quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Antecedentes históricos da transformação sociopolítica de Cuba[1]

Sérgio Cervantes*

Cuba foi a última colônia da Espanha na América Latina e hoje é o primeiro país socialista neste hemisfério. Para cumprir este destino histórico singular, nossa pátria venceu obstáculos que pareciam intransponíveis.

A formação sociopolítica de Cuba resulta de diversos fatores internos e externos, ocorridos durante o grande período de tempo desde a época colonial espanhola até a norte-americana, que se estabeleceu depois da guerra pela independência cubana que foi boicotada e continuou com o triunfo da Revolução e do modelo socialista que estamos desenvolvendo sob a direção do nosso Comandante-em-Chefe, Fidel Castro Ruz.

Os fatores internos presentes naquele momento histórico, como o crescente grau de exploração colonialista que a Espanha exercia sobre Cuba; a histórica e imperiosa necessidade de abolir a escravidão; o crescimento e o desenvolvimento do sentimento nacional autônomo; assim como a maturidade patriótica, ajudaram a compreender a importância de desencadear a revolução anticolonial para libertar a Pátria.

Influenciaram também alguns elementos externos da realidade sócio-econômica insular, que se mostraram determinantes na hora de iniciar a preparação da revolta de 10 de outubro de 1868, dia em que começou a contenda dirigida pelo Pai da Pátria, Carlos Manuel de Céspedes.

A América Latina e a Revolução Cubana da época

Foi uma preocupação constante da Revolução atrair as simpatias e a solidariedade do Continente, tanto dos povos como de seus respectivos governos, o que representava a possibilidade de divulgar a justeza do combate anticolonialista e garantir a possibilidade de obter recursos bélicos.

Entretanto a realidade continental não podia respaldar cabalmente as necessidades concretas dos mambises[2], já que o grau de desenvolvimento das forças produtivas latino-americanas era extremamente pobre. Mesmo quando a ajuda material dos povos irmãos não tinha a energia necessária, um grande êxito da revolução foi capitalizar a seu favor os sentimentos anti-hispânicos do Continente.

Os governos latino-americanos solidarizaram-se abertamente com a ação dos revolucionários cubanos. Desde abril de 1869 até setembro de 1871, o México, El Salvador, a Colômbia, a Venezuela, o Peru, a Bolívia, o Chile, o Brasil e logo a Guatemala tornaram público seu reconhecimento ao estado de beligerância em Cuba, o que equivalia a conseguir facilidades amplas para a causa da independência.

O interesse norte-americano por Cuba

A aspiração de anexar Cuba sempre foi o principal propósito dos dirigentes dos Estados Unidos, desde o início dessa república, manifestado em reiteradas ocasiões por distintos governantes e homens públicos, como a expressão lógica dos princípios do destino manifesto. Ainda que, na realidade, interessava-lhes que Cuba continuasse sendo espanhola até que passasse a ser norte-americana.

A intervenção norte-americana não introduziu um terceiro elemento nesta guerra, mas tão somente uma irregularidade na luta que se travava entre Espanha e Cuba que constituía a clássica batalha anticolonial, de caráter nacional-libertador, de onde se deriva seu nome de guerra hispano-cubana. Historicamente o que sucedeu foi que a esta guerra foi sobreposta outra guerra, aquela travada pelos Estados Unidos e Espanha, o primeiro para se apoderar e o segundo para permanecer em Cuba. Em outras palavras, um novo colonialismo que produziu a batalha histórica para retirar da arena cubana um velho colonialismo.

A primeira guerra da independência em 1868, embora tenha sido iniciada e liderada por patriotas cubanos que procediam de famílias ricas, teve o peso fundamental da batalha recaído sobre os setores mais modestos do povo, que em luta desigual e incomparavelmente heróica mantiveram a luta durante dez anos antes de caírem vencidos, mais devido à divisão e à intriga, do que pelas armas inimigas.

Foi então que Antonio Maceo, um homem surgido das alas mais humildes, rechaçando o cessar fogo e a paz sem independência, converteu-se em um símbolo do espírito e da indomável vontade de luta de nosso povo, ao representar o imortal Protesto de Barágua.

Em 1895, de novo os cubanos levantaram armas. Desta vez a luta fora preparada politicamente ao longo de vários anos, sob a liderança de José Martí, cujo gênio político atravessou as fronteiras de sua terra e sua época ao organizar um partido para dirigir a revolução. Esta idéia, que paralelamente desenvolvera também Lênin para levar a cabo a revolução socialista no velho império dos czares, é uma das mais admiráveis contribuições de Martí ao pensamento político.

Sem recursos, sem suprimentos e logística, com uma população de pouco mais de um milhão e meio de habitantes, o povo de Cuba lutou contra trezentos mil soldados coloniais. A Espanha era então uma das maiores potências militares da Europa.

Tomaram parte ativa na luta pela nossa independência cidadãos provenientes de outros povos irmãos, que vieram por sua própria conta para lutar pela liberdade da nossa pátria. Um símbolo de todos eles foi o ilustre dominicano Máximo Gómez, que alcançou a patente de General do nosso exército. Belas páginas de solidariedade foram escritas por estes homens nos campos de Cuba.

Após a derrota da Espanha, em 10 de dezembro de 1898, foi firmado o Tratado de Paris entre os representantes da rainha-regente da Espanha e o presidente dos EUA, no qual sem o conhecimento de Cuba ambos entraram em acordo de que a Espanha renunciaria a todos os direitos de soberania e propriedade sobre a ilha, além de retirar-se de lá. Temporariamente, Cuba seria ocupada pelos Estados Unidos. Em 1902, o país havia simplesmente mudado de dono. O glorioso Exército Libertador foi licenciado. Governos entreguistas e leoninos convênios econômicos foram impostos ao país.

A economia cresceu deformada e com absoluta dependência dos interesses norte-americanos. A mais incrível corrupção foi estabelecida como prática habitual na administração pública. As facções políticas a serviço dos interesses estrangeiros repartiam entre si os postos, benefícios e cargos públicos.

Todo o aparato de força, a administração, o Parlamento e o Poder Judiciário existiam unicamente para servir aos interesses dos monopolistas ianques, dos latifundiários e burgueses. A prostituição e o jogo floresciam por todas as partes. A discriminação racial foi acentuada com o domínio dos EUA. As crises econômicas capitalistas gravitavam no país com tremenda força, em cada caso os EUA faziam recair sobre Cuba seus piores efeitos. Nossa política exterior era faturada em Washington.

A tarefa de libertar a nação da dominação imperialista naquele momento se unia inevitavelmente à de libertar a exploração do homem pelo homem no seio da nossa sociedade. Ter compreendido isso foi, em nossa opinião, o maior mérito histórico de Baliño e Mella quando fundaram, com um punhado de homens, o primeiro Partido Marxista-Leninista de Cuba, em 1925.

Em combates heróicos de nosso povo contra a tirania machadista[3], na década de 1930, a nossa classe operária, dirigida pelos comunistas, jogou um papel relevante. O nosso esforço heróico daqueles anos rendeu frutos extraordinários à vida do nosso país.

A Emenda Latt foi abolida como resultado da luta enérgica de nosso povo nessa época.

Durante todo este período, até 1952, o cenário político-econômico se manteve da igual. Sem mostrar nenhuma mudança favorável aos setores marginalizados e mantendo a subordinação aos desígnios impostos pelos Estados Unidos.

Em 1952 ocorreu o fatídico golpe militar de 10 de março. Batista que havia saído do poder em 1944 levando consigo dezenas de milhões de pesos, deixara nos quartéis o mesmo exército mercenário que usufruindo de incontáveis benefícios o apoiou durante 11 anos. Este aparato de terror na mão dos opressores constituía um obstáculo extraordinário ao desenvolvimento político e social do país. Treinado e equipado pelos EUA, na opinião de muitos, aquele exército representava uma força invencível.

Os partidos e as lideranças tradicionais foram absolutamente incapazes de articular uma resistência à ditadura militar reacionária. Em meio a esta situação, a ideologia burguesa e pró-imperialista dominava o cenário político. O anticomunismo em pleno apogeu da guerra-fria marcava a tônica em todos os meios de comunicação de massa. Embora houvesse um destacamento abnegado e combativo de comunistas cubanos, a burguesia e o imperialismo conseguiram isolá-los politicamente.

Continuidade histórica da Revolução Cubana

Não há situação social e política, por mais complicada que pareça, sem que haja uma saída possível. Quando há condições objetivas para a revolução, certos fatores subjetivos podem jogar um papel importante nos acontecimentos. Ainda que isso não constitua um mérito particular dos homens que elaboraram uma estratégia revolucionária, sem dúvida ela se saiu vitoriosa.

