem, teve destacado papel, junto de sua mãe, Leocádia Prestes, nas campanhas internacionais pela libertação de Luiz Carlos Prestes e dos presos políticos da ditadura Vargas no Brasil nas décadas de 1930-1940 e - enfrentando a Gestapo, a polícia política do Estado alemão nazista - pela libertação de Olga Benario e de Anita, filha de Olga e Prestes, nascida em uma das prisões nazistas.
No início de 1938, conseguiram a libertação de Anita e uma vaga promessa da Gestapo de que pouco depois Olga seria libertada. Como sabemos, Olga foi enviada a um campo de concentração e assassinada pelos nazistas em abril de 1942.
Tanto no Brasil, como no exílio, no México e na União Soviética, teve ativa militância.
Nos últimos anos tivemos a honra e a satisfação de conhecê-la e com ela conviver. Somos testemunhas de sua firmeza de princípios, de sua perspicaz consciência política, de seu entusiasmo pela história da luta pela liberdade e pelo socialismo, da qual foi histórica artífice, e de seu vivo interesse pelas questões políticas candentes na luta contra o fascismo e de resistência à barbárie imperialista. Nós, do CeCAC, prestamos a ela nossa respeitosa homenagem. Lygia Prestes, presente!

Marco Antonio e Vick,
em nome de todos os companheiros do CeCAC

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Brasil - ‘Veja’ mira Guevara e dá tiro no pé



01.10.07 - BRASIL

Celso Lungaretti *

Adital -
Os 40 anos da morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, a se completarem no próximo dia 9, dão ensejo a uma nova temporada de caça ao mito Che Guevara por parte da imprensa reacionária, começando por Veja, que acaba de produzir uma das matérias-de-capa mais tendenciosas de sua trajetória.

"Veja conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas", afirma a revista, numa admissão involuntária de que não praticou jornalismo, mas, tão-somente, produziu uma peça de propaganda anticomunista, mais apropriada para os tempos da guerra fria do que para a época atual, quando já se pode olhar de forma desapaixonada e analítica para os acontecimentos dos anos de chumbo.

Não houve, em momento algum, a intenção de se fazer justiça ao homem e dimensionar o mito. A avaliação negativa precedeu e orientou a garimpagem dos elementos comprobatórios. Tratou-se apenas de coletar, em todo o planeta, quaisquer informações, boatos, deturpações, afirmações invejosas, difamações, calúnias e frases soltas que pudessem ser utilizadas na montagem de uma furibunda catalinária contra o personagem histórico Ernesto Guevara, com o propósito assumido de se demonstrar que o mito Che Guevara seria uma farsa.

Assim, por exemplo, a Veja faz um verdadeiro contorcionismo retórico para tentar tornar crível que, ao ser preso, o comandante guerrilheiro teria dito: "Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto". Ora, uma frase tão discrepante de tudo que se conhece sobre a personalidade de Guevara jamais poderá ser levada a sério tendo como única fonte a palavra de quem posou como seu captor, um capitão do Exército boliviano (na verdade, eram oficiais estadunidenses que comandavam a caçada).

É tão inverossímil e pouco confiável quanto a "sei quando perco" atribuída a Carlos Lamarca, também capturado com vida e abatido como um animal pelas forças repressivas.

E são simplesmente risíveis as lágrimas de crocodilo que a Veja derrama sobre o túmulo dos "49 jovens inexperientes recrutas que faziam o serviço militar obrigatório na Bolívia" e morreram perseguindo os guerrilheiros. Além de combater um inimigo que tinha esmagadora superioridade de forças e incluía combatentes de elite da maior potência militar do planeta, Guevara ainda deveria ordenar a seus comandados que fizessem uma cuidadosa triagem dos alvos, só disparando contra oficiais...

É o mesmo raciocínio tortuoso que a extrema-direita utiliza para tentar fazer crer que a morte de seus dois únicos e involuntários mártires (Mário Kozel Filho e Alberto Mendes Jr.) tenha tanto peso quanto a de quatro centenas de idealistas que arriscaram conscientemente a vida e a liberdade na resistência à tirania, confrontando a ditadura mais brutal que o Brasil conheceu.

Típica também - e não por acaso -- da retórica das viúvas da ditadura é esta afirmação da Veja sobre o legado de Guevara: "No rastro de suas concepções de revolução pela revolução, a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada e, pior, não totalmente assentada. O mito em torno de Che constitui-se numa muralha que impediu até agora a correta observação de alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas".

Assim, a onda revolucionária que se avolumou na América Latina durante as décadas de 1960 e 1970 teria como causa "as concepções de revolução pela revolução" de Guevara e não a miséria, a degradação e o despotismo a que eram submetidos seus povos. E a responsabilidade pelos banhos de sangue com que as várias ditaduras sufocaram anseios de liberdade e justiça social caberia às vítimas, não aos carrascos.

É o que a propaganda enganosa dos sites fascistas martela dia e noite, tentando desmentir o veredicto definitivo da História sobre os Médicis e Pinochets que protagonizaram "alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas".

Não existe muralha nenhuma impedindo a correta observação desses episódios, tanto que ela já foi feita pelos historiadores mais conceituados e por braços do Estado brasileiro como as comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos. Há, isto sim, a relutância dos verdugos, de seus cúmplices e de seus seguidores, em aceitarem a verdade histórica indiscutível.

E a matéria-de-capa da Veja não passa de mais um exercício do jus esperneandi a que se entregam os que têm esqueletos no armário e os que anseiam por uma recaída totalitária, com os eventos desastrosos e os banhos de sangue correspondentes.


* Jornalista, escritor e ex-preso político, tendo conhecido pessoalmente cerca de 20 mortos e desaparecidos políticos citados no livro Direito à Memória e à Verdade.


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Clube de Cultura - Teologia da Libertação

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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

JORNADA DE ATIVIDADES: CHE VIVE 1967-2007

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Clarice Herzog: “Eu não anistio os torturadores do Vlado”

Julho 12, 2007 às 8:01 pm

Entrevista com a publicitária Clarice Herzog, viúva de Vladimir Herzog.

Por Cylene Dworzak Dalbon

25 de outubro de 1975, Rua Tutóia, cidade de São Paulo. Nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), um homem é torturado com pancadas e choques elétricos. Seus companheiros, na sala ao lado ouvem seus gritos.

O homem recusa-se a assinar um suposto depoimento por não admitir que as informações constantes naquele pedaço de papel sejam verdadeiras. Ele não escrevera nenhuma palavra daquilo. Em um ato de indignação, rasga o papel. E num ato de maior indignação ainda, mesclado a ira, seu torturador o esbofeteia. Os amigos, na outra sala, não ouvem mais seus gritos.

Algumas horas mais tarde, dentro de uma cela no mesmo departamento, uma foto do homem morto, amarrado por uma tira de pano em um pequeno pedaço de ferro no alto da cela. O Inquérito Policial Militar, IPM dá como causa da morte suicídio por enforcamento. Esta era a versão oficial sustentada pelos militares e ignorada pela família. Vladimir Herzog havia sido assassinado e seus torturadores haviam montado uma farsa grotesca para encobrir a barbaridade que haviam feito.

O relato acima caberia muito bem em um romance policial. Mas não é ficção. O fato tenebroso e covarde existiu. Quando os gritos silenciaram, Vladimir Herzog estava morto. Inicia-se então, o começo da luta pela abertura política na história ditatorial que acabaria de fato, 10 anos depois, em 1985. Vlado, como era conhecido por familiares e amigos, é hoje um símbolo, e não só para os jornalistas. E está tão vivo na memória de quem presenciou e viveu a história, como na de pessoas que se apaixonam pela emocionante história de vida de Vlado e se revoltam com a monstruosidade e tristeza de sua morte.

Vladimir Herzog

 Foto: Sindicato dos Jornalistas
          de São Paulo

Em conversa exclusiva com o Jornal Segundas Intenções, a publicitária Clarice Herzog fala do terrível outubro de 1975, quando seu marido, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado dentro das dependências do DOI-CODI pelos órgãos de repressão da ditadura.