Eles receberam a valiosa experiência de nossas lutas no terreno militar e político; inspiraram-se nas heróicas batalhas pela nossa independência, nutriram-se do pensamento político que orientou a revolução de 1895 e a doutrina revolucionária que alenta a luta social libertária dos tempos modernos, apoiando-se em sólidos pilares: o povo, a experiência histórica, os ensinamentos de José Martí, os princípios do marxismo-leninismo e uma apreciação correta daquilo que nas condições peculiares de Cuba podia e devia ser feito naquele momento.

Destas convicções e realidades históricas surgiu o ataque heróico ao Quartel Moncada, sem o qual não teria havido o desembarque do Iate Granma, a luta em Sierra Maestra e a vitória extraordinária em Primeiro de Janeiro de 1959. Da mesma forma, sem a epopéia de 1868 e 1895, Cuba não seria independente nem o primeiro país socialista das Américas, pelo contrário, com quase com toda a segurança, teria sido mais um Estado do odioso imperialismo ianque.

Todas as manobras imperialistas de última hora: golpe de Estado militar, governo provisório etc., foram destruídas. O imperialismo tinha que aplicá-las agora em uma nação latino-americana sem exército repressivo e com um povo armado. Isso significou o Primeiro de Janeiro de 1959. Aos 92 anos de La Demajagua, finalmente Cuba era dona absoluta de seu destino e as bandeiras dos heróis caídos em Moncada tremulavam vitoriosas em nossa pátria.

As principais medidas tomadas nos primeiros meses da Revolução tiveram o objetivo de castigar exemplarmente os principais responsáveis pelos crimes cometidos pela tirania de Batista, o que deu lugar a uma feroz campanha da imprensa imperialista contra a Revolução; confiscar imediatamente todos os bens mal havidos por funcionários do sangrento regime, o que ocorreu pela primeira vez na nossa história; dissolver o antigo exército que reprimira cruelmente o nosso povo; sanear a administração pública; erradicar a distribuição de cargos e a prática de receber salários sem desempenhar cargos; dissolver os partidos políticos que serviram à oposição; liquidar a direção dos sindicatos, corrompida e entreguista, restabelecendo os direitos dos trabalhadores; reintegrar a seus cargos os servidores despedidos; intervir na Companhia Cubana de Telefones, monopólio ianque implicado em negócios escusos com a tirania; diminuir na ordem de 50% os onerosos impostos pagos pelo povo; declarar que todas as praias do país passavam a ser públicas, suprimindo a exclusividade e a discriminação estabelecida pela burguesia; instalar a primeira Lei de Reforma Agrária; diminuir as tarifas elétricas; combater o desemprego e promover a melhoria das péssimas condições da educação e da saúde pública, com esse objetivo milhares de professores foram enviados às zonas rurais e numerosos hospitais começaram a ser construídos nos rincões mais distantes de nossos campos; iniciar o trabalho de erradicação dos bairros de indigentes.

Além da economia, todos os meios de divulgação massiva encontravam-se ainda nas mãos da burguesia e a nossa sociedade estava infestada de ideologia reacionária e anticomunista.

Na realidade, o povo adquiriu consciência socialista com o desenvolvimento da Revolução e a violenta luta de classes desencadeada, tanto no plano nacional quanto internacional. A luta de interesses do povo com seus opressores gerou a Revolução e a Revolução elevou esta luta a um nível ainda mais alto. E esta luta desenvolveu extraordinariamente a consciência das massas.

Paralelamente, os EUA centraram suas agressões no sentido de incrementar a migração de profissionais, técnicos, professores e milhares de médicos (dos 3.000 que existiam no país, ficaram apenas 1.500).

Estas ações podem ser consideradas como o último movimento anexionista encenado pelas classes reacionárias em Cuba. Entretanto, neste caso, para realizar seus próprios sonhos as pessoas aderiram ao império e não à pátria.

A defesa da Revolução e de seu caráter essencialmente socialista foi ontem, é hoje, e continuará sendo no futuro a prioridade principal do país, a qual se sustenta em nossa história de lutas. Não serão poupados esforços e recursos para fortalecer a defesa da Revolução e tornar realidade, se for necessário, os objetivos da concepção de A Guerra de todo o Povo.

O bloqueio norte-americano contra Cuba, realmente é uma guerra econômica que pode ser qualificada como um ato de genocídio, resultando no mais prolongado e cruel bloqueio que já se conheceu na história da humanidade. Nestes 48 anos, 7 em cada 10 cubanos nasceram e viveram sob o bloqueio, cujo dano econômico ao país supera a cifra de 86 milhões de dólares.

Depois do desaparecimento do Campo Socialista, com o qual Cuba mantinha 85% das suas relações comerciais com preços mutuamente benéficos, o PIB do nosso país chegou a cair 35% entre os anos 90 e 92, provocando a implantação do chamado Período Especial com o que nos propusemos a resistir, continuar o desenvolvimento e manter nosso projeto socialista.

O governo dos EUA se aproveitou, então, para recrudescer o bloqueio por meio da adição de leis mais agressivas, como a Torricelli e a Helms-Burton que passaram a conceder caráter extraterritorial à sua política de agressão, com o objetivo de acelerar a derrocada da nossa Revolução.

Em meio ao Plano Especial, derivado de uma análise e discussão popular, foram implantadas medidas que introduziram mudanças na economia controlada pelo Estado, assim como abertura ao turismo, a não-taxação do dólar e a possibilidade do trabalho por conta própria.

Nesta situação econômica tão complexa, muitos esperavam que a Revolução entrasse em colapso. Entretanto, nem uma só escola, nem um único hospital foram fechados e muito menos privatizados. Nem um único trabalhador foi abandonado à sua própria sorte. Graças à abnegação, resistência e lealdade do povo cubano à nossa Revolução, já a partir de 1994 começaram a ser registrados discretos crescimentos indicativos do processo de recuperação em marcha.

No ano de 2005, o crescimento do PIB foi de 11,8%. O ano passado, 2006, registrou um crescimento de 12,5%, depois que a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), aceitou publicamente a inclusão nos indicadores dos serviços de saúde e de educação que são gratuitos, mas financiados pelo Estado e possuem um valor mensurável em termos econômicos. Se estes elementos não fossem levados em conta no PIB, a economia cubana teria crescido 9,5% em 2006.

Inspirada em um pensamento de nosso herói nacional, José Martí, que diz: De pensamentos é a guerra que nos é feita. Vamos ganhá-la também em pensamentos, faz sete anos que se iniciou o que chamamos de Batalha de Idéias e que consiste em aprofundar e aperfeiçoar a obra da Revolução, por meio de 200 programas sociais desenvolvidos nas áreas de educação, saúde, segurança e assistência social, cultura, esportes e recreação.

Estudos realizados comprovam que nossos estudantes do nível primário aprendem 2,2 vezes mais matemática e 1,5 vez mais espanhol do que há quatro anos; em nível de ensino secundário se distribui as principais matérias de estudos por meio de vídeoclasses e outras formas por meio de dois canais de TV; a Universalização da Educação Superior possibilita cursar carreiras universitárias no próprio município onde o aluno reside, o que motivou a matrícula demais de 600 mil estudantes; o programa de Assistentes Sociais se estende por todo o país para dar atenção a crianças de até 15 anos que apresentem problemas nutricionais, jovens com problemas de conduta, crianças que padecem de enfermidades malignas, auxiliar pessoas da terceira idade, entre outros pontos; e a criação da Universidade de Ciências Informáticas onde ser graduam mas de seis mil jovens.

A Revolução Energética que acontece no país, começou a mostrar seus benefícios, sobressaindo à instalação de grupos geradores elétricos que funcionam com diesel e o início dos que trabalham com óleo combustível, assim como o maior peso alcançado na estrutura de geração de energia por grupos geradores elétricos e a gás.

Nosso Partido e Governo sempre deram a maior importância aos processos de integração entre os países da região, assim como ao desenvolvimento das relações mutuamente vantajosas de intercâmbio e colaboração.

A solidariedade esteve presente durante toda a construção da nossa Revolução, concebida não para dar o que nos sobra, mas para compartilhar com povos irmãos o pouco que temos.

No ano de 1999, foi criada a Escola Latino-americana de Medicina (ELAM), a qual conta com mais de 10 mil estudantes procedentes de 20 países. Durante a primeira graduação deste centro, formaram-se 1.497 jovens, dos quais 504 retornaram ao nosso país para cursar a especialidade em Medicina Geral Integral. No segundo ano de graduação, formaram-se 1.489 jovens. Foi criada também a Escola Internacional de Educação Física e Esportes, na qual estudam 944 jovens de 31 países. Em todos estes anos graduaram-se em Cuba, 12.900 jovens de 38 países, destes, 4.106 em nível médio e 8.974 em nível superior. Estudam em diferentes cursos 21.091 alunos provenientes de 17 países. Graduaram-se como Assistentes Sociais em cursos de curta duração 54.872 jovens, dos quais 1.208 são bolivianos e 53.664 venezuelanos.

O programa de alfabetização Sim, eu posso desenvolve-se atualmente em 15 países e, até o dia 29 de janeiro passado, havia alfabetizado 2.082.425 pessoas. Este programa recebeu recentemente um prêmio internacional da Unesco por sua eficiência e qualidade.

A Operação Milagres que consiste na realização de cirurgias a afetados por problemas visuais, fundamentalmente cataratas, beneficiou 88.988 pacientes de 13 países, 305.930 de Venezuela, 96.855 cubanos e 24.024 mil caribenhos de 14 países da região.

Atualmente prestam sua colaboração no exterior 36.460 especialistas cubanos distribuídos em mais de 31 países, dos quais 27 mil pertencem ao setor de saúde.

Há dois anos, quando o furacão Katrina assolou a região do Caribe e do sul dos EUA, foi criado o contingente Henry Revé (nome de um voluntário norte-americano que lutou na guerra de Cuba contra a Espanha e alcançou altas patentes militares em nosso exército) composto por cerca de 2 mil médicos e pessoal paramédico para auxiliar cidadãos das regiões afetadas. Depois que o governo dos EUA recusou-se a aceitar nossa ajuda médica, os integrantes do contingente permaneceram vários meses prestando assistência no Paquistão, país que foi duramente golpeado por um terremoto e na Malásia, após o Tsunami.

Com a mesma decisão e altruísmo, da mesma forma ao que fizemos quando demos nossa ajuda militar e a vida de nossos patriotas na luta contra a dominação colonial na Argélia, no Congo, em Guiné-Bissao, na Etiópia e em Angola, aonde participaram centenas de combatentes internacionalistas cubanos; agora continuamos nos esforçando para compartilhar com os povos irmãos da região os conhecimentos e recursos de que dispomos, os quais temos brindado sem qualquer mediação de interesses econômicos ou políticos, sem intervirmos em seus assuntos internos, respeitando suas tradições e culturas, convencidos de que o futuro da América Latina, do Caribe e dos países africanos, é a integração entre os povos.


[1] Tradução livre do espanhol por Maria Helena D’Eugenio.

[2] Mambise, termo utilizado para referir-se aos soldados que no Século XIX participaram das guerras pela independência de Cuba. (N.T.)

[3] General Machado Ventura, ex-presidente de Cuba (N.T.)




Sérgio Cervantes-Representante da Delegação do Partido Comunista de Cuba.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Che Guevara nas trilhas da revolução latino-americana


por Augusto Buonicore*


"Outra vez sob meus calcanhares o lombo de Rocinante, retomo o caminho com meu escudo no braço (...) Muitos dirão que sou aventureiro, eu sou de fato, só que de um tipo diferente, daqueles que entregam a pele para demonstrar suas verdades". Che Guevara - Trecho da carta endereçada aos seus pais, antes de partir para sua última trincheira na Bolívia


Há 40 anos, no dia 9 de outubro, morria o comandante Che Guevara. Tombou no seu posto de combate pela libertação econômica, política e social da América Latina. Mas quem foi Che Guevara? Qual sua contribuição à causa socialista? Tentaremos, sem grandes pretensões, encontrar algumas dessas respostas neste e no próximo artigo.

Nas décadas que se seguiram à sua trágica morte nas selvas bolivianas, Che foi perdendo sua substância e se transformando num ícone; na verdade, um dos maiores ícones da segunda metade do século 20. Seu rosto de guerrilheiro altivo foi estampado em camisetas, cartazes e pichações por todo o mundo. Se existe um lado positivo neste fenômeno, pois mantém viva a imagem de um dos maiores heróis latino-americanos; de outro, ele acaba acobertando as idéias e o projeto político pelo qual Guevara viveu e morreu: a libertação da América Latina do julgo imperialista, a conquista do socialismo e a construção do homem e da mulher novos.

O sistema capitalista tem uma incrível capacidade de incorporar alguns elementos da cultura alternativa, até mesmo revolucionária, e transformá-los em objetos de mercado, formas sem conteúdo, neutras, inofensivas. No entanto, a personalidade forte de Che não pode ser presa, capturada, na camisa de força do ícone, da marca, do mito.
Por isso, para compreender o verdadeiro Che, é preciso ir para além do ícone, além da marca, além do mito. Estes não têm sangue correndo nas veias, não são de carne e osso, não sentem fome ou frio. Eles não têm dúvidas ou medos, são fantasmas que não convivem com as malditas contradições cotidianas. Ao contrário dos ícones, os homens e mulheres de verdade, inclusive os mais revolucionários deles, padecem de todas essas vicissitudes humanas e Che foi, acima de tudo, um homem. Um homem do seu tempo.
O homem e seu destino
Ernesto Guevara de la Serna nasceu em 14 de junho de 1928 na Argentina. Filho de família de pequenos produtores rurais de erva-mate. Cresceu usufruindo a vida de um membro das classes médias sul-americanas. Mas, desde muito cedo, Ernesto sofreu com os seus problemas de saúde. Aos dois anos apareceu-lhe a asma, que o acompanhou, como um fantasma, durante toda sua vida, inclusive nos seus derradeiros dias nas selvas bolivianas.

Ironicamente, aquele que seria considerado o mais temido comandante guerrilheiro latino-americano, foi declarado inapto para o serviço militar no seu próprio país. Guevara, então, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires.

A doença, no entanto, não enfraqueceu o seu espírito indomável; pelo contrário, ela o impulsionou a ultrapassar todos os limites. Com 23 anos comprou uma motocicleta e, ao lado de um amigo, percorreu diversos países da América Latina. Em 1953 se formou em medicina e partiu novamente em outra aventura para conhecer mais e melhor seu sofrido continente. Passou pela Bolívia e depois seguiu para a Guatemala, onde havia um governo democrático e popular, dirigido por Jacobo Arbenz. Este havia expropriado as terras da poderosa empresa norte-americana United Fruit. Nesta ocasião Guevara comprou alguns livros marxistas e passou a estudá-los com afinco.

O jovem Guevara, que apoiava o governo, se alistou para trabalhar num programa de saúde entre a população indígena, mas foi obrigado a ficar num posto médico na capital guatemalteca. Em 18 de junho de 1954 o presidente Arbens foi derrubado do poder por mercenários apoiados pelos EUA. Guevara tentou organizar um grupo de jovens para resistir à invasão. Afirmaria mais tarde: "Na Guatemala era necessário lutar, porém quase ninguém lutou".

O jovem médico argentino, fichado como "perigoso comunista", foi incluído nas temidas "listas negras" dos condenados à morte e obrigado a se refugiar no consulado argentino. O novo governo conservador, servilmente, devolveu as terras nacionalizadas à United Fruit, retirou os direitos trabalhistas dos camponeses pobres, prendeu, torturou e assassinou vários militantes de esquerda.

Guevara extraiu deste trágico acontecimento as suas primeiras - e inesquecíveis - lições sobre a luta emancipacionista na América Latina. Ele concluiu que: 1º o imperialismo norte-americano era o principal inimigo dos povos; 2º a luta revolucionária seria o único meio para se conquistar um poder democrático, popular e socialista; 3º as burguesias nacionais já haviam esgotado o seu papel na luta revolucionária antiimperialista no continente.

Guevara passou dois meses asilado no consulado argentino e, então, seguiu com outros refugiados para o México. Ali entrou em contato com elementos da oposição cubana, ligados ao movimento "26 de julho", que o convidaram para participar dos planos para derrubada do ditador Fulgêncio Batista. Escreveu ele: "Falei com Fidel uma noite toda. E ao amanhecer já era o médico de sua futura expedição. Na realidade, depois de minhas caminhadas por toda América Latina e do arremate na Guatemala, não era necessário muito para incitar-me a entrar em qualquer revolução contra um tirano". Amarrava-se assim o destino do jovem médico argentino com o da revolução cubana.

Depois de um ano de preparativos, em novembro de 1956, 82 homens partiram para Cuba a bordo do Granma. Antes de chegar ao seu objetivo a expedição foi descoberta pelas forças armadas do ditador cubano e, após os duros combates, ficou reduzida a apenas 15 homens, que se refugiaram nas Sierra Maestra. Os poucos sobreviventes uniram-se aos camponeses pobres, que lhes serviram de base de apoio para o início da ação guerrilheira. Em pouco tempo Che assumiu o comando da 2ª coluna de guerrilheiros. No dia 1º de janeiro de 1959 as suas tropas conquistaram a cidade de Santa Clara e o ditador Batista fugiu de Cuba. Três dias depois os "barbudos" de Fidel entraram triunfantes em Havana e Guevara foi nomeado governador militar daquela província.