O outubro de 1975

“O outubro de 1975 foi complicadíssimo. Ficaram na memória as coisas relacionadas ao que aconteceu com o Vlado. No começo do mês vários jornalistas foram presos. Estava havendo inclusive um encontro nacional de jornalismo e mesmo assim as prisões continuavam. Foram presos muitos jornalistas ligados ao Vlado e da TV Cultura, o Markum, o Anthony, Rodolfo Konder, o Sérgio Gomes. Foi um momento extremamente tenso. Esperávamos que o Vlado fosse preso devido a essas prisões, e discutimos muito sobre qual seria o teor de seu depoimento – o que nunca passou pelas nossas cabeça é que ele acabaria sendo morto. Vlado, naquele momento estava no Partido [Comunista Brasileiro]. Ele nunca foi muito ligado à política, ele não era comunista – aliás era bastante crítico ao partido. Na verdade, o Vlado era um intelectual, ligado a teatro, cinema, que desejava um mundo melhor, um mundo onde as idéias pudessem ser discutidas e respeitadas. Naquela época existiam duas forças contra a ditadura militar: uma era a igreja e a outra o PCB. Como o Vlado era judeu, optou pelo Partido – a sua área de atuação como militante era a discussão da situação cultural no país – a produção artística, nos vários níveis, estava sendo totalmente massacrada pela censura. O motivo da forte repressão contra o PCB, é que ele estava se tornando uma nova e forte frente e enfrentando a ditadura. Mas aconteceu o que não esperávamos que acontecesse: afinal, apesar do Vlado estar envolvido com o partido comunista, tínhamos empregos, passaporte, residência fixa e não éramos envolvidos com a luta armada.”

Londres

“Depois do término do contrato do Vlado com a BBC em Londres, eu retornei primeiro com as crianças e o Vlado ficou mais três meses fazendo um curso sobre TV Educativa. Era pra ele chegar ao Brasil dia 15 de dezembro de 1968 (o AI-05 foi no dia 13). Mas ele não chegou. Antes de vir para o Brasil, ele passou por Roma para se despedir do [Fernando] Birri [cineasta e guru de Vladimir Herzog] e lá em Roma viu a manchete no jornal: “Ditadura Militar no Brasil”. E aí ficou a dúvida, se voltava pra Londres, se vinha para o Brasil. E durante duas semanas permanecemos nessa dúvida. Mas a sensação que nós tínhamos é, mesmo com o A15 seria possível fazer alguma coisa aqui, valia a pena tentar.

O grito da sociedade e o silencio dos judeus

“A morte do Vlado foi um basta. A sociedade civil percebeu que aquilo foi a gota d´água. Na hora em que ele morreu houve uma movimentação. Ele era muito conhecido no Brasil e no exterior; então todo mundo ficou sabendo.

A comunidade judaica nunca deu apoio pra nada. Isso é muito importante que se deixe claro. Não havia rabino no velório nem no enterro do Vlado. O culto ecumênico aconteceu graças ao D. Paulo [Evaristo Arns] – aliás, Dom Paulo também esteve presente no velório. Não houve apoio nenhum da comunidade judaica, muito pelo contrário. Tive apoio de amigos judeus, mas não da comunidade enquanto instituição.”

Correio Brasiliense

“A maneira como foi feita a matéria foi muito sensacionalista, o Correio Brasiliense foi ‘marrom’. Realmente, reconheci a foto de frente como sendo do Vlado; as outras não. A pessoa fotografada era muito parecida com ele, mas houve um engano da minha parte, que só se esclareceu quanto o Nilmário Miranda (Ministro da Comissão dos Direitos Humanos) e o General chefe da segurança do presidente Lula estiveram aqui e me mostraram o dossiê completo da pessoa que tinha sido fotografada e aí percebi que realmente aquele não era o Vlado.”

A ação judicial

“Foi um processo importante porque houve um resgate da justiça brasileira, do judiciário, e isso fez com que outras famílias também entrassem com o processo contra a União. Não pleiteei indenização porque queria que fosse reconhecido publicamente que o Vlado não havia se matado e sim, que havia sido assassinado; e eu tinha medo de que me pagassem a indenização sem qualquer processo porque afinal o Vlado estava sob proteção do Estado.

Clara Charf e Carlos Marighela

“Quando voltei de Londres, eu queria ajudar de alguma forma. Fui então apresentada a Clara Charf que na época tinha um nome de guerra, que eu não lembro qual era. Ela se encontrava, vez ou outra, com o companheiro dela. E quando ia com ele em casa, o Vlado e eu permanecíamos no andar de cima – não queríamos saber quem era a pessoa que estava na clandestinidade. Mas, um dia tive um contato breve com o companheiro da Clara porque ela comentou com ele que eu havia perdido um tio assassinado durante o Estado Novo. Então, ele subiu as escadas e me disse: fui companheiro do seu tio na prisão e posso lhe dizer que ele foi um combatente muito corajoso. E eu não sabia que ele era o Marighela, e nem queria saber. Eu tinha medo de me envolver demais.”

Anistia

“Eu não anistio os torturadores do Vlado. A minha opinião sobre anistia é essa.”

32 anos depois

“Este ano o Vlado completou 70 anos. Dói. É uma dor amenizada, claro, mas ela sempre existe. É uma cicatriz que fica. Pode não estar mais inflamada, mas cada vez que se olha pra ela, lembra-se de toda a dor.”

Saiba mais sobre Vladimir Herzog: Biografia

O criminal bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba. Até quando?


27.09.07 - CUBA

Tirso W. Sáenz *

Adital -
Durante mais de 40 anos Cuba é vítima do bloqueio econômico, comercial e financeiro - o mais prolongado e cruel que tenha conhecido a História da Humanidade - imposto pelo governo dos Estados Unidos. O mundo inteiro conhece desta situação. Inúmeras instituições e organizações, intelectuais, políticos, operários e homens de todas a raças e de diversos credos políticos e religiosos de todo o mundo alçam continuadamente sua voz de protesto contra este crime. Inclusive a comunidade internacional, na Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou, uma vez mais, por esmagadora maioria, em novembro de 2006, uma resolução solicitando o fim do bloqueio.

Por que o bloqueio? Muitas pessoas bem intencionadas não podem compreender como a auto-intitulada "maior democracia no mundo" possa cometer tal agressão contra uma pequena nação do terceiro Mundo. Qual foi seu gravíssimo pecado?

O pecado foi fazer uma Revolução verdadeira, fazer uma Reforma Agrária, recuperar seus recursos naturais de mãos, principalmente, norte-americanas; eliminar o analfabetismo; dar educação e saúde a todo o povo; terminar com o domínio neo-colonial imposto pelos Estados Unidos durante mais de meio século; dar um sentimento próprio de soberania e orgulho nacional; e praticar o internacionalismo e a solidariedade internacional. Essas eram legítimas aspirações de todo o povo cubano desde suas lutas pela independência desde o século XIX.

Isso não podia ser permitido pelos governantes norte-americanos. A Revolução Cubana tinha que ser derrocada por qualquer via. Vejamos um memorando discutido numa reunião chefiada pelo Presidente dos Estados Unidos em abril de 1960:

"Não existe uma oposição política efetiva em Cuba; portanto, o único meio previsível que temos hoje para alienar o apoio interno à Revolução é através do desencantamento e do desânimo, baseados na insatisfação e nas dificuldades econômicas. Deve utilizar-se sem demora qualquer meio concebível para debilitar a vida econômica de Cuba. Negar dinheiro e fornecimentos a Cuba para diminuir os salários reais e monetários visando causar a fome, o desespero e a derrocada do governo".

Essa foi a origem do bloqueio. Além disso: agressões armadas como as de Baía dos Porcos e o financiamento a bandas armadas infiltradas no país, sabotagens a indústrias e centros comerciais, terrorismo - como a explosão da bomba no avião cubano que decolou de Barbados e que matou mais de 80 pessoas. Seus autores passeiam livremente pelas ruas de Miami. Ao mesmo tempo, cinco heróis cubanos sofrem injustas e longas condenações, presos nos EE. UU. por se infiltrarem na máfia anticubana de Miami para debelar seus intentos terroristas.