A revolução vitoriosa foi profundamente popular, assentada nos camponeses e nos trabalhadores urbanos, e cumpriu todos os seus compromissos. O governo revolucionário expropriou os latifúndios, muito deles pertencentes a companhias norte-americanas. Quando as refinarias norte-americanas localizadas em Cuba se recusaram a refinar petróleo vindo da URSS, o governo cubano as nacionalizou. Em represália, Washington suspendeu a compra de açúcar, visando sufocar a economia da ilha. A cada pressão dos norte-americanos, o governo cubano radicalizava ainda mais as suas posições antiimperialistas. A revolução foi rapidamente mudando seu caráter, de nacional-democrática passou a ser socialista.
Em abril de 1961 ocorreu a tentativa de invasão de Cuba por mercenários, pagos e apoiados pela CIA, na Bahia dos Porcos. As tropas invasoras foram destroçadas em poucas horas. Fidel rompeu definitivamente com os norte-americanos e se afirmou marxista-leninista.

Ainda neste ano Che representou Cuba na reunião da Organização dos Estados Americanos, ocorrida no Uruguai, que foi convocada especialmente para condenar o novo regime cubano e excluí-lo da organização. Neste conclave Guevara denunciou firmemente os planos do imperialismo contra à ilha e defendeu o governo de Fidel da acusação de estar tentando exportar a revolução para a América Latina. Declarou ele: "Não podemos deixar de exportar exemplos, como querem os Estados Unidos, porque o exemplo é algo espiritual que ultrapassa as fronteiras. O que damos de garantia é que não exportaremos a revolução, damos a garantia de que não se moverá um fuzil de Cuba, que não se moverá uma só arma de Cuba, para luta em nenhum outro país da América".
Continuou: "O que não podemos assegurar é que as idéias de Cuba deixem de implantar-se em algum outro país da América. O que asseguramos a esta Conferência é que, se não se tomarem medidas urgentes de prevenção social, o exemplo cubano penetrará nos povos e, então, aquela exclamação (...) de Fidel em 26 de julho e que foi interpretada como uma agressão, se tornará uma realidade. Fidel disse que se mantiveram as atuais condições sociais 'a cordilheira dos Andes será a Sierra Maestra da América'".

Na volta Guevara passou pelo Brasil e foi condecorado pelo presidente Jânio Quadros. Poucos dias depois, sob forte pressão da direita, o presidente brasileiro renunciaria, abrindo uma crise política e militar que conduziu o país a beira de uma guerra civil.

Em outubro de 1962 aconteceu uma nova crise com os EUA. O governo norte-americano descobriu que Cuba possuía mísseis nucleares e passou a exigir que fossem imediatamente desmontados. Houve, então, uma nova ameaça de invasão e o mundo chegou bastante próximo de uma guerra nuclear. Os soviéticos recuaram e, unilateralmente, sem acordo com os cubanos, decidiram retirar os mísseis da ilha. Fidel e Guevara sentiram-se traídos pelos russos.

Em 1961 Guevara foi indicado para Ministro da Indústria. Defendeu uma industrialização mais rápida e a centralização maior da economia. Por suas posições entrou em conflito com os soviéticos que defendiam uma Cuba não-industrial que se concentrasse na produção de açúcar – numa espécie de divisão internacional do trabalho "socialista". Polemizou também em torno da predominância de incentivos materiais para o aumento da produtividade do trabalho e advogou a necessidade de uma emulação assentada fundamentalmente na ideologia socialista. Como ministro Guevara visitava as fábricas e canaviais e participava dos trabalhos manuais. Ele foi o principal incentivador do trabalho voluntário na produção, seguindo exemplo dos primeiros anos da revolução soviética. Os membros dos ministérios e das universidades, uma vez por semana, ajudavam no corte de cana ou exerciam outro tipo de trabalho, manual e produtivo. À frente deste esforço estava o ministro e presidente do Banco de Cuba, Ernesto Che Guevara.

Guevara valorizava muito o aspecto ideológico também na construção do chamado "homem novo", ou seja, de um novo humanismo socialista. Em "O que deve ser um jovem comunista", escreveu ele: "o que se coloca para todo jovem comunista é ser essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime do melhor dos humanos. Purificar o melhor do homem através do trabalho, do estudo, da prática da solidariedade contínua com o povo e com todos os povos do mundo; desenvolver o máximo de sensibilidade, até o ponto de sentir-se angustiado quando em algum canto do mundo um homem é assassinado e até o ponto de sentir-se entusiasmado quando em algum canto do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade".
Outras serras, outras trincheiras
No entanto, Che não se adaptou bem na função de Ministro de Estado e acabou pedindo para ser substituído no cargo A partir de 1964 tornou-se uma espécie de relações exteriores da revolução cubana, viajando para vários países da América Latina, África e Ásia. Em 1965, misteriosamente, desapareceu da vida pública e renunciou à todas suas responsabilidade junto ao governo e a direção do Partido Comunista Cubano. Isto era necessário tendo em vista o novo projeto revolucionário que ele iria se envolver.

Na sua carta de despedida à Fidel escreveu: "Outras serras do mundo requerem meus modestos esforços. Eu posso fazer aquilo que lhe é vedado devido à sua responsabilidade à frente de Cuba, e chegou a hora de nos separarmos (...) Declaro uma vez mais que eximo Cuba de qualquer responsabilidade, a não ser aquela que provém do seu exemplo. Se minha hora final me encontrar debaixo de outros céus, meu último pensamento será para o povo e especialmente para ti, que te digo obrigado pelos teus ensinamentos e pelo teu exemplo, ao que tentarei ser fiel até às últimas conseqüências dos meus atos; que estive sempre identificado com a política externa da nossa revolução, e continuo a estar; que onde quer que me detenha sentirei a responsabilidade de ser revolucionário cubano, e como tal atuarei. Não lamento por nada deixar nada material para minha mulher e meus filhos. Estou feliz que seja assim. Nada peço para eles, pois o Estado os proverá com o suficiente para viver e para ter instrução". Esta carta é um veemente desmentido aos boatos que correram o mundo – e foram usadas pelos inimigos da revolução cubana - sobre um possível rompimento de relações entre os dois revolucionários cubanos.

Depois de participar de uma frustada tentativa revolucionária no Congo, ele partiu secretamente para a Bolívia. Este país foi escolhido por sua localização central, que, acreditava, permitiria estender o movimento guerrilheiro por todo continente latino-americano. Em março de 1967 o pequeno grupo guerrilheiro comandado por Che foi descoberta pelos órgãos de repressão. Num primeiro momento ele obteve algumas vitórias sobre o desorganizado exército boliviano, mas logo entraram em ação os "rangers", treinados pelos norte-americanos no Panamá, com o apoio de "técnico" da CIA.

A experiência da guerrilha boliviana revelou os equívocos de muitas das concepções político-militares defendidas pelo revolucionário cubano, entre elas: a afirmação de que já existiriam as condições objetivas para eclosão de uma revolução socialista em toda América Latina, cabendo apenas a ação enérgica de um pequeno grupo de revolucionários para que se constituíssem as condições subjetivas.

No início de outubro eram apenas 17 os guerrilheiros que permaneciam vivos ao lado de Che – um número maior do que o que se alojou na Sierra Maestra em 1956 -, mas as condições eram-lhes completamente adversas. A guerrilha atuou numa zona hostil, em condições bastante diferentes das existentes na serras cubanas. Os camponeses compunham uma massa ainda atrasada e que não tinha a tradição revolucionária dos camponeses cubanos. A principal força social de esquerda na Bolívia, os mineiros, havia sido esmagada pelo governo em junho de 1967. Esta era uma prova de que as revoluções não podem ser copiadas.

Nos seus últimos dias, Guevara escreveu: "Dia de angustia que em certo momento pareceu ser o nosso último dia (...) o exército está mostrando maior efetividade de ação, e a massa camponesa não nos ajuda em nada e se converte em delatores". Estes eram claros sinais que uma tragédia estava prestes a ocorrer. A situação exigia recuo, mas já era tarde demais.

No dia 8 de outubro de 1967 o pequeno grupo foi cercado e massacrado. Che acabou sendo ferido em combate e preso. No dia seguinte foi executado ilegalmente por ordens do governo do general Barrientos, que temia que um julgamento público pudesse se transformar num palanque para as idéias revolucionárias de Che. O corpo do comandante guerrilheiro foi enterrado clandestinamente e por mais de 30 anos o local permaneceu desconhecido.

Sobre o trágico desaparecimento de Che e as esperanças que ele semeou, cantou o poeta e compositor cubano Pablo Milanés: "Não porque caístes/ Tua luz é menos alta./ Um cavalo de fogo/ Sustenta a tua escultura guerrilheira/ Entre o vento e as nuvens destas serras./ Não porque foi calado és silêncio/ E não porque te queimaram,/ Porque te dissimularam sobre a terra,/ Porque te esconderam/ Em cemitérios, bosques e pântanos/ Vão impedir que te encontremos./ Che comandante, amigo".
Guevara na yuotube:
Fidel lê a carta de despedida de Che
http://www.youtube.com/watch?v=kQoXQYBBjnc&mode=related&search=
Fidel fala da morte de Che em 1967
http://www.youtube.com/watch?v=huvrR8FCJpU
Discurso em Santa Clara em 1961 – "Por que é a natureza do imperialismo que bestializa os homens"
http://www.youtube.com/watch?v=OfMvvGw4lIs&mode=related&search=
Belo discurso na ONU em 1964
http://www.youtube.com/watch?v=DO7yxx7Y81w&mode=related&search
Belo vídeo-clipe sobre Guevara
http://www.youtube.com/watch?v=O_QXOG1rDLs&mode=related&search
Bibliografia
Aquino, Rubim (e outros) História das Sociedades Americanas, Ed. Eu e você, RJ, 1981
Bandeira, Luiz Alberto Moniz – De Martí a Fidel, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1998.
Che Guevara, Coleção Grandes Cientistas sociais (organizado por Eder Sader), Ed. Àtica, SP, 1988.
Harnecker, Marta – Fidel, a estratégia política da vitória, Ed. Expressão Popular, SP, 2000

*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicam

Espaço da vida de realização humana plena?

Texto atualizado em 25 de Setembro de 2007 -

por Rosângela Ribeiro Gil *

Debate Sindical entrevistou mais um autor da Coleção Trabalho e Emancipação, da Editora Expressão Popular. Geraldo Augusto Pinto é professor do Centro de Educação e Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (CEL/Unioeste). Graduado em Sociologia e Ciência Política (2000), mestre (2003) e doutor (2007) em Sociologia, todos pela Unicamp, Augusto Pinto pesquisa, desde 2001, a gestão do trabalho na indústria automotiva. Foi a partir de sua pesquisa sobre o Mundo do Trabalho que nasceu o livro “A organização do trabalho no Século 20”, lançado recentemente pela Expressão Popular.

Debate Sindical – O senhor lançou, recentemente, o livro "A organização do trabalho no Século 20" pela Editora Expressão Popular. É uma organização ultrapassada?

Geraldo Augusto Pinto – É uma pergunta sintomática a sua. Indagar-se sobre o que é ou não ultrapassado, é quase uma obsessão das pessoas na atualidade. Mas não poderia ser diferente, mesmo, pois os discursos e as práticas imperantes no capitalismo primam pela efemeridade em todos os espaços da vida. O fato é que as contradições entre o antiquado que se veste de novo e vice-versa impedem a condensação de conceitos e nos joga numa interminável busca por respostas, muitas vezes infausta. Vivemos numa sociedade que se furta a enfrentar o “óbvio” e se satisfaz com metáforas que dão a sensação de mudança e mesmo de evolução, quando, no fundo, permanecemos os mesmos. Prova dessa paralisia é a necessidade de estar consumindo e descartando tudo freneticamente, desde bens até conceitos, uma repetição cujo ciclo só é possível, no curto prazo, pela transfiguração do velho no novo e vice-versa, indefinidamente. Bem, a organização do trabalho, tanto técnica quanto socialmente falando, dentro dessa lógica, desse tipo de sociedade, deve permanecer nessa condição de torpor pelo eterno “novo”, mesmo porque o trabalho é um espaço da vida onde a realização humana deveria ser plena e, como no capitalismo não é o que ocorre, tanto os empregados quanto os desempregados, os patrões e os sindicalistas, os gurus da administração e os pesquisadores das universidades, terminam forçando-se a suportar uma idéia de mudança.

Debate Sindical – Fordismo, taylorismo e toyotismo são formas de organização do trabalho. Elas ainda existem no Século 21?

Geraldo Augusto Pinto – Sim, estas três formas existem porque subsistem umas nas outras. Em termos gerais, a automação e as linhas seriadas de (Henry) Ford, do início do século XX, só foram realizáveis pelo automatismo imposto ao trabalho por (Frederick Winslow) Taylor, ainda nos fins do século XIX, mediante uma compilação de experiências de racionalização de ofícios industriais já em curso, uma velha disputa entre o conhecimento tácito dos trabalhadores e o controle gerencial nas empresas, em vias de monopolização. Taiichi Ohno, criador do sistema Toyota, depois da metade do século XX, não apenas manteve o cronômetro – embora não só nos postos individuais de trabalho, mas entre as empresas clientes e fornecedoras, através do just in time – como buscou introjetar nos trabalhadores um compromisso pessoal com as gerências, que só se tornou possível pelo estabelecimento de metas que estimulam o individualismo e o assédio moral nos ambientes de trabalho. Apesar de que, paradoxalmente, as gerências preguem o espírito de equipe e o diálogo nesse tipo de gestão, chamada “flexível”. Seja como for, para sermos breves, independentemente dos métodos de gestão e da maquinaria usada, captar a “iniciativa” (uma palavra de Taylor) dos assalariados, sempre foi e ainda é um objetivo no capitalismo, onde quer que ele esteja presente. Isso é o principal a ser visto, ao menos em minha opinião.

Debate Sindical – Em rápidas palavras, como o senhor define fordismo, taylorismo e toyotismo?

Geraldo Augusto Pinto – Eu diria que o taylorismo foi o resultado de um embate entre a classe trabalhadora e os gestores do capital dentro dos ambientes de trabalho nas empresas, após as revoluções industriais dos séculos XVII, XVIII e, em especial, durante a monopolização do capital no século XIX. Um processo longo e através do qual as gerências buscaram arrancar, de forma explícita, o conhecimento tácito dos trabalhadores sobre os ofícios que desempenhavam, para, depois de decompô-los e sintetizá-los em operações-padrão, impô-los dentro de normas que permitissem um controle mais acurado da extração da mais-valia nas jornadas, além de abrir a possibilidade de contar com uma ampla massa de trabalhadores sem qualificações especiais.

O fordismo abusou destes mesmos princípios, embora a cooptação dos trabalhadores que promoveu tenha sido ainda mais forte que as bonificações por produtividade oferecidas por Taylor, uma vez que os aumentos salariais que advieram em alguns elos da indústria de massa fordista sugeriram uma suposta aproximação dos assalariados com o resultado do seu trabalho no mercado, dada a possibilidade de ampliação dos níveis de consumo.

O toyotismo, por sua vez, açambarcou todas essas etapas e ousou ainda mais, pois, além de jogar com o ideal de um trabalho polivalente e qualificado, sugeriu uma suposta participação dos assalariados nos resultados (tanto positivos, quanto negativos) das empresas no mercado. Com isso, além de buscar cooptar os assalariados como potenciais consumidores dos próprios produtos, o toyotismo tem buscado seduzi-los com a idéia de que são potenciais sócios nos negócios – uma verdadeira quimera, pois o avanço do toyotismo coincide justamente com a globalização e a oligopolização do capital. Enfim, enquanto sistemas de organização do trabalho, cada um tem as suas especificidades técnicas. Mas, o que importa ao diferenciá-los, em minha opinião, são as suas artimanhas na busca de conquistar a “iniciativa” da classe trabalhadora com os objetivos da acumulação capitalista.

Debate Sindical – Como essas formas influenciaram e influenciam a organização sindical dos trabalhadores?

Geraldo Augusto Pinto – Eu penso que o taylorismo teve como principal alvo as corporações de ofício ou o que ainda restava delas no século XIX, na forma de associações ou sindicatos. Sua introdução nas empresas permitiu a contratação de trabalhadores cujos perfis de qualificação deveriam poder ser prescritos pelas gerências, o que abalou significativamente a organização política desses trabalhadores. O fordismo avançou na mesma via e potencializou todos os efeitos perversos do taylorismo. Não foi pensando em ampliar o consumo dos seus automóveis que Ford ofereceu aumentos salariais aos operários: a idéia era conquistar os sindicatos combativos. Com o avanço da industrialização de massa e sua transnacionalização no pós-1945, houve uma ampliação do tamanho das organizações sindicais e seu poder de mobilização junto às empresas e ao Estado. Mas, com a emergência da gestão flexível após as crises da década de 1970, surgiram, ou ressurgiram, elementos como o trabalho terceirizado, o trabalho em domicílio, as contratações temporárias ou em tempo parcial, as jornadas diárias e semanais mutáveis, e tudo isso em meio a um enorme desemprego estrutural, pois os sistemas de gestão flexíveis resultam em fortes enxugamentos das empresas, em qualquer conjuntura. Se o desemprego afeta diretamente as bases de filiação sindical, o mesmo promove a terceirização e as contratações precárias, ao deslocar a representação dos trabalhadores entre distintas entidades, fragmentando mobilizações conjuntas. Isso sem contar os efeitos deletérios na consciência de classe que os programas de envolvimento gerenciais e o assédio moral nos locais de trabalho produzem sobre os trabalhadores, fatos que certamente se refletem na organização sindical.

Debate Sindical – Alguns falam que o trabalho perdeu a centralidade neste século, o senhor concorda com isso?