Apesar dos reclamos da comunidade internacional, o governo Bush adotou novos planos e sanções econômicas como mostra o relatório preparado pelo Governo de Cuba às Nações Unidas: intensificaram a perseguição a empresas e às transações financeiras internacionais de Cuba, incluídas aquelas para pagamentos aos organismos das Nações Unidas; roubaram marcas comerciais, como as reconhecidas Havana Club e Cohiba; novas cifras milionárias dos fundos cubanos congelados nos Estados Unidos; adotaram maiores represálias contra os que comerciam com a Ilha ou vinculam-se a ela a partir de intercâmbios de natureza cultural ou turística; aplicaram maiores pressões sobre os seus aliados para forçá-los a subordinar as relações com Cuba aos objetivos de "mudança de regime" que norteiam a política de hostilidade dos Estados Unidos; e impuseram uma escalada sem precedentes no apoio financeiro e material às ações que visam a derrocada da ordem constitucional cubana.


Nesse relatório (1) se mostram de forma detalhada e precisa os diferentes atos cometidos na aplicação do bloqueio contra Cuba e as medidas adicionais do governo Bush. Vejamos alguns poucos exemplos:

-•No dia 5 de agosto de 2006, visando intensificar a promoção da subversão interna, iniciaram-se as transmissões diárias de "TV Martí" desde um novo avião tipo G-1, que opera de segunda-feira a sexta-feira, das 18h às 23h; uma vez por semana, continuam os sobrevôos do avião militar EC-130J do Pentágono; o Escritório de Transmissões para Cuba (OCB) empregou 10 milhões de dólares para estimular este projeto. Além disso, a OCB alugou no mês de dezembro desse mesmo ano um espaço durante 6 meses em duas emissoras de Miami por um montante de 377 mil e 500 dólares para. Para essas ações, o Governo dos Estados Unidos alocou aproximadamente 37 milhões de dólares.

-•No dia 4 de maio de 2007, a empresa inglesa PSL Energy Services foi multada com um montante de 164 mil dólares por exportar e re-exportar, sem licença dos EUA, equipamento de serviço de campos petrolíferos e serviços técnicos para Cuba.

- Cuba se vê forçada a comprar arroz e grãos num volume que ultrapassa o requerido, o que obriga a maiores capacidades de armazenamento. Sem o bloqueio, poderia importá-los em curtos prazos dos Estados Unidos. No ano 2006, os excedentes desses produtos foram estimados em 28 milhões 829 mil dólares, incorrendo num gasto adicional de 5 milhões 765 mil dólares para manter esses inventários. Além disso, o armazenamento durante um período tão prolongado, nas condições de um clima tropical, provocou perdas, por pragas, de aproximadamente 189 mil 642 dólares.

- O atendimento às crianças cubanas na esfera da anestesia cirúrgica é obstaculizado pelo bloqueio. Cuba não pode adquirir o agente anestésico inalante Sevoflurane patenteado com o nome comercial Sevorane, que se tornou um agente de indução por excelência para a anestesia geral em crianças. Essa patente é exclusiva dos Laboratórios ABBOT, companhia estadunidense que não comercializa com nosso país em cumprimento às leis do bloqueio. O Sistema Cubano de Saúde não tem outra alternativa que utilizar substitutos desse produto, com menor qualidade, em mercados mais longínquos e com o correspondente aumento dos custos.

- Os usuários da Internet em Cuba não podem ter acesso aos serviços gratuitos do Google Earth no endereço http://earth.google.com . Ao tentar ter acesso recebe-se a seguinte resposta: "This product is not available in your country" (Este produto não se encontra disponível em seu país). Igualmente acontece com a atualização dos programas antivírus.

- A importação de matérias-primas, materiais e equipamentos de uso escolar para assegurar o processo docente educativo, como meios audiovisuais, computadores, equipamento de laboratório, reagentes, etc.,. foi seriamente afetada. Cada dia se reduzem mais os intermediários que correm o risco de realizar transações com Cuba pela ameaça das penalidades impostas pelo bloqueio. Tudo isto faz com que aumentem 20% e inclusive 100% nalguns casos, os preços dos produtos que se devem adquirir.

- Mais uma vez, foi negado aos artistas cubanos o direito a participar nas cerimônias dos prêmios Grammy e Grammy Latino. O visto foi denegado a seis dos artistas convidados, por razões descritas das regulamentações migratórias dos Estados Unidos, segundo a qual se proíbe a entrada nos Estados Unidos a qualquer indivíduo cuja entrada seja prejudicial aos interesses desse país. Também foi negado o visto a 15 cineastas cubanos.

- Estima-se que em 2006 o comercio exterior cubano foi afetado pelo bloqueio em valores que ultrapassaram os 1,305 bilhões de dólares. Os maiores impactos registraram-se pela impossibilidade de aceder ao mercado dos EUA. As importações que Cuba realiza não encareceram apenas como resultado de maiores preços, da utilização de intermediários e da necessidade de triangulação para determinados produtos, mas também pelo transporte desde mercados mais longínquos, com o conseqüente aumento dos fretes e seguros.

- O dano econômico direto causado ao povo cubano pela aplicação do bloqueio, em cálculos estimados, ultrapassou os 89 bilhões de dólares. Esta cifra não inclui os danos diretos ocasionados a objetivos econômicos e sociais do país pelas sabotagens e atos terroristas instados, organizados e financiados dos Estados Unidos.Também não inclui o valor dos produtos deixados de produzir ou os danos derivados das onerosas condições creditícias impostas a Cuba.


Além disso, segundo a chamada Lei Helms-Burton que internacionaliza unilateralmente o bloqueio a Cuba, fica proibido:

- Que subsidiárias norte-americanas sediadas em terceiros países realizem qualquer tipo de transação com empresas em Cuba.

- Que empresas de terceiros países exportem para os Estados Unidos produtos de origem cubana ou produtos que na sua elaboração contenham algum componente dessa origem.

- Que empresas de terceiros países vendam bens ou serviços a Cuba, cuja tecnologia contenha mais do que 10% de componentes estadunidenses, ainda que os seus proprietários sejam nacionais desses países.

- Que entrem nos portos estadunidenses navios que transportem produtos desde ou para Cuba, independentemente do país de matrícula.

- Que bancos de terceiros países abram contas em dólares norte-americanos a pessoas jurídicas ou naturais cubanas ou realizem transações financeiras nessa moeda com entidades ou pessoas cubanas.

- Que empresários de terceiros países realizem investimentos ou negócios com Cuba em propriedades vinculadas às reclamações de cidadãos estadunidenses ou que, havendo nascido em Cuba, adquiriram essa cidadania.

Os cubanos, durante mais de 40 anos, têm padecido, sobrevivido e desenvolvem-se nas condições particularmente difíceis que lhes impõe a única superpotência, que procura o aniquilamento da resistência e do exemplo de dignidade e soberania da nação cubana.

Quando se vêem estas atrocidades do governo norte-americano aplicando políticas genocidas e terroristas contra o valoroso e sofrido povo cubano, compreende-se a hipocrisia dos governos norte-americanos que brindaram toda cooperação à sanguinária ditadura de Batista em Cuba, que brindaram todo apoio a seus aliados: as ditaduras de Brasil, Chile, Argentina, Nicarágua, Uruguai, Paraguai, Guatemala e El Salvador. Nenhuma delas foi bloqueada.

Quando terminará este bloqueio contra Cuba? Não é possível predizer. Cuba seguirá avançando na saúde pública, na educação, na economia, nas conquistas sociais, no espírito patriótico e de solidariedade do seu povo e seguirá resistindo "Até a Vitória, Sempre".

Brasília, 22 de setembro de 2007

Nota:

(1) O relatório completo pode ver-se em http://embacu.cubaminrex.cu/Default.aspx?tabid=2236


* Pesquisador Associado do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UNB)

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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A ética comunista de Che Guevara


Os valores éticos na sua concepçom do comunismo e na sua crítica do modelo soviético

Michael Löwy

Nom há dúvida que, quarenta anos depois da sua morte, Ernesto Guevara continua a ser umha referência, a escala planetária, para todos aqueles e aquelas que rejeitam a infámia da ordem –imperial e capitalista– estabelecida e acreditam que “um outro mundo é possível”. Há algo na vida e na mensagem do médico/guerrilheiro argentino/cubano que ainda fala às geraçons de 2007. De outro modo, como explicar esta pletora de obras, artigos, filmes e debates? Nom é um simples efeito comemorativo do aniversário: quem se interessava, em 2003, polos cinqüenta anos da morte de José Estaline? Para além da linguagem, da terminologia, de certos temas e obsessons datadas, fica na figura do Che Guevara um núcleo incandescente que continua a abrasar.