Geraldo Augusto Pinto – O que ocorreu, em minha opinião, foram impactos que alteraram alguns aspectos das relações entre o trabalho assalariado e o capital. A longevidade de certas qualificações técnicas, por exemplo, foi reduzida e com ela o próprio tempo de permanência nos empregos, que também foram reduzidos em número e fragmentados nos seus conteúdos, seja pelos enxugamentos de quadros, seja pelas terceirizações. Dos trabalhadores tem sido exigida uma atitude de assiduidade, alto desempenho e comprometimento com os ideais das empresas talvez nunca antes vista, e isso mina a consciência de classe, abala o senso de defesa. Se sempre houve riscos pela escolha de uma carreira profissional, agora estes riscos são muito maiores. E então, como eu sugeri no início da conversa, a saída tem sido a aceitação de metáforas anestésicas: frente ao desemprego, difundem-se soluções individuais como as idéias de “empreender”, de “aprender a aprender”, de “liderar a própria vida”, de “não criar limbo”, às quais muitos se apegam por ilusão ou desespero. Houve uma espécie de aceleramento das contradições do modo de produção capitalista e isso está expresso em todos os setores, não só nas relações de trabalho. Dizer que o trabalho perdeu a centralidade seria tão absurdo quanto dizer que os seres vivos não dependem mais de trocas com o meio ambiente. O que está ocorrendo é uma degradação de ambos, e nisso os sindicatos e governos têm de estar alertas, quando propõem, para a solução do desemprego, uma aceleração do crescimento da economia, nos mesmos moldes.


* Rosângela Ribeiro Gil é jornalista formada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos (UniSantos). Durante 20 anos trabalhou como assessora de imprensa em vários sindicatos da região (Urbanitários, Estivadores, Petroleiros, Metalúrgicos e Trabalhadores da Construção Civil). É integrante do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), entidade que desenvolve trabalhos em comunicação sindical, social e comunitária, com sede no Rio de Janeiro.
rosangelaribgil@uol.com.br

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Matando pelo bem do Brasil



Escrito por Mário Maestri

01-Out-2007


Em “Tropa de Elite”, o singular não é o filme em si, mas o estrondoso sucesso antes mesmo do seu lançamento. Como película, a obra de José Padilha repete em geral as receitas inovadoras de “Cidade de Deus”, sem o brilho do célebre longa-metragem de Fernando Meirelles: a criminalidade urbana como tema; o narrador como condutor da trama; os quadros dinâmicos em uma sucessão de clips. Uma espécie de plágio doce devido parcialmente ao fato de Bráulio Mantovani assinar os roteiros das duas películas.


Na essência, os filmes são opostos. Em “Cidade de Deus”, através da história da comunidade homônima, Fernando Meirelles relata a construção social do criminoso, para propor superação individual pela arte e pelo trabalho (fotografia) do destino do jovem favelado ao crime. Mantendo-se nos marcos da leitura da favela pela cidade, a câmara de Meirelles procura dar a voz aos protagonistas. No fundo, é leitura social otimista, ainda que ingênua.


Não há meias cores em “Tropa de Elite”, apesar do sinistro claro-escuro em que o filme se move. Os protagonistas e antagonistas são feitos de uma só peça: corruptos ou honestos às vísceras. Os únicos heróis são os policiais do BOPE, a sinistra tropa de elite carioca que, no filme, tortura, mata e morre em desesperada e incompreendida última defesa da civilização contra a barbárie, da cidade contra o morro. Ao iniciar a película, o narrador traça o quadro geral maniqueísta: “Se o Rio dependesse só da polícia tradicional, os traficantes já teriam tomado a cidade [...]”.


“Tropa de Elite” não cria muito. Limita-se a encenar sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime, corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão sem piedade. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa parcela da população que materializa, no sentimento de insegurança, o stress permanente produzido pelas incertezas e insatisfações da vida quotidiana.


O que não significa que o filme não possua soluções imaginosas, como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao apresentar a execução do horrível traficante “Baiano”, branco, pelo honestíssimo Matias, policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador dos assassinatos e homem sensível à espera do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende, à custa de permanente descida ao inferno.


O deputado quer apenas saber o “quanto” vai ganhar, ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes discutem as causas e as soluções da marginalização social mas, no frigir dos ovos, são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de criminosos. Nesse mundo em degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que entregam a vida se necessário no cumprimento de suas missões. Tudo pelo bem do Brasil.


José Padilha apenas dramatiza a apologia das execuções de populares pelas forças policiais, sob as ordens e cumplicidade das autoridades e os aplausos dos meios de comunicação. “Carandiru”, de Hector Babenco, denunciou sem maior sucesso o mega-massacre da polícia militar paulista. Invertendo o sinal, “Tropa de Elite” glamouriza mortandades como as do Complexo do Alemão, em junho deste ano.


Através da escusa da encenação do real, “Tropa de Elite” radicaliza as propostas de “Tolerância Zero” com a criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações de séries como “Lei & Ordem” sobre a legitimidade da execução e da tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.


Em fins dos anos 1980, o sucesso da subliteratura de tema esotérico de Paulo Coelho registrou a crise geral da confiança nas soluções sociais racionalistas, devido à vitória mundial da maré neoliberal. No mundo fantástico do segundo governo Lula da Silva, enquanto cresce a dilaceração dos laços sociais e nacionais, os ricos tornam-se mais ricos e as classes médias viajam ao exterior despreocupadas com a inevitável ressaca do dia seguinte do real-maravilha.


O sucesso de “Tropa de Elite” registra o conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças populares tradicionais na corrupção. É enorme vitória dos poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da insegurança nacional, distribuindo a morte entre os pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”. E, se não te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo!

Mário Maestri é professor do curso de História e do PPGH da UPF.

E-mail: maestri@via-rs.net

Massacre do Carandiru completa 15 anos e permanece impune




Terça-Feira, 02 de outubro de 2007



Adital -
Hoje (02), quando o relógio marcar 11 horas, o início de um dos episódios de maior violência e desrespeito aos direitos humanos da história do Brasil estará completando 15 anos: o massacre do Carandiru - casa de detenção da Zona Norte paulistana, no qual 111 presos foram assassinados por policiais. Serão completos também 15 anos de impunidade dos policiais envolvidos nos crimes.

Mais de 80 policiais acusados de homicídio ainda esperam pela decisão do júri e a defesa quer estender a absolvição. Ninguém foi punido pelas mortes. Pelo contrário, a cidade de São Paulo entregou, na sede da Câmara Municipal de São Paulo, no último dia 21 de setembro, o título de cidadão paulistano ao coronel aposentado da Polícia Militar Luiz Nakaharada.

Nakaharada, que é um dos denunciados pelo Ministério Público pelos crimes na casa de detenção, teria entrado atirando com uma metralhadora Beretta 9 milímetros. Ele comandou 74 homens, dos 325 policiais militares que ingressaram no pavilhão 9 da casa de detenção sem as respectivas insígnias e crachás de identificação.

Em 2 de outubro de 1992, uma briga entre dois presos -Coelho e Barba- deu início a um tumulto no pavilhão 9, que culminou com o Massacre do Carandiru. Segundo a pesquisa de Sandra Carvalho e Evanize Sydow, tendo como fonte o estudo "Massacre do Carandiru, Chega de Impunidade", elaborado pela Comissão Organizadora de Acompanhamento para os Julgamentos do Caso do Carandiru, apesar do tumulto e de sinais de fogo, não havia perigo de fuga de presos.

Os presos inclusive, quando perceberam a chegada da polícia começaram a jogar estiletes e facas para fora, demonstrando que não resistiriam à invasão e alguns colocaram faixas nas janelas, pedindo trégua. A tomada do térreo, pelos policiais, foi feita sem resistência ou reação com armas de fogo por parte dos presos, segundo o depoimento dos próprios policiais envolvidos na ação.

Mas soldados do Grupo de Ações Táticas Especiais -desrespeitando a ordem das autoridades reunidas de tentar uma última negociação - quebram o cadeado e correntes do portão do pavilhão e invadem o local sem negociação. Não foi permitida a presença de autoridades civis durante a invasão.

"Os PMs dispararam contra os presos com metralhadoras, fuzis e pistolas automáticas, visando principalmente a cabeça e o tórax. Na operação também foram usados cachorros para atacar os detentos feridos. Ao final do confronto foram encontrados 111 detentos mortos: 103 vítimas de disparos (515 tiros ao todo) e 8 mortos devido a ferimentos promovidos por objetos cortantes", constatou a pesquisa. Houve ainda 153 feridos, sendo 130 detentos e 23 policiais militares. Nenhum policial foi morto.

Cerca de 80% das vítimas do massacre esperavam por uma sentença definitiva da Justiça, ou seja, não tinham sido condenados. Só nove deles haviam recebido penas acima de 20 anos. 51 dos presos mortos tinham menos de 25 anos e 35 tinham entre 29 e 30 anos. Dos detentos recolhidos na Casa de Detenção, 66% eram condenados por assalto e 8% por homicídio.