Isto procede de modo particular para a América Latina. A herança do guevarismo, como sensibilidade revolucionária e como resistência irredutível à ordem estabelecida, resta vigorosa na esquerda radical, e em certos movimentos sociais, como o MST (Movimento dos Camponeses Sem Terra) do Brasil ou os piqueteros argentinos. A componente guevarista está também bem presente na origem do grupo que forma o EZLN (Exército Zapatista de Libertaçom Nacional).

O que está a acontecer na Bolívia, país em que Guevara derramou o seu sangue num derradeiro combate? No seu discurso de investidura presidencial em Janeiro de 2006, Evo Morales rendeu homenagem aos “nossos antepassados que luitárom”: “Tupak Katari para restaurar o Tahuantinsuyo, Simón Bolívar para a grande pátria e Che Guevara para um mundo novo feito de igualdade”.

Nas luitas emancipadoras na América Latina, apercebem-se os traços, bem visíveis, bem invisíveis, do pensamento do Che. Está presente tanto no imaginário colectivo dos combatentes, como nos seus debates a respeito dos métodos, da estratégia e da natureza da luita. Pode-se considerar como um dos fios vermelhos com que se tecem, da Patagónia ao Rio Grande, os sonhos, as utopias e as acçons revolucionárias.

Sem dúvida, existem muitas razons para esta sobrevivência de Guevara na entrada do século XXI, mas umha delas é certamente a importáncia da dimensom ética na sua vida e pensamento, nos seus escritos e nos seus actos. Eu proponho que se designe por umha ética comunista: “comunista” nom no senso estreito de aderir a um partido político –e menos ainda de partidário da URSS (senso usual da palavra na linguagem da Guerra Fria), aliás na significaçom originária do termo, tal como Marx e Engels a formulam em O Manifesto Comunista de 1848. Umha significaçom que reenvia aos séculos de luitas de classes, e de combates inspirados polo que Ernst Bloch chamava O Princípio Esperança, isto é, o sonho de umha marcha em pé da humanidade. O comunismo de Marx, que era também o de Lenine e Trotsky em Outubro de 1917, de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht em Janeiro de 1919, de António Gramsci, de Júlio Mella, de José Carlos Mariátegui, de Farabundo Martí, e de tantos outros pensadores e combatentes, nom pode encerrar-se dentro de algum muro, e ainda menos no que caiu em Berlim em 1989.

Antes de Guevara, Mariátegui foi um dos escassos marxistas latino-americanos em atribuir um lugar central à ética na sua interpretaçom do materialismo histórico. No seu livro (póstumo) Defensa del marxismo (1930) dedica muitas páginas à funçom ética do socialismo –publicadas em Cuba no primeiro número da revista Tricontinental– que concluem com esta afirmaçom: a ética socialista “nom surge mecanicamente do interesse económico: ela afirma-se na luita de classes, dada com um espírito heróico, umha vontade apaixonada”. Nom sabemos se o Che conhecia este texto de Mariátegui, tam próximo das suas ideias; nom está excluído que o tivesse lido, pois a sua companheira dos anos 50, a jovem peruana Hilda Gadea, lhe emprestara os escritos de Mariátegui.

A ética comunista de Che Guevara, humanista e revolucionária, estava fundada em alguns valores essenciais: a liberdade (isto é, a libertaçom de toda opressom política ou económica), a igualdade, a solidariedade entre indivíduos e entre povos, a democracia revolucionária, o internacionalismo. A sua procura de um modelo alternativo vai inspirar, a partir de 1963, a tentativa de formular outra via ao socialismo, mais radical, mais igualitária, mais fraternal.

O motor essencial desta procura de um caminho novo –para além de questons económicas específicas, sobre as quais havemos de voltar– é o convencimento de que o socialismo (o comunismo) nom tem senso, e nom pode triunfar, de nom representar um projecto de civilizaçom, umha ética social, um modelo de sociedade totalmente antagónico com os valores do individualismo mesquinho, do egoísmo feroz, da competitividade, da guerra de todos em contra de todos do sistema capitalista, este mundo em que “o ser humano é o lobo do ser humano”.

Para Guevara, a construçom do socialismo é inseparável de certos valores éticos, contrariamente ao que proclamam as concepçons economicistas –desde Estaline até Krutchev e os seus sucessores– que nom se interessam mais que polo “desenvolvimento das forças produtivas”. Na sua célebre entrevista com o jornalista Jean Daniel (Julho de 1963) observava, no que seria umha crítica implícita ao “socialismo real”: “o socialismo económico, sem a moral comunista, nom me interessa. Nós luitamos contra a miséria mas, ao mesmo tempo, contra a alienaçom. (…) Caso o comunismo ignore os factos de consciência, pode ser um método de distribuiçom, mas nunca umha moral revolucionária”.

Caso o socialismo queira luitar contra o capitalismo e vencê-lo no seu próprio terreno, o terreno do produtivismo e do consumismo, ao empregar as suas próprias armas –a forma mercantil, a concorrência, o individualismo egoísta– está condenado ao fracasso. Nom se pode dizer que Guevara avisou do desabamento da URSS mas, de certa forma, intuiu que um sistema “socialista” que nom tolera as divergências, que nom representa valores éticos novos, que pretende imitar o seu adversário e que nom possui umha outra ambiçom que “alcançar e ultrapassar” a produçom das metrópoles capitalistas, nom tem porvir.

De 1959 a 1967, o pensamento do Che evoluiu muito. Afastou-se cada vez mais das ilusons iniciais a respeito do socialismo soviético e do marxismo de tipo soviético, quer dizer, do estalinismo. Numha carta de 1965 a um amigo cubano, criticava duramente o “seguidismo ideológico” que estava a manifestar-se em Cuba com a ediçom de manuais soviéticos para o ensino do marxismo –um ponto de vista coincidente com o defendido, nessa mesma época, por Fernando Martínez, Aurelio Alonso e os seus amigos do Departamento de Filosofia da Universidade de Havana e da revista Pensamiento crítico. Estes manuais –que nomeia como “os calhamaços soviéticos”– “tenhem o inconveniente de nom te deixarem pensar: o Partido já fai isso por ti e tu tés de o digerir”. Percebe-se, de modo cada vez mais explícito, mormente nos seus escritos a partir do debate económico de 1963, o rejeitamento crescente do “decalque e cópia” –estou a pensar aqui na célebre fórmula de Mariátegui: o socialismo indo-americano nom será decalque e cópia doutras experiências, aliás criaçom heróica– e a procura de um modelo alternativo.

Nom é, pois, por acaso que a posiçom, no que di respeito à questom do socialismo “realmente existente” tomou, depois de 1965, a forma de umha crítica radical de um manual soviético.

Trata-se das notas críticas ao Manual de Economia Política da URSS (ediçom em espanhol de 1963) que Che Guevara redigiu, na sua estadia na Tanzánia e em Praga, em 1965-66, após o fracasso da sua missom no Congo e antes de partir para a Bolívia. Há muito tempo, muitíssimo tempo que era esperada a publicaçom desta obra… Durante dezenas de anos, este documento ficou “fora de circulaçom”; logo a seguir à queda da URSS foi permitido consultá-lo a alguns investigadores cubanos, e extrair alguns curtos fragmentos para os seus trabalhos. E é agora, quarenta anos depois da sua redacçom, que se decidiu publicá-lo em Cuba, numha ediçom aumentada que contém outros materiais inéditos: umha carta do Che a Fidel Castro, de Abril de 1965, que serve de Prólogo ao livro, notas sobre escritos de Marx e de Lenine, umha selecçom de conversaçons entre Guevara e os seus colaboradores do Ministério da Indústria (1963-65) –já parcialmente publicadas em França e em Itália nos anos 70–, cartas a diversas personalidades (Paul Sweezy, Charles Bettelheim), e extractos de umha entrevista com o jornal egípcio El-Taliah (Abril de 1965).