Quando a perícia chegou ao local da violência policial, os responsáveis pelo massacre haviam modificado a cena do crime, destruindo provas valiosas que teriam possibilitado a atribuição de responsabilidade pelas mortes a indivíduos específicos. Civis foram proibidos de irem até os andares superiores do Pavilhão 9, enquanto a PM dava ordens aos detentos para que removessem os corpos dos corredores e celas a fim de empilhá-los no 1° andar.

De acordo com a análise da perícia, só 26 detentos foram mortos fora de suas celas. A maioria deles foi atingida na parte superior do corpo, em regiões letais como cabeça e coração. Dos 103 mortos por arma de fogo, 126 receberam balas na cabeça, o pescoço foi alvo de 31 balas, e as nádegas levaram 17. Os troncos tiveram 223 tiros. "Os exames de balística informam que os alvos sugerem a intenção premeditada de matar", disse a pesquisa.

E acrescentou: "a tese de que houve confronto armado entre policias militares e detentos não é sustentada pelas provas dos autos do processo. A legítima defesa alegada pela cúpula da Polícia Militar não tem fundamento nos fatos". O laudo do Instituto de Criminalística concluiu que: "Em todas as celas examinadas, as trajetórias dos projéteis disparados indicavam atirador(es) posicionado(s) na soleira das celas, apontando sua arma para os fundos ou laterais. Não se observou quaisquer vestígios que pudessem denotar disparos de armas de fogo realizados de dentro para fora das celas".



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Falecimento de Lygia Prestes

Lygia Prestes


Com pesar, comunicamos o falecimento de Lygia Prestes, valorosa combatente comunista.
Lygia encerra aos 94 anos uma longa trajetória de luta ao lado do de nosso povo. Jovem, teve destacado papel, junto de sua mãe, Leocádia Prestes, nas campanhas internacionais pela libertação de Luiz Carlos Prestes e dos presos políticos da ditadura Vargas no Brasil nas décadas de 1930-1940 e - enfrentando a Gestapo, a polícia política do Estado alemão nazista - pela libertação de Olga Benario e de Anita, filha de Olga e Prestes, nascida em uma das prisões nazistas.
No início de 1938, conseguiram a libertação de Anita e uma vaga promessa da Gestapo de que pouco depois Olga seria libertada. Como sabemos, Olga foi enviada a um campo de concentração e assassinada pelos nazistas em abril de 1942.
Tanto no Brasil, como no exílio, no México e na União Soviética, teve ativa militância.
Nos últimos anos tivemos a honra e a satisfação de conhecê-la e com ela conviver. Somos testemunhas de sua firmeza de princípios, de sua perspicaz consciência política, de seu entusiasmo pela história da luta pela liberdade e pelo socialismo, da qual foi histórica artífice, e de seu vivo interesse pelas questões políticas candentes na luta contra o fascismo e de resistência à barbárie imperialista. Nós, do CeCAC, prestamos a ela nossa respeitosa homenagem. Lygia Prestes, presente!

Marco Antonio e Vick,
em nome de todos os companheiros do CeCAC

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Brasil - ‘Veja’ mira Guevara e dá tiro no pé



01.10.07 - BRASIL

Celso Lungaretti *

Adital -
Os 40 anos da morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, a se completarem no próximo dia 9, dão ensejo a uma nova temporada de caça ao mito Che Guevara por parte da imprensa reacionária, começando por Veja, que acaba de produzir uma das matérias-de-capa mais tendenciosas de sua trajetória.

"Veja conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas", afirma a revista, numa admissão involuntária de que não praticou jornalismo, mas, tão-somente, produziu uma peça de propaganda anticomunista, mais apropriada para os tempos da guerra fria do que para a época atual, quando já se pode olhar de forma desapaixonada e analítica para os acontecimentos dos anos de chumbo.

Não houve, em momento algum, a intenção de se fazer justiça ao homem e dimensionar o mito. A avaliação negativa precedeu e orientou a garimpagem dos elementos comprobatórios. Tratou-se apenas de coletar, em todo o planeta, quaisquer informações, boatos, deturpações, afirmações invejosas, difamações, calúnias e frases soltas que pudessem ser utilizadas na montagem de uma furibunda catalinária contra o personagem histórico Ernesto Guevara, com o propósito assumido de se demonstrar que o mito Che Guevara seria uma farsa.

Assim, por exemplo, a Veja faz um verdadeiro contorcionismo retórico para tentar tornar crível que, ao ser preso, o comandante guerrilheiro teria dito: "Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto". Ora, uma frase tão discrepante de tudo que se conhece sobre a personalidade de Guevara jamais poderá ser levada a sério tendo como única fonte a palavra de quem posou como seu captor, um capitão do Exército boliviano (na verdade, eram oficiais estadunidenses que comandavam a caçada).

É tão inverossímil e pouco confiável quanto a "sei quando perco" atribuída a Carlos Lamarca, também capturado com vida e abatido como um animal pelas forças repressivas.

E são simplesmente risíveis as lágrimas de crocodilo que a Veja derrama sobre o túmulo dos "49 jovens inexperientes recrutas que faziam o serviço militar obrigatório na Bolívia" e morreram perseguindo os guerrilheiros. Além de combater um inimigo que tinha esmagadora superioridade de forças e incluía combatentes de elite da maior potência militar do planeta, Guevara ainda deveria ordenar a seus comandados que fizessem uma cuidadosa triagem dos alvos, só disparando contra oficiais...

É o mesmo raciocínio tortuoso que a extrema-direita utiliza para tentar fazer crer que a morte de seus dois únicos e involuntários mártires (Mário Kozel Filho e Alberto Mendes Jr.) tenha tanto peso quanto a de quatro centenas de idealistas que arriscaram conscientemente a vida e a liberdade na resistência à tirania, confrontando a ditadura mais brutal que o Brasil conheceu.

Típica também - e não por acaso -- da retórica das viúvas da ditadura é esta afirmação da Veja sobre o legado de Guevara: "No rastro de suas concepções de revolução pela revolução, a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada e, pior, não totalmente assentada. O mito em torno de Che constitui-se numa muralha que impediu até agora a correta observação de alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas".

Assim, a onda revolucionária que se avolumou na América Latina durante as décadas de 1960 e 1970 teria como causa "as concepções de revolução pela revolução" de Guevara e não a miséria, a degradação e o despotismo a que eram submetidos seus povos. E a responsabilidade pelos banhos de sangue com que as várias ditaduras sufocaram anseios de liberdade e justiça social caberia às vítimas, não aos carrascos.

É o que a propaganda enganosa dos sites fascistas martela dia e noite, tentando desmentir o veredicto definitivo da História sobre os Médicis e Pinochets que protagonizaram "alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas".

Não existe muralha nenhuma impedindo a correta observação desses episódios, tanto que ela já foi feita pelos historiadores mais conceituados e por braços do Estado brasileiro como as comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos. Há, isto sim, a relutância dos verdugos, de seus cúmplices e de seus seguidores, em aceitarem a verdade histórica indiscutível.

E a matéria-de-capa da Veja não passa de mais um exercício do jus esperneandi a que se entregam os que têm esqueletos no armário e os que anseiam por uma recaída totalitária, com os eventos desastrosos e os banhos de sangue correspondentes.


* Jornalista, escritor e ex-preso político, tendo conhecido pessoalmente cerca de 20 mortos e desaparecidos políticos citados no livro Direito à Memória e à Verdade.


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Clube de Cultura - Teologia da Libertação

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Por que Zurdo?

O nome do blog foi inspirado no filme Zurdo de Carlos Salcés, uma película mexicana extraordinária.


Zurdo em espanhol que dizer: esquerda, mão esquerda.
E este blog significa uma postura alternativa as oficiais, as institucionais. Aqui postaremos diversos assuntos como política, cultura, história, filosofia, humor... relacionadas a realidades sem tergiversações como é costume na mídia tradicional.
Teremos uma postura radical diante dos fatos procurando estimular o pensamento crítico. Além da opinião, elabora-se a realidade desvendando os verdadeiros interesses que estão em disputa na sociedade.

Vos abraço com todo o fervor revolucionário

Raoul José Pinto



ZZ - ESTUDAR SEMPRE

  • A Condição Pós-Moderna - DAVID HARVEY
  • A Condição Pós-Moderna - Jean-François Lyotard
  • A era do capital - HOBSBAWM, E. J
  • Antonio Gramsci – vida e obra de um comunista revolucionário
  • Apuntes Criticos A La Economia Politica - Ernesto Che Guevara
  • As armas de ontem, por Max Marambio,
  • BOLÍVIA jakaskiwa - Mariléia M. Leal Caruso e Raimundo C. Caruso
  • Cultura de Consumo e Pós-Modernismo - Mike Featherstone
  • Dissidentes ou mercenários? Objetivo: liquidar a Revolução Cubana - Hernando Calvo Ospina e Katlijn Declercq
  • Ensaios sobre consciência e emancipação - Mauro Iasi
  • Esquerdas e Esquerdismo - Da Primeira Internacional a Porto Alegre - Octavio Rodríguez Araujo
  • Fenomenologia do Espírito. Autor:. Georg Wilhelm Friedrich Hegel
  • Fidel Castro: biografia a duas vozes - Ignacio Ramonet
  • Haciendo posible lo imposible — La Izquierda en el umbral del siglo XXI - Marta Harnecker
  • Hegemonias e Emancipações no século XXI - Emir Sader Ana Esther Ceceña Jaime Caycedo Jaime Estay Berenice Ramírez Armando Bartra Raúl Ornelas José María Gómez Edgardo Lande
  • HISTÓRIA COMO HISTÓRIA DA LIBERDADE - Benedetto Croce
  • Individualismo e Cultura - Gilberto Velho
  • Lênin e a Revolução, por Jean Salem
  • O Anti-Édipo — Capitalismo e Esquizofrenia Gilles Deleuze Félix Guattari
  • O Demônio da Teoria: Literatura e Senso Comum - Antoine Compagnon
  • O Marxismo de Che e o Socialismo no Século XXI - Carlos Tablada
  • O MST e a Constituição. Um sujeito histórico na luta pela reforma agrária no Brasil - Delze dos Santos Laureano
  • Os 10 Dias Que Abalaram o Mundo - JOHN REED
  • Para Ler O Pato Donald - Ariel Dorfman - Armand Mattelart.
  • Pós-Modernismo - A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio - Frederic Jameson
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira
  • Simulacro e Poder - uma análise da mídia, de Marilena Chauí (Editora Perseu Abramo, 142 páginas)
  • Soberania e autodeterminação – a luta na ONU. Discursos históricos - Che, Allende, Arafat e Chávez
  • Um homem, um povo - Marta Harnecker

zz - Estudar Sempre/CLÁSSICOS DA HISTÓRIA, FILOSOFIA E ECONOMIA POLÍTICA

  • A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo - Lênin
  • A História me absolverá - Fidel Castro Ruz
  • A ideologia alemã - Karl Marx e Friedrich Engels
  • A República 'Comunista' Cristã dos Guaranis (1610-1768) - Clóvis Lugon
  • A Revolução antes da Revolução. As guerras camponesas na Alemanha. Revolução e contra-revolução na Alemanha - Friedrich Engels
  • A Revolução antes da Revolução. As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França - Karl Marx
  • A Revolução Burguesa no Brasil - Florestan Fernandes
  • A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky - Lênin
  • A sagrada família - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Antígona, de Sófocles
  • As tarefas revolucionárias da juventude - Lenin, Fidel e Frei Betto
  • As três fontes - V. I. Lenin
  • CASA-GRANDE & senzala - Gilberto Freyre
  • Crítica Eurocomunismo - Ernest Mandel
  • Dialética do Concreto - KOSIK, Karel
  • Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico - Friedrich Engels
  • Do sonho às coisas - José Carlos Mariátegui
  • Ensaios Sobre a Revolução Chilena - Manuel Castells, Ruy Mauro Marini e/ou Carlos altamiro
  • Estratégia Operária e Neocapitalismo - André Gorz
  • Eurocomunismo e Estado - Santiago Carrillo
  • Fenomenologia da Percepção - MERLEAU-PONTY, Maurice
  • História do socialismo e das lutas sociais - Max Beer
  • Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels
  • MANUAL DE ESTRATÉGIA SUBVERSIVA - Vo Nguyen Giap
  • MANUAL DE MARXISMO-LENINISMO - OTTO KUUSINEN
  • Manuscritos econômico filosóficos - MARX, Karl
  • Mensagem do Comitê Central à Liga dosComunistas - Karl Marx e Friedrich Engels
  • Minima Moralia - Theodor Wiesengrund Adorno
  • O Ano I da Revolução Russa - Victor Serge
  • O Caminho do Poder - Karl Kautsky
  • O Marxismo e o Estado - Norberto Bobbio e outros
  • O Que Todo Revolucionário Deve Saber Sobre a Repressão - Victo Serge
  • Orestéia, de Ésquilo
  • Os irredutíveis - Daniel Bensaïd
  • Que Fazer? - Lênin
  • Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda
  • Reforma ou Revolução - Rosa Luxemburgo
  • Revolução Mexicana - antecedentes, desenvolvimento, conseqüências - Rodolfo Bórquez Bustos, Rafael Alarcón Medina, Marco Antonio Basilio Loza
  • Revolução Russa - L. Trotsky
  • Sete ensaios de interpretação da realidade peruana - José Carlos Mariátegui/ Editora Expressão Popular
  • Sobre a Ditadura do Proletariado - Étienne Balibar
  • Sobre a evolução do conceito de campesinato - Eduardo Sevilla Guzmán e Manuel González de Molina

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA

  • 1984 - George Orwell
  • A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
  • A Espera dos Bárbaros - J.M. Coetzee
  • A hora da estrela - Clarice Lispector
  • A Leste do Éden - John Steinbeck,
  • A Mãe, MÁXIMO GORKI
  • A Peste - Albert Camus
  • A Revolução do Bichos - George Orwell
  • Admirável Mundo Novo - ALDOUS HUXLEY
  • Ainda é Tempo de Viver - Roger Garaud
  • Aleph - Jorge Luis Borges
  • As cartas do Pe. Antônio Veira
  • As Minhas Universidades, MÁXIMO GORKI
  • Assim foi temperado o aço - Nikolai Ostrovski
  • Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez
  • Contos - Jack London
  • Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • Desonra, de John Maxwell Coetzee
  • Desça Moisés ( WILLIAM FAULKNER)
  • Don Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes
  • Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado
  • Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
  • Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago
  • Fausto - JOHANN WOLFGANG GOETHE
  • Ficções - Jorge Luis Borges
  • Guerra e Paz - LEON TOLSTOI
  • Incidente em Antares, de Érico Veríssimo
  • Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
  • O Alienista - Machado de Assis
  • O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
  • O Contrato de Casamento, de Honoré de Balzac
  • O Estrangeiro - Albert Camus
  • O homem revoltado - Albert Camus
  • O jogo da Amarelinha – Júlio Cortazar
  • O livro de Areia – Jorge Luis Borges
  • O mercador de Veneza, de William Shakespeare
  • O mito de Sísifo, de Albert Camus
  • O Nome da Rosa - Umberto Eco
  • O Processo - Franz Kafka
  • O Príncipe de Nicolau Maquiavel
  • O Senhor das Moscas, WILLIAM GOLDING
  • O Som e a Fúria (WILLIAM FAULKNER)
  • O ULTIMO LEITOR - PIGLIA, RICARDO
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Os Invencidos, WILLIAM FAULKNER
  • Os Miseravéis - Victor Hugo
  • Os Prêmios – Júlio Cortazar
  • OS TRABALHADORES DO MAR - Vitor Hugo
  • Por Quem os Sinos Dobram - ERNEST HEMINGWAY
  • São Bernardo - Graciliano Ramos
  • Vidas secas - Graciliano Ramos
  • VINHAS DA IRA, (JOHN STEINBECK)

ZZ - Estudar Sempre/LITERATURA GUERRILHEIRA

  • A Guerra de Guerrilhas - Comandante Che Guevara
  • A montanha é algo mais que uma imensa estepe verde - Omar Cabezas
  • Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana - Florestan Fernandes
  • EZLN – Passos de uma rebeldia - Emilio Gennari
  • Imagens da revolução – documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971; Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá
  • O Diário do Che na Bolívia
  • PODER E CONTRAPODER NA AMÉRICA LATINA Autor: FLORESTAN FERNANDES
  • Rebelde – testemunho de um combatente - Fernando Vecino Alegret

ZZ- Estudar Sempre /GEOGRAFIA EM MOVIMENTO

  • Abordagens e concepções de território - Marcos Aurélio Saquet
  • Campesinato e territórios em disputa - Eliane Tomiasi Paulino, João Edmilson Fabrini (organizadores)
  • Cidade e Campo - relações e contradições entre urbano e rural - Maria Encarnação Beltrão Sposito e Arthur Magon Whitacker (orgs)
  • Cidades Médias - produção do espaço urbano e regional - Eliseu Savério Sposito, M. Encarnação Beltrão Sposito, Oscar Sobarzo (orgs)
  • Cidades Médias: espaços em transição - Maria Encarnação Beltrão Spósito (org.)
  • Geografia Agrária - teoria e poder - Bernardo Mançano Fernandes, Marta Inez Medeiros Marques, Júlio César Suzuki (orgs.)
  • Geomorfologia - aplicações e metodologias - João Osvaldo Rodrigues Nunes e Paulo César Rocha
  • Indústria, ordenamento do território e transportes - a contribuição de André Fischer. Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski e Eliseu Savério Spósito
  • Questões territoriais na América Latina - Amalia Inés Geraiges de Lemos, Mónica Arroyo e María Laura Silveira