Porque as notas de Guevara nom se publicárom mais cedo? Pode, no limite, compreender-se que, antes do fim da URSS, existissem razons “diplomáticas” para ocultar a verdade. Mais, depois de 1991? O prefácio do livro, de Maria del Carmem Ariet, do Centro de Estudos Che Guevara de Havana, nom explica nada, e limita-se a observar que “este texto foi durante anos um dos mais esperados” do Che.

Por fim, este material está agora à disposiçom dos leitores interessados, e é, com efeito, apaixonante. Testemunha à vez a independência de espírito de Guevara, a sua tomada de distáncia crítica em face do modelo de “socialismo realmente existente”, e a sua procura de umha alternativa radical. Mas mostra em simultáneo os limites da sua reflexom.

Principiemos por eles: o Che, neste momento –nom se sabe se o seu pensamento neste tema avançou em 1966-67– nom compreendeu a questom do estalinismo. Atribui os becos sem saída da URSS dos anos sessenta a… a NEP de Lenine! Certamente, ele pensa que, se Lenine tivesse vivido mais tempo –ele cometeu o erro de morrer, anota com ironia– teria corrigido os efeitos mais retrógados dessa política. Mas está convencido de que a introduçom de elementos capitalistas pola NEP conduziu para nefastas tendências que observa na URSS em 1963, ao caminhar no senso de umha restauraçom do capitalismo. Todas as críticas de Guevara à NEP nom som sem interesse e, por vezes, coincidem com as da oposiçom de esquerda em 1925-27; por exemplo, quando está a constatar que no curso dos anos 20, “os quadros aliárom-se ao sistema ao constituirem umha casta privilegiada”. Pergunta a si próprio se nom leu Trotsky –que definia a burocracia como umha “casta”–, mais ele nom o menciona em parte algumha nestas notas… Em todo o caso, a hipótese histórica que fai da NEP responsável polas tendências pró-capitalistas na URSS de Brejnev é, às claras, pouco operativa. Excepto um ou dous comentários, as notas ignoram por completo, de um modo simples, o estalinismo e as monstruosas deformaçons que introduziu no sistema económico, social e político da URSS.

Este documento –com outros materiais publicadosnesta compilaçom de 2006– ao ser ainda pouco conhecido, vamos conceder-lhe um lugar central na nossa discussom da sua concepçom do socialismo.

O socialismo para o Che era o projecto histórico de umha nova sociedade, fundada sobre os valores da igualdade, a solidariedade, o colectivismo, o altruísmo revolucionário, o internacionalismo, o livre debate e participaçom popular. Assim como as suas críticas, crescentes, ao modelo soviético pola sua prática como dirigente e a sua reflexom sobre a experiência cubana inspiradas nesta utopia –no senso que dá Ernst Bloch a esta palavra, umha “paisagem-de-desejo”– comunista.

Quatro aspectos traduzem concretamente a ética revolucionária de Ernesto Guevara e a sua procura de um novo caminho: o internacionalismo; umha concepçom da construçom do socialismo que opom a solidariedade ao indiviualismo mercantil; a questom da livre expressom dos desacordos, e a perspectiva da democracia socialista. Som os dous primeiros que ocupam o lugar principal das suas reflexons: os outros dous –estreitamente ligados– estám muito menos desenvolvidos, com lacunas e contradiçons. Mas estám, contodo, presentes nas suas preocupaçons e na sua prática política. Nom se encontra, nos seus escritos, um pensamento acabado, sistemático, sobre estas questons: muitas pistas, aberturas, janelas que dam para “um outro mundo possível”.

1 O internacionalismo socialista

Há umha frase de José Marti que Guevara gostava de citar nos seus discursos e em que via “a bandeira da dignidade”: “Todo ser humano verdadeiro deve sentir sobre a sua face a pancada dada a nom importa que outro ser humano”. A traduçom política desta dignidade é o internacionalismo. Já agora, o internacionalismo é umha necesidade, um imperativo estratégico no combate contra o imperialismo –é o tema central da sua Carta à Tricontinental (1966)–, mas é, também, umha alta exgigência moral: internacionalista é quem for capaz de “experimentar a angústia quando um homem é assassinado em qualquer parte do mundo e celebrar quando se ergue em qualquer parte umha nova bandeira da liberdade”; o que sente “como umha afronta pessoal toda agressom, toda afronta à dignidade e à felicidade do homem, nom importa em que parte do mundo”.

No seu célebre “Discurso de Argel” (Fevereiro de 1965), Che Guevara exigia dos países que se reclamavam do socialismo “liquidar a sua complicidade tácita com os países exploradores de Ocidente”, que estava a traduzir-se em relaçons de intercámbio desigual com os povos em luita contra o imperialismo. Este assunto volta muitas vezes nas Notas Críticas sobre o Manual Soviético. Enquanto os autores desta obra oficial gabam “a ajuda mútua” entre países socialistas, o antigo Ministro da Indústria cubano está obrigado a constatar que esta nom está a corresponder-se com a realidade: “A presidir o internacionalismo proletário os actos dos governos de cada país socialista (…) isto seria um êxito. Mas o internacionalismo foi substituído polo chauvinismo (de grande potência ou de pequeno país) ou osubmetimento à URSS (…). Isto fere (atenta contra) todos os sonhos honestos dos comunistas do mundo”. Algumhas páginas mais adiante, num comentário irónico a umha afirmaçom do Manual a respeito da divisom do trabalho entre países socialistas, fundada sobre umha “fraternal colaboraçom”, Guevara observa: “A gaiola de grilos (olla de grillos) que é o CAME desmente tal asseveraçom na prática. O texto está a referir-se a um ideal que poderia estabelecer-se somente com umha verdadeira prática do internacionalismo proletário, mas está lamentavelmente ausente hoje”. No mesmo senso, noutro fragmento constata, com amargura, que nas relaçons entre países que se reclamam do socialismo se encontram “fenómenos de expansionismo, de intercámbio desigual, de concorrência, mesmo um certo ponto de exploraçom e certamente de submetimento dos Estados fracos aos fortes”. Numha palavra, quando o Manual fala da necessidade do Estado para “a construçom do comunismo”, a crítica coloca esta questom retórica: “pode construir-se o socialismo num só país?”. Mesmo se Trotsky em modo nengum é mencionado nestas Notas, nom se pode outra cousa que certificar a analogia entre esta advertência e as posiçons da oposiçom comunista de esquerda de 1927… Outra nota interessante vai no mesmo senso: Lenine, observa o Che, “afirmou com claridade o carácter universal da revoluçom, cousa que de seguida foi negada” –umha referência transparente ao “socialismo num só país”, mas, mais umha vez, nom é questom de estalinismo.

2. Por um socialismo da fraternidade

A solidariedade é um vector político e moral tanto para as relaçons entre povos como entre indivíduos: trata-se de momentos dialecticamente inseparáveis. No mesmo discurso de Argel, Guevara insistia: “nom pode existir o socialismo se nom operar nas consciências umha mudança que conduza para umha nova atitude fraternal com a humanidade, tanto a nível do indivíduo, na sociedade em que se constrói ou que constrói o socialismo, como a nível mundial, em relaçom com os povos que estám a sofrer a opressom imperialista”.

O socialismo nom é unicamente umha mudança económica, mas também umha profunda revoluçom moral e cultural –que Guevara designa com o conceito de “homem novo”– em ruptura com o utilitarismo egoísta e mercantil da civilizaçom do capital. Ao analisar no seu ensaio de Março de 1965, O socialismo e o homem em Cuba, os modelos de construçom do socialismo dominantes na Europa oriental, rejeitava a concepçom que pretendia “vencer o capitalismo com os seus próprios feitiços”: “Ao perseguir a quimera de realizar o socialismo com a ajuda das armas poluídas que nos legou o capitalismo –a mercadoria tomada como célula económica, o rendimento, o interesse material individual como alavanca, etc, pode desembocar-se numha via sem saída. Para construir o comunismo, é preciso, ao mesmo tempo que a base material, criar o homem novo”.

Este “homem novo”, portador de umha consciência revolucionária, nom pode desenvolver-se se nom for a partir de valores como a solidariedade e a igualdade. Um documento apaixonante sobre a evoluçom das ideias do Che Guevara som as actas das discussons periódicas que mantinha com os seus colaboradores do Ministério da Indústria. Longos extractos destas actas figuram no mesmo volume, publicado em 2006 em Havana, que as notas críticas sobre o Manual soviético. Despois de umha discussom em Dezembro de 1963, o camarada ministro observava: “O comunismo é um fenómeno de consciência e nom somente um fenómeno de produçom; nom se pode chegar ao comunismo pola simples acumulaçom mecánica de quantidades de produtos postos a disposiçom do povo. Nom se pode chegar ao que Marx definia como comunismo (…) se nom existir um ser humano consciente”.

Num debate de Dezembro de 1964, o Che volta sobre a questom da ausência de igualdade verdadeira no “socialismo real”. Um dos principais perigos do modelo importado dos países do Leste europeu era o aumento da desigualdade social e a formaçom de umha minoria privilegiada de tecnocratas e burocratas: neste sistema de distribuiçom “som os directores os que ganham cada vez mais. Basta ver o último projecto da RDA, a releváncia que assume a gestom do director, ou melhor, a retribuiçom da gestom do director”. Esta questom preocupa-o até o mais alto grau, a tal ponto que a menciona de novo numha carta a Fidel Castro de Abril de 1965 (um pouco antes da sua partida de Cuba) –também publicada, pola primeira vez, na colectánea de 2006– onde ele fai referência ao “interesse material dos dirigentes, princípio da corrupçom”.

O fundo do debate, em 1963-66, à vez com os partidários da “lei do valor no socialismo” -um dogma de Estaline defendido no debate económico cubano por Charles Bettelheim, e contestado por Ernest Mandel– e mais tarde, com as afirmaçons do Manual soviético, era um confronto entre umha visom economicista –a esfera económica como sistema autónomo, regida polas suas próprias leis, como a lei do valor ou as leis do mercado– e umha concepçom política e moral do socialismo, isto é, a tomada de decisons económicas –as prioridades produtivas, os preços, etc. –segundo critérios sociais, éticos e políticos. As proposiçons económicas de Guevara –a planificaçom contra o mercado, o sistema orçamental de financiamento, os estímulos colectivos ou “morais”– tinham como objectivo um modelo de construçom do socialismo fundado nestes critérios e diferente, portanto, do soviético.

3. A liberdade de discussom

A liberdade como valor ético é, para Ernesto Guevara, primeiro que toda a libertaçom em relaçom à dominaçom do capital e a alienaçom mercantil; segundo as Notas críticas ao Manual, trata-se de “libertar o ser humano da sua condiçom de cousa económica”.O que se passa com a liberdade de expressom das divergências? Um aspecto político importante do debate económico dos anos 1963-64, que merece ser alegado, é o facto mesmo da discussom. Quer dizer, o reconhecimento de que a expressom pública dos desacordos é normal num processo de construçom do socialismo. Noutros termos, a legitimaçom de um certo pluralismo democrático na revoluçom. Esta problemática está apenas implícita no debate económico. Guevara nom a desenvolveu de forma explícita ou sistemática. Mas a sua atitude, com diversas retomadas no curso da década de 60, mostra que era favorável ao livre debate, e ao respeito da pluralidade de opinions. A modo de exemplo, numha das discusons com os seus colaboradores (Dezembro de 1964) dirige-se ao seu principal adversário no debate económico cubano, o comandante Alberto Mora : “Faltam ao trabalho de Alberto duas cousas. Ou que nos demonstre que nous avons tort (que estávamos enganados) –o que em modo algum pode ser mau– ou entom que demonstre a si próprio que nom tem razom, o que nom pode ser tampouco mau. Tanto num caso como no outro (Cualquiera de las dos cosas) vai enriquecer-se qualquer cousa que é bastante pobre e que precisa de um trabalho suplementar”.

Outro exemplo interessante é o seu comportamento a respeito dos trotskistas cubanos, com quem nom partilhava de nengum modo as análises (criticou-nos com dureza em diversas ocasions). Em 1961, numha entrevista com um intelectual da esquerda norte-americana Maurice Zeitlin, Guevara denunciou a destruiçom, pola polícia cubana, das placas de impressom de A Revoluçom Permanente de Trotsky, como um “erro” que “nom deveria ter lugar” e alguns anos mais tarde, pouco antes de abandonar Cuba em 1965, ele conseguiu tirar da cadeia o dirigente trotskista cubano Roberto Acosta Hechevarria, a quem manifesta, antes de o deixar com um abraço fraternal: “Acosta, as ideias nom se matam a golpe de matraca”.

Nom obstante, a sua reflexom mais importante neste terreno é a sua resposta –no debate de Dezembro de 1964 com os seus camaradas do Ministério da Indústria já mencionada– a crítica de certos soviéticos, que o acusavam de defender ideias “trotskistas”. “Neste tema, penso que, ou bem temos a capacidade de destruir com argumentos a opiniom contrária, ou bem debemos deixar que se expresse. Nom é possível destruir umha opiniom à força, pois esta bloqueia por completo o livre desenvolvimento da inteligência. Assim, no pensamento de Trotsky podem assumir-se umha série de cousas, mesmo se, como eu penso, está equivocado nas suas concepçons, e a sua acçom posterior foi equivocada” Guevara ajusta ironicamente que os soviéticos o tratárom de “trotskista”, ao aplicar-lhe esta etiqueta como um “Sam Benito”–isto é, o hábito com que a Inquisiçom em Espanha cobria os hereges no momento de os conduzir à fogueira…

Talvez nom seja um acaso que a defesa mais explícita da liberdade de expressom e a crítica mais directa de Guevara ao autoritarismo estaliniano venha de manifestar-se no terreno da arte. No seu célebre ensaio O Socialismo e o Homem em Cuba (1965) denuncia o “realismo socialista” de feitio soviético como imposiçom de umha forma de arte –a que “entendem os funcionários”. Com este método, sublinhava, “está a suprimir-se a autêntica procura artística” e está a impor-se “umha verdadeira camisa de força à expressom artística”.

4. A democracia socialista

A democracia, ou o anti-autoritarismo, era também um valor ético importante para Che Guevara. Já agora, nunca elaborou umha reflexom teórica sustentada a respeito do papel da democracia na transiçom ao socialismo –talvez a maior lacuna da sua obra–, mas rejeitava as concepçons autoritárias e ditatoriais que prejudicárom a tal ponto o socialismo do século XX. Aos que pretendiam, por cima, “educar o povo” –falsa doutrina já criticada por Marx nas suas Teses sobre Feuerbach de 1845 (“quem vai educar os educadores?”), respondia, num discurso de 1960: “A primeira receita para educar o povo (…) é a de o fazer entrar na revoluçom. Nunca convém tentar educar um povo para que, unicamente por meio da educaçom, e um governo despótico por cima, aprenda a conquistar os seus direitos. Ensinade-lhe, antes de mais, a conquistar os seus direitos, e este povo, umha vez representado no governo, aprenderá todo quanto lhe for ensinado, e muito mais: ele será o mestre de todos, sem esforço nengum”. Por outras palavras: a única pedagogia emancipadora é a auto-educaçom dos povos pola própria prática revolucionária –ou, como escrevia Marx em A Ideologia Alemá (1846), “na actividade revolucionária, a mudança de um mesmo coincide com a transformaçom das condiçons”. As notas críticas redigidas em 1966 sobre o Manual de Economia Política soviético vam no mesmo senso: “O terrível crime histórico de Estaline “foi” o de ter desprezado a educaçom comunista e instituído um culto ilimitado da autoridade”. Mágoa que nom desenvolvesse esta ideia …

Guevara rejeita a democracia burguesa, mas –apesar da sua sensibilidade antiburocrática e igualitária– está longe de ter umha visom clara das relaçons entre socialismo e democracia. Em O Socialismo e o Homem em Cuba, reconhece que o Estado revolucionário pode equivocar-se e provocar assim umha reacçom negativa das massas populares, o que o obriga a rectificar –o exemplo que refere é a política sectária do Partido sob a direcçom do quadro estaliniano Aníbal Escalante em 1961-62. Contodo, aponta que “é evidente que este mecanismo nom basta para assegurar umha sucessom de medidas razoáveis: falta umha ligaçom mais estruturada com as massas”. Num primeiro momento, parece encontrar umha soluçom numha vaga “interrelaçom dialéctica” entre os dirigentes e as massas. Nom obstante, umhas páginas mais à frente, avisa de que o problema está longe de ter achado umha soluçom ajeitada, que permita um controlo democrático efectivo: “Esta institucionalidade da Revoluçom ainda nom tivo êxito. Nos estamos a procurar algo novo (…).

No curso do debate económico de 1963-65, a sua principal limitaçom neste terreno era a insuficiência da sua reflexom sobre a relaçom entre democracia e planeamento. Os seus argumentos em defensa da planificaçom e em contra das categorias mercantis som muito importantes e cobram nova actualidade frente à vulgata neoliberal que domina hoje com a sua “religiom do mercado”. Mas deixam na sombra umha questom política chave: quem decide as grandes opçons do plano económico? Quem determina as prioridades da produçom e do consumo? Sem umha verdadeira democracia –isto é: a) pluralismo político; b) livre discussom de prioridades e c) livre eleiçom para a populaçom entre as diversas proposiçons e plataformas económicas propostas –a planificaçom transforma-se inevitavelmente num sistema burocrático, autoritário e ineficaz de “ditadura sobre as necessidades”, como o mostra sobejamente a história da ex-URSS. Por outras palavras: os problemas económicos da transiçom ao socialismo som inseparáveis da natureza do sistema político. A experiência cubana dos últimos trinta anos revela, ela também, as conseqüências negativas da ausência de instituçons democráticas/socialistas –mesmo se Cuba tivo êxito ao evitar as aberraçons burocráticas e totalitárias de outros Estados do assim nomeado “socialismo real”.

Quem deve planificar? O debate de 1963-64 nom respondeu a esta questom. É neste tema que se encontram os avanços de mais interesse nas notas de 1965-66. Ao criticar umha vez mais o modelo soviético escreve: “Em contradiçom com umha concepçom do plano como decisom económica de massas conscientes dos interesses populares, oferece-se um placebo, em que só os elementos económicos decidem sobre o destino colectivo. É um procedimento mecanicista, anti-marxista. As massas devem ter a possibilidade de dirigirem o seu destino, de decidirem qual é a parte da produçom que irá à acumulaçom e qual será consumida. A técnica económica tem de operar nos limites destas indicaçons e a consciência das massas deve assegurar a sua aplicaçom”. Este tema é retomado em diversas ocasións: os obreiros, escreve, o povo em geral, “decidirám sobre os grandes problemas do país (taxas de crescimento, acumulaçom/consumo), mesmo se o plano é obra de especialistas”. (25) Pode criticar-se esta separaçom em excesso mecánica entre as decisons económicas e a sua execuçom, mas por estas formulaçons Guevara está a aproximar-se consideravelmente da ideia de planificaçom socialista democrática, tal como, por exemplo, a formulava Ernest Mandel. Nom extrai todas as conclusons políticas –democratizaçom do poder, pluralismo político, liberdade de organizaçom–, mas nom se pode negar a releváncia desta visom nova da democracia económica.

Podem-se considerar estas notas como umha etapa importante no caminho do Che Guevara de cara a umha alternativa comunista/democrática face ao modelo (estalinista) soviético. Um caminho brutalmente interrompido polos assassinos bolivianos ao serviço da CIA em Outubro de 1967.

Michael Löwy é teórico marxista, especialista na questom nacional e no Che Guevara, e militante da LCR francesa.

Evo Morales Aima, Pour em finir avec l’État colonial, Paris, L’Esprit frappeur, 2006, p. 36.

Tricontinentale, nº 1, éd. Francesa, 1968, p. 20.

In L’Express, 25 de Julho de 1963, p. 9.

Esta carta fai parte dos materiais do Che que ficam inéditos por enquanto… Nom figura na colectánea de 2006. Carlos Tablada refere a mesma no seu artigo “Le marxisme du Che Guevara”, Alternatives Sud, vol. III, 1996, 2, p. 168.

Ernesto Che Guevara, Apuntes críticos a la economía política. Ocean Press/Editorial de Ciencias Humanas, Havana, 2006.

Guevara, Apuntes críticos…pp. 27, 12, 195. Janette Habel observa, com razom: “Longe das deformaçons estalinistas, as premissas do Che eram humanistas e revolucionárias… Mas é verdade que punha o acento em excesso na crítica económica, sobre o peso das relaçons mercantis e insuficientemente sobre o carácter policial e repressivo do sistema político soviético”. (J. Habel, Prefácio a M. Löwy, La pensée de Che Guevara. Paris, Syllepse, 1997, p. 11).

Fernando Martínez Heredia tem razom ao sublinhar: “o inacabamento do pensamento do Che (…) mesmo tem aspectos positivos. O grande pensador está a assinalar problemas e caminhos (…), ao exigir dos seus camaradas pensar, estudar, combinar a prática e a teoria. É impossível, quando se assume realmente o seu pensamento, dogmatizá-lo, convertê-lo noutro bastiom especulativo e noutro depósito de frases e receitas”. F. Martínez, “Che, el socialismo y el comunismo”, in Pensar el Che, Centro de Estudios sobre América-Editorial José Martí, Havana, 1989, tomo II, p. 30. Ver também o seu livro com o mesmo título Che, el socialismo y el comunismo, Havana, Premio Casa de las Américas, 1989.

Ernesto Guevara, Textes politiques, Paris, Maspero, 1970, pp. 118, 137.

Ernesto Che Guevara, Obras 1957–1967. Paris, François Maspero, 1970, tomo II, p. 574.

Conselho de Ajuda Económica Mútua, umha espécie de Mercado Comum dos países do “socialismoreal”.

Apuntes críticos…pp. 130, 190-191, 228.

Obras II, p. 574.

Obras II, pp. 371-372.

Apuntes críticos…, p. 270-271.

Apuntes críticos…, p. 372. Umha parte destas actas já fora publicada em italiano no jornal Il Manifesto e traduzida para francês sob o título “Le plan et les hommes”, num volume organizado em 1972: Ernesto Che Guevara, Oeuvres. Paris, Maspero, 1972, vol. VI, Textes inédits, p. 90.

Apuntes críticos…, p. 10.

Ibid., p. 130.

Ibid., p. 377.

“Interview with Maurice Zeitlin”, in R. E. Bonachea and N. P. Valdes (ed), Che: Selected Works of Ernesto Guevara. MIT Press, 1969, p. 391 and “Am Interwiew with Roberto Acosta Hechevarria”, in Gary Tennant, The Hiddem Pearl of the Caribbean: Trotskysm in Cuba. London, Porcupine Press, 2000, p. 246. Segundo Roberto Acosta, Guevara prometera-lhe que um dia, no futuro, as publicaçons trotskistas seriam legalmente permitidas em Cuba (p. 249).

Apuntes críticos…, pp. 369-370. Em francês, Oeuvres VI, p. 86-87.

E. Guevara, Obras II, p. 379.

E. Guevara, Obras II, p. 87.

Apuntes críticos…, p. 195.

E. Che Guevara, Obras II, pp. 369, 375.

Apuntes críticos…, pp. 132-133, 183.



Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



ZZ - ESTUDAR SEMPRE

  • A Condição Pós-Moderna - DAVID HARVEY
  • A Condição Pós-Moderna - Jean-François Lyotard
  • A era do capital - HOBSBAWM, E. J
  • Antonio Gramsci – vida e obra de um comunista revolucionário
  • Apuntes Criticos A La Economia Politica - Ernesto Che Guevara
  • As armas de ontem, por Max Marambio,
  • BOLÍVIA jakaskiwa - Mariléia M. Leal Caruso e Raimundo C. Caruso
  • Cultura de Consumo e Pós-Modernismo - Mike Featherstone
  • Dissidentes ou mercenários? Objetivo: liquidar a Revolução Cubana - Hernando Calvo Ospina e Katlijn Declercq
  • Ensaios sobre consciência e emancipação - Mauro Iasi
  • Esquerdas e Esquerdismo - Da Primeira Internacional a Porto Alegre - Octavio Rodríguez Araujo
  • Fenomenologia do Espírito. Autor:. Georg Wilhelm Friedrich Hegel
  • Fidel Castro: biografia a duas vozes - Ignacio Ramonet
  • Haciendo posible lo imposible — La Izquierda en el umbral del siglo XXI - Marta Harnecker
  • Hegemonias e Emancipações no século XXI - Emir Sader Ana Esther Ceceña Jaime Caycedo Jaime Estay Berenice Ramírez Armando Bartra Raúl Ornelas José María Gómez Edgardo Lande
  • HISTÓRIA COMO HISTÓRIA DA LIBERDADE - Benedetto Croce
  • Individualismo e Cultura - Gilberto Velho
  • Lênin e a Revolução, por Jean Salem
  • O Anti-Édipo — Capitalismo e Esquizofrenia Gilles Deleuze Félix Guattari
  • O Demônio da Teoria: Literatura e Senso Comum - Antoine Compagnon
  • O Marxismo de Che e o Socialismo no Século XXI - Carlos Tablada
  • O MST e a Constituição. Um sujeito histórico na luta pela reforma agrária no Brasil - Delze dos Santos Laureano
  • Os 10 Dias Que Abalaram o Mundo - JOHN REED
  • Para Ler O Pato Donald - Ariel Dorfman - Armand Mattelart.
  • Pós-Modernismo - A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio - Frederic Jameson
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira
  • Simulacro e Poder - uma análise da mídia, de Marilena Chauí (Editora Perseu Abramo, 142 páginas)
  • Soberania e autodeterminação – a luta na ONU. Discursos históricos - Che, Allende, Arafat e Chávez
  • Um homem, um povo - Marta Harnecker

zz - Estudar Sempre/CLÁSSICOS DA HISTÓRIA, FILOSOFIA E ECONOMIA POLÍTICA

  • A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo - Lênin
  • A História me absolverá - Fidel Castro Ruz
  • A ideologia alemã - Karl Marx e Friedrich Engels
  • A República 'Comunista' Cristã dos Guaranis (1610-1768) - Clóvis Lugon
  • A Revolução antes da Revolução. As guerras camponesas na Alemanha. Revolução e contra-revolução na Alemanha - Friedrich Engels
  • A Revolução antes da Revolução. As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França - Karl Marx
  • A Revolução Burguesa no Brasil - Florestan Fernandes
  • A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky - Lênin
  • A sagrada família - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Antígona, de Sófocles
  • As tarefas revolucionárias da juventude - Lenin, Fidel e Frei Betto
  • As três fontes - V. I. Lenin
  • CASA-GRANDE & senzala - Gilberto Freyre
  • Crítica Eurocomunismo - Ernest Mandel
  • Dialética do Concreto - KOSIK, Karel
  • Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico - Friedrich Engels
  • Do sonho às coisas - José Carlos Mariátegui
  • Ensaios Sobre a Revolução Chilena - Manuel Castells, Ruy Mauro Marini e/ou Carlos altamiro
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  • Eurocomunismo e Estado - Santiago Carrillo
  • Fenomenologia da Percepção - MERLEAU-PONTY, Maurice
  • História do socialismo e das lutas sociais - Max Beer
  • Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels
  • MANUAL DE ESTRATÉGIA SUBVERSIVA - Vo Nguyen Giap
  • MANUAL DE MARXISMO-LENINISMO - OTTO KUUSINEN
  • Manuscritos econômico filosóficos - MARX, Karl
  • Mensagem do Comitê Central à Liga dosComunistas - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Minima Moralia - Theodor Wiesengrund Adorno
  • O Ano I da Revolução Russa - Victor Serge
  • O Caminho do Poder - Karl Kautsky
  • O Marxismo e o Estado - Norberto Bobbio e outros
  • O Que Todo Revolucionário Deve Saber Sobre a Repressão - Victo Serge
  • Orestéia, de Ésquilo
  • Os irredutíveis - Daniel Bensaïd
  • Que Fazer? - Lênin
  • Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda
  • Reforma ou Revolução - Rosa Luxemburgo
  • Revolução Mexicana - antecedentes, desenvolvimento, conseqüências - Rodolfo Bórquez Bustos, Rafael Alarcón Medina, Marco Antonio Basilio Loza
  • Revolução Russa - L. Trotsky
  • Sete ensaios de interpretação da realidade peruana - José Carlos Mariátegui/ Editora Expressão Popular
  • Sobre a Ditadura do Proletariado - Étienne Balibar
  • Sobre a evolução do conceito de campesinato - Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA

  • 1984 - George Orwell
  • A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
  • A Espera dos Bárbaros - J.M. Coetzee
  • A hora da estrela - Clarice Lispector
  • A Leste do Éden - John Steinbeck,
  • A Mãe, MÁXIMO GORKI
  • A Peste - Albert Camus
  • A Revolução do Bichos - George Orwell
  • Admirável Mundo Novo - ALDOUS HUXLEY
  • Ainda é Tempo de Viver - Roger Garaud
  • Aleph - Jorge Luis Borges
  • As cartas do Pe. Antônio Veira
  • As Minhas Universidades, MÁXIMO GORKI
  • Assim foi temperado o aço - Nikolai Ostrovski
  • Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez
  • Contos - Jack London
  • Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • Desonra, de John Maxwell Coetzee
  • Desça Moisés ( WILLIAM FAULKNER)
  • Don Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes
  • Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado
  • Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
  • Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago
  • Fausto - JOHANN WOLFGANG GOETHE
  • Ficções - Jorge Luis Borges
  • Guerra e Paz - LEON TOLSTOI
  • Incidente em Antares, de Érico Veríssimo
  • Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
  • O Alienista - Machado de Assis
  • O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
  • O Contrato de Casamento, de Honoré de Balzac
  • O Estrangeiro - Albert Camus
  • O homem revoltado - Albert Camus
  • O jogo da Amarelinha – Júlio Cortazar
  • O livro de Areia – Jorge Luis Borges
  • O mercador de Veneza, de William Shakespeare
  • O mito de Sísifo, de Albert Camus
  • O Nome da Rosa - Umberto Eco
  • O Processo - Franz Kafka
  • O Príncipe de Nicolau Maquiavel
  • O Senhor das Moscas, WILLIAM GOLDING
  • O Som e a Fúria (WILLIAM FAULKNER)
  • O ULTIMO LEITOR - PIGLIA, RICARDO
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Os Invencidos, WILLIAM FAULKNER
  • Os Miseravéis - Victor Hugo
  • Os Prêmios – Júlio Cortazar
  • OS TRABALHADORES DO MAR - Vitor Hugo
  • Por Quem os Sinos Dobram - ERNEST HEMINGWAY
  • São Bernardo - Graciliano Ramos
  • Vidas secas - Graciliano Ramos
  • VINHAS DA IRA, (JOHN STEINBECK)

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA GUERRILHEIRA

  • A Guerra de Guerrilhas - Comandante Che Guevara
  • A montanha é algo mais que uma imensa estepe verde - Omar Cabezas
  • Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana - Florestan Fernandes
  • EZLN – Passos de uma rebeldia - Emilio Gennari
  • Imagens da revolução – documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971; Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá
  • O Diário do Che na Bolívia
  • PODER E CONTRAPODER NA AMÉRICA LATINA Autor: FLORESTAN FERNANDES
  • Rebelde – testemunho de um combatente - Fernando Vecino Alegret

ZZ- Estudar Sempre /GEOGRAFIA EM MOVIMENTO

  • Abordagens e concepções de território - Marcos Aurélio Saquet
  • Campesinato e territórios em disputa - Eliane Tomiasi Paulino, João Edmilson Fabrini (organizadores)
  • Cidade e Campo - relações e contradições entre urbano e rural - Maria Encarnação Beltrão Sposito e Arthur Magon Whitacker (orgs)
  • Cidades Médias - produção do espaço urbano e regional - Eliseu Savério Sposito, M. Encarnação Beltrão Sposito, Oscar Sobarzo (orgs)
  • Cidades Médias: espaços em transição - Maria Encarnação Beltrão Spósito (org.)
  • Geografia Agrária - teoria e poder - Bernardo Mançano Fernandes, Marta Inez Medeiros Marques, Júlio César Suzuki (orgs.)
  • Geomorfologia - aplicações e metodologias - João Osvaldo Rodrigues Nunes e Paulo César Rocha
  • Indústria, ordenamento do território e transportes - a contribuição de André Fischer. Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski e Eliseu Savério Spósito
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira